
Tenho medo de melgas. É verdade. Não estou a brincar. O melhor é fazer uma declaração mais formal para que possa ser levado a sério:
«Eu, Marco, BI número tantos, blá blá, blá, gajo de 1,83 de altura e 80 e tal quilos de peso, declaro solenemente que só a testosterona no meu corpo me impede de dar um gritinho de pita histérica quando vejo uma melga a organizar um piquenique nas minhas veias.»
De onde vem esta pancada já não sei dizer. Trauma de infância? Não faço ideia. Se o meu vizinho de cima fosse o Freud talvez pudesse subir as escadas, bater-lhe à porta e pedir uma explicação.
- Doutor Freud, desculpe lá incomodá-lo.
- Não tenho nenhum pacote de açúcar a mais que lhe possa dispensar, lamento.
- Não, é que eu tenho medo de melgas…
- Ah! Porque é que não me disse isso antes? Faça favor de entrar!
- Não é preciso, é só porque eu não consigo encontrar uma explicação…
- A culpa é da sua mãe.
- Perdão?
- Nas histórias policiais a culpa é sempre do mordomo, nas histórias psicanalíticas a culpa é sempre da mãe. É uma lei da vida, rapaz. Vá-se habituando.
- Coitada, apanhava um desgosto se soubesse!
É um caso típico: por causa da sua mãe galinha você tem medo das mulheres – acha que elas lhe sugam a liberdade como as melgas lhe sugam o sangue. Está a ver a associação?
- Hum… Acho que não.
- A melga simboliza a figura feminina opressiva. Isto é tão óbvio que até enjoa o meu cérebro de cientista. As longas patas fazem lembrar as pernas altas e esguias de uma mulher. Tipo Paris Hilton, mas mais inteligente e expressiva. Quando roçam as asas durante o voo, produzem então aquele som muito peculiar que pode ser comparado a uma mulher a fazer-lhe queixas ao ouvido.
Não fiquei muito convencido com a explicação.
- Então tenho medo de melgas porque tive uma mãe galinha?
- Exactamente.
- Desculpe mas isso são animais a mais.
- Verifico que o senhor está num processo de negação, mas eu sei muito bem do que estou a falar. Se reparar bem – Freud estendeu as mãos, que se assemelhavam agora a enormes e peludas patas de insecto – eu sou um mosquito. E dos grandes!
Os olhos do psicanalista dilataram-se. A boca transformou-se numa trompa. Das costas brotaram duas asas nojentas, as antenas viscosas na cabeça a empurrar-me para dentro de casa. Estendeu-me uma pata para me cumprimentar. – Freud, da sub-ordem de insectos Nematocera, pertencente à família Culicidae. Muito prazer.
Eu pirei-me pelas escadas abaixo.
- Não se acanhe, vizinho! – Gritou o Freud insecto. – Faça favor de entrar e deite-se ali no divã.
- Não, obrigado – respondi, ofegante.
- Olhe que as minhas melgas estão ansiosas por conhecê-lo!
Estão a ver o que as melgas podem fazer a um gajo. Têm até o poder de transformar uma figura austera como o doutor Freud em personagem de filme de terror rasca. Bem, o que vale é que nestas histórias há sempre um amigo com quem podemos desabafar.
- Tenho medo de melgas, pá.
- Hã?
- Tenho medo de melgas.
- Maricas.
- Deixa-te de merdas.
- Mariquinhas. Não tens vergonha?
- Olha pá, não era propriamente isso que eu queria ouvir…
- A próxima vez que formos jogar à bola no campo vou dizer ao pessoal todo que tens medo de melgas. O Marco tem medo de melgas, o Marco é maricas, o Marco tem medo de melgas, o Marco é maricas!
- Tá calado, porra, ainda te enfio um murro no focinho se não falas mais baixo.
Dado que nem a Ciência nem os amigos resolvem o problema, uma pessoa recorre aos Céus, ajoelhando-se humildemente perante o criador do imenso Cosmos e confessando as angústias ao seu minúsculo porta-voz na Terra.
- Senhor padre, tenho uma confissão a fazer.
- Como disse?
- Uma confissão a fazer!
- Faça o favor de falar um bocadinho mais alto, chiça!
Não é fácil fazê-lo quando estão mais pessoas atrás de mim à espera de se confessar. Afinal quando um tipo vai a uma caixa multibanco também tapa o ecrã.
- Tenho uma confissão a fazer! – gritei eu.
- Pois então se isto é um confessionário não veio aqui jogar às cartas! O menino reze três Pais Nossos e peça ao Senhor que lhe dê mais discernimento. Vai bem assim ou não?
Não há maneira de perceber como começou esta paranóia. Terá sido daquela vez em que vi o tecto do meu quarto salpicado de melgas? Lembro-me bem dessa noite: passei-a enfiado debaixo dos cobertores, enquanto lá fora aqueles bombardeiros Stuka biológicos ligavam as sirenes e se lançavam em voo picado sobre mim.
Terá sido naquela ocasião em que estava na cama a ler um livro aos quadradinhos e uma melga com patas de girafa foi poisar mesmo em cima do menir do Obélix, fazendo-me saltar como um romano e gritar como um bardo?
Se olharem pela janela do meu quarto e notarem um gajo aos saltos em cima da cama, de cuecas, com um chinelo na mão e o olhar esgazeado, não estranhem! Não pensem que sou adepto de qualquer bizarro jogo sexual envolvendo camas, chinelos e webcams – trata-se apenas de um gajo com idade para ter juízo que não descansa enquanto não esmagar todas as melgas que encontrar no quarto.
Se és melga e estás a ler este post, põe-te a pau, pá, e não te metas comigo: sou um fucking exterminador implacável. And I’ ll be baque.






























2 comentários
Teu teclado está com defeito? Passaste o post inteiro a escrever MELGA, MELGA, MELGA…e querias é claro dizer BELGA, BELGA, BELGA…
Hercule Poirot te perdoa.
tu não tens medo de melgas
se tivesses eras incapaz de as matar
tu tens medo de alguma coisa que associas às melgas. e tens uma imaginação prodigiosa
este é um bom exemplo (é inócuo) para tentar explicar-te porque é que “entender o que acontece é o menos importante. só se aprende o que se sente”. relaxa. desacelera os neurónios
vamos partir do princípio que não consegues parar de tentar entender o teu medo das melgas (não o considero importante, é apenas um bom exemplo). queres entender para quê? para teres uma explicação? e o que é que se resolve na tua vida por saberes explicar? deixas de matar as melgas? é por isso que o “entender” é raramento o importante. o importante é notarmos o que sentimos. há muitas coisas que posso explicar às pessoas (é fácil direccionarmos a nossa lucidez para a vida dos outros) e nada muda porque, naquele momento, elas são incapaz de sentir a vida de outro modo. o importante não é entenderes o medo das melgas. é entenderes até que ponto és capaz de deixar de as matar. saberes porque tens medo é uma explicação mental. a tua necessidade de as matar é o que tu sentes. e por muito que encontres uma explicação, não resolve o modo como ages. “só se aprende o que se sente” é o reconhecimento das nossas limitações. a nossa cabeça pode entender todas as possibilidades. “aprender a sentir” é reconhecer aquelas que são reais em nós