→ 09/07/2007 @18:41

Fotos que mudaram a Guerra do Vietname [2]

A morte de Jeffrey Miller

4 de Maio de 1970 é o dia em que muitos americanos descobrem que a América é capaz de assassinar os seus próprios filhos.

John Filo, estudante de fotografia, capta a imagem de Jeffrey Miller, 20 anos, estudante como ele, morto pela Guarda Nacional durante um protesto não-autorizado contra a decisão de Nixon de enviar tropas para o Cambodja. Há mais três mortos e nove feridos nesse dia, todos estudantes.

O ângulo em que a foto é tirada poupa-nos à visão do rosto desfeito de Miller, atingido com uma bala em cheio na boca. Como recordará o fotógrafo 30 anos depois à CNN, «era como se alguém tivesse despejado um balde de sangue na rua.» Podemos ver, e só isso é suficiente, a expressão de uma rapariga, Mary Ann Vecchio, que corre para ajudar Jeffrey e grita por socorro, horrorizada com o que vê. O seu ângulo de visão completa a fotografia.

E para fechar este retrato de uma América à deriva, saber-se-á poucos dias depois que a rapariga não é estudante na Universidade, tem apenas 14 anos e fugiu de casa dos pais em Miami vestida com uma T-shirt que diz Slave.

A 4 de Maio de 2000, a mãe de Jeffrey Miller escreve uma crónica para o Seattle Times em que nos explica como o mundo se tornou mais pobre desde que o filho foi morto. Liga três pontos cruciais da vida de Jeffrey para explicar porque razão «nunca poderia ter resistido ao apelo daquela manifestação».

Primeiro ponto: Jeffrey tem oito anos. Sem o conhecimento da mãe, envia um artigo à revista Ebony preocupado com a situação social dos negros na América. Ela sabe-o três semanas depois quando, em resposta ao artigo de Jeffrey, recebe um telefonema de alguém da revista que partiu do princípio de que o filho é negro. Dizem-lhe então que o rapaz está destinado a ser um grande líder da comunidade afro-americana.

Segundo: aos 16, escreve um poema chamado Where Does It End?, onde expressa o seu horror perante «uma guerra sem propósito», o conflito no Vietname.

Terceiro: aos 20, telefona a informá-la de que vai participar na manifestação de 4 de Maio contra a invasão do Cambodja. Tranquiliza-a: «Não te preocupes, mãe. Posso vir a ser preso, mas de certeza que não me vão partir a cabeça».

Mary Ann Vecchio está em fuga da casa dos pais. Não é claro porque razão saiu da Florida e se meteu à boleia pela América: esses tempos recorda-os apenas com uma frase: «Tinha 14 anos e era uma fugitiva».

Quis o destino que se encontrasse perto de Kent a 4 de Maio e que tivesse decidido juntar-se aos manifestantes. Tê-lo-á feito por influência de Sandra Lee Scheuer e Alan Canfora, dois estudantes da Universidade de quem se tornara amiga. Sandra também morre nesse dia.

A foto de John Filo tornou o seu rosto conhecido em toda a América. Na sequência da publicação dessa foto, o Governador da Florida, Claude Kirk, chegou a afirmar que Mary Ann era uma «dissidente comunista».

Nas três semanas que se seguiram entrou «na clandestinidade». Concordou vender a sua história a um jornalista a troco de um bilhete de autocarro para a Califórnia, mas foi presa pela polícia quando se preparava para embarcar e enviada de volta à casa dos pais. Agora diz que «entrou de boleia na História».

John Filo conheceu-a apenas em 1995, 25 anos depois de a ter fotografado. Encontraram-se no Emerson College em Boston numa conferência organizada pelo colégio sobre os acontecimentos na Universidade. Ela é agora uma mulher casada que diz só ter recomeçado a viver quando saiu com Joe Gillum da casa dos pais para se tornar a senhora Gillium e abandonar em definitivo o apelido Vecchio.

«Sempre me preocupei com esta pessoa» – afirmou então John Filo. «Coloquei uma criança sob um microscópio durante muito, muito tempo e agora sinto-me feliz por ela estar também feliz.»

John Filo, o estudante de fotografia, tem outras motivações no campus: é assombrado pela percepção de que 4 de Maio pode vir ser o dia em que conseguirá captar o que Henri Cartier-Bresson designa como «momento decisivo».

