Os fãs de concursos vão adorar
Marcadores: Cinema, Danny Boyle, Índia
Relacionado (ou não): O que eu invento só para mostrar o rabo da Scarlett (2)
Vi finalmente o Slumdog Millionaire.
Era para ser o Milk, mas este já não estava em exibição e acabámos por escolher o grande vencedor dos óscares. Duas horas depois, abandonava a sala sem perceber que raio de critérios tem a academia de Hollywood: no ano passado deu a estatueta a uma obra-prima como Este País não é para Velhos; este ano resolve premiar uma fantochada.
Uma possível explicação para Slumdog Millionaire ter recebido tantos prémios deverá ter a ver com o facto de o filme usar o concurso Quem Quer Ser Milionário como forma de denunciar a pobreza em que vivem milhões de indianos em gigantescos bairros de lata.
Slumdog Millionaire parte também de uma ideia original, a de atribuir ao «rafeiro» Jamal o conhecimento das respostas do concurso não por sorte, cultura geral ou aldrabice, mas por estarem associadas a acontecimentos importantes e traumáticos da sua vida.
Claro que as histórias desencantadas para justificar as perguntas – excepto a primeira, a do autógrafo, muito engraçada e bem conseguida – parecem tão plausíveis de acontecer a um único indivíduo como eu jantar num restaurante indiano. Tão plausível como eu pensar «Que delícia é esta cheia de caril e picante?» Tão plausível como eu dizer «Quero repetir!» - pronto, deixo a questão da plausibilidade aos que acham que Slumdog Millionaire denuncia realmente as condições de vida de milhões de indianos.

O filme alimenta-se da alienação, tal como o concurso – é isto que me irrita e faz com que a sua suposta qualidade se transforme em merda de camelo. Filme e concurso comem do mesmo prato. Escapar à miséria e à injustiça não é um desígnio colectivo, mas estritamente individual; não é uma questão social, é uma questão de sorte; e assim se vê no final do concurso (e do filme) uma multidão de pobrezinhos eufóricos e alienados aplaudindo a sorte que permitiu a um dos seus tornar-se milionário e libertar-se virando as costas à miséria na companhia da mulher da sua vida. Foi o destino que o fez ganhar, conclui o filme alegremente, como se a consciência social pudesse ser alimentada com donuts e páginas da Corin Tellado.
Portanto para mim este cenário de miséria e injustiça em que vive e cresce o protagonista Jamal é tão decorativo como o cenário de estúdio no qual ele vai respondendo às perguntas e desvendando a sua vida porque, à medida que a narrativa se desenvolve, percebemos logo que o que mais interessa é dirigir o nosso olhar para os elementos alienatórios da história, ou seja, começamos o filme a olhar para a miséria em que vive Jamal mas acabamos de olhos postos na televisão, como convém.
Também desconfio das múltiplas sequências de perseguição que ocorrem nesses cenários de miséria. Talvez a intenção do realizador Danny Boyle tenha sido estabelecer um contraste com os filmes americanos em que são gastos milhões de dólares numa única cena de perseguição; mas para mim é porque não lhe interessa fixar o nosso olhar ali durante muito tempo; as ilusões de riqueza que promete a televisão são muito mais entusiasmantes.
As cenas com os polícias… São demasiado palermas. Jamal começa por ser torturado para revelar por que razão um «rafeiro» dos bairros de lata conhece as perguntas do concurso; acaba por contar a história da sua vida ao torturador, o que nos permite perceber que foram as suas vivências que lhe transmitiram as respostas certas; por fim, o mesmo polícia que lhe desferiu choques eléctricos no corpo é o mesmo que o liberta, convencido da sua inocência e até comovido com a história do rapaz. Um volte-face digno de um concurso, isto é, ao sabor do acaso, das conveniências do argumento e sem qualquer densidade psicológica.
E há uma cena do filme que reforça a minha ideia de chico-espertismo. Jamal, na pureza e doce ingenuidade que comoveu o seu carrasco, não vai ao concurso para ganhar dinheiro, como seria de esperar, mas para reencontrar o amor da sua vida – «Eu sabia que estarias a ver», diz a dada altura à rapariga dos seus sonhos, Latika. Em crianças, Jamal e o irmão, encantadores pequenos patifes, cúmplices na pobreza, viam-se a si próprios como «mosqueteiros». Quando conhecem Latika, o miúdo Jamal não tem qualquer dúvida de que é ela o terceiro mosqueteiro que ambos procuravam.
Quando na última (e tão conveniente!) pergunta do concurso se pergunta a Jamal pelo nome do terceiro mosqueteiro, ainda pensei que o rapaz, fiel aos seus propósitos, respondesse «Latika»: afinal ele acerta nas perguntas porque estas reflectem as grandes verdades da sua vida, é o próprio a dizê-lo no interrogatório.
Se Jamal tivesse respondido «Latika» – mesmo sabendo que a resposta estava errada e perderia o dinheiro – talvez até visse o filme com outros olhos e não o achasse tão artificial. Mas claro que a coerência poética de Jamal é sacrificada porque o público precisa de um vencedor para a explosão emocional do grande final: o rapaz responde ao calhas porque nem ele nem Latika conhecem a resposta, e vence o prémio. Fantástico concurso, trampa de filme!
























