Caros senhores da Ensitel: por favor, considerem dar um aumento substancial ao pobre desgraçado que gere a vossa página no Facebook.
O pequenino Titanic Ensitel está a afundar-se no oceano desconhecido das Relações Públicas e do E-Marketing e esse herói tentou durante várias horas conter a inundação de protestos e insultos carregando a água para fora do barco com as próprias mãos.
Defendo um prémio à dedicação desse herói. Ofereçam-lhe um telemóvel que ele possa trocar se tiver problemas. Comprem-no à concorrência, se for preciso. E espero que o pobre tipo não tenha levado na cabeça por ter concluído que seria impossível silenciar a gritaria das redes sociais.
O que se passou? Um conflito entre um cidadão e uma empresa portuguesa por causa de um telemóvel.
A Maria João Nogueira foi relatando a sua experiência negativa com a Ensitel, como milhares de pessoas têm feito no sítio das Queixas com respeito a várias outras empresas (incluindo, obviamente, a Ensitel). Optou por fazê-lo no próprio blogue, ao longo de vários posts.
Uma vez que se trata de um blogue, são textos que exprimem uma visão pessoal do problema – uma opinião. No mundo offline, o caso foi a tribunal e a Maria João perdeu. Dito de outra forma: o tribunal decidiu que a cliente não tinha razão, mas em nenhum momento determinou que teria de mudar de opinião ou estava impedida de falar do assunto. Essas coisas são antiquadas e parece que já não se usam.
A estupidez galáctica da Ensitel não lhe permitiu ver os posts da Maria João Nogueira como a legítima expressão de uma opinião e combatê-los nessa base exigindo, por exemplo, direito de resposta; viu-os como um conjunto de posts difamatórios susceptíveis de prejudicar a boa imagem da empresa.
Assim que o tribunal lhe deu razão, intimidou a ex-cliente a retirar os posts. Por não querer vê-los como artigos de opinião possíveis de rebater de forma transparente, a caquéctica Ensitel já não conseguirá convencer ninguém de que a sua providência judicial é um acto de legítima defesa e que nem por um segundo a baba da censura lhe escorreu pela bocarra.
Como escolher a pior reacção possível
Há três formas de lidar com opiniões desfavoráveis: duas são formas naturais e uma é idiota. Podemos rebatê-las ou ignorá-las – uma reacção normal. Podemos também optar pela idiota: tentar suprimi-las. Ora, querer suprimir uma opinião na Internet é como tentar apagar a imagem de uma pessoa reflectida numa casa de espelhos. Parte-se um e logo outro o substitui.
Chega a meter pena como uma empresa pode crescer como um balão e ver a sua reputação rebentando como um balão.
O caso Wikileaks, as tentativas de supressão do sítio e a batalha que gerou podiam ter servido de lição mesmo aos leigos, mas não.
A Ensitel vende tecnologia, mas não a compreende. Não compreende as relações que gerou. Não compreende a rapidez com que funciona. Vende telemóveis, mas falha em entender que as redes sociais são compostas por milhões de pessoas que diariamente trocam mensagens de forma silenciosa – até ao dia em que resolvem mandar uns gritos todas ao mesmo tempo e o granel se instala, incontrolável.
Poucas palavras conseguem ser mais eficazes a acender o rastilho nas redes sociais do que a palavra censura. Atrás desta palavra vêm outras: fascismo, bullying, prepotência, por aí fora. Décadas de ditadura em Portugal impregnaram no nosso código social e psicológico uma reacção viva e imediata contra quem se deixa cair nessa armadilha e, por ser estúpido e ignorante, passar por reles censor.
A possibilidade de apagar um conjunto de posts muito incómodos torna-se irrelevante, pois entretanto já se multiplicaram. Espalharam a borbulha por todo o lado e agora já não têm mãos para a coçar. Uns génios.
Se eu fosse a Maria João Nogueira estaria agora contente da vida e a disfrutar da minha pequena vingança porque o caso já chegou aos sítios noticiosos dos media tradicionais e revelar-se-á mais dispendioso que um simples telemóvel – mas não tão dispendioso como os entusiastas do poder das redes sociais querem acreditar.
