8/Setembro/2008

Dan Brown vestiu as cuecas de Michael Moore

A minha intenção inicial era analisar e verificar, tanto quanto possível, os factos de «Zeitgeist». Nesse processo gastei tanto tempo e recolhi tanta informação que, às tantas, decidi que teria de escrever um post por cada parte do documentário – foi o que fiz.

Este aborda exclusivamente a primeira, The Greatest Story Ever Told. Concentrei-me sobretudo no material mitológico do Egipto, já que outros aspectos focados – o Zodíaco, a Astrologia, a Astronomia – são bem refutados noutras páginas Web e a minha intenção nunca foi a de traduzir links, embora tenha feito algumas citações e aproveitado algumas pistas. Podem consultar esses sítios na secção final do post.

Não sou nenhum especialista do Antigo Egipto nem da sua mitologia, como é óbvio – o que eu fiz foi recolher informação, interpretá-la, organizá-la e escrevê-la. Simples trabalho jornalístico escrito com a liberdade do blogger. Por outras palavras: um prazer. Cabe a vocês decidir se fui capaz de desmentir ou pelo menos clarificar as principais «revelações» de «Zeitgeist». E sigam os links para aprofundar o tema.

A escolha do título do post poderá não fazer muito sentido – aceito-o perfeitamente, mas a verdade é que reflecte o que senti ao ver esta primeira parte: especulação baseada em especulações anteriores apresentada como novidade, e muita agitação e propaganda

A 11 de Setembro, tentarei publicar o post que diz respeito à segunda parte, intitulada All The World’s a Stage. Seguir-se-á a última poucos dias depois (espero).

A quem acompanha pelo feed: este texto é enorme, um verdadeiro suicídio blogosférico – cerca de 26 mil caracteres – e está dividido em várias páginas. Se não leram o texto anterior, façam-no antes de passar para este.

Ao pesquisar-se informação sobre os factos descritos na primeira parte de «Zeitgeist» – The Greatest Story Ever Told – verifica-se quão estupendo foi o trabalho de redacção, edição gráfica, montagem e locução. Uma maravilha, sobretudo tendo em conta que se trata de uma produção amadora.

O documentário está tão bem feito que se não estivermos dispostos a conhecer mais sobre o vasto panteão de deuses do Antigo Egipto, as suas origens, histórias e desenvolvimentos, a simplicidade e clareza do discurso ressoará nos nossos cérebros como um acorde de Debussy ouvido às duas da manhã com as luzes da sala todas apagadas e um cigarro na mão.

O grafismo do documentário reforça a leveza do discurso. Como uma sessão de hipnotismo, as palavras-chave repetem-se no ecrã para que o transe nunca se perca: mãe-virgem, concepção, 25 de Dezembro, 12 discípulos, crucificação, três dias, ressurreição, por aí fora. Vistas as coisas, tudo se encaixa em associações tão perfeitas que é impossível não nos deixarmos embalar.

O problema é que à medida que vamos reunindo informação sobre os factos que sustentam as teorias e associações de «Zeitgeist», percebemos que esses factos e histórias e mitos só encaixam na perfeição porque os que não encaixam são deliberadamente ignorados.

Este tipo de expediente – deixar de fora o que não interessa para não estragar a teoria, mesmo que seja um facto comprovado – é típico daqueles que defendem teorias da conspiração.

Não me interpretem mal: é fundamental fazer perguntas, investigar, escrutinar as acções de qualquer tipo de autoridade, terrena ou celeste, não ter medo de as pôr em causa, exercer o direito de estarmos atentos e não sermos enganados – sem estas atitudes, continuaríamos a pensar que o Iraque foi invadido pelos EUA por possuir instalações secretas onde armas de destruição massiva eram produzidas.

Quando a defesa de uma teoria da conspiração se torna irracional a ponto de falsear factos, manipulá-los ou retirá-los do contexto, temos um tipo de atitude que na sua essência não é muito diferente da de um fanático religioso que acha que o planeta Terra foi criado há 12 mil anos e que os fósseis dos dinossauros foram implantados por Deus para testar a nossa fé. É este tipo de logro intelectual que detecto em «Zeitgeist».

