O cãozinho não morreu, está bem? Irra!
Publicado por Marco Santos [9/Abril/2008]. Categoria: Cromos [463]Os posts que escrevi acerca do caso Guillermo Habacuc Vargas – o tal artista que supostamente deixou morrer à fome um cão numa exposição na Nicarágua – têm recebido uma enormíssima quantidade de visitas nas últimas semanas. Sobretudo este: Tu és o que lês, publicado a 2 de Novembro do ano passado.
Este acréscimo de visitas deve-se ao facto de estar a circular nos emails (outra vez?) a petição organizada no ano passado: a polémica reacendeu-se com as pessoas que ainda não tinham tomado conhecimento do boato. Muitas deixaram-se levar pela gritaria histérica, assinando sem pesquisar um assunto tão sensível.
A maior parte dos visitantes chega agora com a mesma disposição com que aterrara em Novembro de 2007: um enorme frenesim justiceiro. Depois de lerem o meu post, os netinquisidores sentem-se mortalmente ofendidos por eu gozar com quem assina petições e crucifica um artista com meia-dúzia de cliques. Se o assunto é assim tão importante, mais um motivo para não se assinar petições com essa leviandade.
Depois de passar mais de duas horas no Google a remover o lixo sensacionalista que o caso produziu, contei a verdade do que realmente aconteceu: o cão não morreu na exposição, foi alimentado pelo próprio artista e escapou-se do recinto na manhã do terceiro dia.
A verdade pode ser um enorme inconveniente para quem deseja, em primeiro lugar, o sangue de Guillermo Habacuc Vargas. Algumas reacções que li nos blogues foram tão violentas que pergunto se um desmentido categórico os deixaria aliviados ou decepcionados: sem a morte do cão, que fariam eles à violência que carregam dentro de si?
As visitas têm sido tantas que pensei em voltar a escrever sobre o caso, recolhendo o máximo de elementos possível de forma exaustiva, perder dois ou três dias se fosse preciso, desmontar esta comédia.
Não foi preciso. Outra pessoa já o fez por mim: Carlos Almiron, licenciado em História e apresentador do programa Mundo Caos, na PunkRadio, escreveu um artigo desmontando a cabala dos amigalhaços dos animais (é verdade: também escrevi um post dedicado a esses). Aconselho-vos a leitura integral do texto – inteligente, oportuno e com a lucidez que tem faltado a tanta gente. Mas sempre vos revelo uma conclusão importante: Marta Leonor González, a jornalista que supostamente denunciou a morte do cão no suplemento cultural La Prensa Literaria, nunca esteve sequer na exposição – quem o afirma é um dos artistas que lá expôs e com quem o autor do texto falou. Mais: até agora nunca ninguém conseguiu descobrir o raio do artigo que ela terá escrito. Chega?



























pode (ou não!) estar a usar
Data: 9/Abril/2008 | Hora: 21:12
Olá Marco,
Vou-te confessar que cada vez que recebo um email deste tipo perco tempo a:
1) Investigar se é verdade ou não (quando não me lembro já do caso ou do esquema)
2) Enviar um email a quem mo envia (e não a toda a lista que muitas vem aberta) a explicar que o caso é falso e como deve proceder. Dá muito trabalho, já me valeu algumas respostas mal educadas, mas vale a pena. se cada um de nós que sabe destes esquemas fizer o mesmo então há esperança de educar as pessoas …
Ainda nbem que já percebi que não estou sozinho.
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Data: 9/Abril/2008 | Hora: 21:14
Fernando, definitivamente não estás sozinho. Mas estamos em minoria, claro.
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Data: 9/Abril/2008 | Hora: 21:51
mas muitas vezes, quando nos damos ao trabalho de verificar e confirmar esses casos, e avisamos as pessoas, somos mesmo mal-tratados
muitos mails correntes acabam quando chegam a mim, mas isso não impede que receba o mesmo mail passadas 2 semanas ou 2 meses.
e os temas são os mais variados:
crianças horrivelmente queimadas (a mesma foto circula há pelo menos 4 anos); pedidos de sangue/medula óssea (rara é a vez em que é real!); aviso de crianças desaparecidas com contactos telefónicos inexistentes; avisos sobre produtos de higiene que contém componentes cancerígenos (mais um hoax e até é importado); petições on-line variadas - não me lembro que alguma tenha funcionado; …
só reenvio mesmo os vídeos e powerpoints mais engraçados
mas há muita falta de … conhecimentos na utilização deste serviço de comunicação que é o e-mail…
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Data: 10/Abril/2008 | Hora: 1:23
Devo confessar-vos que:
1) Nem ligo à maioria dos e-mails, somente àqueles provenientes de endereços pertencentes a gente que usa o email para comunicar e não apenas reenviar emails;
2) Mesmo que ligue a um desses emails não reenvio para ninguém. Sou o que se pode chamar de anti-social. Em termos de email, claro.
3)Continuo a ter uma péssima opinião das pessoas que se revoltam porque alguém lhe disse que aconteceu uma maldade qualquer sem primeiro verificar as veracidade das razões da sua revolta.
É isto que eu acho. Se é que isso importa.
Bons textos, como sempre.
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Data: 10/Abril/2008 | Hora: 10:49
felizmente existem pessoas que desmontam estes carroceis justiceiros. será isto um exemplo de serviço público?

a esmagadora maioria (ou “esmagadoria” como disse um ex-presidente do slb…) dos utilizadores da net limita-se a reenviar toda a porcaria que recebe… sem sequer se dar ao trabalho de ver/ler/pensar o que raio está a reenviar. há uns anos o medo era que as máquinas dominassem o ser humano, parece-me que hoje em dia, cada vez mais, os seres humanos agem como máquinas, parecem programados para determinada função & executam-na.
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Data: 10/Abril/2008 | Hora: 15:54
Uma das razões pela nova vaga de hits ao post do cãozinho é capaz de ser esta:
http://forum.ptgamers.com/index.php?showtopic=20910&st=0
(ver post de user “carteiro_pat” depois de uma série de posts imbecis)
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Data: 10/Abril/2008 | Hora: 16:39
Obrigado, David, já me tinha apercebido, mas a maior parte tem vindo do Brasil de uma comunidade no Orkut.
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Data: 10/Abril/2008 | Hora: 17:27
Penso que toda a discussão está equivocada: não importa quem fez, mister observar o que foi feito e o que poderia ter sido feito. Se o cão estava a sofrer na rua, qual o mérito que se pode atribuir a alguém que o mantém a sofrer numa exposição de arte? Mérito poderia ter se o encaminhasse a um abrigo seguro, confortável, com outros cães, com pessoas que lhe dessem a devida atenção. Milhares de organizações não-governamentais existem que auxiliam não só cães, como todo tipo de animais… poderia até dizer que auxiliam humanos, ao mostrar-lhes como é um relacionamento de respeito entre os seres. Conscientização política se pode fazer de várias maneiras, mas é demasiado reprovável demonstrar o que não se quer que se faça, fazendo.
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Data: 10/Abril/2008 | Hora: 17:57
Eliza, compreendo o que quer dizer e em parte concordo - e digo «em parte» porque, apesar de tudo, Habacuc alimentou o cão enquanto ele lá esteve.
Discutir o «mérito» do artista neste caso é uma discussão lateral ao meu post, mas uma discussão interessante.
Habacuc é conhecido na Costa Rica sobretudo por usar a Arte como uma forma de intervir politicamente ou, melhor ainda, como uma forma de confrontar as pessoas. Isto em si não é nada de novo porque uma arte que não te confronte não é arte, é entretenimento.
Se queremos falar em «mérito», não podemos esquecer-nos da mensagem que ele procura passar. Isto leva-nos a outra discussão ainda mais complicada, que é a de procurar definir quais são os limites da Arte. Naturalmente que não me passaria pela cabeça defender esse artista se, de facto, ele tivesse deixado o cão morrer à fome só para marcar uma posição. Mas defendo-o contra a horda de fanáticos que, baseados em boatos e mensagens de email, o trataram como um assassino. O que me revolta é isto: como é tão fácil, em nome da justiça ou da moral, criar dentro de uma pessoa um espírito da inquisição.
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Data: 11/Abril/2008 | Hora: 14:51
A entrada que puseste para a Zona Punk revela um artigo deveras excelente. Boa nota. Vai por aí que vais descansado!
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Data: 11/Abril/2008 | Hora: 15:01
Sem dúvida, Rui, é um excelente artigo.
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Data: 13/Abril/2008 | Hora: 17:21
O que é absolutamente paradoxal são os hate-emails que recebo após ter escrito um artigo sobre isso. As pessoas querem a protecção do animal, mas enviam emails dizendo que eu é que deveria morrer.
Restam-me poucas mais palavras que um enfim.
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Data: 21/Abril/2008 | Hora: 15:47
Caro Marco Santos
Poucos mas bons… estar em minoria não é pecado.
Subscrevo a opinião de Fernando Vasconcelos… de crianças raptadas a peditórios, quantas vezes não esbarramos em aldrabices montadas com outros fins.
Não quero comparar, mas de facto a prudência e o bom senso são muitas vezes apanhados pela precipitação e a boa fé…
Já quanto aos amigalhaços dos animais (propositadamente pejorativo, mas não ofensivo… vai-se ver porquê), e tal como aqui disse, tantas vezes sustentando as suas opiniões não em princípios científicos, mas na antropomorfização das situações, gostava de saber o que pensam de um boi amarrado pelos cornos.
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Data: 21/Abril/2008 | Hora: 16:57
Caro Clint,
fico contente por verificar que um veterinário como você não se deixou levar pela histeria e, sendo concerteza alguém que gosta e respeita os animais, concorda na generalidade com o que escrevi.
O que ainda me impressiona nesta história são os comentários insultuosos que fui forçado a apagar e, posteriormente, ignorar; gente sem cérebro incapaz de ver para além do esterco da sua raiva.
Se por acaso esse artista tivesse deixado o cão morrer à fome, eu seria o primeiro a subscrever a petição e a indignar-me. Mas as pessoas adoptam uma causa como esta, por precipitação ou boa fé, concordo, e depois têm uma dificuldade enorme em aceitar quem lhes contraponha a verdade. É contra estas que me insurjo: estão cegos e querem furar-me os olhos. São tão violentas quanto o carrasco Habacuc que julgam combater e nem se dão conta disso: como acham que têm razão, acham-se também no direito de retaliar como quiserem.
E depois partem do princípio de que a pessoa que se recusa a assinar essa petição é alguém que não gosta de animais, tão moralmente baixo como o artista que procuram crucificar. No meu caso, que sempre tive cães e gatos a vida toda, é um disparate completo. Já fechei os comentários nos dois posts que escrevi sobre o assunto porque sinceramente já não tenho paciência para aturar gente mal-educada e que não pára um segundo para pensar.
Bom post, o seu. Concordo a 100 por cento.
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Data: 26/Abril/2008 | Hora: 10:48
Pois, sem me sentir ofendida, eu fui uma daquelas pessoas que acreditou piamente que o cão tinha morrido, isto porque vi no telejornal e li nos jornais!
Se me diz e prova que o cão não morreu, óptimo! Nem imagina o quanto fico feliz!!!
Não quero crucificar o artista, mas verdade seja dita achei-o cruel e a todas as pessoas que viram e nada fizeram também!!! Se vou atrás das multidões, não sei, mas que detesto injustiças com animais e corro a defendê-los da maneira que posso, ai corro…
Obrigada
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Data: 30/Abril/2008 | Hora: 21:59
Caro Marco,
o Ocidente (e respectivos “filhos”) é por excelência o espaço histórico onde se demonta a tutela absoluta da cultura e onde se dá a descontrução (Derrida) dessa mesma cultura. Se é verdade que a arte abala um conjunto de dados adquiridos, não é menos verdade que na contemporaneidade há uma tomada de consciência de que a radicalidade pode não surtir efeito, ou seja, que não é axiomática. Independentemente do cão ter morrido (como eu pensava que tinha acontecido), concordo com Bourriaud quando este diz que em Arte olha-se e escuta-se o que abre o pensamento e que os artistas produzem imagens “magras” sem “efeitos especiais”, sem palha, contrariamente ao crash perceptivo proporcionado pela propaganda e pela publicidade para surpreender rapidamente, limitando o espaço de tempo necessário ao olhar perante uma imagem. A arte contemporânea opera como uma estrutura micropolítica, que se situa no interior das diversas esferas da vida, que cria novos dispositivos para habitar o mundo, que reinventa percursos no mundo e que se ocupa de um posicionamento crítico não objectivo do mundo. Esta instalação polémica, no meu ponto de vista, situa-se mais na esfera da publicidade/propaganda do que na da Arte.
Cumprimentos
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Data: 1/Maio/2008 | Hora: 18:10
AMIGO MARCO;
Apesar de me mandarem ainda hoje e-mails sobre o caso, já contactei e falo tantas vezes com Guilhermo Vargas, e ele já me mostrou o cão que ele sempre o alimentou. Lamneto imenso é estas associações amigas dos animais virem a público, na internet, em jormnais, na comunicação social, dizendo que o Senhor praticou um crime, quando afinal o pobre animal era um cão vadio a quem ele acudiu tratou-o e só porque o expôs numa exposição foi logo motivo para tantas controversias. Já alguém se interrogou do sofrimento que é numa tourada, da tortura, sim toutura que fazem aos touros na arena para gáudia de muitos? A mim causa-me uma tristeza imensa, imagino aqueles animais apesar de irracionais mas sentem. AI NINGUÉM RECLAMA E SOMOS POUCOS A RECLAMAR E QUANDO RECLAMAMOS LÁ TEMOS A POILICIA ATRÁS DE NÓS. CHAMO AS ESTAS PESSOAS POBRES DE ESPÍRITO.
Um bem haja Carlos pelos seus textos
maria helena almeida
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Data: 8/Maio/2008 | Hora: 15:08
Também vim aqui parar por causa desse mail e por ter o hábito de verificar a verecidade dos factos… e de facto ioi optimo ter encontrado este blog!
Ainda bem que o bicho não morreu… e se tivesse morrido? Se fosse no meio da nossa rua ninguém lhe ligava nehuma…