25/Outubro/2009

Pacheco Pereira desancou o Twitter

Só agora li, com mais de uma semana de atraso, o artigo de Pacheco Pereira sobre o Twitter (e outras redes sociais, como o Facebook). Pacheco escreveu-o para o Público e agora adaptou-o ao blogue.

Como não comprei o Público nesse dia, foi graças ao Twitter que tomei conhecimento que Pacheco Pereira escrevera um artigo a desancar o Twitter. É surpreendente a utilidade desta pequena ferramenta, capaz de divulgar até informações que podem ferir a susceptibilidade dos seus utilizadores.

Pacheco Pereira parece ver o Twitter como se este fosse mais do que uma simples ferramenta. E parece-me que não estou a dizer nenhum disparate se recorrer ao velho chavão segundo o qual uma ferramenta é aquilo que quisermos fazer dela, nada mais do que isto. Uma faca pode ser usada para cortar um pescoço, mas responsabilizar a pobre faca pelo uso que as mãos lhe dão é pouco sensato, para não dizer estúpido. Por isso existem processos de filtragem no Twitter, para que possamos seguir apenas quem o utiliza de uma forma que gostamos e rejeitar quem consideramos que produz apenas ruído.

Pacheco Pereira  não é insensato nem estúpido: levanta algumas questões pertinentes quando compara a utilização do Twitter a uma doença que designa, com graça, Transtorno do Déficit de Atenção Cívica com Hiperactividade Social.

«E o efeito social da doença é devastador», prossegue, apocalíptico,

«ataca o “povo” que é suposto ser sábio, mas que a doença torna cada vez menos sábio, e ataca as elites que já nem sabem o que é ser elite, se é que alguma vez o foram

Há quem considere o Twitter inútil, o que é compreensível, e há quem o considere útil, o que é igualmente compreensível.

Como vivemos numa cultura tecnológica que sobrevaloriza a rapidez com que a informação nos chega, somos incentivados a ter uma opinião igualmente instantânea dos acontecimentos. O Twitter é muito bom nisso, embora me pareça que existem pessoas que não têm em conta que a torrente de informação que lhes chega no Twitter nem sempre traz conhecimento.

O problema ultrapassa o Twitter e as redes sociais, embora Pacheco Pereira nos queira convencer que não, é só por causa das redes sociais. É uma questão mais profunda, parece-me, pois estamos condicionados a pensar que informação é conhecimento e que «filtrar» é o mesmo que «processar».

Estamos condicionados a pensar que a forma como escolhemos uma informação e rejeitamos outra significa que formámos uma opinião quando, na maior parte das vezes, essa escolha só revela o nosso preconceito. No caso de Pacheco Pereira, uma estratégia para mandar umas atordoadas a determinadas pessoas de elite que gostam de twittar – uma espécie de aquilo é 99 por cento lixo, mas revisto e actualizado.

Como sempre, conseguiu-o, irritando alguns e despoletando uma série de reacções exacerbadas – quanto mais violentas, deselegantes e superficiais melhor, pois se há coisa que Pacheco deve apreciar é que os seus detractores, do povo ou da elite, lhe dêem razão.

O Twitter atingiu uma tal importância enquanto ferramenta de comunicação que até pode estar ao serviço de quem o despreza.

7 respostas | Pacheco Pereira desancou o Twitter
  1. Miguel Caetano fez-se à net com Google Chrome 4.0.224.3 Google Chrome 4.0.224.3 em GNU/Linux GNU/Linux

    Acho que o Pacheco Pereira devia ler o Convergence Culture do Henry Jenkins. Avaliar as novas literacias apenas pelo potencial prejudicial que elas contêm não passa de uma atitude de neo-luddismo. Nesse sentido, como tu dizes, não passa de uma banalidade e de um maniqueísmo saudosista que já não se usa. Case in point:

    Tudo passa a valer o mesmo e circula como se fosse o mesmo, porque a TDACHSR lhe tira o sentido, na sua desatenção à diferença, diferença que nasce de “literacias” que exigem atenção, esforço, trabalho, tolerância e vida.

