Se fores realmente mau, mas mesmo mau, vais parar ao Inferno. O Inferno não é como o metropolitano de Lisboa, é mais arejado, embora se assemelhe a uma esplanada subterrânea frequentada por demónios. As pessoas que se portam mal na Terra são obrigadas a ir para lá trabalhar como empregados de mesa.
Ao mesmo tempo que servem às mesas, os condenados ardem para toda a eternidade numa dor tão indescritível que até os adjectivos são feitos em cinzas. De vez em quando chegam notícias do Paraíso, só para picar (as forquilhas estão equipadas com uma espécie de rádio-transmissor) e ouvem-se histórias sobre uma esplanada muito mais agradável onde os clientes consultam os jornais desportivos, bebem um café e até costumam dar boas gorjetas.
No Inferno usa-se um tipo especial de fogo, não um fogo que arde sem se ver, como dizia Camões, que por acaso era cego de um olho e sabia muito bem do que estava a falar, mas um fogo que queima sem matar, como o bagaço.
Isto é muito estranho porque quando se diz que uma pessoa vai parar ao Inferno, parte-se do princípio de que só faz a viagem depois de morrer. Se estivesse viva, a pessoa não estaria no Inferno mas na Terra. E na Terra, como se sabe, o fogo arde, é visível e mata.
Quando morremos só nos sobra a alma. Pelo menos é o que se diz e não sou eu que vou agora desmentir verdades absolutas. Mas dado que a alma é insubstancial, incorpórea e não está sujeita às leis da Física, não vejo como será possível que o fogo a afecte.
A não ser que o fogo, que é um fenómeno físico, possua propriedades completamente diferentes no Inferno e seja tão insubstancial como a alma. Se é assim, então porque razão continuam a chamar-lhe fogo? Será que o Inferno é apenas uma alegoria, uma versão mais hardcore da Alegoria da Caverna, de Platão? Se o Inferno é uma alegoria, será que o Céu não será também outra alegoria?
Até porque não estou a ver que Satanás, o grande mafioso, se deixe ficar a vegetar. Admito que para um gajo como ele seja divertido assistir à queima dos condenados, mas depois de muitos milhares de anos até o Diabo se deve aborrecer por estar sempre a ouvir a mesma gritaria. E não existem provas documentais de que alguma vez tenha descido à Terra para gamar uns auscultadores. Gamou-nos uns chifres, sim, mas auscultadores? Nunca ouvi falar. Satanás tem uma série de diabinhos e demónios a quem pode delegar funções, pelo menos é o que dizem, mas até aqueles podem ser tocados pelo stress e ficar afectados. E depois? Ficamos por ali a arder em auto-gestão? Não há ninguém para tomar conta do nosso sofrimento eterno?
Não, meus amigos, aqui há gato.






























6 comentários
Porra e depois chama-me de “descompensado”, “desproporcionado”, “desemquadrado”, diz “qualquer coisa”!
Agora mexer com “Cristianismo”, é mesma coisa que eu mexer no Benfica! Inferno com eles e não tens que levar a mal, como eu tenho que levar a mal esse eu Soarismo! Foda-se!
Morri.. deves ter levado muito a sério o “Diurno” do “qualquer coisa Vigilante” da Noite!….
Não percebes?
No particular eu explico. Eu não te reconheço… Cdê o Marco Paulo?
Ok, escusa! Vamos ter duelo…
Se O Afonso Henriques me der “carta de chamada” eu passo a fronteira de Santarem e apresento-me ate ao dia das mentiras com o meu exercito devidamente dragonizado e pronto a enfrentar os policias desses postos fronteiriços. A 5ª coluna marchará sobre Lisbia aós o duelo Belga! Põe-te a pau ou cacete. Vou-te enfiar numa tripa à moda do glorioso PORTO!
Kê, estão no “entretanto”? No “satisfazer-me sexualmente”?
Mudos e surdos, ok! Espero 24H após o vosso voto de silêncio Arrábico. Desejo um protestante para enfrentar! O que me vai na alma? NÃO! Kê deles? Bem, o outro dizia e com razão, lá vem este consporcar o blogue! Eu respondo… sem razão! Peneirento, quem ousa!
Ouso parar por aqui… ninguém ousará enfrentar-me…
PT4-BE0
marco, como dizia o poeta “sou ateu, graças a deus”, mas voltar à fonte da maior parte do nosso imaginário de ocidentais no que tem a ver com o tal fogo de que falas, pode ser um passo interessante. não estou a falar da bíblia, em que faltam descrições mais específicas sobre a dita “geêna” (não sei a transcrição em português), mas sim da divina comédia de dante alighieri. no seu inferno está a chave para perceber não só a diferença entre fogo que arde e mata fisicamente e fogo que arde e não mata porque já estamos mortos, como também aquele limite muito subtil entre metáfora e dogma. o facto de algumas metáforas e alegorias, como a de dante, e dante, se terem transformado em dogmas, não é senão produto da ignorância e da vontade de reduzir conceitos altíssimos a níveis ínfimos. mesmo sendo cristão, dante não era, como muitas vezes se diz, um homem da idade média, pois ao ascetismo preferia a razão e até os seus excessos. bom, tudo isto para dizer que sim, trata-se de metáforas e alegorias, mas também os sítios que a poesia toca quando enfia o dedo dentro da alma são reais como o fogo, mas incorpóreos como o inferno, porque pertencem ao universo da palavra, e a palavra é som, isto é algo que não se toca, não se vê, que podemos no máximo representar, ou usar como instrumento. como dizia hegel, a realidade existe só no momento e pelo facto de a gente a pronunciar.
No inferno trabalha-se, no céu consome-se.
Nos inícios do ano 1600, uma das maiores preocupações da Igreja transformou-se na discussão que provocou grande entusiasmo naquela época: calcular as dimensões do inferno. O número dos seus “hóspedes potenciais” poderia tornar-se uma alternativa válida para avaliar as suas dimensões.
Não conheço os resultados desse trabalho apesar de não terem grande importância. Mas, tanto a questão dos hóspedes potenciais como a da superfície que ocupariam, poderiam ser formuladas como problemas contemporâneos. No entanto, teríamos que efectuar algumas modificações. Nenhuma das pessoas que obteria um passaporte imediato para o inferno deveria ser catalogada como malvada no mundo actual, teria antes de ser classificada como um típico ser humano pós-moderno, simpático, light, liberal, poderoso e infinitamente hipócrita.
O paradoxo está em que aqueles que se encontram actualmente a ocupar um lugar no inferno não reúnem nenhuma das qualidades descritas: Os nossos moradores seriam algo assim como os deserdados da globalização.
Sugestão para uma boa leitura: Vicente Romano, A formação da Mentalidade submissa , Deriva Editores, Porto, 2006, 165 pgs., ISBN 972-9250-20-0.
Ainda uma pergunta: Se as pessoas que morrem hoje já vão para o céu ou para o inferno de fogo atormentador, por que terá Deus de realizar um juízo final? Afinal de contas já não estão todos julgados?
Deus terá sempre a última palavra, mas sempre cabem recursos…
Aqui no Brasil, em todo e qualquer assunto, tenha ele ou não a maior gravidade, tenha ou não sido exaustivamente comprovada alguma culpabilidade, SEMPRE CABERÁ UM PRÓXIMO RECURSO.Então o inferno aqui é v. inculpar alguém, mesmo com sobras de provas e indícios, ou receber o benefício de um julgamento anulado com justeza…o Céu é quando v. morre e fica sabendo que as notícias boas chegaram…depois do seu passamento. Grande consôlo!