Subjectividade masculina
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‘Meu amor’ logo pela manhã é agradável de ouvir, mas o mundo seria muito mais simples se elas dissessem ‘Meu amo’. O problema do amor é mesmo esse: tem um ‘r’ a mais.
Até os filósofos e os poetas concordam. Zaratustra, que era indiscutivelmente um gajo persa, arranhou em pleno século VII a.C. as seguintes palavras
A mulher deve adorar o homem como a um Deus. Todas as manhãs, por nove vezes consecutivas, deve ajoelhar-se aos pés do marido e, de braços cruzados sobre o peito, perguntar-lhe: ‘Senhor, que desejais que eu faça?’
Tão lindo! Zaratustra era mais do que um gajo persa, era um gajo persa visionário. Aproveito para formular um desejo do fundo do meu coração: que as ideias progressistas deste notável poeta e filósofo possam um dia ser adoptadas neste mundo obscuro.
Enquanto a hora da libertação não surge e a mulher se esquiva à luz do macho, vamos depositando as nossas esperanças numa simples letra. Pobre letra, que se sujeita a tantos maus-tratos.
As mulheres são muito impacientes em relação ao ‘r’ e têm tendência a recriminá-lo porque, ao saltar da palavra amor, julgam que o ‘r’ está a fugir às suas responsabilidades.
É muito injusto, miúdas. Passar do amor para a adoração incondicional ao macho é, em si, uma grande responsabilidade. E responsabilidade também começa com ‘r’. Não se trata de uma mera coincidência. Nunca subestimem o poder do R. Não se diz o ‘Sei da Relva’, diz-se ‘O Rei da Selva’ – e há bons motivos para que estas coisas sejam assim. A César o que é de César. Se o nome de César começasse com ‘r’ (em vez de acabar), dificilmente se teria deixado apunhalar pelos senadores.
O ‘r’ ajuda-nos a cumprir um desígnio cósmico que vem dos tempos em que Eva trincava maçãs. Homem que é homem desconfia sempre de frutos que contenham um ‘c’ de cedilha. À nossa Eva, contudo, aquela cedilha no ‘c’ deve ter parecido um brinco ou um brinde do Bolo-Rei. Adão era na altura um inocente, mas os seus descendentes sabem agora que uma característica comum às Evas é a irresistível atracção por tudo o que se pode pendurar.
Eva não soube estar quieta junto ao seu homem. Foi logo coscuvilhar com a serpente. Se calhar bebeu uns copos com a cobra, grande galdéria. Saiu Eva e regressou Uva. Lá está. Escolheu as letras erradas. Se tivesse a sensatez de Adão ainda hoje estaríamos todos a fazer nudismo nas praias do Paraíso e não usávamos blogues para nos provocar uns aos outros. Eva caiu em tentação e Adão zangou-se com ela, e com razão – foi o primeiro de muitos homens a zangarem-se com razão. Aliás, foi assim que Adão ficou com um ‘til’ em cima do ‘a’: Eva provocou-lhe as primeiras rugas na testa.
As mulheres são cruéis. Amor, amo? Estamos a falar de um ‘r’ minúsculo, raparigas. Tenham calma. Se ainda fosse um ‘r’ maiúsculo, poder-se-ia dizer ‘Pronto, é um R grande, sabe-se defender.’ Agora o ‘r’ do amor é uma coisa pequenina. Quase indefesa. Tadinha da letra. É para mimar, não é para bater. É para abraçar e dar beijinhos, não é para dar palmadas.
O ‘r’ minúsculo deve ser levado a sério, não é um filhote de cão que se castiga quando faz xixi fora do penico e se recompensa com umas festinhas quando acerta. Se a fêmea não cuida da dignidade do macho latino, quem cuidará?
Em resposta ao desafio do companheiro d’ além-mar Sérgio Grigoletto
























Estou a ver que já melhoraste.
E voltaste com o bom humor do costume!
Este texto é lindo, vou dizer algumas destas coisas à minha namorada… as coisas vão mudar! Não sei é se será para o bem ou para o mal, mas não podem acusar um gajo de tentar.
Gostei mesmo.
Muito bom.
Ora bolas, ninguém agarrou a provocação
Tenho andado com este post debaixo de olho, para ver se alguém se pega por aqui, mas não