Sim, tens razão, porquê tão sério?
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De todos os filmes de super-heróis fabricados em Hollywood que já vi – sejam assim-assim ou péssimos – parece existir uma regra: qualquer actor pode fazer de bom, mas nem todos podem fazer de maus.
Um herói limita-se a ser um herói e a comportar-se mais ou menos de acordo com o que esperamos dele. Pode até ter alguns dilemas existenciais, mas nada de demasiado sério, o argumento limita-se a aplicar uns estereótipos só para o identificarmos como membro da espécie humana apesar dos seus super-poderes.
A malta agora parece gostar de filmes de super-heróis que tenham um perfume mais «realista», que «reflictam preocupações contemporâneas», o 11 de Setembro, a ameaça terrorista, o caos, enfim, fantochada com um toque de seriedade – mas atenção, nada que ponha um gajo realmente a pensar. Seria ridícula uma história em que o menino-rico Bruce Wayne decidisse partilhar a sua fabulosa fortuna com os pobres e injustiçados de Gotham City em vez de estoirar o dinheiro numa série de gadgets de fazer inveja ao 007. Realismo, mas nada de exageros.


Fazer de mau nestes filmes é mais complicado, por isso há sempre o cuidado de ir buscar bons actores. No filme mais recente do Super-Homem – um pastelão que parecia ser todo ele feito de kryptonite – era o Kevin Spacey a fazer de Lex Luther. Nos filmes mais antigos, um bocadinho melhores, era o Gene Hackman.
Até em filmes mais merdosos que nada têm a ver com super-heróis a regra se aplica: lembro-me de um filme qualquer com o Steven Seagal onde o mau era interpretado por outro excelente actor, Tommy Lee Jones. Sempre que virem um filme de merda na televisão que viva à base deste conflito herói/vilão, bom/mau, prestem atenção ao tipo que faz de mau: se ele falhar, o filme falha também.
A razão para isto é simples: o vilão não deve ser apenas mau, deve ser carismático na sua maldade, de tal forma que a sua presença no ecrã nos atraia, em vez de repelir; o vilão deve ser tão honesto a expor a sua maldade como o herói a expor a sua bondade e ao mesmo tempo deve ser mais credível e convincente porque não representa valores com que nos identifiquemos. Por último, o vilão deve dar espectáculo, mesmo quando é um agente da morte, do caos e da destruição. Não admira que Tim Burton tenha ido buscar Jack Nicholson para fazer de Joker: dar espectáculo é com ele.
Este jogo entre personagens é um conflito limpo, sem subtilezas ou dissimulações, quase como um brincadeira de crianças: o tipo de capa representa isto, o tipo grotesco representa aquilo, não há confusão possível entre os papéis que cada um assume e ninguém espera que o mau se preocupe em parecer bom ou tenha qualquer coisa semelhante a uma consciência política.

É preciso ter isto em conta quando se compara o sobrevalorizado The Dark Knight aos dois filmes do Batman realizados pelo Tim Burton: no caso do segundo, então, não há comparação possível. A sério. Não me lixem. O Batman Returns é mesmo bom. O The Dark Knight arma-se em bom.
Tim Burton não só nos mostrava nesse filme pessoas com dilemas reais, profundos – a sexualidade reprimida de Selina Kyle, a Mulher-Gata (fabulosa Michelle Pfeiffer), a solidão e o abandono de Oswald Cobblepot, o Pinguim – como até nos apresentava um vilão a sério, o «benfeitor» e «simpático» Max Shreck. E não havia qualquer tipo de inocência na interacção entre as personagens: «O que é que tu queres?» – Perguntava o Batman. «Ah! A abordagem directa!» – Respondia o Pinguim com sarcasmo. «Eu admiro isso num homem que usa uma máscara.»
Fez um filme divertido, humano, circense, espectacular, fantasista, não um filme de duas horas e meia chato e pretensamente sério, a querer ser outra coisa que não se sabe muito bem o quê: não é peixe nem carne, nem oito nem oitenta, nem adulto nem infantil. Nos primeiros cinco minutos até julguei que estava a ver um filme do Michael Mann. (Eu até gosto dos filmes do Michael Mann, sobretudo quando são realizados por ele).
As cenas de acção são óptimas, os efeitos especiais em The Dark Knight excelentes? Claro que sim. Mas a grandiosidade dessas cenas depende muito da quantidade de dinheiro que há para gastar. Neste tiveram muito – pelo menos o suficiente para obrigar um camião pesado a fazer o pino no meio da rua. Imaginação, criatividade, capacidade de nos surpreender? Mil vezes o Batman do Tim Burton.

O «hype» gerado à volta de The Dark Knight tem a ver também com a interpretação do falecido Heath Ledger como Joker. Esta actuação acaba por ser o maior triunfo desta fórmula vilão/bom actor: sem ele, acreditem, o filme pura e simplesmente não existia.
