Diálogo Pseudo-Científico
Autoria: Marco Santos [2/Junho/2008] [26]- A Teoria da Incerteza de Heisenberg é do caraças, pá.
- Então porquê?
- Deixa-me à nora. É uma visão do mundo tão estranha e revolucionária que fico admirado como tão poucos a conhecem. Quando fico assim neste estado de estupefacção é o blogue que paga. Meto-me aqui a fazer posts que ninguém tem pachorra de ler. Desculpa lá. São fases.
- Tudo bem. A esta hora ninguém nota.
- Sempre pensei que a única forma de entendermos a realidade era através da Física e da Matemática. Que a interpretação da realidade era feita à custa da lógica de Newton. Tudo certinho e previsível, e a bater no sítio certo, tipo relógio, tás a ver?
- O Newton não foi aquele gajo que levou com a maçã na tola?
- Acho que sim.
- E foi por causa disso que se lembrou da teoria da gravidade?
- Ya. Quer dizer, não tenho bem a certeza, é o que se diz.
- Não há dúvida que a maçã tem tido um papel importante na história da Humanidade: primeiro foi aquela cena do Adão morder o fruto da Árvore do Conhecimento…
- Mas o fruto era uma maçã?
- Era. E depois foi essa do Newton. Isto para não falar dos Macintosh.
- Vais comparar isso à descoberta do Newton? Não exageres.
- Não? O Bill Gates só depois de levar com a maçã dos Macintosh na tola é que se lembrou de fazer o Windows.
- Sim, mas não tem nada a ver com o que estou a dizer.
- Tudo bem, mas é a maçã, tás a ver? Está no centro das revoluções. Esse Heisenberg também levou com uma na cabeça?
- Pá, acho que não.
- Mas tem nome de cerveja, o gajo. Alguma deve ter feito. O que é que ele descobriu, afinal?
- Olha, descobriu os limites da Física clássica. Por outras palavras: a nível subatómico, produzem-se fenómenos que parecem magia e que não podem ser explicados pelas leis de Newton.
- Não foi esse gajo que lançou uma pena e uma bigorna do cimo da torre de Pisa?
- Não, acho que esse foi o Galileu.
- E foi por isso que ela ficou inclinada, não foi? Por causa do peso da bigorna? Eu li uma merda qualquer sobre isso num livro do Mickey e do Pateta, até era o Pateta a fazer de Newton. Nunca leste?
- Não me lembro. E não era o Newton, era o Galileu.
- Tá bem, o Galileu.
- Queres beber mais uma, ó gozão?
- Ya, bora aí.
- Senhor Antunes! São mais duas, se faz favor! Geladinhas. Obrigado. Ouve, em relação à Teoria da Incerteza, as coisas passam-se assim: os elementos atómicos, a luz e outras formas electromagnéticas agem como se tivessem dupla personalidade: comportam-se como se fossem partículas ou como se fossem ondas.
- E daí?
- Foda-se, estamos a falar de matéria da qual tu e eu somos feitos! Não é só tu e eu, é tudo o que existe! O mundo. O Universo todo!
- Portanto o que me estás a dizer é que a nossa realidade é de vaipos: um dia acorda com os pés de fora, outro dia não.
- Mais ou menos, não é bem assim mas tá bem.
- Isso explica muita coisa. Tás a ver os jogos do Benfica? Num dia ganha ao Manchester United, no outro perde com a União de Leiria. Num dia o Nuno Gomes parece um grande avançado, no outro já parece uma Amélia. Pá, um gajo que seja benfiquista está bem familiarizado com teorias da incerteza, não precisa desse Heisenberg para nada. Olha, cá estão as cervejinhas!
- Pensa bem. Como é possível uma coisa dessas? Uma partícula é totalmente diferente, é um volume de massa confinado a uma região específica do espaço; uma onda expande-se em todas as direcções. Não há objectividade quando se entra no domínio da Física Quântica: mesmo que aquilo que observamos não nos pareça lógico, é a única forma de podermos ter uma descrição exaustiva do fenómeno.
- Não percebi nada.
- Pá, isto quer dizer que o Universo não é certinho como um relógio. E nós precisávamos que o fosse.
- Claro que é. A Terra gira sempre em torno do Sol.
- Sim, é assim numa escala grande. A escala de Newton. Mas numa escala mais pequena, subatómica, é tudo incerto: não se pode dizer que uma coisa é uma partícula ou uma onda, só podemos dizer que pode vir a ser ou não. Imagina esse tipo de fenómeno transposto para a nossa realidade! Imagina que esse copo podia ter cerveja ou Sumol de laranja, e que só depois de começares a beber é que descobrias.
- Sumol de laranja, essa merda era um filme de terror.
- Deixou de fazer sentido imaginarmos uma partícula ou uma onda como coisas isoladas e bem definidas. A única coisa que podemos esperar é a existência de uma rede de energia subtil responsável pela interligação entre um estado e outro, uma cena que eu não consigo compreender e é por isso que estou um bocado lixado da cabeça e escrevi este post da tanga.
- Bem, se calhar é por isso que se diz que a vida é um milagre, não?
- Que queres dizer com isso?
- Pá, dá ideia que o que tu estás a pensar – mas não aceitas – é que existe assim qualquer coisa tipo matemática divina que mantém esta merda toda unida e a funcionar bem mas não conseguimos perceber como nem porquê.
- Estás a dizer que a Física Quântica chegou mais perto de Deus do que alguma religião alguma vez conseguiu?
- Isso não sei. O que me parece é que Deus vai mantendo esta merda toda colada com o seu próprio cuspo. E só posso estar-lhe grato por isso, graças a Ele esta cervejinha que está aqui nunca se transformará num Sumol de laranja.


























