Socorro! Um evento catastrófico de origem desconhecida acabou de ocorrer numa zona do meu cérebro onde vive um neurónio que nada faz a não ser ficar sentado na esplanada a beber cervejolas e a gozar com quem trabalha.
Esse neurónio gosta de observar os outros cumprindo as suas tarefas diárias.
«Olha, aquele pobre diabo está ali a fazer uns cálculos de particionamento no disco rígido», pensou ele enquanto esvaziava mais um copo. «Parece estar em dificuldades, coitado.»
O neurónio que gosta da boa vida levantou-se e gritou: «Olha lá, pá! Que estás a fazer?»
«Uma reinstalação do sistema operativo», respondeu o neurónio atarefado.
«Quantas vezes é que já tiveste de fazer isso? Não te fartas?»
«Sim, às vezes» – reconheceu o neurónio trabalhador. «Mas é fácil, desde que esteja concentrado e não apague nada que não deva».
«É canja, então! Já fazes isso de olhos fechados.»
«Sim, posso dizer que sim…»
«Então porquê esse ar tão estafado, pá?»
«Não é bem estafado» – sorriu o neurónio trabalhador, meio envergonhado. «Estou cheio de sede!»
«Ora essa! Senta-te aqui e bebe um copo.»
«Até queria» – suspirou. – «Mas receio que assim perca a concentração…»
O neurónio da esplanada fez um gesto de quem acabou de ouvir um disparate. «Não acabaste de me assegurar que fazes isso com os olhos fechados? Vens para aqui e bebes um copo enquanto tratas disso. – Deu um gole trocista na cerveja. – Um neurónio grandalhão como tu, com medo?»
O neurónio trabalhador considerou este argumento e pensou que o outro talvez tivesse razão. Aquela tarefa já tinha sido feita tantas vezes que nem sequer se concentrava muito – executava-a de forma automática, como um condutor percorrendo distraidamente uma estrada que já conhece há muitos anos.
«O excesso de zelo ainda te vai matar», pensou, resolvendo-se finalmente a sentar-se na esplanada e a mandar vir uma bem fresquinha.
O neurónio trabalhador ia dando uma vista de olhos, a ver se estava tudo a correr bem. Estava tudo a correr bem.
Estava tudo a correr mesmo muito bem.
Que maravilhosamente bem estava aquela reinstalação a correr!
Ao terceiro copo, sentia-se mais descontraído e até se ria às gargalhadas com as anedotas do seu companheiro de esplanada.
«Espera, espera», disse o neurónio trabalhador, sufocado pelo riso. «O dono acabou de me dizer para formatar a partição onde tem as músicas todas guardadas.»
«A sério? Ah, que engraçado», comentou o neurónio copofónico, sem revelar qualquer interesse pelo assunto.
«Não sei por que raio quer ele mandar fora mais de 700 gigas de músicas, mas pronto.» – O neurónio trabalhador levantou-se da cadeira, mas desequilibrou-se . «Eh lá, já estou bem aviado!»
O outro riu-se muito da piada, mais por cumplicidade do que propriamente pelo sentido de humor. Não deixava de ter graça, contudo, um neurónio habitualmente tão bem comportado a cair de bêbado.
«Bem, então é para apagar isto, não é?» - continuou o neurónio, arrastando a voz. «Pronto, já está. 700 gigas à vida. As músicas. As versões originais das emissões de rádio. Tudo!»
O copofónico desatou à gargalhada, embora não compreendesse muito bem de que raio estava o tipo a falar.
O neurónio trabalhador sentou-se e fixou o copo vazio com uma expressão muito pensativa. Ficou assim durante muito tempo. De repente, deu um grito e bateu com a mão na mesa com violência.
«A próxima sou eu que pago!»
A minha inteligência está de ressaca. Portanto que ninguém fale comigo hoje. Nem uma palavra. Nem uma sílaba. Nem uma vírgula. Silêncio: Miss Neura vai cantar o fado.






