Filo deambula junto aos colegas desde o dia 1 de Maio sem conseguir tirar uma fotografia que capte o momento histórico que se vive. Está prestes a desistir quando o tiroteio começa. Ao princípio julga serem tiros de pólvora seca e deixa-se ficar em pé, a fotografar. Depois percebe que são tiros de munição real quando o silvo de uma bala quase lhe queima a orelha. Desiste de fotografar, atrapalha-se, olha para todos os lados, sem saber para onde ir. É o único que não está abrigado.

Olha para a sua esquerda e vê Jeffrey, estendido no chão, o corpo em pequenas convulsões até se imobilizar por completo. O sangue escorre-lhe pela cabeça como se estivesse a ser despejado por um balde. Entra em pânico e começa a fugir.

«Que estás tu a fazer?» – diz-lhe então a voz do fotógrafo dentro da sua cabeça. «É para isto que tu estás aqui». Volta e aponta a máquina. Apercebe-se então de Mary Ann, correndo em pânico para junto do corpo do rapaz e gritando «Meu Deus!».

Clique. A América está a matar os seus próprios filhos – e está a ser fotografada enquanto o faz.

O estudante de fotografia ganha o seu momento decisivo e o prémio mais importante de todos, o Pulitzer.

Fontes: CNN: chat com John Filo | Reencontro de Mary Ann Vecchio e John Filo | Crónica de uma mãe que perdeu o filho | Wikipédia: Mary Ann Vecchio e Jeffrey Miller

Os acontecimentos

Os mortos da Universidade de Kent

Sexta, 1 de Maio Dias antes o presidente Nixon anunciara o envio de tropas para o Cambodja, aumentando a escala das operações no Vietname e a indignação entre os americanos – na sua maioria jovens – que estão contra a guerra.

Estudantes da Universidade de Kent organizam uma manifestação contra «a invasão de um país soberano sem uma declaração de guerra formal ou a autorização do Congresso americano». Os estudantes protestam contra «a violação dos nossos direitos constitucionais» e «os abusos de poder» do presidente Nixon, apostado em «perpetuar a barbárie nacional». Uma cópia da Constituição Americana é enterrada nos terrenos da Universidade para simbolizar «o seu assassínio».

À noite, na cidade de Kent, adensam-se os protestos: uma multidão invade as ruas e dirige-se para o centro, partindo alguns vidros das lojas pelo caminho. À manifestação junta-se gente que nada tem a ver com a Universidade. Muitos já beberam demais. O Mayor de Kent entra em pânico e vê nos protestos sinais de uma sublevação radical e solicita o auxílio do Governador do Estado de Columbia. A Guarda Nacional é enviada para dispersar os manifestantes com gás lacrimogéneo. Às duas e meia da manhã, a situação está controlada.

Sábado, 2 de Maio Às oito da noite, 100 manifestantes cercam um edifício da Universidade que serve de camarata aos oficiais de reserva do Exército que se encontram em treinos militares. A associação à guerra que se trava no Vietname é instantânea. Alguns deitam fogo ao edifício. As chamas espalham-se tão rapidamente que os bombeiros não conseguem controlá-las. A Guarda Nacional volta a intervir, dispersando os estudantes e ficando a guardar um edifício reduzido a cinzas.

Guarda Nacional ocupa o campus da Universidade

Domingo, 3 de Maio No campus da Universidade, ocupado pelos soldados da Guarda Nacional, tudo está calmo. Mas às nove da noite uma multidão de estudantes volta a reunir-se na cidade. Os soldados lançam mais gás lacrimogéneo. Os estudantes refugiam-se na intersecção das ruas East Main e Lincoln, bloqueando o trânsito e aumentando o caos. Às 11 da noite, a multidão torna-se mais hostil, lança pedras aos soldados e é novamente afastada. Há feridos nos dois lados.

Segunda, 4 de Maio É dia de aulas na Universidade. A confrontação da noite anterior provocou ressentimento em ambos os lados da barricada: os estudantes estão determinados em manter uma manifestação convocada para aquele dia, entretanto proibida, os soldados estão determinados em impedi-la.

Gás lacrimogéneo sobre os estudantes

Ao entardecer, 200 estudantes encontram-se já reunidos em desafio directo às autoridades. À ordem de dispersão, respondem com cânticos, insultos e pedras. Mais gás lacrimogéneo é lançado mas, desta vez, pouco efeito provoca: está muito vento naquela tarde. A Guarda avança com as baionetas das espingardas em riste, obrigando os estudantes a recuar. Ninguém dispersa.

