O que até há alguns anos era um último recurso — afastar a máquina fotográfica tanto quanto o braço permitia, por ausência de alguém fisicamente próximo para fazer o retrato no enquadramento desejado — passou a assumir-se como uma tipologia de fotografia autónoma do retrato propriamente dito.

A «selfie» não é nova, mas ganhou contornos de moda e, por vezes, de verdadeira loucura.

Suponho que esta moda venha a parecer aos nossos descendentes, daqui por 200 anos, tão estranha como hoje nos parece aquela que na Inglaterra vitoriana colocava mortos e vivos num mesmo retrato. Refiro-me à fotografia post-mortem, essa bizarria que se encontra simultaneamente longe e perto da selfie deste início de século e milénio.

Criticar e julgar a selfie como conceito e quem as faz como prática é tão irritante como percorrer os corredores de um monumento subitamente invadido por varetas com telefones acoplados. E por isso aviso desde já que não pretendo atacar (nem tão-pouco defender) a selfie.

O desafio, que este post naturalmente não resolverá, é entender por que razão fomos, enquanto espécie, infetados pelo vírus do auto-retrato compulsivo.

Robert Cornelius e a selfie primordial

Em defesa da selfie há quem lembre que a mãe de todas elas foi feita por Robert Cornelius em 1839, quando a fotografia era um mistério para a esmagadora maioria dos seres viventes à face da terra. Seguiram-se muitas e boas selfies, parte das quais têm hoje um valor histórico que ultrapassa largamente a sua qualidade intrínseca.

Robert Cornelius

Robert Cornelius

De resto confesso-me fã do género quando nele é visível uma intenção artística ou documental que ultrapassa o mero registo de circunstância, imediatamente partilhado, arquivado e esquecido no buraco negro das redes sociais.

Gosto por exemplo das selfies de Vasco Szinetar ou aquelas do meu Beatle preferido, George Harrison. Também gosto das selfies raras, como aquelas registadas pela meia-dúzia de homens que aproveitaram viagens espaciais com cenários raros atrás de si, ou as inesperadas, como as de Stanley Kubrick.

Vasco Szinetar

Vasco Szinetar e Jorge Luis Borges fotografados por Vasco Szinetar

Vasco Szinetar

Vasco Szinetar e Gabriel García Márquez

George Harrison na Índia

George Harrison na Índia

Stanley Kubrick

Stanley Kubrick em 1949

É a selfie de Harrison, a de Kubrick ou aquela feita por Buzz Aldrin em 1966 mais legítima do que outra registada há minutos por um ilustre anónimo junto à Torre Belém? A resposta parece-me óbvia e — fintando a costumeira casca de banana lançada por Bill O’Reilly aos seus infelizes entrevistados — não reside na dicotomia Sim/Não.

Auto-retrato ou auto-ilusão?

O auto-retrato é tradição artística com muitos séculos de existência e aquilo que o distingue da «selfie» é a natureza fundamentalmente intrínseca que o motiva.

Quando Escher criou uma litografia de si próprio refletido numa esfera não tinha em mente partilhar o auto-retrato segundos mais tarde nas redes sociais, as quais de resto ainda não existiam em 1935. A natureza reflexiva do auto-retrato é, neste caso, dupla: plástica e intelectual. Escher observou-se demoradamente e quando terminou o seu próprio retrato estaria mais consciente de si.

A esmagadora maioria dos auto-retratos digitais comummente designados como «selfies» não obedecem a nenhum critério artístico nem documental duradouro, nem contribuem para um maior e melhor conhecimento de si (o que de resto não tem mal nenhum).

A «selfie» não é verdadeiramente um auto-retrato. Quando o tenta ser, não retrata o próprio de forma profunda, assume-se antes como um género de registo de circunstância em que o retratado se pretende colocar.

Na generalidade das «selfies», o retratado é tão ele mesmo como o cachimbo de Magritte no seu célebre quadro de 1928-1929 («A traição das imagens») é um cachimbo.

