12/Novembro/2009

Deixa-me sair, Deixa-me entrar

Deixa-me Entrar

Vi Deixa-me Entrar porque desejava mostrar à minha filhota um «filme de vampiros» que servisse de alternativa ao «Crepúsculo».

Já agora, o impacto do filme (e dos livros) da série Crepúsculo não deixa de ser surpreendente. Parece-me que toda aquela história de amor entre a adolescente e o vampiro não passa de uma metáfora da perda da virgindade: o desejo de sangue é desejo sexual e a narrativa conta a história da transformação do vampiro em príncipe encantado (geralmente é ao contrário).

Todas as histórias de vampiros que conheço têm uma carga erótica forte, mas nunca tinha visto uma em que o vampiro luta para se portar como um «cavalheiro» em vez de funcionar como um elemento sexual transgressor. «Tudo em mim é feito para seduzir» – confessa o vampiro à adolescente. «Mas eu sou um assassino, um predador».

Por outras palavras: eu amo-te, mas de momento o que me apetecia era derrubar-te na floresta sem me preocupar com as consequências porque, sabes, sou um rapaz carregado de testosterona, desculpa, um vampiro sedento de sangue, e tenho dificuldade em dominar os meus impulsos!

Caramba, só uma escritora membro da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (Stephenie Meyer é mórmon) se lembraria de transformar um vampiro no rapaz responsável e respeitoso com que todas as sogras sonham.

Vendo as coisas deste ponto de vista, apesar do estilo MTV/Matrix/modernaço pós-Google em que está embrulhado, o Crepúsculo é um dos filmes mais bota-de-elástico que já vi. É ainda mais bota-de-elástico que a própria expressão bota-de-elástico. É tão pudico que até irrita, sobretudo nos elementos de «horror» que supostamente deveria ter – afinal é uma história de vampiros e, na minha terra, os vampiros são a encarnação do mal, têm os dentes afiados e violam jugulares, dormem em caixões, não têm insónias ao som de Debussy, morrem com o Sol, não brilham como diamantes, e honram a tradição iniciada por Mestre Drácula, o paizinho deles todos, que consiste em morder sedutoramente e sem qualquer problema de consciência o pescoço de donzelas vitorianas puras, virgens e cristãs. Em vez do Bram Stoker, calhou-me uma Corin Tellado beata. Pai ama e vai ao cinema, mas sofre!

Como sabia que Deixa-me Entrar, do sueco Tomas Alfredson, era também uma história de amor e vampirismos, lá fui alugá-lo a ver se valia a pena. E, acreditem, vale mesmo a pena. É um excelente filme em qualquer parte do mundo. Aliás, é um excelente filme mesmo naquelas partes do mundo em que os vampiros nunca existiram.

Deixa-me Entrar ajudou-me a reforçar uma velha ideia: os melhores filmes de terror e ficção científica são aqueles em que o «género» é apenas um pretexto para contar uma história que reflecte preocupações muito terrenas e concretas: Kubrick, o meu realizador de culto, serviu-se de uma história do mestre do horror Stephen King – The Shining – para filmar a desintegração de uma família marcada pela progressiva ausência do pai; anos antes, juntara-se ao escritor de ficção científica Arthur C. Clarke para filmar, em 2001: Odisseia no Espaço, uma metáfora sobre a posição da Humanidade no Cosmos.

Deixa-me Entrar

Em Deixa-me Entrar, o vampirismo é o pretexto para se filmar uma belíssima história de amor e amizade entre dois solitários, dois pré-adolescentes perdidos nos subúrbios gelados de Estocolmo na década de oitenta: um rapaz de 12 anos, Oskar (Kåre Hedebrant) , e um vampiro que aparenta ser uma rapariga da mesma idade, Eli.

Oskar é triste e reservado, filho de pais separados, uma vítima diária de bullying na escola. Ninguém o ajuda, sofre em silêncio. Passa o tempo a imaginar longas e sanguinárias vinganças contra os miúdos mais velhos que o atormentam física e psicologicamente – faz lembrar o Robert de Niro a falar ao espelho no Taxi Driver; Eli, que se mudou recentemente para o bairro, só sai à noite, é imune ao frio e, vamos sabê-lo depois, é um vampiro de 200 anos preso num corpo de menina.

Adoro a delicadeza com que o realizador filma o amor entre os dois – nada de sentimentalismos ou violinos nos diálogos. Aliás, este é um filme de silêncios. As cenas «gore» também entram na história, mas por serem absolutamente necessárias – na verdade, causam-nos um enorme impacto emocional, sobretudo a cena crucial em que o vampiro Eli, à entrada do apartamento de Oskar, lhe pergunta:

Posso entrar?

e não servem apenas aquela sensação de susto típica dos filmes de terror que confundem ir ao cinema com andar na montanha russa.