O lançamento de mais gás já não resolve a situação. Pedras continuam a voar sobre os soldados. Estes recuam. 28 formam uma linha e disparam entre 61 e 67 vezes durante 13 segundos contra a multidão em fúria. Não são tiros de pólvora seca, mas tiros de munição real. Quatro estudantes morrem. Nove ficam feridos. Um dos feridos ficará paralítico o resto da vida.

Professores tentam convencer estudantes a dispersar

Alguns tentam dialogar com os soldados: «Porque é que vocês dispararam?» É o comandante da Guarda quem responde: «E vamos continuar a disparar se vocês não dispersarem.»

Este é o mesmo oficial que, minutos depois, se aproximará de Jeffrey Miller para examinar o corpo. O estudante morreu de barriga para baixo e o comandante da Guarda Nacional vira-o com a bota para examinar melhor os estragos. O desrespeito e a indiferença são tão evidentes que só a presença de dezenas de soldados impedirá que os outros estudantes o esfolem vivo.

Perto dali, muitos ainda resistem. Um grupo de 300 não arreda pé do campus e só a intervenção de alguns professores corajosos impede que os confrontos continuem e mais mortes ocorram. Os professores convencem os alunos a dispersar. A Universidade fecha por um período de tempo indeterminado e só abrirá depois das férias de Verão. Fonte: KSU Libraries


Duas versões da mesma foto

OriginalManipulada

Bastou que alguém reparasse na ausência do poste sobre a cabeça de Mary Ann Vecchio na republicação efectuada em 1995 pela Life Magazine para que a revista fosse acusada de manipular imagens jornalísticas.

O próprio Editor fotográfico da Life foi forçado a escrever uma explicação. Segundo David Friend, esta imagem manipulada tem sido publicada por várias revistas – exemplos: Time (6 de Novembro de 1972) People (2 de Maio de 1977), Time (17 de Janeiro de 1980) e People (30 de Abril de 1990) – sem que ninguém tivesse reparado na diferença crucial em relação ao original. O que se passou foi que, provavelmente ainda em 1970, alguém trabalhando no arquivo Time-Life Picture Collection (e que até hoje permanece anónimo), decidiu ‘apagar’ a imagem do poste, na óbvia intenção de a melhorar e de lhe diminuir o ruído.

Ver também Fotos que mudaram a Guerra do Vietname [1]

10 comentários

  • 1
    com Firefox 2.0.0.4 Firefox 2.0.0.4 em Ubuntu Ubuntu
    9 de Julho de 2007 - 19:20 | Link permamente

    Eu deixava aqui o que penso dos amerdicanos, mas ia ser muito palavrão junto. Por isso, fico-me apenas pela esperança de um dia ver os americanos erradicados do planeta.

  • 2
    com Firefox 2.0.0.4 Firefox 2.0.0.4 em Windows XP Windows XP
    9 de Julho de 2007 - 20:41 | Link permamente

    Excelente post bem como o blog em si. Não conhecia. Acabaram de ganhar mais um leitor.

    Cumprimentos,
    Mário Diogo

  • 3
    António
    com Firefox 2.0.0.4 Firefox 2.0.0.4 em Windows XP Windows XP
    9 de Julho de 2007 - 20:51 | Link permamente

    Excelente post.
    De arrepiar a indiferença de alguns transeuntes na primeira foto. Ou não se aperceberam, ou assobiaram para o lado.
    Estou em crer que, na alegada manipulação da foto, o poste foi retirado com o intuito de a melhorar (parece que está enterrado na cabeça da rapariga). No que respeita ao ruído, não vejo em que possa a fotografia ser beneficiada (julgo estar a referir-se ao “grão”).
    Um forte aplauso pela oportunidade deste post.

  • 4
    com Firefox 2.0.0.4 Firefox 2.0.0.4 em Ubuntu Ubuntu
    9 de Julho de 2007 - 21:11 | Link permamente

    Obrigado, António. A terceira parte sairá daqui a uns dias, assim que tiver tempo de ‘digerir’ o material todo que fui recolhendo. É a foto mais dramática de todas.

