Os hu­ma­nos fo­to­gra­fam cães des­de que pra­ti­ca­men­te a fo­to­gra­fia foi in­ven­ta­da, mas nun­ca o fi­ze­ram co­mo o ex­tra­or­di­ná­rio Elliott Erwitt, fo­tó­gra­fo ame­ri­ca­no nas­ci­do em Paris e fi­lho de emi­gran­tes rus­sos.

Os cães apa­re­ci­am nas fo­tos em po­ses tão tor­tu­o­sa­men­te dig­nas co­mo as dos do­nos, mas Elliott mos­tra, com hu­mor, co­mo a re­la­ção en­tre cães e hu­ma­nos trans­for­mou as du­as es­pé­ci­es.

Veja-se es­ta, uma das su­as fo­tos mais co­nhe­ci­das: Felix, Gladys e Rover fo­ram de­sen­can­ta­dos em Nova Iorque. Vemos as pa­tas de um Grand Danois (o Felix), as bo­tas de Madame Gladys e um mi­nús­cu­lo Chihuahua (o Rover).

«Felix, Gladys and Rover», Nova Iorque, 1974

«Felix, Gladys and Rover», Nova Iorque, 1974

Fotografavam-se ou pintavam-se cães de ra­ça, cães de cri­a­ção, ani­mais tão ele­gan­tes e pro­te­gi­dos co­mo os seus do­nos, mas Elliott Erwitt não faz dis­tin­ções. Ele pro­cu­ra o cão nas ru­as. Tanto o en­can­ta um chihu­ahua de­co­ra­do com um ado­rá­vel cha­peu­zi­nho co­mo os ra­fei­ros que fa­re­jam la­bo­ri­o­sa­men­te os ra­bos uns dos ou­tros.

A câ­ma­ra de Erwitt cap­ta a na­tu­re­za idi­os­sin­crá­ti­ca e hu­mo­rís­ti­ca des­tes ani­mais, fotografando-os com enor­mes lín­guas de­sen­ro­la­das na bo­ca, de bar­ri­ga pa­ra ci­ma, có­mi­cos e de­sen­gon­ça­dos, em to­dos os ti­pos e ta­ma­nhos, com­por­ta­men­tos que tan­tas ve­zes ob­ser­va­mos mas que an­tes de Erwitt nun­ca ti­nham si­do tão bem do­cu­men­ta­dos.

Saintes-Maries de la Mer, França, 1977

Saintes-Maries de la Mer, França, 1977

Amagansett, Nova Iorque, 1990

Amagansett, Nova Iorque, 1990

Nova Iorque, 1946

Nova Iorque, 1946

Nova Iorque, 1989

Nova Iorque, 1989

Um co­le­ga da agên­cia Magnum cos­tu­ma­va des­cre­via Elliott Erwitt co­mo «meio fo­tó­gra­fo, meio cão», por cau­sa da afi­ni­da­de qua­se so­bre­na­tu­ral com es­tes ani­mais: «É re­al­men­te ex­tra­or­di­ná­rio. Ladra-lhes e eles pa­re­cem com­pre­en­der.»

Não há fo­tó­gra­fo que não te­nha os seus tru­ques. Os de Erwitt são de fac­to tão bi­zar­ros e pi­to­res­cos co­mo al­gu­mas das fo­tos que lhe de­ram fa­ma: quan­do quer fo­to­gra­far um cão, é cos­tu­me pôr-se a la­drar pa­ra cha­mar a aten­ção do ani­mal; pa­ra cap­tar a aten­ção dos se­res hu­ma­nos, usa uma ve­lha e es­tri­den­te bu­zi­na de bi­ci­cle­ta.

Bruxelas, 1957

Bruxelas, 1957

Birmingham, 1991

Birmingham, 1991

Nova Iorque, 2001

E mui­tas ve­zes nem se­quer é o do­no o ele­men­to prin­ci­pal da com­po­si­ção, co­mo se po­de ver nes­ta mag­ní­fi­ca fo­to em Nova Iorque, ti­ra­da há quin­ze anos: um bull­dog es­tá sen­ta­do ao co­lo do do­no, mas é fo­to­gra­fa­do co­mo se o cor­po do hu­ma­no fos­se uma me­ra ex­ten­são do cor­po do cão.

O segredo de uma boa fotografia? Primeiro coloca-se o rolo na câmara

Dizem os en­ten­di­dos que o es­ti­lo de Erwitt de­ri­va das com­po­si­ções ri­go­ro­sas de Cartier-Bresson, com quem par­ti­lha a mes­ma pre­o­cu­pa­ção em en­qua­drar com har­mo­nia as pes­so­as ou ob­je­tos que fo­to­gra­fa.

