→ 05/12/2006 @21:12

Maluquinhos das aparelhagens

Sou um daqueles maluquinhos das aparelhagens. Essa maluquice vem directamente do facto de ser, em primeiro lugar, um maluquinho pela música. Há pessoas que nascem para fazer música, outras nascem para a ouvir. Sempre fiz parte deste segundo grupo.

A questão da alta fidelidade não foi muito importante enquanto passava os meus tempos a ouvir Lena Lovich – musa metade punk, metade gótica, da chamada New Wave dos anos 80 – mas começou a tornar-se crítica quando conheci os Pink Floyd. Quando ouvi o The Dark Side of the Moon numa aparelhagem mais sofisticada tudo mudou. Já tinha descoberto as maravilhas da música, agora descobria o que é ficar hipnotizado pela acústica.

A alta fidelidade só tem um problema: é demasiado cara. Eu ainda estava a estudar e não tinha qualquer hipótese de comprar uma.

Quando se está nessa situação, o passo seguinte e natural é massacrar os pais. Eles ouviam muita música: os LPs do Cat Stevens, que eu adorava, um single do José Cid, que eu também gostava por causa dos pã-pã-pãs dramáticos e do tom fanfarroneiro, e mais uns quantos cujos nomes já não recordo. Mas a vida estava difícil e eles não ficaram muito sensibilizados com as minhas ânsias acústicas.

Água mole em pedra dura tanto bate até que fura – e um dia, ao chegar a casa, os meus pais tinham uma surpresa: uma aparelhagem nova! O problema é que, cinco segundos depois de lhe por os olhos em cima, vi imediatamente que aquilo era uma porcaria.

Os filhos são uns ingratos, eu sei. Mas depois de saber que as melhores aparelhagens resultam de uma junção criteriosa de componentes separados e de marcas diferentes; depois de ter decorado as melhores marcas existentes no mercado e todas as recomendações existentes nas revistas da especialidade, não achei piada nenhuma ao facto de me terem comprado uma daquelas aparelhagens integradas que são muito vistosas e apelativas enquanto estão desligadas.

Não tive outro remédio senão engolir em seco, aceitar e fazer os possíveis por não parecer ingrato.

Só anos depois pude finalmente escolher a minha própria aparelhagem: umas colunas KEF, um amplificador Harmon Kardon e um leitor de CD da Pioneer (não havia dinheiro para mais) comprados a crédito à custa de 18 orgulhosos cheques pré-datados que eu entreguei na loja.

Se pensam que um audiófilo fica satisfeito quando faz a primeira compra, desenganem-se. É apenas o início de uma longa caminhada que tem por objectivo melhorar sempre o som – uma busca da perfeição sonora praticamente impossível de conseguir.

À medida que o meu gosto musical se ia tornando mais ecléctico – comecei a descobrir a música clássica e o jazz – fui continuando a poupar mais uns tostões para comprar uma aparelhagem ainda melhor. Nessa altura ainda não se usavam os CDs para gravar e o Santo Grall das gravações em cassete eram os decks da Nakamichi – quem tivesse um (e eu tive!) bem podia chamar os amigos lá a casa para uma sessão colectiva de veneração. Gravar num Nakamichi uma cassete a um amigo não era apenas um acto de partilha musical – já de si importantíssimo – mas uma demonstração de qualidade de vida. Podia não ter dinheiro para comprar um carro, mas que interessava ter de andar a pé se, ao chegar a casa, podia contemplar um sistema amplificador/pré-amplificador com colunas Mission e um belo leitor de cassetes da Nakamichi? Esta paixão audiófila ficará comigo o resto da vida.

Quando as responsabilidades aumentam, somos forçados a deixar de pensar em nós: há outras despesas mais importantes, há o bem-estar de outras pessoas a considerar.

Agora que a minha preciosa aparelhagem se avariou e só consigo ouvir música pelo computador, ainda dou comigo a suspirar pelos tempos em que me sentava no sofá e, num acto quase religioso, me deixava envolver pelos sons tridimensionais do saxofone do John Coltrane e do clarinete-baixo do Eric Dolphy – um à direita, outra à esquerda, o piano ao centro, o contrabaixo quase na nuca, a bateria lá mais atrás, o som ambiente em todo o lado, como se de facto estivesse a assistir ao concerto. Acreditem: a música deve ser dignificada com o melhor sistema de som possível. Vontade não me falta, só me falta o dinheiro.