Dia 2 do Sapo Codebits, Parque das Nações, Pavilhão Atlântico, o local onde a noite é sempre uma criança, diário de bordo de um não-geek numa nave de geeks.
Muita gente, como ontem. Centenas de pessoas, muitas com t-shirts pretas e orgulhosas a dizer Codebits IV. A atmosfera fervilha de actividade programática, entusiasmo, reencontros, conversas e latas de Coca-Cola.
No oratório principal, Mário Valente explica à plateia por que razão considera o iPhone uma porcaria e o Android o máximo. Fala em inglês, embora a plateia seja tão portuguesa como ele – uma vicissitude deste mundo sobre a qual falarei a seguir.
Ora, numa escala geek de 0 a 20, Valente é um 21, pelo que não espero que alguém se atreva a faltar-lhe ao respeito; ainda assim, imagino que os fãs da Apple que assistiram à palestra tenham desejado que os seus preciosos iPhones possuíssem uma extensão do tipo sabre de luz à Luke Skywalker só para poder fazer do corpo do Valente um mero amontoado de pacotes de dados aleatórios (ou uma escultura de arte moderna, se a vossa formação for outra).
Caramba, é preciso ter lata para dizer mal do iPhone em pleno Codebits e rodeado de portáteis (e iPhones) com maçãs reluzentes. O Valente fez jus ao seu apelido e, posso garantir-vos, sobreviveu incólume à apresentação.
O Codebits é uma caixa de surpresas. De repente, junto à cozinha (aqui chama-se kitchen), forma-se uma enorme fila de pessoas animadas e ansiosas. Mesmo diante de mim, dezenas esticam os pescoços para ver o que se está a passar. E o que se está a passar é uma prova chamada taco nuclear, tradição trazida pelo Celso Martinho, o pai espiritual do Codebits, na sequência de uma viagem que fez aos Estados Unidos.
Um taco nuclear é um taco com uma quantidade astronómica de picante que toda a gente pode provar desde que se comprometa, por escrito, a assumir responsabilidades por eventuais consequências. Uma câmara de filmar posiciona-se diante do primeiro corajoso a provar o taco e assim continuará, registando para a posteridade uma paleta inacreditável de cores e caretas. (O que eu gostava era de ter visto a equipa do Benfica a provar este petisco – cinco tacos para cada jogador, claro).
Eu estou a gostar deste mundo geek, mas não tenho muita vontade de atear um fogo nuclear na minha garganta. Obrigado, mas passo. Celso, és doido, pá.
Se nos alhearmos das sombras atarefadas que passam à nossa volta e nos concentrarmos apenas em sons, notamos que a esmagadora maioria da malta fala em português, excepto quando pega no microfone. Todas as vozes captadas pelos microfones falam em inglês. Entre todos os mistérios do mundo geek, este é o maior de todos. A metamorfose linguística.
Na verdade, não é um mistério e é fácil encontrar aqui quem defenda esta opção: é importante fazer apresentações em inglês, pois deseja-se que o trabalho seja internacionalmente reconhecido; além disso, como essas apresentações são gravadas para a posteridade, o inglês permite atingir um maior número de pessoas na Internet. O inglês é a linguagem da Informática por excelência e compreende-se a opção, embora tenha sido para resolver esses problemas que Deus inventou a legendagem (logo a seguir ao Verbo).
Sendo a assistência maioritariamente constituída por portugueses, talvez fosse um desafio engraçado transmitir ideias, conceitos, inovações e conhecimentos na nossa língua. Faz bem ao ego, associar a língua portuguesa ao empreendedorismo tecnológico dos portugueses, levanta a moral nestes tempos de crise. Também se refere que a questão da cortesia para com os poucos estrangeiros presentes é importante – estamos a falar da mesma cortesia que eles raramente têm connosco, certo?
Estas dúvidas são irrelevantes para os objectivos do evento, completamente colaterais, eu sei, mas mesmo estando entre geeks não consigo esquecer-me de um amor que trago lá de fora, o amor pela língua portuguesa.
O problema nem é apenas o abandono do Português, mas a forma como o inglês é abordado foneticamente, digamos assim. Se querem internacionalizar-se, pratiquem em casa. Ao ouvi-los, imagino-os com um microfone na mão e, na outra, um pacote cheio de palavras inglesas que vão tirando consoante as necessidades das apresentações. O problema é que alguns geeks mastigam palavras inglesas como se estas fossem batatas fritas.






























9 comentários
É tão ridículo fazer uma apresentação a cascar no iPhone e respectivo iOS como seria o oposto. Digo eu que não ouvi a apresentação, mas o titulo deixa isso a antever.
E é com estas coisas que a comunidade Android perde, ao querer-se comparar com outros em vez de cultivar a sua própria identidade.
Eu sou utilizador de Android e de iOS. iOS é uma plataforma brilhante extremamente sóbria e concisa. Mas também adoro Android, tem imensas coisas melhores que o iOS, da mesma forma que o iOS tem imensas coisas melhores que o Android.
O próprio texto de apresentação da keynote é ele mesmo uma demonstração de fanboyismo (acho que não existe tradução).
Quanto ao texto, fantástico
Bom… Ainda me pergunto como é que jornalistas como tu (e desculpa lá o abuso) podem estar empregados! Acompanho o teu blogue diariamente e sinceramente acho que tens uma maneira “brutal” de escrever!
Parabéns pela(s) crónica(s) do CodeBits!
@Marco: sobre os textos já sabes a minha opinião, certo? /vénia
@Sérgio: Se leres bem a descrição da apresentação verás que não faz grande sentido. O próprio Mário pediu para não votarem na apresentação. (a apresentação surgiu como resposta a um tweet provocatório)
E olha que nunca se perde nada em escutar o que o Mário tem para dizer, mesmo que seja sobre a idiossincrasia das marmotas alpinas.
@José Carlos Joaquim
Eu não vi a keynote, deixei isso claro. Acredito, é claro, que esteja a julgar mal a situação. Se assim for, admito o meu erro
Nuclear Tacos nunca mais, doeu.
@Pedro, és um ganda maluco, pá.
Nem morto me apanhavam nesse número.
Marco,
Gostei particularmente desta passagem:
“Todas as vozes captadas pelos microfones falam em inglês. Entre todos os mistérios do mundo geek, este é o maior de todos. A metamorfose linguística.”
Muito bom! Estavas inspirado.
Em relação à fonética do inglês.
Não me recordo quem o disse, mas disse que quando descrevemos/opinamos sobre como algumas pessoas se exprimem noutra língua, que não a sua, estamos cada vez mais a praticar uma nova forma de racismo, entre os que sabem a língua e os outros e os diminuímos um pouco. A literacia da língua pode ser importante mas o mais importante deverá ser o que é dito.
Um abraço
Quando se fala em inglês para uma plateia de portugueses, criticar a pronúncia não é uma forma de os diminuir, é uma forma de dizer, de forma sarcástica, que somos todos portugueses, quer falemos em inglês ou não, e que temos uma língua belíssima para comunicar, o que é um luxo que eu não gosto de ver posto de parte. Mas pronto, já esqueci. Que speakem à vontade.