    Na verdade, acho que isto é um exemplo evidente de tecnofobia. Se como ele diz, a “doença” começou nos nerds, convém lembrar que os nerds são responsáveis por boa parte dos avanços tecnológicos dos últimos 40 anos. O Twitter e as redes sociais foram feitos a pensar para servir de cenário para conversas virtuais junto do “watercooler” de geeks do Siiicon Valley que passam o dia a processar código e todo o tipo de informação abstracta.

    Não entender que cada tipo de literacia que os novos suportes tecnológicos disponibilizam comporta em si tanto efeitos positivos como negativos é um erro de palmatória que não é compreensível para alguém que é conhecido por ser um dos principais “pensadores” da Internet em Portugal.

    Se o Twitter e as redes sociais podem conduzir à desatenção, ao voyeurismo, ao narcisismo e à dispersão, ao mesmo tempo elas também podem potenciar um novo espírito de colaboração, participação e transparência que caso sejam aproveitados e estimulados poderão resultar em ganhos cognitivos, democráticos e de produtividade nunca antes alcançados tão rapidamente. No fundo, tudo depende do tipo de estímulos a que os utilizadores são sujeitos – e isso começa logo na escola ou na universidade. Não basta ensinar os estudantes a usarem as ferramentas do Office, a criarem sites e a programarem. É necessário também que eles adquirem um discurso crítico, tecnorealista e não tecnocrático que seja capaz de evitar cair no determinismo tecnológico.

    Seria melhor que o senhor Pacheco Pereira pusesse mãos à obra do que tecer generalidades a coberto de um manto de pseudo-erudição.

  2. Marco Santos fez-se à net com Firefox 3.5.3 Firefox 3.5.3 em Windows 7 Windows 7

    Absolutamente de acordo, Miguel.

  3. Tarilonte fez-se à net com Google Chrome 4.0.223.11 Google Chrome 4.0.223.11 em Windows 7 Windows 7

    A nova Internet, com seus Twitters, Orkuts, Facebooks, Blogues e Youtubes se apresenta como o novo espelho de Narciso.
    Cada seguidor é um pequeno espelho no qual podemos admirar a nós mesmos. Não é importante eu saber quem me segue, e muito menos ouvir o que ele tem a dizer. Sua única utilidade é somar um número à minha lista.

    Particularmente, creio que isso tudo é hype. Essa euforia toda, todo mundo querendo se manifestar mesmo sem ter nada pra dizer é, antes de tudo empolgação por causa da novidade.
    Ou não.

  4. Maria fez-se à net com Firefox 3.5.3 Firefox 3.5.3 em Windows XP Windows XP

    Indirectamente relacionado, achei muito interessante esta reflexão num artigo da Smashing Magazine: http://www.smashingmagazine.com/2009/10/24/brand-user-experience-the-interface-of-a-cheeseburger/

  5. Edgard Costa fez-se à net com Firefox 3.5.3 Firefox 3.5.3 em Fedora 11 Fedora 11

    Mas este tipo de reação é recursivo. Já ocorreu com a televisão e seu enlatamento do conhecimento. Ocorreu na música, como com o CD, onde críticos acusaram Karajan de espremer as sinfonias para caber na média. Já, já aconteceu com os jornais quando comparados com os livros, e com os livros, redutores a aprisionadores de histórias que antes circulavam livremente somente com as palavras.

    O desenvolvimento e crítica da massificação da comunicação segue o fluxo da História da tecnologia que suporta a difusão da própria comunicação. E como tudo que é massificante é, necessariamente, redutor, comprimido, condensado de forma a circular para mais e mais pessoas.

    E é, principalmente, imutável. O que está escrito assim está e passa a ser um agente classificador de quem o escreve, mesmo que este mude de ideia minutos apois ter escrito. E por saber disso, quem escreve passa a dizer muito menos do que poderia, sob pena de ser acusado de sei lá o que. O próprio processo de massificação, cujo blogue é um exemplo, é redutor por natureza, por ser massificante.