Mas en­quan­to Bresson, pai do fo­to­jor­na­lis­mo, pro­cu­ra­va mo­men­tos de­ci­si­vos, Erwitt pro­cu­ra o hu­mor e o bi­zar­ro – co­mo al­guém afir­mou, os mo­men­tos in­de­ci­sos.

Paris, 1989

Paris, 1989

Bakersfield, 1983

Bakersfield, 1983

Pittsburg, 1950

Pittsburg, 1950

O seu ân­gu­lo é por ve­zes tão de­tur­pa­dor que po­de­ria pa­re­cer pro­fa­no aos olhos de uma América mais pu­ris­ta, so­bre­tu­do quan­do aban­do­na as cân­di­das fo­to­gra­fi­as de cães e ob­ser­va o mun­do dos seus do­nos – é o ca­so das fo­tos ti­ra­das em co­ló­ni­as de nu­dis­mo e a da cri­an­ça ne­gra si­mu­lan­do um jo­go de ro­le­ta rus­sa.

Nem mes­mo as fo­to­gra­fi­as mais hu­mo­rís­ti­cas e im­pro­vá­veis do gran­de Elliott Erwitt são en­ce­na­das. O que ele faz é fo­to­gra­far o que lhe cha­ma a aten­ção, sem gran­des ra­ci­o­na­li­za­ções. Muitas ve­zes só des­co­bre a fo­to­gra­fia du­ran­te o pro­ces­so de re­ve­la­ção.

O es­cri­tor in­glês Peter Mayle che­gou a di­zer que o prin­ci­pal ta­len­to de Erwitt era um «sex­to sen­ti­do que lhe diz quan­do de­ve es­tar pre­pa­ra­do por­que o mo­men­to per­fei­to es­tá pa­ra acon­te­cer a qual­quer mo­men­to».

Convidado por um jor­na­lis­ta do Sunday Times a con­tar ao mun­do o se­gre­do do ofí­cio, Erwitt ri-se: «Bem, pri­mei­ro coloca-se o ro­lo na câ­ma­ra…» Mas sem­pre re­ve­la­rá, a pro­pó­si­to: «Sorte e in­te­lec­to são as du­as úni­cas coi­sas que con­tam».

Califórnia,1955

Califórnia,1955

New Hampshire, 1958

New Hampshire, 1958

Fort Dix, New Jersey, 1951

Fort Dix, New Jersey, 1951

Madrid, Museu do Prado, 1995

Madrid, Museu do Prado, 1995

Não o apa­nha­rão em dis­ser­ta­ções mais in­te­lec­tu­a­li­za­das so­bre o sig­ni­fi­ca­do e a men­sa­gem con­ti­das nas su­as fo­tos. Quando lhe per­gun­tam, por exem­plo, quais as fo­tos que me­lhor re­fle­tem a sua vi­são do mun­do, ele res­pon­de «Essa é uma ex­ce­len­te per­gun­ta.»

E de­pois não diz mais na­da por­que qual­quer pes­soa com um de­te­tor anti-redundância im­plan­ta­do no cé­re­bro per­ce­be que ele já usou a sua in­se­pa­rá­vel Leica pa­ra di­zer tu­do o que ti­nha a di­zer, tal­vez até mais so­bre si pró­prio do que o su­jei­to ou ani­mal fo­to­gra­fa­do.

Talvez con­si­de­ran­do uma das su­as gran­des re­fe­rên­ci­as, o fo­tó­gra­fo Henri Cartier-Bresson, um pu­ris­ta aves­so a en­ce­na­ções, Elliott Erwitt acha ape­nas ne­ces­sá­rio ex­pli­car que não o in­co­mo­da a ideia de «fa­bri­car» uma fo­to, no sen­ti­do, por exem­plo, de uma Ruth Orkin da fo­to American Girl in Italy.

«A pe­di­do ou por in­fluên­cia, as pes­so­as po­dem fa­zer uma sé­rie de ton­ti­ces di­an­te de uma câ­ma­ra. Não dei­xas de ser um gran­de fo­tó­gra­fo só por­que en­ce­nas fo­to­gra­fi­as. Na mai­or par­te dos ca­sos, acho que as pes­so­as não ne­ces­si­tam de di­re­ção ar­tís­ti­ca».

