1/Fevereiro/2010

Uma tragédia de proporções crespológicas

«O Primeiro-ministro José Sócrates, o Ministro de Estado Pedro Silva Pereira, o Ministro de Assuntos Parlamentares, Jorge Lacão, e um executivo de televisão encontraram-se à hora do almoço no restaurante de um hotel em Lisboa.

Fui o epicentro da parte mais colérica de uma conversa claramente ouvida nas mesas em redor. Sem fazerem recato, fui publicamente referenciado como sendo mentalmente débil («um louco») a necessitar de («ir para o manicómio»). Fui descrito como «um profissional impreparado». Que injustiça. Eu, que dei aulas na Independente. A defunta alma mater de tanto saber em Portugal.

Definiram-me como «um problema» que teria que ter «solução». Houve, no restaurante, quem ficasse incomodado com a conversa e me tivesse feito chegar um registo. É fidedigno. Confirmei-o.»

A tragédia

As linhas aqui em cima são parte de uma crónica de Mário Crespo chamada O Fim da Linha.

Mário Crespo confirmou, fonte fidedigna, mas o Jornal de Notícias decidiu não publicar a crónica. Até que alguém me prove o contrário é uma decisão editorial face ao delírio, mas isto foi o suficiente para que estalasse a revolta. Foi censura, estão a silenciar o Crespo, diziam, ao mesmo tempo que a sua censurada crónica fazia o pleno nos blogues, redes sociais e nos sites dos outros jornais. Basta um clique para furar o bloqueio ao nosso paladino.

Quem já leu a crónica do Crespo que ponha um dedo no ar. Agora molhe o dedinho na boca, coloque-o no ar outra vez e sinta os ventos da censura.

É um verdadeiro ciclone de proporções crespológicas.

Como no Twitter já se chegou a sugerir convocar uma manifestação para defender a liberdade de imprensa, concluo que a capacidade crítica destes defensores da liberdade de imprensa consiste em aceitar o que o mártir Crespo afirma, não questionando absolutamente nada. Por isso, para não dizerem que sou do contra ou sou pago pelo Sócrates, aqui me junto à trupe dos justiceiros e digo Ave, Crespo, em tuas isentas e bem educadas mãos deposito o futuro da minha liberdade e da minha capacidade de julgamento. E se alguma vez o Sócrates se passar e te chamar louco porque escreveste uma crónica no Jornal de Notícias chamando-o de palhaço, conta comigo para defender o teu direito ao insulto gratuito.

Continua a fazer-nos acreditar que as conspirações para silenciar jornalistas são feitas em mesas de restaurante e em voz alta, para a fonte ouvir bem e denunciar melhor; que em dia de Orçamento de Estado o mais importante foi discutir-te; e continua a mandar crónicas para um site do PSD, que é assim que os jornalistas verdadeiramente independentes fazem.

43 respostas | Uma tragédia de proporções crespológicas
  1. Carlos fez-se à net com Safari 4.0.4 Safari 4.0.4 em Mac OS X 10.6.2 Mac OS X 10.6.2

    Realmente muito isento este senhor. Vamos todos fazer uma vénia e achar que tudo o que sai daquela boca é a mais pura das verdades.

  2. O Crespo é uma coisa inacreditável, as crónicas dele são asquerosas, no mínimo. Se sabe alguma coisa, se tem dados concretos ou mesmo suspeitas credíveis, que as apresente, se não… enfim.

    Este fim de semana ouvi um pedaço de uma entrevista, na Radar, com um tipo da SIC – creio que director de programação de entretenimento, mas não tenho a certeza – ele era um bocadinho cagão, mas pelo menos franco e directo. E disse uma coisa que resume o que se passa sempre que há o mínimo sinal de polémica; disse ele que os portugueses são “uns indignadinhos de merda”.

    E eu digo, caro senhor, you are quoted for truth.

  3. Paulo fez-se à net com Firefox 3.6 Firefox 3.6 em Windows XP Windows XP

    e o Sócrates já processou o Mário Crespo por difamação?

  4. Ricardo Martins fez-se à net com Firefox 3.5.7 Firefox 3.5.7 em Windows Vista Windows Vista

    citação–>
    Terça-feira dia 26 de Janeiro. Dia de Orçamento. O Primeiro-ministro José Sócrates, o Ministro de Estado Pedro Silva Pereira, o Ministro de Assuntos Parlamentares, Jorge Lacão e um executivo de televisão encontraram-se à hora do almoço no restaurante de um hotel em Lisboa.
    <– fim de citação

    Mário Crespo e a sua fonte conseguem identificar alguém que sabem ser um executivo da comunicação social, mas não são capazes de revelar o seu nome.

