2/Novembro/2007

Tu és o que lês

Descansem, amigos dos animais: o cãozinho não morreu, foi sempre alimentado enquanto esteve na Galeria e só fugiu ao terceiro dia. Deve continuar doente e estar esfomeado, mas tornou-se invisível outra vez. Tudo está bem quando acaba bem, não é?

Guillermo Habacuc Vargas. Escrevam este nome no Google e obterão 143 mil resultados. ‘Animal’ é o que de mais gentil se poderá encontrar em termos de referências ao rapaz, mas ‘filho da puta’, escrito já em várias línguas, começa a ser a expressão mais habitual.

Um filho da puta tão óbvio? Fiquei curioso e googlei a história.

Habacuc não é um demónio, é um artista plástico conhecido pelas suas posições políticas arrojadas e, por causa destas, muito conceituado no seu país, a Costa Rica. Entre 16 e 19 de Agosto, numa mostra realizada na Galeria Códice, em Manágua, capital da Nicarágua, Habacuc exibiu uma instalação – Exposición N° 1 – que viria a causar uma tremenda comoção justiceira entre os amigos dos animais de todo o mundo.

À entrada da exposição havia uma frase na parede («Eres lo que lees») escrita com biscoitos para cães. Junto à mesma parede, a um canto, preso por uma corda e um fio de arame, Habacuc colocara um cão vadio apanhado em Manágua. O cão apresentava sinais de mal nutrição e doença – um pobre animal entre milhares de outros que deambulam nas ruas da cidade. Os visitantes contemplavam toda esta cena enquanto ouviam o hino sandinista tocado ao contrário. Aos que abordavam o artista pedindo que soltasse o animal ou pelo menos lhe desse de comer, Habacuc recusava sempre. (Que barbaridade tão evidente! Está-se mesmo a ver que o verdadeiro objecto da exposição não era o cão, mas os próprios visitantes – chegar a essa conclusão, contudo, implica pensar antes de postar, por isso a maior parte dos bloggers manteve a sua indignação primária).

Pouco tempo depois, a 4 de Outubro, um artigo publicado no jornal Nacion noticiava que a exposição de Guillermo Habacuc Vargas se encontrara envolta em ‘grande polémica’ devido ao facto de o animal ter acabado por morrer à fome na própria galeria. A ‘fonte’ para esta notícia foi uma tal de Marta Leonor González, editora de um suplemento cultural na Nicarágua, La Prensa. Segundo o seu ‘testemunho’, o animal teria morrido no primeiro dia de exposição.

Podem imaginar o que sucedeu quando a história surgiu nos blogues: Guillermo Habacuc Vargas foi crucificado como um torturador e um demónio assassino de animais. Uma petição online foi criada para boicotar a presença de Habacuc numa bienal nas Honduras, em 2008: até à data, recolheu mais de 190 mil assinaturas.

Toda esta história é uma fraude em que os bloggers caíram que nem patinhos. Habacuc pode ser um artista manhoso, mas não é um torturador de cães – bastava perder mais alguns minutinhos no Google para descobrir que o cão não só foi alimentado durante os três dias em que permaneceu na galeria como não chegou sequer a morrer. Não há nada que incendeie mais a blogosfera do que uma causa – sobretudo se for fácil de apoiar. É de admirar que ainda não tenham criado uns banners ou uns botõezinhos que a malta usa nos blogues como se fossem brincos.

Parte da ‘culpa’ (alguns poderão chamar-lhe ‘autoria’) é do próprio Habacuc, que fez questão de criar um ‘acontecimento’ e manteve uma cautelosa ambiguidade até ao fim. Questionado pelo mesmo jornal Nacion, reservou-se «o direito de dizer se o cão estava morto ou não, se tinha sido alimentado ou não». A intenção da exposição, explicou ele, foi a de «constatar a hipocrisia alheia: um animal torna-se o foco de atenção quando o coloco num local onde as pessoas esperam ver arte, mas não quando está no meio da rua, morto de fome». Explicou também que a exposição serviu para homenagear Natividad Canda, um nicaraguense morto por cães rottweiller.