O Joker de Ledger deve muito ao Hannibal Lecter de O Silêncio dos Inocentes e ao Alex de A Laranja Mecânica, sobretudo nas sequências em que está enjaulado, mas a melhor cena é toda dele: quando se escapa num carro da polícia, coloca a cabeça de fora da janela e fecha os olhos como um adolescente. Jack Nicholson ter-se-ia rido histericamente; Ledger mostra-nos um Joker comovido. Dez belíssimos segundos que valem quase o filme todo. A cena também me tocou por outras razões: eis um jovem e promissor actor que já não sentirá mais o vento no rosto e nos cabelos. E enquanto todos os outros, sobretudo Christian Bale, parecem carregar às costas o peso excessivo do filme, Heath Ledger permanece livre como um passarinho: «Why so serious?»
A minha opinião: não gastem o vosso dinheiro com esta «obra-prima do cinema», o «melhor filme do ano», blá, blá, blá. Ao menos esperem que ele chegue ao clube de vídeo.
























Curioso como a tua review chega praticamente às mesmas conclusões que a minha: nem demasiado juvenil nem suficientemente adulto.
E ambos elegemos a mesma cena como a melhor do filme.
Concordo com praticamente tudo o que dizes, embora acrescentasse que é uma pena que não haja um herói mais carismático, mas complexo.
Batman podia ser esse herói. Numa das cenas do Dark Knight Returns, de Frank Miller, o Batman empunha uma arma e prepara-se para matar o Joker. Não consegue e o Joker acaba por partir o seu próprio pescoço. No fim, o Batman cospe no cadáver.
Este Batman eu gostaria de ter visto. Bom, sim, mas com uma enorme dificuldade em sê-lo.
Ainda não vi estes novos do Batman não posso dizer nada sobre o assunto mas sei que mais tarde ou mais cedo apanho-os na TV sem grande esforço e acabo por ver.
Antes de mais uma correcção: É Hannibal Lecter não Lector (ainda vi ontem o Filme Dragão Vermelho no AXN, se bem que neste o Dr. Lecter está só a enfeitar o filme…)
Também o pior filme que vi até a data foi o Batman e Robin (1997, salvo erro), passei no clube de vídeo e vejo um filme do gajo morcego com uma capa muita gira – pensei para os meus botões: vamos lá ver isto…
Procuro os actores e dou com o George Clooney, Uma Turman – hum… estranho nunca tinha ouvido falar nisto, parece giro, epá espera aí! Arnold Shwarzenegger! Isto promete…
Levo a cassete VHS para casa enfio no leitor. Conclusão: Valente merda de filme – fui chulado
– nem acredito como aqueles gajos se foram meter a fazer um filme destes. Para não referir que o Robin dá um ar paneleiro ao Batman, mas isso toda a gente sabe.
Outros heróis, vejamos, o Cristopher Reeve como gajo super está porreiro, este sim era igualzinho ao personagem da BD – claro o Gene Hackman ajudava como vilão. Se bem que há um filme que não é mais que um anuncio da Marlboro…
Outra hype foi o gajo aranha, vi os dois primeiros no cinema, o terceiro até evitei. Conclusão (1.º filme): Os actores não são maus, representam bem, mas não vejo em nenhum deles qualquer semelhança com a BD. Filme 2: Até que enfim que vejo um gajo que se parece com alguém da BD (Alfred Molina como Gajo Polvo Mecânico) – contudo acaba por ser muito humano e lixa a piada do filme (que já é pouca) quase no final.
O único que posso dizer que gostei e posso tirar o chapéu é o Hulk do Ang Lee (2003) – os actores foram escolhidos a dedo, todos eles apresentam uma semelhança com as personagens da BD. O Eric Bana é um Bruce Banner e o mesmo se aplica aos restantes. O gajo verde parece bem real (efeitos 3D que até não são nada maus)e a história é diferente daquilo que se podia estar a espera, gostei.
Contudo foi um fracasso de vendas, mau era, quando o fui ver ao cinema, metade das (já poucas) pessoas na sala dormiram durante o filme, a outra metade não percebeu o filme. Claro a Marvel para sacar mais uns trocos teve de refazer o filme este ano – nem vejo o filme porque pelo que vi nos trailers não me diz nada.
Sabes o que era bom fazer-se? Um filme do Viagraman
PS.: Todos os comentários são moderados? WTF?
Outra.
“mas a melhor cena é toda dele: quando se escapa num carro da polícia, coloca a cabeça de fora da janela e fecha os olhos como um adolescente. Jack Nicholson ter-se-ia rido histericamente; Ledger mostra-nos um Joker comovido. Dez belíssimos segundos que valem quase o filme todo. A cena também me tocou por outras razões: eis um jovem e promissor actor que já não sentirá mais o vento no rosto e nos cabelos.”
