→ 06/12/2006 @11:52

Só de olhar para este post fico arrepiado

Tenho medo de melgas. É verdade. Não estou a brincar. O melhor é fazer uma declaração mais formal para que possa ser levado a sério:

«Eu, Marco, BI número tantos, blá blá, blá, gajo de 1,83 de altura e 80 e tal quilos de peso, declaro solenemente que só a testosterona no meu corpo me impede de dar um gritinho de pita histérica quando vejo uma melga a organizar um piquenique nas minhas veias.»

De onde vem esta pancada já não sei dizer. Trauma de infância? Não faço ideia. Se o meu vizinho de cima fosse o Freud talvez pudesse subir as escadas, bater-lhe à porta e pedir uma explicação.
- Doutor Freud, desculpe lá incomodá-lo.
- Não tenho nenhum pacote de açúcar a mais que lhe possa dispensar, lamento.
- Não, é que eu tenho medo de melgas…
- Ah! Porque é que não me disse isso antes? Faça favor de entrar!
- Não é preciso, é só porque eu não consigo encontrar uma explicação…
- A culpa é da sua mãe.
- Perdão?
- Nas histórias policiais a culpa é sempre do mordomo, nas histórias psicanalíticas a culpa é sempre da mãe. É uma lei da vida, rapaz. Vá-se habituando.
- Coitada, apanhava um desgosto se soubesse!
É um caso típico: por causa da sua mãe galinha você tem medo das mulheres – acha que elas lhe sugam a liberdade como as melgas lhe sugam o sangue. Está a ver a associação?
- Hum… Acho que não.
- A melga simboliza a figura feminina opressiva. Isto é tão óbvio que até enjoa o meu cérebro de cientista. As longas patas fazem lembrar as pernas altas e esguias de uma mulher. Tipo Paris Hilton, mas mais inteligente e expressiva. Quando roçam as asas durante o voo, produzem então aquele som muito peculiar que pode ser comparado a uma mulher a fazer-lhe queixas ao ouvido.
Não fiquei muito convencido com a explicação.
- Então tenho medo de melgas porque tive uma mãe galinha?
- Exactamente.
- Desculpe mas isso são animais a mais.
- Verifico que o senhor está num processo de negação, mas eu sei muito bem do que estou a falar. Se reparar bem – Freud estendeu as mãos, que se assemelhavam agora a enormes e peludas patas de insecto – eu sou um mosquito. E dos grandes!
Os olhos do psicanalista dilataram-se. A boca transformou-se numa trompa. Das costas brotaram duas asas nojentas, as antenas viscosas na cabeça a empurrar-me para dentro de casa. Estendeu-me uma pata para me cumprimentar. – Freud, da sub-ordem de insectos Nematocera, pertencente à família Culicidae. Muito prazer.
Eu pirei-me pelas escadas abaixo.
- Não se acanhe, vizinho! – Gritou o Freud insecto. – Faça favor de entrar e deite-se ali no divã.
- Não, obrigado – respondi, ofegante.
- Olhe que as minhas melgas estão ansiosas por conhecê-lo!

Estão a ver o que as melgas podem fazer a um gajo. Têm até o poder de transformar uma figura austera como o doutor Freud em personagem de filme de terror rasca. Bem, o que vale é que nestas histórias há sempre um amigo com quem podemos desabafar.
- Tenho medo de melgas, pá.
- Hã?
- Tenho medo de melgas.
- Maricas.
- Deixa-te de merdas.
- Mariquinhas. Não tens vergonha?
- Olha pá, não era propriamente isso que eu queria ouvir…
- A próxima vez que formos jogar à bola no campo vou dizer ao pessoal todo que tens medo de melgas. O Marco tem medo de melgas, o Marco é maricas, o Marco tem medo de melgas, o Marco é maricas!
- Tá calado, porra, ainda te enfio um murro no focinho se não falas mais baixo.

