Wikipedia, José Sócrates e ciber-jornalistas
Publicado por Paulo Trezentos [21/Agosto/2007]. Categoria: Cenas Geek [465]Que a Silly Season é adequada a notícias que não são notícias, já sabíamos. Mas a recente polémica relativamente à edição da página do primeiro-ministro na Wikipédia por parte de alguém na rede do CEGER leva-nos mais longe.
Recordando: o blogue Zero de Conduta citou a Wired relativamente à ferramenta WikiScanner e às polémicas internacionais derivadas da utilização dessa ferramenta. O WikiScanner, desenvolvido pelo estudante universitário Virgil Griffith, nos EUA, permite verificar as alterações efectuadas na Wikipédia por um determinado endereço IP ou rede informática. Ou seja, por exemplo, permite vermos que páginas na Wikipédia foram alteradas por uma determinada rede informática.
Esta simples - mas poderosa - ferramenta permitiu verificar que a empresa Exxon tinha modificado a entrada relativamente ao derrame de petróleo do Exxon Valdez. Ou que o FBI removeu imagens da Baía de Guantanamo.
De forma pouco original mas eficaz, o blogue descobriu que alguém na rede do governo tinha melhorado a biografia do primeiro-ministro José Sócrates e do ministro Luís Amado. Em tempo de Silly Season isto foi suficiente para os jornais noticiarem a questão com foros sensacionalistas. A justificação moral é que a Wikipédia adverte que a edição dos artigos deve ser feita de forma neutral e, vindo da rede do Governo então não é neutral, tal como o FBI ou a Exxon não o são em relação as matérias que editaram.
A referência à alteração da biografia do primeiro-ministro merece tratamento jornalístico?
Certamente que sim, tal como a Wired e meios de comunicação americanos noticiaram as alterações anteriormente referidas.
A forma como foi tratado, antes de mais no blogue original, é que é imatura e feita por alguém provavelmente com pouca cultura informática e de Internet, apelidando de “censura” as alterações feitas.
Como opinião pública, traçamos uma ténue linha entre o que é corrigir uma informação errada e o que é “branquear” um dado histórico ou biográfico.
Um exemplo. Tenho uma entrada na Wikipédia, iniciada e completada por autores que desconheço, com uma breve biografia minha baseada em alguma informação pública. A 12 de Abril de 2007 essa entrada foi alterada com pretensas citações que eu nunca tinha feito e algo idiotas. Será que eu tinha autoridade para o corrigir? Sim, se me tivesse dado ao trabalho. Em vez disso, preferi deixá-las tal como estavam, conhecendo dois aspectos da dinâmica Wikipédia. O primeiro é que quem lê a Wikipédia tem de ter sentido crítico para perceber o que é uma informação deturpada. Segundo, é que provavelmente alguém que o identifique poderá “desfazer” esse erro.
De facto, apenas dois dias depois, alguém o desfez e corrigiu a entrada removendo as citações.
As alterações à biografia de José Sócrates eram mais subjectivas e referiam-se ao escândalo da Universidade Independente. “Branqueamento” ou correcção?
É um pouco indiferente. Em última análise, aquela mudança foi a contribuição daquele utilizador. Se retirou informação válida à entrada, é de esperar que o sistema se auto-regularize e essa mudança seja removida.
É por essa razão que a notícia em torno da mudança biográfica não deixa de ser um fait-divers próprio da época. Não temos a certeza sobre a origem da mudança já que a rede do governo envolve milhares de PCs e até poderia ser feito com fins de posteriormente ser divulgado para fragilizar o governo. O impacto é reduzido pois é facilmente identificado.
Ao invés de descredibilizar a Wikipédia, as recentes notícias demonstram a força mediática da mesma e os mecanismos de auto-controle.
O blogue Marketing de Busca pegou noutro interessante ponto da questão. As várias notícias online, apesar de o citarem, não continham links para o blogue original com a honrosa excepção do TekSapo. Porquê a importância do Link? Claro, para o blogue subir no page rank da página de resposta das pesquisas no Google e no Sapo.
O jornalismo está a mudar. Descontando o fenómeno Silly Season, o fosso entre ciber-jornalistas e jornalistas info-excluídos está a ser cavado.
A imagem incluída significa que este post de Paulo Trezentos e os seguintes estarão sob licença “CC”: pode reproduzir o texto, modificá-lo e distribuí-lo.



























pode (ou não!) estar a usar
Data: 21/Agosto/2007 | Hora: 10:31
Não Marco, os rankings são apenas um subproduto. Pode parecer estranho vindo deste que escreve, mas o que realmente importa num blog, ou meio de comunicação é a influência ou para ser mais preciso o reach - de que não encontro tradução adequada em português.