    Mário Diogo: bem-vindo e volta sempre que quiseres.

  • 5
    com Firefox 2.0.0.4 Firefox 2.0.0.4 em Ubuntu Ubuntu
    10 de Julho de 2007 - 00:12 | Link permamente

    excelente post…desconhecia esta historia…é por coisas como estas que adoro este blog.

  • 6
    com Safari 3.0.2 Safari 3.0.2 em Mac OS X Mac OS X
    10 de Julho de 2007 - 11:53 | Link permamente

    António, ruído na foto é tudo o que possa distrair do assunto central da fotografia. Numa foto preparada o fotógrafo escolhe um fundo que não distraia do seu assunto, a não ser que o fundo seja o assunto da foto, ou utiliza uma distância de foco que faça o fundo ficar desfocado para chamar à atenção do objecto fotografado. Esta segunda técnica também pode ser usada em fotografias do género da que aqui é apresentada, desde que o fotógrafo tenha a lente adequada e o tempo para regular o foco.
    Quando não é possível fazer nenhuma destas, é relativamente vulgar manipular a imagem para eliminar elementos de distracção na foto, também chamado ruído visual.

  • 7
    com Firefox 2.0.0.4 Firefox 2.0.0.4 em Windows XP Windows XP
    10 de Julho de 2007 - 16:21 | Link permamente

    Se a memória não me falha, foi a propósito destes acontecimentos que os Crosby, Stills, Nash and Young escreveram a canção Ohio que começa precisamente assim: “Little soldiers of Nixon are coming …“.

    Excelente trabalho!

  • 8
    António
    com Firefox 2.0.0.4 Firefox 2.0.0.4 em Windows XP Windows XP
    11 de Julho de 2007 - 00:40 | Link permamente

    Caro Marco Lopes,
    Obrigado pela explicação. A minha observação tem a ver com, digamos, alguma deformação adquirida desde 1969, ano em que comecei a dedicar-me à fotografia como passatempo sério, inicialmente com o velho 35 mm e agora com o digital. Quando se utiliza um negativo rápido, ou o mesmo é “puxado” na revelação, é quase inevitável o aparecimento de grão (do Inglês “grain”). Por vezes, este grão é adicionado propositadamente, quer na revelação do negativo, como escrevo atrás, quer na revelação do papel, com intuitos artísticos. Na actual era digital, os fotógrafos utilizam o termo “noise” para significar exactamente o mesmo, ou seja, o aparecimento de pixels com diferentes valores de cor em superfícies de cor uniforme, em imagens obtidas pelos sensores electrónicos. (outro termo que agora se usa para definir a sensibilidade, é ISO, em vez de ASA. Como decerto sabe, são, igualmente, sinónimos).
    Desconhecia que o termo “ruído” se utiliza para significar “algo que possa distraír numa foto”. Mas estamos sempre a aprender, não é?

    Um abraço

  • 9
    com Firefox 2.0.0.4 Firefox 2.0.0.4 em Ubuntu Ubuntu
    11 de Julho de 2007 - 00:47 | Link permamente

    António: talvez eu esteja enganado, mas terá sido entre fotojornalistas e editores fotográficos que a expressão ‘ruído’ se adulterou. A fotografia é tratada como pura informação e daí o tal ‘ruído’ com um sentido diferente do sentido clássico.
    Penso que a definição tecnicamente mais correcta ainda é a sua.

    App: Boa malha! Essa tua sugestão ainda irá dar uma para a série Uma Foto e uma Música (vê nas Categorias)

  • 10
    com Internet Explorer 6.0 Internet Explorer 6.0 em Windows XP Windows XP
    14 de Julho de 2007 - 23:15 | Link permamente

    Sem dúvida dos melhores artigos que li até agora aqui no Bitaites. Não conhecia este caso, mas como este passaram-se muitos pelo mundo fora durante esta época conturbada que foram os anos 60 e 70. Pena que hoje em dia falte um pouco deste activismo, não de forma violenta como aqui se viu, mas de forma pacifica, porque vendo bem as coisas hoje em dia vivemos adormecidos nas mãos dos politicos e nada fazemos para o mudar, apenas mandamos os nossos “bitaites” ( sem qualquer ligação lógica Marco, ;) )
    Esta também é uma forma de vermos o quão brutais as forças da autoridade actuam contra os manifestantes, no mínimo triste.

    cumprimentos