
Mesmo não sendo especialistas na história do Império Romano, quase todos ouvimos falar de uma cidade chamada Pompeia, situada a cerca de 22 quilómetros de Nápoles, na Itália.
A 5 de Fevereiro de 62 d.C, deu-se um terramoto que os investigadores acreditam ter sido de 7.5 na escala de Ritcher.
Os tremores de terra eram frequentes naquela região, mas este devastou templos, casas, pontes e estradas. Nenhum edifício escapou ileso. Grandes incêndios provocados pela queda de candeeiros a óleo aumentaram o caos.
Muitos saíram da cidade para nunca mais voltar. Os que ficaram – ninguém sabe ao certo quantos – dedicaram-se à reconstrução de Pompeia.
A 24 de Agosto ou 23 de Novembro do ano 79 d.C. (não existe uma teoria definitiva sobre a data certa), o monte Vesúvio entrou em erupção. Uma catastrófica erupção.
Choveram sobre a cidade ainda em reconstrução pedras incandescentes, lama, poeiras e cinzas; um rio de lava vulcânica arrasou-a por completo. Quase todos os habitantes morreram.
De um dia para o outro, uma cidade a recuperar das feridas de um terramoto ocorrido há 17 anos foi sepultada para sempre sob um manto de cinzas e pedras vulcânicas com 4 a 6 metros de espessura.
Pompeia só veio a ser descoberta em 1599 – mais de 1500 anos depois. As paredes então reveladas continham pinturas eróticas, muito pouco apropriadas ao espírito beato e rigoroso da época, pelo que foram novamente cobertas.
Pompeia foi redescoberta em 1748. As escavações revelaram então uma cidade petrificada no tempo e, por isso, um valioso espólio arqueológico.

O arqueólogo Giuseppe Forelli tomou conta das operações a partir de 1860. Nas primeiras escavações, foram encontrados espaços vazios na camada de cinzas e, nesses espaços, restos humanos.
Forelli percebeu que se preenchesse esses espaços com gesso e depois retirasse cuidadosamente a cinza, ficaria com um molde dos corpos no exacto momento em que foram apanhados pela erupção. Esta técnica permitiu saber o que estavam a fazer, em que posição se encontravam e até o que vestiam as pessoas na altura da morte.
Ao contrário do que eu pensava antes de googlar informação para escrever este artigo, o que se vê nas fotos de Pompeia não são corpos mumificados, mas um vazio esculpido pelas cinzas ao qual um brilhante arqueólogo aplicou uma forma e uma espessura em gesso.
Fantasmas de gesso de um passado distante, mas nem por isso menos humanos ou impressionantes.
Um dia, há dois mil anos
O que me levou a escrever este post foi outro tipo de informação mais trivial e igualmente fascinante: os graffiti de Pompeia, descobertos em várias paredes. As frases revelam aspectos curiosos e hilariantes do dia-a-dia de uma cidade romana: gladiadores garanhões, amores desencontrados, paixões assolapadas, rivalidades, insultos, provocações e zangas.
Por exemplo, um problema muito irritante para o dono de uma casa em Pompeia era a quantidade de vezes que os seus muros eram usados para defecar. Farto de tanta porcaria à porta de casa, um deles inscreveu o seguinte: «Cuidado, tu que cagas neste sítio! Que a ira de Júpiter se abata sobre ti se ignorares este aviso!» Alguns não só faziam o serviço como se davam trabalho de deixar o testemunho para a posteridade: «Apollinaris, médico do Imperador Titus, defecou bem aqui».
Há quase dois mil anos os amores também se eternizavam assim: «Auge ama Allotenus». Há muitas mensagens como esta nas paredes de Pompeia, mudando só os nomes. E num quarto do que se pensa ter sido um pequeno bordel, uma declaração de amor: «Vibius Restitutus dormiu aqui sozinho e teve saudades da sua querida Urbana».
As fanfarronices também existiam nesses tempos, como se pode ver pela inscrição encontrada nos aposentos de um gladiador: «Celladus, o gladiador, faz as mulheres gemer!»
O graffiti chegava a ser usado como sistema de troca de mensagens entre dois homens lutando pela mesma mulher.
Severus escreve: «O tecelão Successus ama a escrava do estalajadeiro, Íris. Ela, contudo, não o ama. Mesmo assim, ele suplica-lhe que tenha pena dele. Quem escreve isto é o seu rival. Adeus.»