Fait divers ou não todas as notícias foram construídas com base no trabalho do Zero - excepto a Exame I. e se vires o artigo percebes porquê. Quando estás online faz parte da etiqueta ligar quem citamos e nos oferece a oportunidade e pretexto para um artigo. Ora o que nós temos é um conjunto de jogadores “indiferentes” (no mínimo) e que não participam do ecossistema. Ignoram-o, usam-no como inspiração de vez em quando e quando não o podem evitar sacam o material sem a devida atribuição. Tá mal! Tá muito mal.
Ora o meu objectivo é chamar a atenção para este problema, tanto de bloggers como de jornalistas. Se os bloggers acreditarem que isto está bastante errado vão provavelmente ter uma conduta diferente para com os jornais. E se os jornalistas souberem disto, aperceber-se-ão da oportunidade para cortejar esta audiência. Basta jogar limpo.
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Data: 21/Agosto/2007 | Hora: 12:40
Essa história sobre o PM é uma tempestade num copo de água… Se alguém se desse ao trabalho de pôr la uma página sobre mim também ia la corrigir umas coisas… afinal ninguém gosta de ver certas coisas escritas. E depois há ainda a mais que provável possibilidade de o Sócrates e o Luís Amado nunca terem sabido dessas alterações, já que provavelmente têm pessoas que são pagas para manter uma certa imagem do governo.
Mas depois de todos os canais terem feito meio jornal a falar da saída do treinador do benfica não se pode esperar muito…
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Data: 21/Agosto/2007 | Hora: 12:59
António: o autor do post é o Paulo Trezentos. A César o que é de César.
Quanto ao teu comentário, não vejo como discordar. Tens razão, obviamente.
Quanto ao post daquele blogue (apesar de concordar contigo no que diz respeito ao desrespeito dos media tradicionais), não colhe a minha simpatia. Partir daquele caso da Wikipédia para concluir que são «Os longos braços da censura Socrática» em acção não só é irresponsável como demagógico. «Censura» não é palavra que possa ser escrita de ânimo leve - e, no entanto, lá está logo a seguir uma citação de Salazar para que não restem dúvidas sobre a intenção do autor. Eu não papo grupos desses nem confundo propaganda com investigação jornalística.
Enfim - é por causa desse lixo que por aqui não se escreve sobre politiquices.
Um abraço.
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Data: 22/Agosto/2007 | Hora: 0:02
Não Marco,
Ok. Aqui fala o Paulo, alter ego do Marco com tendências open source demoníacas.
os rankings são apenas um subproduto. Pode parecer estranho vindo deste que escreve, mas o que realmente importa num blog, ou meio de comunicação é a influência ou para ser mais preciso o reach - de que não encontro tradução adequada em português.
Ou seja, o artigo pretende chamar a atenção para não ter sido citado o blog original e não para o facto de não ter sido linkado. É isso?
É que como mais à frente (no último parágrafo) diz “pagar na mesma moeda” e cita mas não linka, levou-me ao engano.
O “reach” (”ser alcançável”?) via links no artigo é importante mas hoje o page rank tem um impacto considerável. Especialmente para não-blogs com conteúdo não perecível.
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Data: 22/Agosto/2007 | Hora: 10:05
As minhas desculpas, Paulo. A imagem do cc ficou-me na retina e só quando premi o botão para desligar o computador me apercebi que estava a trocar os nomes
Talvez traduza reach ~ exposição; é o melhor que encontro.
Ou seja, o artigo pretende chamar a atenção para não ter sido citado o blog original e não para o facto de não ter sido linkado. É isso?
Não… O blog foi citado por (quase) todos. Foi ligado apenas pelo TEK. Ao negar o link ao blog os jornais estão-lhe a negar exposição - porque muitos leitores não vão procurar o blog apenas porque é citado. Um link funciona também como uma recomendação: este post é tão interessante que escrevi um artigo todo com base nele. Talvez seja ainda um pouco a ideia de que “o jornal” tem toda a informação que o leitor precisa. Se não está no artigo é supérfluo.
E claro há o pagerank, claro que é importante basta perguntar ao NYTimes (ainda que os portugueses estejam a leste disso). Mas os links são produto da exposição: quantas vezes não encontramos em blogs recomendações para ler determinada história, via blog de fulano? Blog de fulano recebe uma data de links por promover boas histórias e há até quem faça carreira na net (e nos blogs) com isso. Se a história recomendada for caso único o blog não vai ganhar muito com isso, mas se tiver qualidade vai a pouco e pouco conquistar o seu espaço e talvez numa próxima já não haja necessidade de recorrer ao intermediário para promover uma história desse blog. Com os jornais idem. No sábado a notícia do público tinha no technorati 24 links. A original ia com 52. Nada mal para quem se limitou a recolher e reformatar e nem sequer ligou o original.
Mas voltando ao PR, é claro que é importante e tem até um impacto económico. Pensando no que escrevi de manhã talvez não me tenha agradado ver a questão reduzida a links, ainda que seja essa a desculpa para abordar o tema no MB - petty thing.
Marco,
normalmente esse tipo de linguagem tem em mim o efeito inverso, isto é repudia-me. O facto de a ter ignorado talvez queira dizer alguma sobre mim, eu que apoiei Socrates e tenho azia ao bloco.