O dia do Amor incondicional
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Esta foto do francês Jean Marc Bouju, vencedora do World Press Photo 2003, não é uma escolha fortuita. Hoje é o Dia do Pai.
O que esta imagem nos mostra hoje é a força extraordinariamente poderosa do Amor. Quando comemoramos este dia, é a existência do Amor e de tudo o que não pode ser comprado que celebramos; é o amor incondicional por um filho, esperando que esse amor possa ser sempre aceite e compreendido até ao fim das nossas vidas – por ele, que também amará assim, e por nós, que também somos filhos.
O gesto de amor e protecção deste pai de cara coberta por um capuz – «insurgente» de guerra, possível terrorista iraquiano – desfaz a insensatez e a loucura assassina da guerra e da violência, pois coloca o nosso próprio rosto dentro daquele capuz. Temos o deserto, o pó, a sujidade e a miséria, um país distante de gente distante, o Iraque, mas nada disso conta quando a nossa humanidade luta para se libertar do arame farpado com que legiões de cínicos e falcões de guerra procuram cercar o nosso idealismo e compaixão, chamando-lhe ingenuidade e fraqueza. É notável que uma foto nos mostre e diga tanto.
Quando o fotógrafo captou a cena não viu aquela criança em pânico, viu outra, a própria filha de quatro anos: «Não pude deixar de imaginar a minha própria pequenina, a Lauren, que tem a mesma idade do miúdo, nessa situação», contou mais tarde numa entrevista para a World Press Photo. «Pensei muito nisso antes, durante e depois de tirar a foto. A imagem não nos mostra armas, soldados ou sangue, mas uma verdade da guerra: a de que esta não afecta apenas os soldados que a travam ou os políticos que a ordenam».
A foto foi tirada a 31 de Março de 2003, em Najaf, num campo de concentração improvisado. Jean Marc Bouju estava com a 101º Brigada Aerotransportada do Exército dos Estados Unidos quando recebeu notícias de que um grupo de prisioneiros iria ser transferido para o campo. Eram trinta e tinham sido capturados por outra unidade, pelo que ninguém sabia se eram combatentes ou civis.
O que chamou a atenção do fotógrafo foi a presença de uma criança no grupo. O pai fora capturado com o filho e os soldados optaram por trazer a criança para não a deixar sozinha no deserto. Quando chegaram a Najaf, fizeram o habitual: algemaram-nos e enfiaram-lhes os capuzes, depositando o grupo no interior de um anel de arame farpado.
Aos quatro anos a maior referência da criança são os pais: ninguém deve parecer mais forte ou invencível a seus olhos. O tamanho do mundo é muitas vezes determinado pelo olhar dos pais, são estes os construtores das primeiras fundações. Esse mundo deve ter desabado quando viu o pai tão assustado e indefeso.
A criança entrou em pânico, chorando convulsivamente. Foi então que um soldado tomou a iniciativa de tirar as algemas de plástico das mãos do pai, para que este pudesse abraçá-lo e acalmá-lo. «Pude então ouvir o homem murmurando palavras de consolo em árabe. A compaixão do soldado e o amor daquele pai comoveram-me».
Jean Marc Bouju nunca soube o que lhes aconteceu. Terão sobrevivido, mas todos os dias os telejornais nos dizem que o pó, a sujidade, a miséria e as cercas de arame farpado continuarão durante muito tempo. Os militares estavam em trânsito, o seu trabalho era acompanhá-los, portanto não conseguiu sequer descobrir-lhes os nomes e perdeu-lhes o rasto. Deixou-nos assim a imagem do amor incondicional, capaz de inspirar um gesto de compaixão em tempo de guerra. Aquele pai somos nós e o soldado que lhe libertou as mãos; aquela criança é a nossa, mas também foi a dele.
























Marco,
Excelente a associação desta foto ao Dia do Pai.
).
Eu próprio já a mencionei 3 vezes no meu blog, mas nunca fiz essa associação (deve ser por isso que uns são excelentes escritores e outros… aprendizes de feiticeiro toda a vida
Adiante… de facto, a foto, é absolotamente comovedora.
Mostra-nos o pior e o melhor da Condição Humana.
A solidão, a terrível solidão daquela criança (especialmente) e daquele pai, batem-nos no peito com a força de uma locomotiva.
Vá lá, que houve um soldade com uma sensibilidade acima da média, que permitiu ao pai consolar o filho, dando tudo de si, estando também a precisar para ele.
Mas é como dizes: é um Amor Incondicional.
Pouco conhecemos do amor incondicional.
Amor que cala, amor que consola, amor que acalma, simples amor!!!
Há uma frase dita por Chico Xavier, a qual já comentei em meu blog e deixo aqui para compartilhar com outros:
“Quem sabe pode muito, quem ama pode mais!”
O conhecimento nos favorece no modo de agir, mas é pelo sentimento que somos conduzimos ao nosso próprio bem estar.
Linda foto, lindas palavras!!
inteh
Nâna
Xau, que linda foto e que lindas palavras!
Sou um recente visitante teu, mas que concerteza te acompanharei por muito tempo.
Infelizmente, somo obrigados a nos lembrar de que neste mesmo dia dos pais, Josef Fritzl, conhecido como o monstro de Amstetten por ter feito o que fez com a filha e filhos netos, foi condenado a pena de prisão perpétua.
Em contraposição a foto e às palavras uma questão que me aflige: este, o caso de Josef Fritzl, é um exemplo de ódio incondicional ou do mesmo sentimento que leva ao cativeiro o objeto de amor? Para que não seja de mais ninguém aquilo que é tão precioso, único, filha ou filho …?
Incompreensível e indescritível é o amor, bem como todo o tipo de paixão que nos conduz, de olhos tapados felizes na ignorância, a fazermos qualquer coisa para satisfaze-lo, mesmo que para isto tenhamos que colocar o objeto de nosso amor por trás de grades, arames, paredes, caixões … conjecturas.
Desculpe-me se, aparentemente, entorpeço a poesia. Não é esta a intensão. Mas sim colaborar com mais um pouco de contradição a estética, por ser ela, a contradição, que proporciona noções como a beleza e/ou a poesia, até mesmo a esta foto.
Que venham mais contradições…
Há meses que ando a tentar comentá-lo sem conseguir registar-me.
Por milagre, hoje lá consegui.
Só para lhe dizer que este foi sem dúvida o post mais emocionante do Dia do Pai que li.
Marco Santos,
enquadrado no Dia do Pai, terá sido o melhor texto que li a esse respeito.
Fora desse contexto, escrevi em tempos isto “A fotografia é a arma mais poderosa que existe no mundo” e depois de ter lido este texto, fiquei com a certeza de me ter esquecido de falar de uma grande fotografia.
Cumprimentos
É preciso ter sangue-frio para captar uma imagem destas…
Está sensacional.
@bluewater68: excelente post o teu.