    Mas a doença social a que o Pacheco Pereira se refere não passa de um agravamento de uma doença que já existe a muitos anos e que foi a mesma que impediu que os génios da música não sejam encontrados em nossos dias, nesta geração vigente. E quem diz da música diz da literatura, do cinema, do teatro, etc. A arte, expressão popular do conhecimento e forma particular de comunicação, de certa forma se pasteurizou com o advento da TV, primeiro grande objeto tecnológico de comunicação de massa ao nível global.

    O ser humano mudou definitivamente desde então, e continua a mudar de uma forma assustadoramente veloz e o resultado disso ainda é completamente imprevisível, acredito. O que somos hoje não é absolutamente o que éramos a 30 anos, nem a 20, nem a 10. A 5 anos nem tantas crianças tinham telemóveis.

    O anúncio dos 7M da TMN só indicam que, num mercado de no máximo 10M de pessoas já existe um conjunto enorme com mais que um telemóvel. Para que? Será isto doentio? Será isto apenas mais um erro proporcionado pelos exploradores do mercado que pouco se preocupam com a saúde das pessoas desde que vendam mais e mais dos seus produtos e lucrem mais?

    Está tudo a mudar muito rapidamente e ainda não há uma compreensão, uma visão de conjunto, do quadro geral daquilo o que somos e para onde vamos. A velocidade a abrangência da informação nos dias de hoje detona de forma definitiva todo o tipo de “verdade” que foi estabelecido no passado, mas que dependia da dificuldade na circulação da informação para sobreviver enquanto “verdade”. A religião e a política são os mais atingidos por isto.

    Mas se estes são dois dos principais pilares da civilização ocidental, o que vem a seguir? É nisso que tenho pensado nos últimos 10 anos.

    A real revolução que hoje vivemos está no poder que nos foi dado, pela Internet, em escolher aquilo que queremos ver, ler ou ouvir. Já não dependemos de um intermediário, normalmente corrompido por um sistema que fazia “aparecer” mais o produto “artístico” daqueles que detinham mais dinheiro. Mas a mesma característica democrática que nos permite a liberdade de escolha e/ou produção da própria arte com meios públicos de difusão, abre espaço ao lixo. Temos que ser muito mais seletivos.

    A educação tem que mudar. Já não nos serve um modelo professor/aluno onde aquele ensina a estes o que uns outros julgaram ser importante que fosse ensinado. Hoje cabe mais ensinar o desenvolvimento do espírito crítico, para que se possa avaliar a qualidade e/ou propriedade do que se divulga, do que um conjunto qualquer de conhecimentos pré-concebidos para dar “ferramentas” aos cidadãos de amanhã que já não serão aquilo que hoje somos e que aqueles que avaliaram os conhecimentos a serem difundidos eram.

    Estamos no meio de uma revolução, onde o revolucionário convive conturbadamente com o arcaico, como em toda a revolução, mas que ninguém sabe exatamente para onde iremos. Não há cabeças da revolução, como um Jean Jacques Rousseau ou Vladimir Ilitch Lenin. Esta revolução é nossa, agentes revolucionários e revolucionados ao mesmo tempo, e que nunca tivemos tanta liberdade e pode para construir o nosso futuro.

    A maior crise que esta revolução proporciona é a crise do poder, como citou Pacheco Pereira, e como é Pacheco Pereira.

    Foucault de certa forma previu isto no fabuloso Microfísica do Poder, onde ele dizia que o poder não se detêm e que não há divisões entre os que tem e os que não tem poder. O que havia era uma atribuição aqueles que praticavam e exerciam o poder. O que hoje existe, e é esta a força da Internet, é que o poder se expande e atinge a um número muito maior de pessoas que deixam de ser meros espectadores para passar a serem eles próprios produtores e difusores de informação e conhecimento. A opinião hoje é efetivamente livre, como nunca antes foi.

    Como uma mensagem no Twiter, este comentário tenta somente resumir algumas das coisas que tenho pensado, visto e estudado. Será que tive o poder de síntese necessário para transmitir toda a abrangência destas ideias.

    Concordo com o Pacheco Pereira, há uma doença social grave. Discordo dele no diagnóstico e nas atribuição das causas. É anterior e muito mais abrangente, sendo ele próprio um agente mediático desta pasteurização da informação.

