Estamos a 9 de ja­nei­ro e já te­nho a cer­te­za que es­ta fo­to ti­ra­da na pas­sa­gem de ano em Manchester fa­rá par­te das lis­tas com as me­lho­res de 2016.

É fo­to­jor­na­lis­mo no seu me­lhor. Um da­que­les ra­ros e pre­ci­o­sos mo­men­tos da vi­da de um fo­tó­gra­fo em que ta­len­to, ex­pe­ri­ên­cia, sor­te e cir­cuns­tân­cia se com­bi­nam pa­ra cri­ar uma pe­que­na obra-prima. E não é só de­vi­do ao fan­tás­ti­co cro­mo em des­ta­que.

Tanta coi­sa acon­te­ce em si­mul­tâ­neo na fo­to que pa­re­ce es­tar­mos a ob­ser­var uma pin­tu­ra em que o ar­tis­ta de­di­cou to­do o tem­po que de­se­jou a cri­ar e apri­mo­rar mi­ría­des de de­ta­lhes.

O caneco dá-te vida

Joel Goodman, o au­tor da fo­to, bem po­de es­tar gra­to ao ho­mem de meia-idade es­ten­di­do no chão. A po­se, a ex­pres­são do ros­to, a bar­ri­gui­nha re­bel­de e a pró­pria si­tu­a­ção em que se en­con­tra são tão hi­la­ri­an­tes que tor­nam a fo­to es­pe­ci­al a um pri­mei­ro olhar.

Reparem bem no cro­mo: glo­ri­o­sa­men­te per­di­do de bê­ba­do, estica-se pre­gui­ço­sa­men­te pa­ra o ca­ne­co co­mo se fos­se um des­per­ta­dor nu­ma segunda-feira de ma­nhã. A pro­pó­si­to, eis a Internet em ação:

Três memes para uma foto memorável

Três me­mes pa­ra uma fo­to me­mo­rá­vel

Mesmo ao la­do do ho­mem in­di­fe­ren­te a tu­do — me­nos à cer­ve­ja — um ou­tro dra­ma de fi­nal de ano se de­sen­ro­la: um ho­mem é imo­bi­li­za­do no chão pe­la po­lí­cia en­quan­to a na­mo­ra­da pro­tes­ta, com ele ou com os agen­tes, não se sa­be. Outra dis­cu­te com a po­lí­cia.

Ao fun­do, um gru­po de pes­so­as ob­ser­va a ce­na cau­te­lo­sa­men­te. Um de­les per­ma­ne­ce de cos­tas pa­ra a ação co­mo se já es­ti­ves­se far­to de pre­sen­ci­ar fi­gu­ras tris­tes — ou tal­vez es­ti­ves­se com me­do de ser re­co­nhe­ci­do. A ca­da olhar, descobre-se um no­vo por­me­nor ou inventa-se o que não se sa­be, só por di­ver­ti­men­to. Em ci­ma, uma pla­ca na pa­re­de diz: «Well Street».

Joel Goodman/Manchester Evening News

Joel Goodman/Manchester Evening News

A fo­to foi pu­bli­ca­da na ma­nhã se­guin­te no sí­tio do Manchester Evening News e tornou-se vi­ral quan­do um edi­tor da BBC a par­ti­lhou no Twitter.

Goodman diz que é ape­nas o tí­pi­co ca­so de es­tar no sí­tio cer­to à ho­ra cer­ta, o co­nhe­ci­do «mo­men­to de­ci­si­vo» de Cartier-Bresson, mas a ver­da­de é que se al­guém te­ria pos­si­bi­li­da­des de con­se­guir uma fo­to as­sim era ele.

A sorte protege os audazes. E os bons fotógrafos

Há oi­to anos que ti­ra fo­to­gra­fi­as des­tes fes­te­jos caó­ti­cos nas ru­as de Manchester, tan­to em tra­ba­lho co­mo por pu­ro de­lei­te pes­so­al. Conhece a área, as ru­as, ca­da can­to, por is­so en­qua­drar o que viu foi pu­ro ins­tin­to: focou-se nos po­lí­ci­as e na pla­ca que ele já sa­bia ali exis­tir, e cli­cou.

«O que tor­na a fo­to ape­la­ti­va é o fac­to de mos­trar vá­ri­as his­tó­ri­as a acon­te­cer ao mes­mo tem­po» — ex­pli­ca Goodman ao Manchester Evening News. — «Não se tor­na can­sa­ti­va co­mo um me­me ou uma his­tó­ria vi­ral. Vemo-la pe­la se­gun­da ou ter­cei­ra vez e des­co­bri­mos coi­sas no­vas. O fac­to de ser uma com­po­si­ção vi­su­al­men­te agra­dá­vel tam­bém aju­da. E tam­bém ti­ve um bo­ca­di­nho de sor­te.»

Marco Santos

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