Por exemplo, Jesus Cristo não nasceu a 25 de Dezembro, 25 de Dezembro é a data em que o seu nascimento é celebrado – parecem duas coisas iguais, mas não são. No Novo Testamento, no Evangelho de São Lucas, é referido que Cristo nasceu na Primavera. Ninguém fala em Dezembro. Mais lá para a frente volto ao assunto.
Outro exemplo: Hórus, a divindade «plagiada» pelos cristãos, nunca morreu – quem morreu foi o pai, Osíris, assassinado por um irmão invejoso, Set. A história de Hórus é simplificada até à exaustão e posso garantir-vos que a original é mil vezes mais interessante e pitoresca do que a falsa versão. Uma vez que o deus solar Hórus afinal não morreu, parece-me seguro concluir que também não ressuscitou. Espero que este raciocínio não seja ofensivo.
Na tentativa de suportar a sua história, «Zeitgeist» procurou apenas criar a sua própria lenda. Li dezenas e dezenas de sítios na Net sobre mitologia egípcia, fui à Fnac comprar livros sobre o Antigo Egipto.

Depois de queimar as pestanas em centenas de páginas escritas por egiptólogos e investigadores, não encontrei uma frase que fosse, nem uma nota de rodapé, um texto em corpo 7, enfim, qualquer referência ao facto de Hórus ter sido professor aos 12 anos, baptizado aos 30 e ter caminhado sobre a água. Tão-pouco descobri qualquer referência ao facto de ser chamado A Verdade, A Luz, o Filho Adorado de Deus, Bom Pastor, Cordeiro de Deus ou Salvador, como sustenta o documentário. Hórus – e isto foi o que encontrei – era chamado «O Afastado», reminiscência de um falcão a voar muito alto, acima da Terra, para observar futuras presas. Hórus também nunca teve um único discípulo, quanto mais 12, mas «forneceu» quatro filhos ao panteão egípcio: Imseti, Hapi, Duametef e Kebehsenuef, conhecidos precisamente como os «Filhos de Hórus».

Perante isto, a única conclusão que posso tirar é que «Zeitgeist» faz de egiptólogos e antropólogos um bando de gente completamente ignorante. Para que andaram os homens e as mulheres tantos anos a decifrar hieróglifos e a compilar, estudar e interpretar informação? Se tivessem visto o documentário, teriam poupado imenso tempo.

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34 respostas | Dan Brown vestiu as cuecas de Michael Moore
  1. pedrocs fez-se à net com Firefox 3.0.1 Firefox 3.0.1 em Windows XP Windows XP

    Creio que o Deus-Sol era Rá e não Ré, ou estou enganado?

  2. a. almeida fez-se à net com Internet Explorer 7.0 Internet Explorer 7.0 em Windows XP Windows XP

    Marco, excelente análise. Não esperava por menos.
    Com esta tese, que pelos vistos ainda vai no princípio, já te podemos chamar Sr. Mestre Doutor Professor.
    A sério. Está excelente e vai totalmente de encontro à impressão que o documentário me provocou, nomeadamente a parte que analisas.
    A história do Akhenaton é recorrente nos canais da TV Cabo como o Canal História e o Discovery Civilization e por isso também estou mais ou menos dentro da mesma.
    Bem, vamos ficar à espera das próximas análises.

  3. a. almeida fez-se à net com Internet Explorer 7.0 Internet Explorer 7.0 em Windows XP Windows XP

    @pedroc:
    Rá mas também Ré.

  4. brimbela fez-se à net com Safari 3.1.2 Safari 3.1.2 em Mac OS X 10.5.4 Mac OS X 10.5.4

    Tinha que comentar este. Já houve uns 3 ou 4 artigos que quis comentar, mas nunca tinha pachorra para o registo, mas este não podia deixar passar:

    Bravo! (ler com entoação afectada e sotaque italiano)

    Vi o documentário há uns meses e na altura também fiz alguma pesquisa para “peneirar” o que tinha acabado de ver. Desisti, porque achei que estava a perder tempo com algo que não o merecia.

    Fizeste um trabalho extraordinário de pesquisa: se eu fosse jornalista em Portugal, pegava em mim e apresentava a minha demissão. Porque é que não há mais portugueses assim?