O chinfrim foi tanto que a Galeria Códice (onde a exposição se realizou) se viu obrigada a desmontar a instalação (agora é metáfora) e emitir um comunicado [adenda: página offline] onde afirmava que o cão «esteve nas instalações durante três dias (…). Esteve solto no pátio interior durante todo o tempo – exceptuando as três horas diárias em que durava a exibição – e foi alimentado regularmente com comida trazida pelo próprio Habacuc».

Parece que afinal o cão não morreu em nome da Arte. Na verdade, como explica ainda o mesmo comunicado da Galeria, «o cão fugiu ao fim do terceiro dia, escapulindo-se de manhã cedo entre as grades do portão principal da galeria, quando o vigilante que o alimentara fazia limpezas no exterior».

Esperem! – Poderão gritar os bloggers justiceiros. Tudo bem – o homem não é um assassino de cães, mas não tinha o direito de se aproveitar do pobre animal para fazer ‘propaganda’ à sua arte. Qual arte? Aquilo foi uma declaração política. Política sem propagação não existe. Seja como for, alguém perguntou a opinião do cão? Pois, é um disparate, um cão não é uma pessoa, é um ser vivo sem uma mente racional: coisas como ‘arte’ ou ‘propaganda’ são conceitos demasiado humanos e os conceitos geralmente não têm cheiros e, quando têm, não costumam ser muito interessantes. Do ponto de vista de um cão abandonado nas ruas de uma grande cidade, passar três dias no quentinho a dormir e a comer, a receber festinhas (e não pontapés) pode ter equivalido a umas mini-férias. Mas isto sou eu, que sou um bruto e um insensível no que diz respeito aos direitos dos animais. Enfim, que sei eu – o cão poderá ter-se sentido moralmente indignado, como se fosse uma criação da Walt Disney!

Mas deixá-lo ali, a um canto, preso, exposto, coitadinho! Tem razão, caro amigalhaço dos animais. É muito mais aceitável prender o animal num apartamento, a ladrar de solidão e desespero o dia todo. Ou abandoná-lo durante as férias.

Se era assim tão bem tratado, por que razão o cão fugiu? Provavelmente pela mesma razão com que tantas vezes cães bem tratados fogem das casas dos donos: para apanhar ar ou mandar uma queca. E fez o malandro muito bem, que três dias seguidos numa galeria de arte sem uma cadelinha para meter conversa deve ser uma seca.

Adenda: Ficou com vontade de me fazer a mim o que julga que fizeram ao animal? Leia este post. Considera a hipótese de me enviar um email com ameaças? Leia este texto, a salvação da sua Razão ainda é possível. Você é um amante da Natureza e dos animais que respeita a opinião dos outros, mas continua convencido de que errei ao escrever este post? Caro amigo ou amiga, seja bem-vindo a este blogue. Talvez possa mudar de opinião lendo esta entrada.

58 respostas | Tu és o que lês
  1. Rodrigo S. fez-se à net com Firefox 2.0.0.8 Firefox 2.0.0.8 em Windows XP Windows XP

    E pensar que quebrei a minha regra de ignorar lixo e subscrevi a petição há umas semanas. Culpa do altruísmo compulsivo :\

    Caso a intenção tenha sido mesmo a descrita, o Sr. Habacuc teve uma ideia brilhante.

    Obrigado por partilhares esta informação.

    Cumps

  2. Eu preferia uma petição contra as pessoas que viram e não fizeram nada, ainda que tenha assinado uma contra o autor. Não serve de nada, mas ao menos sinto-me melhor, pelo menos teoricamente. Aguardo o euromilhões para poder salvar uns 500 cães:)

  3. berkeley fez-se à net com Firefox 2.0.0.3 Firefox 2.0.0.3 em Windows XP Windows XP

    assim numa pesquisa de 5 mins deparei me com isto. Um blog como fonte vale o que vale mas enfim, estou me nas tintas para os destinos do cão.
    Agora este tipo de arte “mete-nojo” já me dá cabo dos nervos. Não sei se resultou como denúncia da “hipocrisia alheia” (coisa tão fácil) ou como “declaração politica”, mas como propaganda do sr. Habacuc foi excelente lá isso foi.

  4. Marco fez-se à net com BonEcho 2.0.0.9pre BonEcho 2.0.0.9pre em Windows XP Windows XP

    Berkeley. Sim, eu conheço essa página. É um nojo.