Anda muita gente entusiasmada com o poder que julga ter nas mãos. Acalmem-se lá um bocadinho.
O poder das redes sociais é explosivo mas efémero: 140 caracteres ainda não provocam revoluções, só granel. Dizer mal da Ensitel e defender um cidadão contra a prepotência de uma empresa é justo e entusiasmante, mas em breve os animais e as colheitas das quintinhas do Farmville vão requerer toda a nossa atenção.






























10 comentários
Não percebo porque é que o tipo que gere a página do facebook não se limitou a fazer disable a posts by others… tinha poupado muito trabalho.
Agora é ver se nas notícias das oito aparece alguma coisa sobre isto…
Eu cheira-me que o pobre coitado que gere a pagina do facebook é um estagiário qualquer em part-time, eu duvido seriamente que eles tenham sequer a mínima noção do que são as redes sociais dado o total desconhecimento que demonstraram ter das mais básicas formas de lidar com clientes descontentes.
O poder das redes sociais! Neste caso, o poder negativo!
Caro Msilva, o “poder negativo” como diz, se visto pela óptica “Ensitel”. No extremo oposto, esperemos que o meio empresarial, o comercial, o que lida com o público, e que se esconde atrás de esquemas e estratagemas de resistências à resolução de problemas, aprenda com isto tudo, e por conseguinte, vermos o atendimento e satisfação do cliente melhorar.
Marco, afirmaste que 140 caracteres ainda não fazem uma revolução. Concordo, sem concordar. Eu explico a minha frase contraditória com uma citação de um trecho de uma faixa dos Suicidal Tendencies:
“You can put a bullet in my head, but you can’t kill the word i’ve said – that is revolution”
Saudações a todos
Marco,
? Olha que talvez a maioria dos que andam por lá (Facebook) são pessoas capazes de de ter uma intervenção, opinião e dedicação a uma causa que se sobrepõe a qualquer cultivo virtual. Já no Twitter, 140 caractéres não passam disso mesmo: granel efémero.
Olá ,
Excelente post que lembra que existe uma dimensão off-line e uma dimensão on-line.
E enquanto não houver uma harmonia política, jurídica… entre estas duas dimensões andaremos às aranhas.
Mas é muito provável que nada se faça em favor da união destas duas dimensões.
Dividir para melhor reinar : Não é de hoje !
Até ainda hoje nenhum jurista me soube confirmar se uma petição on-line era válida.
Penso que é um tema que deve ser explorado e esclarecido.
Nuno
E provando que o caso já tem dimensão “viralesca”, até já chegou ao Hitler e tudo…
No site das queixas há várias sobre a Ensitel. Estive a ver as primeiras e o motivo é o mesmo deste caso – não trocam o equipamento no prazo de garantia porque tem um risco.
Isto não faz sentido nenhum. Depois de alguns dias de uso é sempre possível que apareça algum risco. Nunca tinha ouvido dizer que isso impedia a troca por um novo. Já passei por isso (não com a Ensitel) e trocaram à mesma.
http://www.queixas.co.pt/pesquisa.php?pesquisa=ensitel&sel_pesquisa=entidade&x=0&y=0
Bom post..
Mas.. não percebo.. este caso virou mediatico como da noite para o dia, tudo nas redes sociais a bombardear a Ensitel.. por este caso… e a gasolina aumentou e é um mal que nos afecta a todos, quer na gasolina quer nos transportes da alimentação…aumenta vezes sem conta… não pára de aumentar e o povo não tem a mesma atitude… estarei eu errado? Fico indignado com o caso ENSITEL.. mas mais ainda com o povo.. honestamente….
Peço desculpa pelo desabafo.. mas teve que ser
Eu queria mesmo era ver o telemóvel. Não vá ele ter mesmo um risco.