    Fico em pulgas para ver o que vai sair sobre o FED e tutti

    Obrigado por tudo :)

  5. lemon fez-se à net com Internet Explorer 7.0 Internet Explorer 7.0 em Windows XP Windows XP

    pronto, Zeitgeist = BullShot.
    e é facto que estes tipos existiram? historias tao..esquesitas. casamentos entre irmaos, (Osíris, Ísis, Seth, Néftis), masturbaçoes entre irmaos…cada personagem tem milhentas personificaçoes, kas, bas, enfim…
    isto+civilization phaze III, um começo de dia um pouco esquisito.

  6. PoL fez-se à net com Firefox 3.0.1 Firefox 3.0.1 em Windows XP Windows XP

    Marco,
    vou-te deixar só um pequeno extracto retirado do dicionário do antigo Egipto (direcção de Luís Manuel de Araújo) sobre Hórus:
    «(…) distinguem-se, pelo menos, quinze deuses Hórus importantes, conforme o parentesco que lhe é atribuído nos mitos.
    grosso modo, estas formas podem ser divididas em: 1.º) Solares, em que é considerado como filho de Atum, Ré ou Geb e Nut, ou seja, por consequência, neste ciclo é visto como irmão de Osíris e Set e integra a pequena Enéade de Heliópolis, 2.º) Osíricas, em que é visto como filho de Osíris e Íris e sobrinho de Set, com quem travará uma árdua disputa pela posso do trono do Egipto como herdeiro de Osíris. Esta disputa assume o dualismo característico da luta entre a luz e as trevas, o céu e a terra, o bem e o mal.»
    o Hórus osírico foi concebido magicamente pela mãe depois da morte de Osíris» (o pai…).
    só mais um naco de prosa sobre Hórus: «como facilmente se comprova, na figura de Hórus confluem e concentram-se misturadas diferentes correntes mitológicas: o deus celeste e da luz, solar, conquista o mundo em proveito do astro-rei, triunfando sobre os seus inimigos, encabeçados por Set, sob a forma de filho de Osíris e Íris. (…) neste deus, um dos mais importantes do Egipto, de certa forma até um ex-libris do panteão e do Egipto, o sincretismo religioso assume o seu expoente e manifestação máximas.»
    Hórus não é um deus simples, é um deus com imensas personificações, é provável que além das que são referidas no comentário ainda existam mais umas quantas…
    8)

  7. Marco Santos fez-se à net com GranParadiso 3.0.3pre GranParadiso 3.0.3pre em Windows XP Windows XP

    Por isso é que a dada altura escrevi

    «Outro aspecto que me faz impressão é «Zeitgeist» assumir que a história mitológica do Egipto é um conjunto inerte de eventos e personagens, tão inerte como os blocos de pedra calcária com que foi construída a pirâmide de Gizé: a vida e as características dos deuses são estas, começam aqui, acabam ali, entre o princípio e o fim foi sempre tudo igual, significam isto e mais nada, e pronto, feito e explicado.»

    Mas, compreendes, só este post foram para aí uns 26 mil caracteres. Para uma visão mais completa, tem de se seguir os links e, sobretudo, ler os livros.

    Esta disputa assume o dualismo característico da luta entre a luz e as trevas, o céu e a terra, o bem e o mal.

    Não para os egípcios, segundo o que eu li. A «diabolização» de Set foi feita pelos Romanos, não pelos Egípcios…

  8. BG fez-se à net com Firefox 3.0.1 Firefox 3.0.1 em Windows XP Windows XP

    Já várias vezes quis comentar, mas aborrecia-me fazer o registo. Contudo, a qualidade deste blogue é tal, que vale a pena perder um minuto a registar-me.
    Marco, escreves de uma forma tão especial que não tenho adjectivos para a qualificar. Excelente, fantástico são insuficientes.
    Vou ser sincero, se eu fosse a qualquer blogue e desse de caras com um post deste tamanho (26 mil caracteres!!), não o lia. Mas no Bitaites, sei que quanto maior o post, mais qualidade terá, pelo que li este de uma ponta à outra e nem dei pelo seu tamanho.
    Só tenho uma pergunta a fazer: Para quando um livro?

  9. PoL fez-se à net com Firefox 3.0.1 Firefox 3.0.1 em Windows XP Windows XP

    Marco,
    não penso que uma luta entre o “céu e a terra” implique a diabolização de algum dos participantes…
    8)

  10. flaviapm fez-se à net com Firefox 3.0.1 Firefox 3.0.1 em Windows Vista Windows Vista

    Excelente é pouco. Também passo a fazer parte dos que querem ler mais e mais.