32 comentários
Txiiiii… Pronto, não digo mainada… Vou já sair de mansinho… Até amanhã, então… Bebedolas! (bate com a porta e foge)
Bem, se serve de consolo: um dia, depois de umas duas horas fazendo backup das músicas todas e de encher um disco USB externo de 1T, novinho em folha, com a recolha de anos e anos, mais a ripada de todos os meus CDs, etc. ao reinstalar o Linux no meu servidor, e por absoluto excesso de confiança, simplesmente não reparei que o instalador incluira o próprio disco USB nos dispositivos componentes da LVM, como fizera na mesma semana eu outros não sei quantos clientes, e… Pimba! mandei formatar o gajo para onde eu acabara de fazer a “cópia de segurança”. Resultado: passados 2 anos ainda estou recapitulando o que perdi e tentando recuperar músicas que encontrara não sei onde, para fazer os podcasts do Gavezdois, e das quais nem o nome me lembrava. Acontece…
Edgard, foi EXACTAMENTE isso que me aconteceu – não foi LVM, foi RAID.
Ok, ok… eu sei o quão desagradável esta experiência é. Juro que fico calado nos próximos 6 meses.
Não, podes falar à vontade
Já me está a passar a neura, mas caramba… Dói. Minha rica música.
Agora tenho de ripar tudo outra vez (para não falar das “outras”) e esta é mesma a pior altura possível, estar a perder tempo com isso.
Que dói, dói! Principalmente quando um dos meus filhos lembra ainda hoje: “Ah!… Sei… aquela música… eu tinha… antes de acontecer aquilo…”
Mas passa. Quase tudo na vida passa.
E o desgraçado ainda perguntou para mim se formatava, mostrou o que iria fazer, eu disse que SIM! Se calhar eu ainda disse para ele: “Claro que formata, está esperando o que?”
É isso que dói, na gente que acha que é inteligente o tempo todo…
Não consegues recuperar a informação com umas aplicações do tipo GetDataBack?
Há software que te permite recuperar os dados de discos formatados, sabes disso né?
Espero é que não tenhas copiado nada para o disco desde que o formataste por engano… é que ao copiar dados novamente para esse disco podes estar a copiar por cima dos dados que pretendes recuperar!
Tenta, já me safei algumas vezes… mas 700Gb!!
Nuno, é demasiado.
Vou ripar os CDs outra vez e recuperar os que pedi emprestado na net….
Acho que o GetDataBack não suporta EXT4, SÓ FAT e NTFS.
Enfim pago o preço da minha estupidez, acho que só vai é fazer-me bem…
Neste caso, que foi semelhante ao meu, não há recuperação. Porque para além de formatar o disco, o instalador refaz o particionamento. As partições originais não continham o tal USB extra que nós adicionamos inadvertidamente ao conjunto de discos a ser formatado e, depois quando se separa tudo, ficas com uma partição órfã no disco USB que não tem princípio nem fim. Mesmo que fosse NTFS ou FAT seria impossível desta forma. Tanto o RAID quanto o LVM o que iriam fazer era recuperar a si próprios depois da partição e da formatação, mas antes, restaurar a partição anterior e a formatação que existia é simplesmente impossível.
Não sei se tinhas esses 700G muito bem organizados, mas podes sempre ver o desastre como uma oportunidade de começar do zero e ficar com tudo mais bonito e certinho. É doloroso, mas num instante vais ter isso a bombar melhor do que antes.
É uma boa forma de ver as coisas, Fernando – saudável.
Mas eu tinha tudo muito bem organizadinho… Enfim, resta procurar a perfeição
Ó Marco, vai à bruxa, ver se afasta esta nuvem negra que anda por aí.
@Edgard
Acredita que sim. É muita merda ao mesmo tempo. Sendo que isto até acaba por ser irrelevante, ao pé das outras coisas.
Já tentaste algo como o PhotoRec http://www.cgsecurity.org/wiki/PhotoRec ?
@BL Não suporta EXT4…
E vê a explicação do Edgard em comentários anteriores. Acho que tenho mesmo de me conformar e seguir em frente.
É tipo gota d’água… É que é mesmo muita coisa dando pro torto tudo junto. Tens idade para acreditares no futuro e seguir em frente, que é o que segura as coisas em pé. Eu já ando largando coisas pelo caminho. Não cheguei a ripar os discos todos novamente… Vou ripando, mas ainda falta uma data deles. Já tem dias q não vejo os meus filhos: quando saio ainda dormem, quando durmo ainda não chegaram. Fica-se com a sensação de que já há pouco a fazer. Mas você ainda não esta nesta fase. Segue em frente. Formata tudo outra vez se for preciso. É como se vivesse outra vez. Só olhe para a frente, só viva o presente e acredite no futuro, enquanto podes. No final, tudo é irrelevante.
Sábias palavras, Edgard, sábias palavras.