    Concordo contigo em relação à arte mete-nojo, mas mais nojo ainda me mete a facilidade com que as pessoas são crucificadas no mesmo período de tempo: cinco minutos.

  5. berkeley fez-se à net com Firefox 2.0.0.3 Firefox 2.0.0.3 em Windows XP Windows XP

    Estava me a referir às declarações do sr. Habacuc que se encontram no blog e que não tive hipotese de confirmar com outras fontes.

    Agora, um individuo que diz e desdiz-se consoante a opinião pública, que faz uma exposição publica de crueldade para na melhor das hipóteses “marcar um ponto”, na pior, para promoção pessoal, leva-me menos de 5 mins a crucificar.

    Também o descrucifico no mesmo espaço de tempo, se se provar que afinal
    1 – alimentou o bobby
    2 – o cão tinha raiva
    3 – é uma pessoa que gosta mais de gatos.

  6. Sara fez-se à net com Firefox 2.0.0.9 Firefox 2.0.0.9 em Windows XP Windows XP

    As pessoas só não gostam de ser lembradas da frieza e indiferença cruel de que são capazes quando olham todos os dias o mundo que os rodeia. É duro «constatar a (nossa) hipocrisia alheia: um animal torna-se o foco de atenção quando o coloco num local onde as pessoas esperam ver arte, mas não quando está no meio da rua, morto de fome.» É triste também. É fácil assinar uma petição sentada no sofá e depois ir fazer o jantar. É fácil revoltar-me contra a crueldade de um homem. O sentimento está lá, impulsivo, e passageiro. O difícil é agir. Levar um prato de comida ao cão esfomeado e ver aparecer muitos outros, enquanto os gatos esqueléticos espreitam da esquina. E no dia seguinte chegar a Lisboa já de dia e ver um corpo a mexer-se debaixo de cartões à porta do S. Carlos. Agir é como apagar o fogo de um lado e ver a casa a voltar a arder ainda mais do outro. É fazer muito e isso ser insignificante.
    Mas quem sou eu para escrever isto, aqui sentada no meu sofá, que daqui a 5 minutos já vou estar preocupada com o facto de o rato não estar a funcionar e de amanhã ter de sair para comprar outro.

  7. rui pinto fez-se à net com Internet Explorer 7.0 Internet Explorer 7.0 em Windows XP Windows XP

    “Tem razão, caro amigalhaço dos animais”

    Primeiro eu não sou SEU amigalhaço e
    uf! um texto imenso para justificar um filho da puta,
    se o senhor não gosta de animais não despreze quem se indigna com estes artistas de pacotilha, tambem me parece que nas suas buscas, o que fica muito convenientemente para comentar é o que o senhor quer ouvir
    o sr desiludiu-me

  8. Marco fez-se à net com BonEcho 2.0.0.9pre BonEcho 2.0.0.9pre em Windows XP Windows XP

    o sr desiludiu-me

    Pois o senhor a mim não me desiludiu!

    E gostei da parte em que vai buscar a frase do meu post «Tem razão, caro amigalhaço dos animais»
    para dizer que

    Primeiro eu não sou SEU amigalhaço

    Foi uma maneira curiosa de me chamar animal.

  9. As pessoas compreendem o que são capazes de compreender, que de resto algumas apertam os cordões do entendimento por puro medo de não ser capaz de o conceber. Ponto final.

    Atirei o pau ao gato, Normal. É vadio. Tem pulgas e doenças. Não lhe toques que tem micróbios. E aliviam-se consciências num donativo anónimo que até dá jeito no irs.. Já que nunca nos lembramos de ler os rótulos para despiste dos testes em animais.. Longe da vista, longe do coração..

    Não há pachorra..

  10. Quero pensar que sou capaz de compreender todas as posições e pontos de vista.
    Todavia, continuo a pensar que nem todos os meios justificam os fins. Guillermo Habacuc Vargas poderia tentar montar a exposição com uma criança, subnutrida e abandonada. Tal como os cães, crianças abandonadas, maltratadas e subnutridas é o que não falta nas periferias das grandes metrópoles, ocidentais e do terceiro mundo.
    Ser-lhe-ía permitido? Dar-lhe-íam os benefícios das dúvidas? Continuaria a ser arte?
    Não! Não pode valer tudo!