Bons artigos fazem boas revistas.
A escolha da revista Time para personalidade do ano de 2006 correu mundo. Após a escolha de 2005 – Bill Gates, Melinda Gates e Bono – a Time escolheu Você – sim, tu aí! – para personalidade do ano.
Tinha ficado por esta informação não fosse ter recebido de um amigo o link para o artigo completo. Apesar da inteligência não se transmitir por osmose, a sorte de ter amigos mais inteligentes que nós é porque nos contagiam com as suas leituras.
O artigo é imperdível. Explica porque você – utilizador da Internet – foi escolhido.
Foi escolhido por ter escrito um blogue. Foi escolhido por mandar vídeos para o YouTube. Foi escolhido por ter escrito documentação num WiKi. Foi escolhido por ter desenvolvido o Linux ou outro SL/A (Software Livre/Aberto). Enfim, foi escolhido e escolhida por estarem a mudar o mundo através da Web 2.0.
E só se muda uma coisa quando sentimos que algo está mal. E o que estará mal?
A resposta reside na capa da Time de 2005, ou seja, do ano anterior. E não. Não é ao Bono que me refiro.
Uns dizem que os sistema operativos (SO) não são elementos críticos do nosso mundo. Mas esses utilizam, em média, um SO duas vezes por hora: telemóvel, multibanco, PC, centralina do automóvel e GPS, etc. Uns dizem que os SO não são alvo de um monopólio. Mas esses não conhecem mais nenhum mercado em que uma única empresa, privada e estrangeira, tenha uma quota de mercado de 95%. Uns dizem que, mesmo dominando os SO, essa empresa se fica por aí. Mas esses têm telemóveis, mouses, anti-vírus, software de produtividade e de gestão, consolas e enciclopédias dessa mesma empresa.
Uns dizem que dominar o software não é dominar o conhecimento. Mas esses não podem alterar o software para Mirandês. Não podem comprar um PC sem sistema operativo. Não podem ouvir música sem um sistema DRM. Não podem trabalhar colaborativamente sem o software no servidor e no cliente.
Uns dizem que o estado também depende em igual grau de outros. Mas esses não conhecem nenhuma outra empresa que assine contratos anuais com todos os ministérios, sem excepção, oscilando cada um entre 1 e 5 milhões de euros. E quem assina queixa-se de que não tem alternativa.
O que está mal é que não foi isto que nos prometeram para o séc. XXI.
Foi a possibilidade de trabalharmos em conjunto. A possibilidade de comunicarmos. A possibilidade de termos acesso a tecnologia de forma acessível – barata e respeitadora da nossa condição. E é isso que estamos a pedir de volta.
Estamos a desenvolver meios, como conteúdos e linhas de código, que nos permitam ter esperança de recuperar o sentido da tecnologia.
Uns fazem o que sabem – escrever. Outros filmar. Outros programar.
E ao fazermos isto na Web estamos a criar obras com uma dimensão que a humanidade nunca antes viu. Estamos a criar a Wikipedia com milhões de artigos on-line. Estamos a criar o Linux, único sistema operativo que resiste ao Windows há mais de 15 anos com milhares de aplicações desenvolvidas colaborativamente.
Note-se, nem o Vista é um mau produto, nem a Microsoft é demoníaca.
O que se passa é que estão entre nós e a nossa necessidade de ter a tecnologia de forma acessível. E, dizia Vitor Hugo, não há nada tão forte como uma ideia cujo tempo chegou.
Assim, temos a Europa a apostar em mecanismos de apoio à qualidade no SL/A. Os países em desenvolvimento a comprar PCs de baixo custo com Linux. O mundo a mudar. Quando experimentar o Vista lembre-se que a decisão de o adoptar vai para além de janelas a 3 dimensões. Vai ser essa a tecnologia que o acompanhará nos próximos 5 anos.
A alternativa dá trabalho. Tem custos. Não é tão bonita. E não suporta tanto hardware nem tanto software.
Ser capa da Time tem destas coisas. Alguns minutos de fama e a responsabilidade de estar nas suas mãos o que faremos do século XXI.
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