6/Março/2009

José Eduardo Martins é o nosso Mickey Rourke

No plenário de ontem à tarde da Assembleia da República o deputado e vice-presidente do Grupo Parlamentar do PSD José Eduardo Martins «destemperou-se» quando o socialista Afonso Candal se lhe dirigiu nos seguintes termos: «Ó senhor deputado, eu sei que a sua preocupação são os contribuintes, eu sei, eu sei, eu sei que piamente esses são os seus interesses, são os contribuintes, mas já agora deixaremos essas suas preocupações profundas para outra altura».

José Eduardo Martins sentiu-se ofendido com «uma insinuação não concretizada sobre contribuintes e interesses» e mandou-o «pó caralho, pá» repetidas vezes. «Se queres falar assim comigo falamos lá fora» e «baixa mas é a bolinha» foram duas outras declarações perceptíveis a quem viu o telejornal da TVI. («Baixa mas é a bolinha» é uma expressão que também uso muito, sobretudo durante os jogos do Benfica. Porra que estou farto de os ver a dar pontapés para a frente!)

Hoje José Eduardo Martins reconheceu o seu lapsus linguae e pediu desculpa aos outros 228 deputados, mas deixou de fora Afonso Candal. «A ele com certeza que não peço desculpas, a menos que queira fazer o favor de concretizar a insinuação que fez». Admiro esta atitude: quando alguém manda outra pessoa pó caralho, fica mal retractar-se logo no dia a seguir. É como se a intenção tivesse sido a de dizer ‘bora aí tomar um cafezinho. É uma questão de coerência.

Não é habitual no Parlamento ouvir-se observações semelhantes às que se lêem todos os dias no sítio do Jornal Público, mas da próxima vez que o assunto em discussão for ainda mais «quente» do que um painel solar, basta verificar se José Eduardo Martins está envolvido.

Não é primeira vez que o homem se destempera. Já se referira a Sócrates com um «é mesmo palhaço» durante o debate parlamentar sobre o caso Freeport – a autoria desta afirmação nunca foi confirmada (ou desmentida) pelo deputado.

A eloquência de José Eduardo Martins ainda não obteve o reconhecimento que merece porque, infelizmente para ele e alguns psicopatas que comentam nos sítios dos jornais, o parlamento português ainda não é um ringue de wrestling. E é pena. Jornalistas, cronistas e analistas políticos não teriam hesitado em louvar o deputado como «o Mickey Rourke de Viana do Castelo» – sem as partes lacrimejantes.
Senhoras e senhores, eis então José Eduardo Martins com uma guedelha enorme, um manto de testosterona cobrindo os ombros, braços no ar, sapato triunfante sobre as trombas do vilão socialista derrotado por uma gravata mortífera, és grande és grande, o nosso wrestler agradece o apoio dos colegas de bancada que aplaudem e gritam é mesmo palhaço, é mesmo palhaço.


Como intervir na Assembleia com a mesma pujança

É notável que um político fale desta maneira, portanto se alguns de vocês aspiram a uma carreira de sucesso como deputado têm de considerar alguns pormenores.

Vamos partir do exemplo que José Eduardo Martins tão generosamente nos forneceu. Estão prontos? Para compreender melhor por que razão considero a intervenção daquele deputado tão pedagógica, terão de fazer um pequeno exercício em voz alta. Experimentem – no tom mais zangado e exaltado que vos for possível – dizer a seguinte frase: «Deputado Afonso Candal, vai para o caralho».

Não pega, não é? Soa a falso. Quando um português se zanga a sério não deixa que a gramática e a ortografia sejam obstáculos. O vai para o caralho transforma-se, assim, num vai pó caralho, como tão bem nos ensina José Eduardo Martins.

Esta parte do é muito importante. Prestem atenção, por favor. É preciso dizê-lo com convicção e pujança, pó!, como se estivéssemos a dar um soco no focinho do outro: Vai pó! caralho, estão a ver?

Se possível tentem dizer pó! ao mesmo tempo que esticam o dedo indicador. Se desejarem obter um efeito mais dramático, poderão prolongar o som do ó (Vai póóóóó! caralho) enquanto levantam o braço e esticam o dedo. Façam de conta que o indicador é um ponto de exclamação e tentem outra vez: Vai pó! caralho. Projectem a voz como fazem os cantores de ópera ou os lutadores de wrestling. Pó! Que tal? Já fica outra coisa, não acham?

Agora é preciso ensaiar o . Não se esqueçam que a frase completa é vai pó caralho, pá. O também é importante porque define de forma rigorosa e sucinta a nossa opinião sobre a individualidade do opositor. Não podemos dizer com neutralidade, é preciso dar-lhe algum significado.