Resposta de Successus: «Invejoso, por que razão me desafias e te colocas no meu caminho? Submete-te a um homem mais bonito mas que está a ser tratado de forma errada».
Nova resposta de Severus: «Eu falei. Escrevi tudo o que tinha a dizer. Tu amas Íris, mas ela não te ama a ti».
Também puderam ser descobertas mensagens mais explícitas: «Myrtis, tu fazes grandes broches» ou então esta, assinada por Restitutus: «Restituta, tira a tua túnica, por favor, e mostra-me as tuas partes privadas peludas.»
O velho companheirismo macho: «Se alguém se sentar aqui, que leia isto primeiro: quem quiser uma queca deve procurar pela Attice; ela cobra 4 sestércios.»
Maldições quotidianas: «Chie, espero que as tuas hemorróidas se esfreguem muito umas nas outras para que te doa ainda mais do que tem doído!»
Declarações filosóficas: «Lucro é felicidade!» Ou esta: «O dinheiro não cheira mal!»
Este sítio contém algumas das inscrições aqui citadas. Este contém ainda mais.
Tantas tecnologias depois, não somos fundamentalmente diferentes dos homens e mulheres que viveram em Pompeia há quase dois mil anos.






























15 comentários
Por acaso, já tinha uma ideia de que a Roma antiga não era assim tão limpa quando tropecei nesta série há uns anos atrás.
Mesmo assim, mais um bom post. ‘Tás on fire !
Também vi essa série.
Obrigado
As paredes de Pompeia eram uma espécie de Facebook …
Brutal! Eu gosto muito destes tempos e Idade Média.
E também vi a “Rome”.
Genial post, Marco! Faltou-te só mencionar, a propósito de Pompeia, o fantástico concerto-filme que os Pink Floyd gravaram lá (http://en.wikipedia.org/wiki/Pink_Floyd:_Live_at_Pompeii).
E mais uma vez a inveja de não ter escrito este post
Pergunto-me se algum desses escribas de WC chegou a imaginar que 2000 anos depois alguém ainda leria o que escreveu. Apesar do nível dos escritos há muita poesia no facto de lermos isso agora.
Fantástico!
Embora tenha ficado a sentir-me um bocado “pré-historico”…
Muito bom post!
Bitaites a voltar em força! Como que a renascer das cinzas, uma fénix dos blogs!
esqueceram de dizer “copiado da cracked”: http://www.cracked.com/article/202_8-online-fads-you-didnt-know-were-invented-decades-ago/
Lila.
Portanto deixe-me lá ver se percebi: eles escrevem um artigo em que, entre outras coisas e muita bonecada, fazem a mesma associação que eu, ou seja, entre o Twitter e os escritos em Pompeia. Grande coisa! É que fazer uma associação dessas é o mesmo que criar uma equação do tipo E=MC2, só os génios é que chegam lá! Duas pessoas fazerem a mesma associação não é possível, uma delas deve ter copiado de certeza. E se eu tivesse associado ao Facebook, como sugeriu outra pessoa nos comentários? Já não era cópia?
O conteúdo de um post e do outro, a abordagem, o estilo, nada disso conta para quem só lê títulos e lê o resto em diagonal.
Se você se desse ao trabalho de ler o blogue em vez de mandar postas de pescada em cinco minutos perceberia logo que plágio no Bitaites NUNCA ACONTECEU nem NUNCA ACONTECERÁ.
É raro, muito raro, ter comentários destes, mas caramba, quando os tenho não há dúvida que podem ser galacticamente obtusos.
Este ainda era o tempo em que as pessoas sujavam as mãos para trabalhar
Como leitor (quase) assíduo a única coisa que tenho a fazer é apoiar o Marco. Não me recordo de ler algo que não fosse autêntico e no caso de citações nao ter visto a fonte
A última frase é mesmo a grande verdade.
Gonçalo, obrigado pelo apoio: por mais cuidado e trabalho que se tenha a fazer um blogue, nunca se está livre de idiotas analfabetos como essa Lila.
Roma era limpa, pelo menos ao início, mas com grande poder costuma vir sempre grande decadência…