→ 26/09/2006 @2:31

O casalinho mistério

Esta é uma das fotos mais célebres do mundo. Foi conseguida pelo lendário fotojornalista Alfred Eisenstaedt (1898-1995) a 15 de Agosto de 1945, no dia em que se comemorava a vitória dos Aliados na II Guerra Mundial.

As recordações de Eisenstaedt são muito precisas: «Estava na Times Square e reparei num marinheiro que andava a agarrar todas as miúdas por quem passava. Fui atrás dele enquanto ia olhando para trás do ombro. Então, de repente, numa fracção de tempo, vi qualquer coisa branca a ser agarrada. Virei-me e cliquei no momento em que o marinheiro beijava a rapariga. Tirei exactamente quatro fotos. Foram conseguidas em poucos segundos.»

A foto transformou-se em símbolo de uma época porque um beijo bastou para resumir três importantes eventos verificados a partir de 1945: a vitória aliada, o regresso a casa de muitos milhares de soldados e o chamado baby boom – período imediatamente a seguir ao termo da II Grande Guerra Mundial e durante o qual se verificou um crescimento exponencial da taxa de natalidade.

À medida que os anos foram passando, a foto começou a atrair outro tipo de atenções. Pretendia-se agora conhecer a identidade do marinheiro e da enfermeira. Afinal ninguém sabia quem eram os protagonistas de uma das fotos mais famosas do século.

A caça ao casal iniciou-se quase 35 anos depois do acontecimento. Em 1980, uma edição da revista Life Magazine – onde Alfred Eisenstaedt trabalhava – julgou ter resolvido o mistério quando o próprio fotógrafo recebeu uma carta da enfermeira Edith Shain, então com 62 anos: «Sou eu. Nunca o assumi publicamente porque podia colocar-me numa posição pouco digna. Mas agora os tempos mudaram» – escreveu Edith.

Deliciado, Eisenstaedt voou para Beverly Hills ao encontro dela. Edith estava já com 62 anos, era avó, professora num Jardim Infantil e enfermeira em part-time. O fotógrafo não duvidou da veracidade do testemunho e considerou-a muito «viva e amável».

A revista Life publicou a história, juntamente com um pedido para que o marinheiro se identificasse e desse também a cara. A resposta foi imediata: onze homens reclamaram ser eles os beijoqueiros da foto – e, surpresa, duas mulheres asseguraram terem sido elas as beijadas.

Greta Friedman, uma das que deu a cara para reclamar o troféu, não duvidou da palavra da primeira candidata Edith: «Com certeza que ela esteve lá nesse dia e foi beijada. Quase todas as mulheres foram agarradas e beijadas por homens em uniforme. Mas eu reconheço-me naquela foto. A forma do meu corpo. Usava assim o cabelo apanhado. Tinha uma bolsa na mão igual. E lembro-me bem de ter sido beijada por um marinheiro. »

Apesar destas reivindicações, foi sempre um dado mais ou menos garantido que a mulher da foto era, de facto, a professora de 62 anos. A própria Edith desvalorizou a importância da foto para a sua vida: «O Sol nasce, o Sol põe-se. Não muda nada. Nem foi grande coisa» – disse ela ao fotógrafo. «Afinal meninas bonitas recebem sempre mais do que um único beijo, não é?»

Aquele, o da foto, descreveu-o como «um bom beijo, longo. Fechei os olhos e não resisti. Às vezes penso que se não estivesse acompanhada com uma amiga talvez tivesse ficado ali». Sobre a qualidade da imagem tirada por Eisenstaedt: «Foi uma num milhão. Conseguiu captar duas figuras numa posição muito elegante, como se fossem esculturas.»

 

Caça ao beijoqueiro

George Mendonsa aceitou sujeitar-se a vários testes biométricos na Mitsubishi Electric Research Laboratories para provar que era ele o marinheiro da foto. Os resultados – usando sofisticadas técnicas de digitalização facial em 3D – deram-lhe razão, mas as opiniões não são unânimes.

A mais importante é a da própria Edith Shain, a enfermeira beijada, que reconheceu outro homem – Carl S. Muscarello – como o marinheiro do beijo. Na foto em baixo, tirada em 1995, os dois recriam o famoso momento.

Recriando o famoso beijoIdentificar o marinheiro foi uma tarefa muito mais complicada. Onze se apresentaram – e a revista foi incapaz de decidir qual deles era o verdadeiro. A política oficial da Life Magazine passou a ser, a partir daí e até hoje, ignorar o assunto.

Todos podiam estar a dizer a verdade porque, naquele dia louco, os soldados beijavam raparigas na rua sem pedir licença. Perdidos os negativos e as notas que tirou naquele dia, Eisenstaedt foi também incapaz de se decidir.

Um deles chegou a ser identificado pela própria Edith – um ex-polícia de Nova Iorque chamado Carl S. Muscarello.

Os dois chegaram a juntar-se em programas de televisão, autografando cópias da famosa foto.

Pequeno senão: a Life Magazine afirmou de imediato que o processo de identificação do marinheiro nunca fora concluído pelos seus peritos – «provavelmente nunca o será» – e rejeitou Muscarello.

Uma investigação encomendada em 2004 pelo Naval War College (NWC) à MERT [Mitsubishi Electric Research Laboratories] permitiu chegar a uma conclusão diferente: usando as últimas tecnologias de digitalização facial em 3D existentes, e aplicando-as à foto, a empresa identificou o marinheiro como sendo George Mendonsa, um pescador reformado de Newport.

A sofisticação tecnológica não conta a história toda – pelo menos para algumas pessoas.

O site Kissingsailor.com desafia-nos a conhecer a história de Ken McNeel, o «verdadeiro» marinheiro da foto, e a tomar contacto com «provas cabais» destas afirmações.

A identidade do marinheiro permanece ainda um mistério por resolver: o coração e a memória de Edith Shain, a mulher beijada, escolheram Carl S. Muscarello; a ciência optou por George Mendonsa. Mais de 70 anos depois, «eu ainda não posso explicar aquele beijo» – afirma Mendonsa. – «Acho que foi uma combinação de várias coisas: a alegria do momento, os copos e o meu fraquinho por enfermeiras». É uma explicação plausível.