, de acordo com o dicionário da Priberam, «é um termo onomatopeico para exprimir o som da queda de um corpo ou o choque de um corpo». Digam então como se descrevessem o momento em que o opositor se transforma numa pintura de arte moderna depois de cair de um prédio de trinta andares. Se optarem por esta abordagem mais intelectual, podem dizer este como quem diz ficaste tão espalmado como a Guernica, é bem feita ó meu palhaço de merda. Se preferirem uma abordagem mais psicológica, podem experimentar o «» com o ar de desprezo de quem diz és tão insignificante que nem nome tens, és um pá no meio de uma data de pázinhos, ouviste ó pá, enfim, qualquer coisa deste género.

Repitam o exercício várias vezes ao dia, não esmoreçam, sejam sempre dedicados – um dia poderão também contribuir para que a Assembleia da República continue a ser a casa digna e elevada onde todos os dias trabalham de forma incansável os representantes eleitos pelo povo. Boa sorte!

7 respostas | José Eduardo Martins é o nosso Mickey Rourke
  1. Aristodemos fez-se à net com Firefox 3.0.7 Firefox 3.0.7 em Windows XP Windows XP

    Quando fizeste a referência ao Mickey Rourke pensei que fosse pelos dotes de oratória.
    http://www.youtube.com/watch?v=og3tN7P6oKI

  2. pataponi fez-se à net com Firefox 3.0.6 Firefox 3.0.6 em Windows Vista Windows Vista

    Caro Marco Santos

    Sou militante do PSD muito antes deste senhor ter nascido e ontem mesmo enviei um email para o conselho jurísdico do partido porque não admito, numa época em que o PSD tem que ser oposição e não jardim de infância, que um deputado do meu partido se comporte como este senhor se comportou no parlamento português.

    Este senhor para mim devia ser convidado e resignar-se do seu cargo e nunca mais seria lhe dado acesso a elevados cargos. E mais lhe digo, vou até às últimas consequências.

  3. Aristodemos fez-se à net com Firefox 3.0.7 Firefox 3.0.7 em Windows XP Windows XP

    patatoni se querem oposição de jeito deviam era manter esse e correr com os outros todos. :mrgreen:

  4. Marco Santos fez-se à net com Firefox 3.0.7 Firefox 3.0.7 em Windows XP Windows XP

    Caro Pataponi, tenho o maior respeito pela sua posição.

  5. cafonso fez-se à net com Firefox 3.0.7 Firefox 3.0.7 em Windows XP Windows XP

    Há muitos anos, tinha eu 6 ou 7 (há 40 ou 39 anos portanto) recebemos uma carta onde no nome do meu pai estava uma palavra com uma sobrecarga a preto (censura). Devido à aplicação defeituosa podia ver-se por baixo que o remetente se tinha enganado ao escrever o apelido car(v)alho.

    Na assembleia o tal deputado do PSD parecia um garoto não parecia ter nascido no ano da tal carta.

    Não consigo entender como é que alguém manda baixar a bolinha, entre pares e com uma diferença de idades (Candal – Martins )tão baixa (2 anitos em 40 não são nada de especial). A outra expressão usada faz-me lembrar as expressões de garotos na primária, não me lembro de ouvir aquele tipo de expressão no liceu (é ainda andem nessas coisas).

    Não faço a mínima ideia do que é que os seus colegas de escritório terão a dizer de alguém tão conhecedor do vernáculo.

  6. farinha_ fez-se à net com Firefox 3.0.7 Firefox 3.0.7 em Windows XP Windows XP

    Oi malta. Este deputado é uma comédia. Desculpem ao pessoal da direita mas o homem espelha o desespero do nosso querido PSD. O maior partido de oposição está morto de ideias e, acima de tudo, morto de personagens! Não têm figuras, figuras que transmitam segurança, confiança, personalidade, – mesmo que seja só aparência, já seria alguma coisa… -! Livra se queria esses gajos a governar o meu país! O único social democrata que se continua a safar – e muito bem, na minha opinião – é o Rui Rio. O resto é para esquecer. O PSD assim não vai lá e só não vê isso quem não ker :evil:

    Para primeiro comentário, tou um pouco “armado-ao-pingarelho”, eu sei, foi como acordei :wink:

    Marco, gosto do teu blog. É mesmo interessante, actual e divertido :-)

    Abraço

  7. João Sousa fez-se à net com Safari 4.0 Safari 4.0 em Windows XP Windows XP

    Vou-me limitar a reescrever o comentário que já fiz num outro blogue:

    José Eduardo Martins não disse nada que eu não tenha dito ao ver os telejornais, ainda por cima sendo Candal o personagem que é. Contudo, considero que dizer “Candal vai pró c…” na Assembleia da República é desprestigiante. Deveria ter optado por: “Ide Sua Excelência pró c…”. Ou, se quisermos ser um pouco mais poéticos: “Ide Sua Excelência para o membro viril”.