 Da série «Sequentially Yours»

Da série «Sequentially Yours»

Da sé­rie «Sequentially Yours»

Erwitt é fi­lho de pais rus­sos: Boris, o pai ju­deu, e Eugenia, a mãe aris­to­cra­ta. Os pais pas­sa­ram gran­de par­te do tem­po a fu­gir: pri­mei­ro de Estaline, ru­mo a Itália; de­pois, em 1938, de Mussolini. Em Paris, on­de nas­ceu o pe­que­no Elliott, em­bar­ca­ram pa­ra os Estados Unidos, fu­gin­do de uma ca­tás­tro­fe imi­nen­te: já a meio ca­mi­nho da América, em alto-mar, che­ga­ri­am as no­tí­ci­as das pri­mei­ras de­cla­ra­ções de guer­ra: Inglaterra e França con­tra a Alemanha.

O que não fal­ta na Internet são li­ga­ções pa­ra ar­ti­gos e no­tas bi­o­grá­fi­cas so­bre Elliott Erwitt, pe­lo que nes­ta pe­que­na evo­ca­ção regista-se ape­nas mais dois acon­te­ci­men­tos im­por­tan­tes: o pri­mei­ro quan­do co­nhe­ce, em 1941, os fun­da­do­res da pres­ti­gi­a­da agên­cia Magnum (um de­les é a gran­de ve­de­ta do fo­to­jor­na­lis­mo de guer­ra, Robert Capa, que ha­ve­ria de mor­rer jo­vem, aos 41.

Nunca es­que­ce­rá o ges­to de um des­ses fun­da­do­res, Roy Stryker: vendo-o sem di­nhei­ro, ti­rou umas cen­te­nas de dó­la­res do seu pró­prio bol­so, passou-lhe as no­tas e dis­se: «Agora vai ti­rar fo­to­gra­fi­as». E ele foi. Em 1953 já fa­zia par­te dos qua­dros da Magnum.

Uma imagem vale por mil palavras? Pode valer por mil discursos.

O se­gun­do mo­men­to da car­rei­ra fo­to­jor­na­lís­ti­ca de Elliott acon­te­ceu em 1959 e pro­va co­mo nem mes­mo as me­lho­res fo­tos po­dem substituir-se a mil pa­la­vras. Vivia-se num mun­do bi­po­lar di­vi­di­do en­tre o ca­pi­ta­lis­mo sel­va­gem ame­ri­ca­no e a di­ta­du­ra co­mu­nis­ta, o so­nho ame­ri­ca­no e o so­nho de uma so­ci­e­da­de sem clas­ses, os Estados Unidos e a União Soviética.

Elliot an­da­va a fo­to­gra­far fri­go­rí­fi­cos nu­ma fei­ra em Moscovo ao ser­vi­ço de uma fa­bri­can­te, a Westinghouse, quan­do sur­giu a opor­tu­ni­da­de de acom­pa­nhar um dos acon­te­ci­men­tos mais im­por­tan­tes do ano: a vi­si­ta do pre­si­den­te dos Estados Unidos, Richard Nixon, à União Soviética de Nikita Kruschov. O re­sul­ta­do é es­te, uma ima­gem his­tó­ri­ca.

«Kitchen Debate», 1959

«Kitchen Debate», 1959

Reparem na fo­to: Nixon es­pe­ta um de­do au­to­ri­tá­rio na la­pe­la de Kruschov, apa­nha­do de olhos fe­cha­dos, uma ex­pres­são fal­sa­men­te sub­mis­sa

Esta é ape­nas uma pos­sí­vel lei­tu­ra, mas po­dem ima­gi­nar co­mo Nixon e a ad­mi­nis­tra­ção ame­ri­ca­na de­vem ter gos­ta­do. O que de fac­to su­ce­deu foi uma con­ver­sa re­gis­ta­da pa­ra a pos­te­ri­da­de sob a de­sig­na­ção «kit­chen de­ba­te»: os dois lí­de­res ten­ta­vam de­mons­trar um ao ou­tro, em ca­va­quei­ra de­sa­fi­a­do­ra e sem ven­ce­dor de­cla­ra­do, qual das du­as na­ções era a mais ri­ca.

Descontando a ób­via fe­li­ci­da­de pro­pa­gan­dis­ta des­ta fo­to pa­ra os ame­ri­ca­nos, registe-se que a in­for­ma­li­da­de de Nixon e Kruschov te­ve co­mo re­sul­ta­do um dos mais bi­zar­ros mo­men­tos da Guerra Fria cap­ta­dos em fo­to­gra­fia – qua­se tão bi­zar­ro co­mo a fo­to do pai Grand Danois, da mãe Gladys e do fi­lho Chihuahua.

Marco Santos

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