Já tinha impressão de que o filme não era grande coisa depois de ter visto a apresentação no 35 mm, os trailers e por fim as reviews no Público, e mais esta tua “modesta opinião” chegam para me fazer perder a vontade de sequer me lembrar de ver o filme…
Já agora o Milk é sobre o quê? (Não estou com vontade de pesquisar
) Tenho ouvido dizer boas coisas sobre esse.
Ó Marco, um spoiler alert no início do Post!!!!
Estava a brincar, apesar de me ‘teres estragado o filme’ – ainda não o vi – gostei muito do post
Já tinha lido as críticas de Salman Rushdie a este filme. Fiquei de pé atrás, mas acabei por ir ao cinema ver o filme. Coisa rara, diga-se de passagem. Mas fiquei agradavelmente surpreendido, diria mais, para teu escândalo, eu gostei do filme. Não haverá por aí aquela “vontadezinha” de criticar Hollywood, só porque sim?
Se Jamal respondesse «Latika» seria poético
E sim, claro que não dá para comparar com Este País não é para Velhos.
O Slumdog Millionaire é um feel good movie; acaba bem para agradar a todos. Não é um mau filme. No final ficamos contentes pelo rapaz ter ganho o concurso e os maus da fita acabarem menos bem.
Na minha modesta opinião, o Milk deveria ter ganho o Óscar de melhor filme. É fantástico, com interpretações excelentes por parte de todos os actores. E, claro, sobre um homem igualmente fantástico.
Epá, que mau feitio. Só posso comentar verdadeiramente este post depois de ver o filme. Está na minha lista. Mas vou-te dizer uma coisa: as vicissitudes de se viver numa vila alantejana fizeram com que na semana passada fosse ver o Austrália. Mas se o Slumdog Millionaire for pior que aquele monte de bosta, juro que rapo o escroto com uma lâmina Bic das amarelas (depois de reforçar a vacina do tétano, claro).
Abraço.
@

como é que se diz em português “feel good movie”?
Será “vai-ao-cinema-largar-o-teu-precioso-slumdog-money-e-divertir-te-,-não-penses-em-nada-porque-a-vida-são-dois-dias-e-o-carnaval-são-três-e-nós-não-andamos-cá-para-nos-preocuparmos-porque-para-tristezas-já-basta-a-vida”?
Não gosto de “feel good movies”, aliás, eles make me puke porque me distraem da vida tal como ela é, e eu amo a vida de tal maneira que não suporto que me tentem fazer crer que ela é manipulável e vendível como uma barra de chocolate.
Para mais, gosto que a vida seja difícil e haja obstáculos para superar. Não gosto que me digam que tudo está bem e acaba bem. Não é verdade. Não é assim. E para além do mais, só nas dificuldades é que se sente que a vida vale a pena ser vivida.
Dark Raider, parabéns!
Foste o primeiro a dizer que eu tinha uma “vontadezinha” de criticar Hollywood, só porque sim…
Não serás o último a pensar assim, esse argumento tem alguns seguidores. Eu não penso pela minha própria cabeça nem justifico as minhas opiniões nos posts, não gosto porque não gosto, pronto
Marco,
Eu acho que não me expliquei muito bem. Em momento algum eu quis dizer que não pensas pela própria cabeça, muito menos que não justificas as tuas opiniões. Muito longe disso, como bem sabes. O que eu gostava era de ver alguém dizer «não gosto porque sim» ou «não porque não». E tu és gajo para isso
Eh pá, há dias em que me sinto mesmo assim, sem vontade de explicar o porquê, mas apenas dizer o que sinto…
Dark Raider, talvez faça um «Não gosto porque não» quando escrever um post sobre a Dave Matthews Band…
Aí vou ser trucidado, vais ver
Eh eh! Promessas, só promessas…
Estamos todos à espera para atirar a primeira pedra