Adoro a música, adoro a fotografia. Os dois pequenos actores são espantosos, principalmente a rapariga que faz de Eli, Lina Leandersson, que tinha 12 anos quando filmou mas que em determinadas cenas observa o amor de Oskar, a sua lealdade e sacrifício, com o sorriso e o olhar de uma velha cansada. A realização é sóbria: é como se nos primeiros planos, belíssimos, nos estivesse a dizer

olá, eu sou o realizador deste filme e quero contar-vos esta história de vampiros de uma forma bela e original – a partir de agora, esqueçam-me.

E consegue. Vejam-no, se puderem. Trailer e um clip do filme aqui.

P.S. – Os americanos estão a fazer um remake. O realizador é o tipo do Cloverfield. Susto!

16 respostas | Deixa-me sair, Deixa-me entrar
  1. Bruno Miguel fez-se à net com GNU IceCat 3.5.5 GNU IceCat 3.5.5 em GNU/Linux x64 GNU/Linux x64

    qual o nome original do filme?

  2. Marco fez-se à net com Firefox 3.5.5 Firefox 3.5.5 em Windows 7 Windows 7

    Em inglês, Let the Right One In; em sueco, não faço ideia :mrgreen:

  3. Bruno Miguel fez-se à net com GNU IceCat 3.5.5 GNU IceCat 3.5.5 em GNU/Linux x64 GNU/Linux x64

    Tenho que ver se o consigo encontrar num clube de vídeo, então. hehehe

  4. Marco fez-se à net com Firefox 3.5.5 Firefox 3.5.5 em Windows 7 Windows 7

    Faças o que fizeres, não vejas o filme com a imagem ranhosa que se vê por aí, nos clubes de vídeo da… Internet. A sério. A fotografia é linda.

  5. Maldonado fez-se à net com Firefox 3.5.5 Firefox 3.5.5 em Windows Vista Windows Vista

    Já tinha ouvido falar deste filme, mas não sabia que era tão interessante.
    Grato pela dica.

    1. O Crepúsculo não passa dum golpe de marketing para adolescentes, sendo a sua popularidade idêntica à do Harry Potter.

    2. O cinema alternativo tem a capacidade de inovar temas corriqueiros, enquanto que o cinema comercial só se limita a repeti-los sem qualquer originalidade.

  6. Ricardo V. fez-se à net com Internet Explorer 8.0 Internet Explorer 8.0 em Windows 7 x64 Edition Windows 7 x64 Edition

    O título original é: Låt den rätte komma in

    È um belíssimo filme. 5 estrelas.

  7. Luís Bastos fez-se à net com Firefox 3.5.2 Firefox 3.5.2 em Windows XP Windows XP

    Já vi este filme há algum tempo. Provavelmente um dos melhores filmes que eu já vi. Os americanos não podem ver um bom filme ser realizado fora dos EUA, querem logo copiar. Tentar copiar a perfeição só pode dar merda.

  8. bluewater68 fez-se à net com Internet Explorer 8.0 Internet Explorer 8.0 em Windows Vista Windows Vista

    Marco, neste post estamos completamente em sintonia. Primeiro porque eu comprei esse filme no fim-de-semana passado na FNAC. Foi para a tal pilha “para ver”, mas irei vê-lo em breve. Por isso mesmo, li este texto muito na diagonal, não fossem estar reveladas partes importantes do filme :-) Todas as críticas que tenho lido, são unânimes em apontar a qualidade deste filme. Por curiosidade, na capa do DVD, a Castello Lopes usou uma frase que o Markl tinha escrito no seu blogue, quando fez a crítica ao filme.
    Em segundo lugar, tu quiseste mostrar à tua filha uma alternativa credível de um filme de vampiros – não necessáriamente à moda antiga – e eu ando pelos cabelos com essas histórias que misturam adolescentes e vampiros. Não bastava o filme, como a RTP fez questão de estrear no passado Sábado à tarde, uma série (não me lembro do nome) que é uma imitação do “Crepúsculo”. Eu já dizia no Facebook, na conta da RTP, a propósito deles terem pedido uma crítica sobre a série, que tinha saudades do “A Missão de Joan”, uma série bem inteligente para pais e filhos. E sabias que existem romarias à cidade que serviu de inspriação para a história do “Crepúsculo”? Coisas de Filhas e de Vampiros

  9. H. Ribeiro fez-se à net com Firefox 3.5.5 Firefox 3.5.5 em Windows 2000 Windows 2000

    É um belíssimo filme sim senhor.

    SPOILER — SPOILER — SPOILER — SPOILER — SPOILER — SPOILER — SPOILER — SPOILER — SPOILER — SPOILER — SPOILER — SPOILER —

    Aparentemente, no livro do qual o filme é adaptado, a Eli não é uma menina, mas um menino, explicando-se a cena do filme onde se vê a zona púbica da Eli com uma grande cicatriz. Sim, é a imagem de uma pila cortada!

    FIM DO SPOILER

    Para voces não sei, mas para mim muda bastante a forma como se processa o filme e o meu entendimento da relação das personagens.

    Cumps.

  10. Alexandre fez-se à net com Firefox 3.5.5 Firefox 3.5.5 em Windows 7 Windows 7

    Adorei este filme.

    A cena final da piscina é arrepiante de tão fantástica.