Ext4 deveria ser retro-compatível com Ext3 (a não ser que tenhas criado a partição ext4 com uns perlimpimpins especiais). Na parte de “File Systems” realmente falam só de ext3, mas no texto explicativo referem ext4.
mas tu é que sabes.
Eu tentaria na mesma
Abraço,
BL
Andas mesmo em maré de azar…
Quanto ao disco tb já passei por uma dessas, mas como sempre andei nos OS´s da Microsoft não tive grandes problemas em recuperar as coisas.
Alem disso, desde que consegui recuperar 30GB de um disco avariado, após 3 congelamentos de 6 horas numa embalagem de vácuo, acredito que vale a pena tentar tudo.
Eu no teu caso a primeira coisa que fazia era comprar um disco identico a o que perdeste, para poderes salvar o que conseguires recuperar. ( se não for nada, tens sempre um HDD para um backup no futuro)
Depois Tentava o que o BL disse.
Procurei umas coisas e não sei se te ajudará, mas tenta ver aqui:
http://extundelete.sourceforge.net/
http://ubuntuforums.org/showthread.php?t=1376383
Marco, não paras de me surpreender! Que texto fantástico e que capacidade de te rires de ti próprio (mesmo quando não tens vontade nenhuma de rir).
Este vai direitinho para a minha gaveta do Diigo com a etiqueta @muitobom
Ai senhor… desconfio que nem uma aplicacão de restore de discos, uma qualquer “Mourinho dos discos” te vai recuperar essa perda tremenda. Não há muito que possa dizer neste caso… mas foi mesmo um valente soco no estômago!
que tal..
http://www.r-studio.com/
File systems supported: FAT (FAT12, FAT16, FAT32, exFAT), NTFS, NTFS5 (created or updated by Windows 2000/2003/XP/Vista/2008/Win7), HFS/HFS+ (Macintosh), Little and Big Endian variants of UFS1/UFS2 (FreeBSD/OpenBSD/NetBSD/Solaris) and Ext2/Ext3/Ext4 FS (Linux) on local hard disks.
Boa SORTE!!
Entretanto, se quiseres, disponibilizo-me a enviar-te (e estou certo de que outros leitores habituais farão o mesmo) uns dvds com uns quantos álbuns em mp3 e/ou ogg. Sempre será mais rápido para reconstruires a tua colecção do que pedires tudo emprestado outra vez e a malta aqui sabe bem do que gostas. Envia-me um email se quiseres
deixa lá. nunca ias ter tempo para ouvir essa musica toda.
…”backup”. Nova entrada no teu dicionário?
Ui, lamento Marco. Isso é pesadelo mesmo.
Pode parece que depois do dano é fácil falar mas…
1º Conselho de amigo, Backup em Disco externo. (Ao preço que um disco externo está vale bem o investimento, ora estando um CD original a 4 “contos”, sacrificas comprar 5 originais por segurança e horas não desperdiçadas como agora tens. Este ponto é imprescindível.
2º C.D.A., Ir fazendo backups em DVD’s. A 50 paus o DVD porque não? Há que lembrar que discos rígidos também falham.
3º C.D.A. Backup de backup. Ou seja backup em disco externo bem longe do PC e do referido backup no ponto 1. Armazenamento em NAS via wi-fi vai sendo comum e vale muita segurança acrescida. Porque amigos do alheio também visitam a casa ou acidentes “físicos” também acontecem perto do pc.
Eu pelo menos por causa das tosses até ao ponto 2 vou fazendo.
Os meus sinceros agradecimentos a todos os que me tentaram ajudar, mas eu vou deixar passar. Explico porquê:
Aproveito e ripo os meus cd’s com o Ruby Ripper (gosto mais deste do que do Exact Audio Copy)
Descobri que tinha os ficheiros de torrents TODOS guardados, pelo que é só metê-los a bombar outra vez, até porque não tenho limites de downloads por mês
Tem de se pensar positivo nunca na vida vais conseguir ouvir as 700 gigas de musica. Eu tenho tanta informação em discos rígidos que as vezes ate chateia, se acontece um problema dessas ate agradecia. É informação a mais muita dela com pouco interesse. Já basta os milhões de revistas do meu pai que anda aqui a passear por casa desde 1980 ate aos dias de hoje e continua acumular nunca vão ser consultadas tem informação preciosa para fazer um estudo para escrever um livro sei lá mas o nosso tempo não dá para prestar atenção a estas coisas. Quando se tem um mundo a rodar a 500 km a hora 24 horas por dia e sermos bombardeados por informações inúteis todos os dias.