19/Março/2009

O dia do Amor incondicional

Jean Marc Bouju

Esta foto do francês Jean Marc Bouju, vencedora do World Press Photo 2003, não é uma escolha fortuita. Hoje é o Dia do Pai.

O que esta imagem nos mostra hoje é a força extraordinariamente poderosa do Amor. Quando comemoramos este dia, é a existência do Amor e de tudo o que não pode ser comprado que celebramos; é o amor incondicional por um filho, esperando que esse amor possa ser sempre aceite e compreendido até ao fim das nossas vidas – por ele, que também amará assim, e por nós, que também somos filhos.

O gesto de amor e protecção deste pai de cara coberta por um capuz – «insurgente» de guerra, possível terrorista iraquiano – desfaz a insensatez e a loucura assassina da guerra e da violência, pois coloca o nosso próprio rosto dentro daquele capuz. Temos o deserto, o pó, a sujidade e a miséria, um país distante de gente distante, o Iraque, mas nada disso conta quando a nossa humanidade luta para se libertar do arame farpado com que legiões de cínicos e falcões de guerra procuram cercar o nosso idealismo e compaixão, chamando-lhe ingenuidade e fraqueza. É notável que uma foto nos mostre e diga tanto.

Quando o fotógrafo captou a cena não viu aquela criança em pânico, viu outra, a própria filha de quatro anos: «Não pude deixar de imaginar a minha própria pequenina, a Lauren, que tem a mesma idade do miúdo, nessa situação», contou mais tarde numa entrevista para a World Press Photo. «Pensei muito nisso antes, durante e depois de tirar a foto. A imagem não nos mostra armas, soldados ou sangue, mas uma verdade da guerra: a de que esta não afecta apenas os soldados que a travam ou os políticos que a ordenam».

A foto foi tirada a 31 de Março de 2003, em Najaf, num campo de concentração improvisado. Jean Marc Bouju estava com a 101º Brigada Aerotransportada do Exército dos Estados Unidos quando recebeu notícias de que um grupo de prisioneiros iria ser transferido para o campo. Eram trinta e tinham sido capturados por outra unidade, pelo que ninguém sabia se eram combatentes ou civis.

O que chamou a atenção do fotógrafo foi a presença de uma criança no grupo. O pai fora capturado com o filho e os soldados optaram por trazer a criança para não a deixar sozinha no deserto. Quando chegaram a Najaf, fizeram o habitual: algemaram-nos e enfiaram-lhes os capuzes, depositando o grupo no interior de um anel de arame farpado.

Aos quatro anos a maior referência da criança são os pais: ninguém deve parecer mais forte ou invencível a seus olhos. O tamanho do mundo é muitas vezes determinado pelo olhar dos pais, são estes os construtores das primeiras fundações. Esse mundo deve ter desabado quando viu o pai tão assustado e indefeso.

A criança entrou em pânico, chorando convulsivamente. Foi então que um soldado tomou a iniciativa de tirar as algemas de plástico das mãos do pai, para que este pudesse abraçá-lo e acalmá-lo. «Pude então ouvir o homem murmurando palavras de consolo em árabe. A compaixão do soldado e o amor daquele pai comoveram-me».

Jean Marc Bouju nunca soube o que lhes aconteceu. Terão sobrevivido, mas todos os dias os telejornais nos dizem que o pó, a sujidade, a miséria e as cercas de arame farpado continuarão durante muito tempo. Os militares estavam em trânsito, o seu trabalho era acompanhá-los, portanto não conseguiu sequer descobrir-lhes os nomes e perdeu-lhes o rasto. Deixou-nos assim a imagem do amor incondicional, capaz de inspirar um gesto de compaixão em tempo de guerra. Aquele pai somos nós e o soldado que lhe libertou as mãos; aquela criança é a nossa, mas também foi a dele.

8 respostas | O dia do Amor incondicional
  1. gamito fez-se à net com Firefox 3.0.7 Firefox 3.0.7 em Windows Vista Windows Vista

    Marco,

    Excelente a associação desta foto ao Dia do Pai.
    Eu próprio já a mencionei 3 vezes no meu blog, mas nunca fiz essa associação (deve ser por isso que uns são excelentes escritores e outros… aprendizes de feiticeiro toda a vida :( ).