  6. Edgard Costa fez-se à net com Firefox 3.0.14 Firefox 3.0.14 em Fedora 10 Fedora 10

    Acabo de assistir uma gravação que fiz da Odisseia, de um recente documentário da BBC (2009) sobre a ocupação pré-histórica da Europa. Um entre os diversos pontos que abordaram, dizia respeito a prevalescência do Homo Sapiens e da extinção do Homem de Neandertal.

    As primeiras teorias diziam que os nossos antepassados diretos detinham maior capacidade intelectual e por isto maiores capacidades alimentares. Alguns preconizaram que fosse mesmo o confronto entre as duas espécies primas que determinaram o desaparecimento da segunda.

    Mas neste excelente documentário levantaram outra hipótese, que é concordante com outras coisas que já li anteriormente, principalmente com Gordon Childe entre outros, em que o que haveria determinado a continuidade de nossa espécie foi a nossa capacidade nata de fazer arte e de construir, o que chamaram no documentário, de redes sociais.

    A descoberta de uma flauta, talvez o mais antigo instrumento musical encontrado, entre outros instrumentos encontrados anteriormente, o que pressupõem a existência de uma bem estabelecida tradição musical, para além das diversas pequenas esculturas e desenhos, que pela semelhança (principalmente das Vénus) encontradas ao longo de toda a Europa de a 35.000 anos, deixa transparecer uma característica marcante de nossa espécie que é a da transmissão, conservação e passagem de uma cultura comum que estabelece, fortalece e solidifica uma sociedade humana europeia, mesmo antes de existir o conceito de Europa.

    Este estabelecimento e difusão de uma cultura num tão largo espaço teria sido um dos factores determinantes para o sucesso desta espécie em detrimento de nossos primos, que detinham basicamente a mesma tecnologia na criação de ferramentas e mesma capacidade de obtenção de alimentos, porém viviam em pequenos grupos isolados entre si.

    Portanto, as redes sociais são antes de mais nada uma característica humana, bem como a busca pelo desenvolvimento da tecnologia de comunicação que estabeleça estas redes. Todos os mecanismos de comunicação desenvolvidos a partir da massificação da tecnologia digital, fazem parte de um processo ancestral, por que não dizer instintivo, do ser humano moderno que colonizou a Europa a cerca de 40.000 anos.

    Se, na visão de alguns, isto reduz ou deforma nossos seres, é um engano: somos nós próprios a nos exprimirmos de nossa maneira.

    Como a língua, o meio de comunicação é dinâmico e está sempre em mutação, mas os que se estabeleceram num dos muitos formatos de expressão de ideias, irão sempre criticar os meios de comunicação que substituem os que foram utilizados no passado. Justifica-se pela tradição, mas não escondendo o medo de ser ultrapassado e de deixar, um dia, de poder se comunicar.

  7. rita maria fez-se à net com Firefox 3.5.2 Firefox 3.5.2 em Windows XP Windows XP

    Cheguei demasiado tarde a esta discussao, vocês afinal já tinham dito tudo o que é interessante. Acrescentaria só duas coisas: em primeiro lugar, embora talvez esteja a ser naive e optimista, a realidade das redes sociais acaba por provocar, nao imediatamente mas ainda assim muito rápido, o tipo de consideraçao crítica que antes nao estava presente nos outros media, embora devesse está-lo também. Quando eu leio um artigo na Wikipedia, tendo a confiar na comunidade que o escreveu, leu e alterou ou deixou inalterado, mas ao mesmo tempo sei que quem o escreveu foi um badameco como eu e ponho-o em causa, se for mesmo importante sigo as fontes, sigo a discussao, etc. Isto nao se fazia com os livros ou jornais ou a televisao, que vinham dantes imbutidos de uma suposta autoridade muito menos questionada, embora igualmente merecedora de questionamento. (já para nao falar de quao mais fácil é repor ou restabelecer a verdade)

    Em segundo, ainda relaccionado: os melhores professores nao passam agora a ser os que potenciam o tratamento crítico da informaçao, os melhores professores sempre foram esses. O que acontece agora é que os outros modelos passam a estar obsoletos e às tantas hao-de reparar nisso. O que é inteiramente positivo.