Carlos Rodrigues, 25 anos, é estudante universitário, administrador de sistemas em part-time e faz parte da equipa do Projecto de Localização do Mozilla para Português. É ele o responsável pelos módulos de tradução do Firefox, talvez a face mais visível do projecto da Mozilla Foundation. Considera, sem surpresa, que “na questão da segurança o Internet Explorer é um autêntico desastre. Em contraste, o Firefox tem sido desenvolvido com o objectivo de ser amigável para com o utilizador, mas nunca esquecendo a segurança”.
Que tem o Firefox assim de tão especial que leve um grupo de portugueses a perder horas a traduzi-lo?
Durante os últimos anos a Microsoft tem dominado sozinha a cena dos browsers. Como em qualquer área onde um jogador adquire uma posição de domínio absoluto, isso tem vindo a ter efeitos perversos ao nível dos princípios que sempre estiveram subjacentes à Internet (interoperabilidade, por exemplo), e à própria experiência do utilizador, que pouco mudou desde os tempos do Internet Explorer 4 (ainda no tempo da “guerra” com a Netscape). O Firefox tem o potencial de mudar esta situação, trazendo alguma frescura a uma área estagnada e isso é uma grande motivação. O caminho para esse objectivo passa por levar o browser ao maior número de utilizadores possível, e isso implica “falar” a língua que as pessoas melhor conhecem. Sendo o Firefox um projecto open-source, aberto à comunidade, nada como meter as mãos à obra e trabalhar para que esteja disponível no nosso português. O nosso trabalho não termina na tradução, também passa por gerir o fórum do nosso projecto, onde os utilizadores podem colocar questões a que tentaremos responder, na medida das nossas possibilidades. E, claro, também “denunciar” os sites portugueses que, por violarem as normas de desenvolvimento para a web, não funcionam correctamente com o Firefox (ou com o seu irmão mais velho, o Mozilla).
O IE sempre foi desenhado com a conveniência acima de qualquer outro aspecto, e a conveniência leva à insegurança. Uma casa sem fechaduras seria conveniente, mas pouco segura
Existe alguma característica do Internet Explorer que possa ser aproveitada?
Em termos de características visíveis, seria mentira se dissesse que não se aproveita nada. Na realidade, a relativa simplicidade da interface do Internet Explorer parece ser um dos seus trunfos, e o Firefox segue o mesmo princípio – permitindo este último, no entanto, ao utilizador sendento de funcionalidades acrescentá-las a gosto, através do vasto leque de extensões disponíveis na web.
Será o Internet Explorer, de facto, um produto antiquado e inseguro?
Na questão da segurança o Internet Explorer é um autêntico desastre. Concerteza muitas pessoas terão as suas histórias de horror relacionadas com vírus e spyware que lhes deixam os computadores de rastos e os assaltam a cada segundo com uma cascata de janelas a propor visitas a sites pornográficos e casinos online. Esta é uma questão bastante interessante e que dá sempre discussões acesas, pois muitas pessoas não hesitarão em dizer que isto só ocorre com o Internet Explorer por este ser um alvo apetecível devido à sua enorme base de utilizadores. E isto é verdade: se o Firefox ganhasse a dimensão do Internet Explorer, decerto se tornaria um alvo também. Mas não é toda a verdade.
Porquê?
O Internet Explorer sempre foi desenhado com a conveniência acima de qualquer outro aspecto, e a conveniência leva à insegurança. Uma casa sem fechaduras seria conveniente, mas muito pouco segura. Os utilizadores mais atentos notarão que as melhorias ao nível da segurança na última versão do Internet Explorer (Windows XP Service Pack 2) vêm a reboque do que já existia em produtos de terceiros, o que demonstra que a segurança não está no topo da lista de afazeres da Microsoft, o que não é nada bom. A segurança é algo que tem de estar sempre presente na consciência de quem desenvolve software, e em particular de quem desenvolve browsers, porque hoje em dia é vulgar serem usados para fins tão melindrosos quanto a banca online. Em contraste, o Firefox tem sido desenvolvido com o objectivo de ser amigável para com o utilizador, mas nunca esquecendo a segurança. Quanto ao IE ser antiquado, é-o certamente em termos de interface e suporte aos padrões da web mais recentes. Não é hoje muito diferente do que era há anos atrás.
Você utiliza o Linux, mas o utilizador comum sente dificuldades. Mesmo em distribuições mais “amigáveis” como a da Mandrake, por exemplo, é ainda complicado instalar um programa; em Windows é incrivelmente fácil. Existem as rpm’s, mas por vezes é preciso resolver dependências de bibliotecas e o utilizador não quer saber disso para nada, quer é o PC a funcionar. Será por isto que o Windows ainda domina o ambiente de trabalho dos computadores?
Esta é uma questão que daria pano para mangas. No mundo do unix (do qual o Linux faz parte) costuma dizer-se: “O unix é amigo do utilizador, mas é picuínhas na escolha dos seus amigos”. Ora, o Linux é actualmente bastante popular em servidores e entre os técnicos e programadores, o que o leva a ser um pouco a imagem desta área: muito eficiente mas com uma curva de aprendizagem um bocado inclinada (um bocado difícil de pegar ao início). No entanto, isto tem vindo a mudar gradualmente, à medida que outros tipos de utilizadores vão sentindo interesse em o experimentar e, ao mesmo tempo, vão começando a transmitir as suas necessidades a quem o desenvolve. Olhando para o dia em que comecei a usar Linux, algures no final de 1997, tenho a noção de que muito mudou, mas ainda há muito a fazer. O Linux é neste momento uma opção para ambientes empresariais onde exista um departamento que se encarregue da instalação e manutenção dos computadores, mas ainda está um pouco longe de poder ser usado em casa dos consumidores, nas mesmas condições em que o Windows é usado hoje em dia.
Há alguma razão técnica para que o Linux não se torne mais fácil?
Não existe nenhuma razão técnica, é simplesmente algo que não acontece da noite para o dia. Aliás, no Mac OS X da Apple, por baixo da sua interface elegante e moderna, existe um unix com princípios de funcionamento muito semelhantes aos do Linux, e onde até se podem encontrar muitas ferramentas comuns a este. Mas a facilidade do Windows também não é assim tão evidente. Para muitas pessoas, instalar (e configurar) software no Windows é uma tarefa nada trivial. No que se refere à questão das dependências de bibliotecas ao instalar software em Linux, esta é uma questão que tem vindo a ser tratada. Por exemplo, no Fedora Core 3 (da Red Hat) é hoje possível ir a um site, clicar num RPM e vê-lo ser instalado, com as dependèncias a serem resolvidas automaticamente, recorrendo a um (ou vários) repositórios de RPMs pré-configurados ou definidos pelo utilizador (é claro que a segurança está sempre presente, e neste processo o utilizador é interrogado sobre se deseja ou não prosseguir com a instalação e é pedida a password do administrador). O Linux pode ainda não estar preparado para “invadir” os PCs dos utilizadores domésticos, mas isso não quer dizer que não tenha chegado já a casa das pessoas. Existem à venda alguns leitores de DVD, pontos de acesso para redes sem fios (os dispositivos da Linksys ou da ASUS são um exemplo disto), entre outros dispositivos, que têm Linux a correr lá dentro. Muitos já têm Linux em casa sem o saberem.





