Dado que nem a Ciência nem os amigos resolvem o problema, uma pessoa recorre aos Céus, ajoelhando-se humildemente perante o criador do imenso Cosmos e confessando as angústias ao seu minúsculo porta-voz na Terra.
- Senhor padre, tenho uma confissão a fazer.
- Como disse?
- Uma confissão a fazer!
- Faça o favor de falar um bocadinho mais alto, chiça!
Não é fácil fazê-lo quando estão mais pessoas atrás de mim à espera de se confessar. Afinal quando um tipo vai a uma caixa multibanco também tapa o ecrã.
- Tenho uma confissão a fazer! – gritei eu.
- Pois então se isto é um confessionário não veio aqui jogar às cartas! O menino reze três Pais Nossos e peça ao Senhor que lhe dê mais discernimento. Vai bem assim ou não?

Não há maneira de perceber como começou esta paranóia. Terá sido daquela vez em que vi o tecto do meu quarto salpicado de melgas? Lembro-me bem dessa noite: passei-a enfiado debaixo dos cobertores, enquanto lá fora aqueles bombardeiros Stuka biológicos ligavam as sirenes e se lançavam em voo picado sobre mim.
Terá sido naquela ocasião em que estava na cama a ler um livro aos quadradinhos e uma melga com patas de girafa foi poisar mesmo em cima do menir do Obélix, fazendo-me saltar como um romano e gritar como um bardo?
Se olharem pela janela do meu quarto e notarem um gajo aos saltos em cima da cama, de cuecas, com um chinelo na mão e o olhar esgazeado, não estranhem! Não pensem que sou adepto de qualquer bizarro jogo sexual envolvendo camas, chinelos e webcams – trata-se apenas de um gajo com idade para ter juízo que não descansa enquanto não esmagar todas as melgas que encontrar no quarto.

Se és melga e estás a ler este post, põe-te a pau, pá, e não te metas comigo: sou um fucking exterminador implacável. And I’ ll be baque.

2 comentários

  • 1
    com Internet Explorer 6.0 Internet Explorer 6.0 em Windows XP Windows XP
    6 de Abril de 2007 - 23:10 | Link permamente

    Teu teclado está com defeito? Passaste o post inteiro a escrever MELGA, MELGA, MELGA…e querias é claro dizer BELGA, BELGA, BELGA…
    Hercule Poirot te perdoa.

  • 2
    anaeugenio
    com Internet Explorer 7.0 Internet Explorer 7.0 em Windows XP Windows XP
    15 de Dezembro de 2007 - 15:47 | Link permamente

    tu não tens medo de melgas :cool: se tivesses eras incapaz de as matar :wink: tu tens medo de alguma coisa que associas às melgas. e tens uma imaginação prodigiosa :lol: este é um bom exemplo (é inócuo) para tentar explicar-te porque é que “entender o que acontece é o menos importante. só se aprende o que se sente”. relaxa. desacelera os neurónios :smile: vamos partir do princípio que não consegues parar de tentar entender o teu medo das melgas (não o considero importante, é apenas um bom exemplo). queres entender para quê? para teres uma explicação? e o que é que se resolve na tua vida por saberes explicar? deixas de matar as melgas? é por isso que o “entender” é raramento o importante. o importante é notarmos o que sentimos. há muitas coisas que posso explicar às pessoas (é fácil direccionarmos a nossa lucidez para a vida dos outros) e nada muda porque, naquele momento, elas são incapaz de sentir a vida de outro modo. o importante não é entenderes o medo das melgas. é entenderes até que ponto és capaz de deixar de as matar. saberes porque tens medo é uma explicação mental. a tua necessidade de as matar é o que tu sentes. e por muito que encontres uma explicação, não resolve o modo como ages. “só se aprende o que se sente” é o reconhecimento das nossas limitações. a nossa cabeça pode entender todas as possibilidades. “aprender a sentir” é reconhecer aquelas que são reais em nós :wink: