O espancamento de Victoria Lindsay
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Às oito e meia da noite de 30 de Março, em Lakeland, pequena cidade localizada no centro da Florida, uma cheerleader de 16 anos (Victoria Lindsay) foi espancada por seis outras cheerleaders com idades entre os 14 e os 17 (da esquerda para a direita, de cima para baixo: April Cooper, Britney Mayes, Cara Murphy, Brittini Hardcastle, Kayla Hassell e Mercades Nichols) enquanto dois rapazes (Zachary Ashley e Stephen Schumaker) montavam guarda à porta de casa.

Os murros, pontapés e agressões verbais duraram meia-hora, embora apenas uma sequência de três minutos tenha aparecido no YouTube (entretanto removida pelos responsáveis do site). O massacre foi organizado por turnos: ora espancas tu, ora espanco eu. A rapariga acabou por desmaiar quando bateu com a cabeça na parede devido aos murros e empurrões que levou, mas recuperou os sentidos e as agressões recomeçaram, sem dó nem piedade.
Finalmente, meteram-na num carro. Ao abandoná-la numa intersecção da estrada a poucos quilómetros dali, prometeram-lhe «mais um enxerto de porrada» caso contasse o que se passou à polícia. Victoria Lindsay foi parar ao hospital e quebrou esta omertà entre cheerleaders, entregando um bilhete à mãe no qual escreveu os nomes dos envolvidos. Estava tão maltratada que não conseguia falar. Ficou com numerosas marcas no corpo, sérios problemas de audição e sofreu uma contusão cerebral.
O xerife encarregue do caso, Grady Judd, apareceu aos jornalistas da NBC com uma expressão perturbada e afirmou que «aquilo» tinha sido «um ataque animalesco» e «a vítima fora atraída àquela casa com o propósito de filmar o espancamento e colocar o vídeo na Internet».
Percebe-se a intenção de classificar o acto como «animalesco», mas o espancamento é um acto profundamente humano: numa luta entre rivais da mesma espécie, nenhum animal mantém a agressão se o adversário se der por vencido. Um lobo chega a oferecer ao adversário o seu ponto mais vulnerável – a garganta – para transmitir a «mensagem» de que perdeu a luta, paradoxalmente impedindo o vencedor de prosseguir os seus ataques. A adolescente nunca tentou sequer defender-se: se as raparigas se portassem como animais, como afirmou o xerife Grady Judd, teriam cessado imediatamente as agressões.
Filmar actos de violência com o propósito de os divulgar é prática tão antiga como filmar actos sexuais e, tal como estes, um sucesso garantido. Basta recordar o que aconteceu em Portugal, quando no primeiro reality show Big Brother um dos participantes agrediu outro – o famoso «pontapé do Marco». O mesmo Marco já fora protagonista de outro grande «momento de televisão», uma cena de sexo com outra concorrente.
Segundo contam os artigos publicados na altura, «todo o país parou para ver» a cena de porrada na «casa mais vigiada do mundo». Um site chamado Nostalgia apresenta hoje o pontapé como um dos momentos mais marcantes da TVI.
Nesse «marcante» momento, verificou-se também um facto óbvio: um homem agrediu com um pontapé à karateca uma mulher fisicamente indefesa. Mas a condenação moral deste acto foi incorporada no próprio mecanismo do concurso: seguiram-se cenas telenovelescas de arrependimento, lágrimas e, por fim, a expulsão do concorrente. No entanto, esta cena é recordada como aquela que «lançou o Marco e a Sónia para o estrelato». Neste contexto a decência é um valor ultrapassado, arcaico, é a avó chata do entretenimento.
Se o xerife ficou chocado com a intenção das raparigas, devia consultar o número de visionamentos que o infame pontapé do Marco já teve no YouTube: mais de 85 mil.
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Excelente. Infelizmente nem nos meios de comunicação, ditos de “referência”, conseguimos ser tão bem elucidados.
Está tudo dito. O texto é longo mas tinha que ser. Nú e crú.
Já não há muito a fazer. Isto está mesmo podre, por isso as borbulhas e os tumores porulentos rebentam agora minuto a minuto.
A miúda vai ter que faltar ao ensaio, e isso é que a chateia. Por cá os criminosos apresentam-se de manhã na esquadra para dar cumprimento ao termo de identidade e residência e reservam a tarde e a noite para continuarem naquilo que sabem e gostam de fazer.
Continuo a dizer que esta é a sociedade que nós modelamos, porque os valores cívicos e morais, sejam eles quais forem, há muito que foram para o cara….
Agora há que aguentar.
Opps…queria dizer purulentos.
Basta olhar para a popularidade que o wrestling tem vindo a ganhar nos últimos anos para ver que a violência e principalmente o seu visionamento estão demasiado integrados nesta sociedade.
Quanto ao tal pontapé, as situações são diferentes. Não estou, nem quero estar a defender ninguém, mas uma coisa é uma agressão no calor do momento e que ficou por ali (além de que nem foi nada de muito grave, se ele quisesse tinha-lhe dado uma bem dada) e outra coisa é a violência prolongada e bem planeada, com dois marmanjos a vigiar e tudo.
Algo está muito mal, quando jovens tão novos agem assim (já pareço um velho a falar, mas é bem verdade)
Caro Vítor, como é óbvio não estou a fazer nenhuma comparação directa entre um caso e outro.
Sou da colheita de 46, fiz as minhas asneirolas, mas nenhumas comparáveis às mais “inocentes” dos actuais jovens. Vivo junto a uma EB 2+3 e das traseiras da minha casa assisto a cenas inacreditáveis. Uma delas foi registada pela minha máquina fotográfica, 25 fotos que entreguei na secretaria da escola. Desde urinar e defecar junto ao pavilhão desportivo, até passar “erva” e sexo ao vivo, tenho visto de tudo um pouco. Ah, não há bairros sociais/problemáticos numa área de 6/7 quilómetros! E que dizer dos papás que vão esperar os filhos de automóvel e os chamam, bem alto, “ó f… da p…, entra depressa ou dou-te cabo dos cornos”? São estes os monstros que estão a ser criados. Enfim, o futuro é risonho!
Bom post. Vivemos tempos em que a violência (nem sempre física) está a banalizar-se. E porquê? Cada vez mais a Internet faz parte da vida das pessoas; cada vez mais facilmente encontramos violência na internet. Exposição contínua: banalização – aceitação.
A vida lenta, pacata e, em muitas situações, mais nobre, de “antigamente” tinha essa vantagem: as pessoas propensas a serem estúpidas e a terem comportamentos descontrolados não espalhavam a sua influência a tanta gente nem tão rápido. No fundo, a “doença” estupidez encontrou um novo meio para se difundir em massa e rapidamente.
P.S.: É “cyberbullying” e não “cyberbulling”.
Oops. Claro que é cyberbullying. Obrigado pela correcção, Alexandre
E concordo completamente com o teu comentário.
Mas e não há ninguém que veja, avalie e corrija e trave estes comportamentos? Pais, tutores, ninguém?
Que raio de valores é transmitido a estes jovens?
Tudo isto não pode nem deve ser “justificado” com: é fruto dos tempos que correm! Tem que haver um modo de emendar um mau comportamento. Que seja correcto mas que também seja firme. Eu acho!
Ah, e que não venha por aí um qualquer “pensador” afirmar que a culpa é da Internet. Admirar-se-iam?