Fizeste.me recordar a conversa que tive no carro, de volta a casa, depois de deixar uma certa pessoa com os braços negros de tanto apertar nas cenas.lâmpada “wow. viste?”. Mas nesse sentido julgo que é precisamente como qualquer um dos anteriores Batman sempre foram [com respeito aos teus preferidos]: mais que uma mera historieta, uma montra de vilões.
E, volto a dizê.lo, este Joker, com ou sem interesses acrescidos que nos possa despertar, fica para a história.
Boa semana, Marco.
Dos filmes de SuperQQCoisa que são adaptações das BD americanas a melhor adaptação (e devo ter sido o único a gostar) o Hulk.
O resto gosto mas não há paciência para a BD em Hollywood.
E depois há outra coisa, o bilhete de cinema é caro, e como se não bastasse ainda tenho que levar com tipos a comer e a beber, não gosto deste tipo de cinema moderno.
Com o mesmo dinheiro vou a loja de vídeo e alugo 3 filmes.
Mesmo assim acho que vou dizer um adeus ao Heath Ledger na sala de cinema.
cocola pipocas Heath Ledger… gaita, não dá.
Miguel, não sei o que se passou. Cheguei aqui e tinha o teu comentário moderado.Desculpa lá. E obrigado pela correcção.
Não faz mal
Toda a argumentação corria bem até te armares em “xico-esperto” e recomendares a ver o filme só quando este chegar ao clube de video.
Ó Marco, tu próprio o foste ver e pela leitura parece que valeu a pena ver a interpretação do Joker e que até te inspirou a publicar este artigo. Deixa malta ter direito a ver o filme no cinema.
Se tiverem a ideia de ir ao cinema apenas uma vez por ano, então este é o filme que não devem perder!
Este filme é de inteligência contra inteligência, imoral vs justiça, perturbador (só o tema do Joker quando surge no filme deixa-nos incomodados porque passamos a acreditar na ameaça), a prova de que o bem faz-se por linhas tortas e que o homem é um ser que vive de motivações e que precisa delas.
O Joker de Heath Ledger, é memorável, um força do mal (que não vê maldade no que faz) sem regras. Está sim ao nível de tudo o que já disseram dele e a interpretação é digna de óscar sim. Se Hannib0al Lecter valeu um Óscar a Anthony Hopkins e este quase nem se mexia, o que dizer da interpretação de Heath Ledger ao mesmo nível de intensidade e percorre movimentadamente pelo filme.
Se gostaram de Batman Begins… vão gostar MUITO do The Dark Knight, que é superlativo ao Begins em todos os aspectos.
É uma obra-prima dos filmes baseados em super-heróis e é um portentoso filme (não uma obra-prima) que pode ser visto e lido sem essa componente (BD).
Pode ser comparado a Heat e Colateral de Michael Mann, à conclusões que se podem achar em o Padrinho 2 e 3, etc… é um filme inteligente mas que acima de tudo não se esquece de ser um filme de acção de encher o olho (não recorre a CGI e efeitos especiais malucos -é à moda antiga com duplos e bem filmado) e iiso tudo num filme que pretende ser um blockbuster de verão… é obra. Quando saí da sala não saí traido por nada do que vi, saí sim foi muito impressionado pela lição de grande cinema que é este filme: Blockbuster, acção, fantasia, crime, vilões a sério, dilemas muito humanos, etc… tudo tratado milimétricamente com muita inteligência. Se o puderem ver já façam-no mas não o façam por pena e pela curiosidade de ser a última (completa) actuação de Heath Ledger no cinema.
Sobre os filmes de Burton… considero o “Batman” de 1989 como o pai dos filmes de super-heróis (o Returns é muito bom sim) e o Superman de 1978 de Richard Donner como o avô. O resto são filhinhos…
Em breve darei a minha apreciação sobre o filme, mas podem saber mais sobre este novo Batman consultando aqui:
http://armpauloferreira.blogspot.com/search?q=batman
Pela leitura, já vi o filme. Fazer de bom é tão fácil como fazer de mau. Agora, um palito de Guimarães fazer de BOA, é tão difícil como a Soraia fazer de MÁ!
Isso é retórica. Cada um faz o que quer e pensa pela sua própria cabeça, não é por eu dizer isto ou aquilo que vão deixar de ir se quiserem.
Porra. E tu a dar-lhe.
Portanto a garantia para uma boa representação é o actor mexer-se. Um Óscar para a Vanessa Fernandes, já!
Os… Padrinhos? Chega. Vou trabalhar.
Oooooora lá vamos nós. O Nolan disse que queria fazer um filme com o ritmo do “Heat” e daí para a frente os bloggers começaram a papaguear esta ideia e depois outros bloggers começaram a papaguear os primeiros até que toda a gente fica convencida que o Batman é o Heat dos filmes de BD.
Depois o idiota do Kevin Smith diz que o TDK é o Godfather II dos filmes de BD e pronto, lá vem toda a gente repetir o que ouviu por terceiros ouvidos.
Comparar o TDK com o Godfather é uma heresia cinéfila do mais alto nível. Por favor, parem de o fazer!