    Já os outros nomes que são citados.. foi mais fácil..

    Ricardo Martins

  5. O Povo É Sereno fez-se à net com Firefox 3.6 Firefox 3.6 em Windows 7 Windows 7

    ´Tá esquisita a crónica ´Tá. Acontece sempre que a notícia é sobre os jornalistas. Um jornalista a escrever uma notícia sobre si próprio fica ainda mais esquisito.

  6. Ricardo Martins fez-se à net com Firefox 3.5.7 Firefox 3.5.7 em Windows Vista Windows Vista

    Parece que Mário Crespo vai lançar um livro de crónicas dentro de dias…

    Hoje mesmo, o jornalista e pivô da SIC recebeu a garantia de publicação – já no próximo dia 11 e lançado no Grémio Literário – de um livro, que terá um prefácio de Medina Carreira. onde a crónica censurada – “O Fim da Linha” – “surgirá à cabeça”.

    http://aeiou.expresso.pt/mario-crespo-deixa-jn-e-publica-cronica-censurada=f561310

  7. The end of times fez-se à net com Firefox 3.6 Firefox 3.6 em Windows Vista Windows Vista

    Caro Marco do Bitaites:

    - Do jornalista Mário Crespo e do trabalho que desenvolveu como correspondente no estrangeiro bem como nas últimas entrevistas que tem feito na SIC nada tenho a apontar. Parece-me um jornalista responsável, credível e rigoroso no trabalho que faz. Não sei se é laranja, vermelho ou até assume contornos de rosa, o que é facto é que até simpatizo com ele, com o Luis Costa Ribas, parecem-me gajos que desenvolveram um sentido de profissionalismo, de jornalismo a sério, enquanto estiveram lá foram. Em resumo foi como se saíssem do pasquim da santa terrinha – jornalismo português – e fossem para o jornal da capital – vamos por exemplo enaltecer o grande Diário de Notícias.

    - Em relação à censura, discordo. Discordo totalmente. Se fores ver na última entrevista do Tio Belmiro da Leopoldina, o bacano até defende que deter o jornal “Publico” no grupo, apesar de ser pouco rentável e até colocar o prejuízo do bolso dele, dá muito jeito. E porquê ? Porque os sortudos dos jornalistas que lá estão não têm qualquer tipo de censura. Desde que escrevam sempre a favor da SONAE e dos interessos do tio, essa palavra é digna do reino da China, nunca do nosso tugalinho. Em Portugal desde que tenhas um bolso fundo e tenhas os contactos certos, podes dizer o que te apetecer e escrever o que te der na gana. Agora, o Sócas que se ponha a pau, primeiro foi a Bocas a bazar da TViI, agora é um Crespo a sair do JN, daqui a bocado é um blog que é rapado, só porque escreveu mal do nosso PM. Tenho dito…

  8. Ricardo Martins fez-se à net com Firefox 3.5.7 Firefox 3.5.7 em Windows Vista Windows Vista

    A crónica integral – que poderá ser lida em link que segue no final deste texto – foi hoje de manhã publicada no site do Instituto Sá Carneiro. Mário Crespo garante que “não sabia sequer que esse site existia” e diz desconhecer a forma como o texto lá foi parar. “Apenas enviei, como sempre o fiz, a crónica para as moradas electrónicas do ‘JN’”, acrescentou ao Expresso.

    http://aeiou.expresso.pt/mario-crespo-deixa-jn-e-publica-cronica-censurada=f561310

  9. Este post está em destaque no Radar do SAPO. http://www.sapo.pt/#/destaques/radar

  10. Ognito Inc. fez-se à net com Firefox 3.5.7 Firefox 3.5.7 em Windows XP Windows XP

    Parabéns pelo post. Concordo que as vozes discordantes têm vindo a ser caladas a qualquer custo. Concordo com muito do que escreve Mário Crespo. Admiro o seu talento e a invejável longevidade. É dos poucos que ainda faz jornalismo para além do copy/paste de comunicados. O chato! O impertinente! Fico contente que a última crónica tenha sido publicada (no link), quer se concorde com o conteúdo, quer não. Não ouvimos todos coisas com que discordamos na assembleia da republica, todos os dias? Disparates? Demagogia? Porque havemos apenas de ter que ouvir que, apesar do défice, da Grécia, do rating, do fraco crescimento, da perda de competitividade, da enorme dívida externa e do seu impacto nos futuros défices, devemos construir um novo aeroporto e uma linha de TGV?



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