Nós sen­ti­mo-nos sem­pre mais jovens do que real­men­te somos. Trago den­tro de mim pró­prio os meus ros­tos ante­ri­o­res, tal como a árvo­re con­tém os seus anéis. A soma deles sou eu. O espe­lho ape­nas vê o meu ros­to mais recen­te, enquan­to que eu conhe­ço todos os meus ros­tos ante­ri­o­res.

Tomas Transtromer


Tom Hussey

Tom Hussey

Tom Hussey

Tom Hussey

Tom Hussey

Tom Hussey

Tom Hussey

Tom Hussey

Tom Hussey

Tom Hussey

Tom Hussey

Tom Hussey

Tom Hussey

Tom Hussey

Nascemos, cres­ce­mos, enve­lhe­ce­mos e mor­re­mos — com algu­ma sor­te, pelo meio ain­da che­ga­mos a viver. A difi­cul­da­de em con­ci­li­ar uma Natureza impi­e­do­sa que tan­to cei­fa a víti­ma como o fací­no­ra com o nos­so apu­ra­do sen­ti­do de autoim­por­tân­cia, levou-nos a cri­ar um sis­te­ma de cren­ças. E essas cren­ças asse­gu­ram-nos que as leis do Universo podem ser adul­te­ra­das ou eli­mi­na­das a nos­so favor.

Afinal somos espe­ci­ais. Somos mui­to esper­tos. Temos uma cons­ci­ên­cia de nós mes­mos que nenhum ser vivo na Terra tem. A nos­sa inte­li­gên­cia pare­ce-nos tão espe­ci­al que nos dá a ilu­são de ocu­par­mos um lugar apar­te no Universo. Tudo nas­ce e mor­re — até o pró­prio Universo, pos­si­vel­men­te. Mas nós, não.

A mor­te bio­ló­gi­ca não é o nos­so fim. O nos­so cor­po é ape­nas um invó­lu­cro bio­ló­gi­co de outro cor­po. Este cor­po é ima­te­ri­al e intan­gí­vel. É a alma. 

Tudo o que somos e sen­ti­mos — as nos­sas memó­ri­as, amo­res, pai­xões, sau­da­des, desi­lu­sões — está con­ti­do num órgão cha­ma­do cére­bro e em 86 milhões de neu­ró­ni­os conec­ta­dos entre si. Mas, por pre­ci­sar­mos deses­pe­ra­da­men­te de exis­tir e reco­nhe­cer que exis­ti­mos, acre­di­ta­mos que o desa­pa­re­ci­men­to do cére­bro não impli­ca o desa­pa­re­ci­men­to da nos­sa iden­ti­da­de.

Daqui a cen­te­nas, milha­res de anos, tal­vez um milhão, se con­se­guir­mos sobre­vi­ver à nos­sa pró­pria estu­pi­dez, a Ciência des­co­bri­rá uma for­ma de nos man­ter vivos eter­na­men­te. Acabar-se-á o sono eter­no. Começará a Era da Insónia. Deus dei­xa­rá de ser neces­sá­rio e aca­ba­rá por mor­rer de tédio.

Talvez nes­se futu­ro lon­gín­quo che­gue­mos à con­clu­são de que viver para sem­pre não é assim tão impor­tan­te. Ou tal­vez o nos­so des­ti­no seja o de nos tor­nar­mos deu­ses — não atra­vés da Religião, mas atra­vés do enten­di­men­to do mun­do físi­co que só a Ciência nos dá.

Tom Hussey e a surpresa de viver

Até lá, vamos enve­lhe­cen­do, con­de­na­dos a con­tem­plar a nos­sa mor­ta­li­da­de ao espe­lho. Às vezes vamo-nos habi­tu­an­do e acei­ta­mos o ine­vi­tá­vel, outras somos sur­pre­en­di­dos.

Num cer­to dia, o fotó­gra­fo ame­ri­ca­no Tom Hussey conhe­ceu um des­ses homens apa­nha­dos de sur­pre­sa pela pas­sa­gem do tem­po. Era um vete­ra­no da II Guerra Mundial. Tinha 80 anos e recu­sa­va-se a acei­tar a ida­de do cor­po por se sen­tir ain­da men­tal­men­te jovem.

Eis mais uma das par­ti­das do nos­so cére­bro: acre­di­tar que a men­te está sepa­ra­da do cor­po, como se o que pen­sa­mos e sen­ti­mos pudes­se sobre­vi­ver à mor­te físi­ca. Tom Hussey teve então a ideia de cri­ar uma série de foto­gra­fi­as para ilus­trar esta sepa­ra­ção.

Hussey foto­gra­fa pes­so­as con­tem­plan­do as suas ver­sões mais jovens com cari­nho e gene­ro­si­da­de. Apesar da óbvia ence­na­ção em algu­mas, não dei­xa de ser uma série como­ve­do­ra de fotos: mais tar­de ou mais cedo, todos con­tem­pla­re­mos os vári­os ros­tos do nos­so pas­sa­do com sau­da­de ou algu­ma tris­te­za, saben­do que não pode­mos vol­tar atrás.

Alguns sen­tir-se-ão ten­ta­dos a dizer umas quan­tas ver­da­des aos jovens ros­tos refle­ti­dos nos espe­lhos, saben­do mui­to bem que nun­ca pode­rão ser ouvi­dos. Outros con­tem­pla­rão os espe­lhos com a cons­ci­ên­cia de que con­se­gui­ram fazer exa­ta­men­te aqui­lo que, ao prin­cí­pio, tinham medo de fazer. E, assim, vive­ram.

Até nos tor­na­mos deu­ses, não pode­mos espe­rar mui­to mais. E já é mui­to.

Tom Hussey

Marco Santos

­ Marco Santos

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