Roland Barthes, que se referiu ao foto-retrato em «Câmara Clara» como um campo de forças opostas, estaria muito longe de imaginar o fenómeno da selfie do século XXI quando escreveu que perante a câmara o retratado já não é ele mesmo mas algo de diferente: «a partir do momento em que me sinto olhado pela objetiva tudo muda».

O próprio traído por uma selfie

Alguns dos leitores que tiverem chegado a este ponto estarão a interrogar-se acerca do interesse de tanta prosa. «Selfies» são «selfies», pronto. Têm o interesse quotidiano da bica ou, para aqueles que fumam, do cigarro depois das refeições. Certo?

Permito-me discordar. Num tempo em que a fotografia se democratizou, generalizou e vulgarizou — revelando aos mais atentos a dificuldade em produzir fotografias, incluindo retratos e auto-retratos com verdadeira qualidade e originalidade — creio que importa compreender a «selfie» como uma forma de expressão artística (mais conseguida por vezes, ridiculamente vazia noutras tantas) profundamente enraizada no seu tempo quanto à quantidade, contexto e forma de difusão que lhe estão associadas.

Divyakant Solanki

Foto: Divyakant Solanki

A «selfie» é a expressão digital do olhar do ser humano sobre si mesmo, e a forma como nos olhamos é profundamente reveladora de quem somos, individual e coletivamente.

Ao fotografar-se compulsiva e repetidamente nas mais diversas circunstâncias da vida, ao partilhar furiosamente as fotografias dessas mesmas circunstâncias, o ser humano é traído pela imagem que de si vai formando, como Narciso à beira da água.

O grau da traição é naturalmente variável, sendo na minha perspectiva muito mais determinado pelo entendimento que se tem da «selfie» – e do seu lugar na formação da auto e da hétero-imagem – do que o número e a partilha deste tipo de auto-retratos.

O auto-retrato (registado e partilhado) influi na criação de uma auto e hétero-imagem do próprio. O ser é capturado pela imagem digital que criou de si próprio tornando-se já não uma representação mas antes uma simulação de si.

A nitidez desfocada da simulação moderna

Kubrick, a filha e um Jack Nicholson desfocado

Kubrick, a filha e Jack Nicholson durante as filmagens de «The Shining»

Na sua obra mais conhecida – «Simulacros e simulação» – Jean Braudillard explicita a diferença entre simulação e fingimento, conceitos que não raras vezes são associados à chamada «auto-imagem residual» (a «residual self-image» referida por Morpheus a Neo no primeiro dos filmes da série Matrix).

O fingimento encontra-se associado a uma certa forma de representação enquanto a simulação requer a assimilação – pelo menos parcial – pelo próprio das características simuladas. Cito Braudillard, procurando clarificar os conceitos:

«Dissimular é fingir não ter o que se tem. Simular é fingir ter o que não se tem. O primeiro refere-se a uma presença, o segundo a uma ausência. (…) fingir, ou dissimular, deixam intacto o princípio da realidade (…) enquanto que a simulação põe em causa a diferença entre verdadeiro e falso».

A «selfie» enquadra-se nos mecanismos de simulação, aqueles que com ou sem intenção colocam o próprio retratado num cenário de difusa e cada vez mais ambígua diferenciação entre o real e o falso, entre a sua vida-vivida e a sua vida-desejada.

A partilha, ou seja, a disponibilização de registo pessoal a terceiros, formaliza e confere credibilidade a esta forma de simulação da auto e da hétero-imagem, determinando em cada vez mais larga medida a existência, da mesma forma que as pequenas — ainda que impercetíveis — rugosidades da pele das mãos alteram o curso deslizante de uma gota de água em direção ao centro da terra (Ian Malcolm dixit, em célebre diálogo do primeiro dos filmes da série Jurassic Park).

Compreendê-lo é essencial.

Rui Vasco Silva

­ Rui Vasco Silva

Psicólogo não praticante, pai apaixonado, namorado descarado, belenense nas horas vagas.