    Adiante… de facto, a foto, é absolotamente comovedora.
    Mostra-nos o pior e o melhor da Condição Humana.
    A solidão, a terrível solidão daquela criança (especialmente) e daquele pai, batem-nos no peito com a força de uma locomotiva.

    Vá lá, que houve um soldade com uma sensibilidade acima da média, que permitiu ao pai consolar o filho, dando tudo de si, estando também a precisar para ele.

    Mas é como dizes: é um Amor Incondicional.

  2. nana pessoa fez-se à net com Internet Explorer 7.0 Internet Explorer 7.0 em Windows XP Windows XP

    Pouco conhecemos do amor incondicional.
    Amor que cala, amor que consola, amor que acalma, simples amor!!!
    Há uma frase dita por Chico Xavier, a qual já comentei em meu blog e deixo aqui para compartilhar com outros:
    “Quem sabe pode muito, quem ama pode mais!”
    O conhecimento nos favorece no modo de agir, mas é pelo sentimento que somos conduzimos ao nosso próprio bem estar.
    Linda foto, lindas palavras!!
    inteh
    Nâna

  3. thesubsidal fez-se à net com Google Chrome 1.0.154.48 Google Chrome 1.0.154.48 em Windows XP Windows XP

    Xau, que linda foto e que lindas palavras!
    Sou um recente visitante teu, mas que concerteza te acompanharei por muito tempo.

  4. gavezdois fez-se à net com Firefox 3.0.7 Firefox 3.0.7 em Fedora 10 Fedora 10

    Infelizmente, somo obrigados a nos lembrar de que neste mesmo dia dos pais, Josef Fritzl, conhecido como o monstro de Amstetten por ter feito o que fez com a filha e filhos netos, foi condenado a pena de prisão perpétua.

    Em contraposição a foto e às palavras uma questão que me aflige: este, o caso de Josef Fritzl, é um exemplo de ódio incondicional ou do mesmo sentimento que leva ao cativeiro o objeto de amor? Para que não seja de mais ninguém aquilo que é tão precioso, único, filha ou filho …?

    Incompreensível e indescritível é o amor, bem como todo o tipo de paixão que nos conduz, de olhos tapados felizes na ignorância, a fazermos qualquer coisa para satisfaze-lo, mesmo que para isto tenhamos que colocar o objeto de nosso amor por trás de grades, arames, paredes, caixões … conjecturas.

    Desculpe-me se, aparentemente, entorpeço a poesia. Não é esta a intensão. Mas sim colaborar com mais um pouco de contradição a estética, por ser ela, a contradição, que proporciona noções como a beleza e/ou a poesia, até mesmo a esta foto.

    Que venham mais contradições… :D

  5. BlueVelvet fez-se à net com Firefox 3.0.7 Firefox 3.0.7 em Windows XP Windows XP

    Há meses que ando a tentar comentá-lo sem conseguir registar-me. :oops:
    Por milagre, hoje lá consegui.
    Só para lhe dizer que este foi sem dúvida o post mais emocionante do Dia do Pai que li.

  6. bluewater68 fez-se à net com Internet Explorer 8.0 Internet Explorer 8.0 em Windows Vista Windows Vista

    Marco Santos,
    enquadrado no Dia do Pai, terá sido o melhor texto que li a esse respeito.
    Fora desse contexto, escrevi em tempos isto “A fotografia é a arma mais poderosa que existe no mundo” e depois de ter lido este texto, fiquei com a certeza de me ter esquecido de falar de uma grande fotografia.
    Cumprimentos

  7. Nuno fez-se à net com Firefox 3.0.7 Firefox 3.0.7 em Windows XP Windows XP

    É preciso ter sangue-frio para captar uma imagem destas…
    Está sensacional. :)

  8. Marco Santos fez-se à net com Firefox 3.0.7 Firefox 3.0.7 em Windows Vista Windows Vista

    @bluewater68: excelente post o teu.