O cãozinho não morreu, está bem? Irra!
Marcadores: Bobis, Guillermo Habacuc Vargas
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Os posts que escrevi acerca do caso Guillermo Habacuc Vargas – o tal artista que supostamente deixou morrer à fome um cão numa exposição na Nicarágua – têm recebido uma enormíssima quantidade de visitas nas últimas semanas. Sobretudo este: Tu és o que lês, publicado a 2 de Novembro do ano passado.
Este acréscimo de visitas deve-se ao facto de estar a circular nos emails (outra vez?) a petição organizada no ano passado: a polémica reacendeu-se com as pessoas que ainda não tinham tomado conhecimento do boato. Muitas deixaram-se levar pela gritaria histérica, assinando sem pesquisar um assunto tão sensível.
A maior parte dos visitantes chega agora com a mesma disposição com que aterrara em Novembro de 2007: um enorme frenesim justiceiro. Depois de lerem o meu post, os netinquisidores sentem-se mortalmente ofendidos por eu gozar com quem assina petições e crucifica um artista com meia-dúzia de cliques. Se o assunto é assim tão importante, mais um motivo para não se assinar petições com essa leviandade.
Depois de passar mais de duas horas no Google a remover o lixo sensacionalista que o caso produziu, contei a verdade do que realmente aconteceu: o cão não morreu na exposição, foi alimentado pelo próprio artista e escapou-se do recinto na manhã do terceiro dia.
A verdade pode ser um enorme inconveniente para quem deseja, em primeiro lugar, o sangue de Guillermo Habacuc Vargas. Algumas reacções que li nos blogues foram tão violentas que pergunto se um desmentido categórico os deixaria aliviados ou decepcionados: sem a morte do cão, que fariam eles à violência que carregam dentro de si?
As visitas têm sido tantas que pensei em voltar a escrever sobre o caso, recolhendo o máximo de elementos possível de forma exaustiva, perder dois ou três dias se fosse preciso, desmontar esta comédia.
Não foi preciso. Outra pessoa já o fez por mim: Carlos Almiron, licenciado em História e apresentador do programa Mundo Caos, na PunkRadio, escreveu um artigo desmontando a cabala dos amigalhaços dos animais (é verdade: também escrevi um post dedicado a esses). Aconselho-vos a leitura integral do texto – inteligente, oportuno e com a lucidez que tem faltado a tanta gente. Mas sempre vos revelo uma conclusão importante: Marta Leonor González, a jornalista que supostamente denunciou a morte do cão no suplemento cultural La Prensa Literaria, nunca esteve sequer na exposição – quem o afirma é um dos artistas que lá expôs e com quem o autor do texto falou. Mais: até agora nunca ninguém conseguiu descobrir o raio do artigo que ela terá escrito. Chega?
























Olá Marco,
Vou-te confessar que cada vez que recebo um email deste tipo perco tempo a:
1) Investigar se é verdade ou não (quando não me lembro já do caso ou do esquema)
2) Enviar um email a quem mo envia (e não a toda a lista que muitas vem aberta) a explicar que o caso é falso e como deve proceder. Dá muito trabalho, já me valeu algumas respostas mal educadas, mas vale a pena. se cada um de nós que sabe destes esquemas fizer o mesmo então há esperança de educar as pessoas …
Ainda nbem que já percebi que não estou sozinho.
Fernando, definitivamente não estás sozinho. Mas estamos em minoria, claro.
mas muitas vezes, quando nos damos ao trabalho de verificar e confirmar esses casos, e avisamos as pessoas, somos mesmo mal-tratados
muitos mails correntes acabam quando chegam a mim, mas isso não impede que receba o mesmo mail passadas 2 semanas ou 2 meses.
e os temas são os mais variados:
crianças horrivelmente queimadas (a mesma foto circula há pelo menos 4 anos); pedidos de sangue/medula óssea (rara é a vez em que é real!); aviso de crianças desaparecidas com contactos telefónicos inexistentes; avisos sobre produtos de higiene que contém componentes cancerígenos (mais um hoax e até é importado); petições on-line variadas – não me lembro que alguma tenha funcionado; …
só reenvio mesmo os vídeos e powerpoints mais engraçados
mas há muita falta de … conhecimentos na utilização deste serviço de comunicação que é o e-mail…
Devo confessar-vos que:
1) Nem ligo à maioria dos e-mails, somente àqueles provenientes de endereços pertencentes a gente que usa o email para comunicar e não apenas reenviar emails;
2) Mesmo que ligue a um desses emails não reenvio para ninguém. Sou o que se pode chamar de anti-social. Em termos de email, claro.
3)Continuo a ter uma péssima opinião das pessoas que se revoltam porque alguém lhe disse que aconteceu uma maldade qualquer sem primeiro verificar as veracidade das razões da sua revolta.
É isto que eu acho. Se é que isso importa.
Bons textos, como sempre.
felizmente existem pessoas que desmontam estes carroceis justiceiros. será isto um exemplo de serviço público?

a esmagadora maioria (ou “esmagadoria” como disse um ex-presidente do slb…) dos utilizadores da net limita-se a reenviar toda a porcaria que recebe… sem sequer se dar ao trabalho de ver/ler/pensar o que raio está a reenviar. há uns anos o medo era que as máquinas dominassem o ser humano, parece-me que hoje em dia, cada vez mais, os seres humanos agem como máquinas, parecem programados para determinada função & executam-na.
Uma das razões pela nova vaga de hits ao post do cãozinho é capaz de ser esta:
http://forum.ptgamers.com/index.php?showtopic=20910&st=0
(ver post de user “carteiro_pat” depois de uma série de posts imbecis)
Obrigado, David, já me tinha apercebido, mas a maior parte tem vindo do Brasil de uma comunidade no Orkut.
Penso que toda a discussão está equivocada: não importa quem fez, mister observar o que foi feito e o que poderia ter sido feito. Se o cão estava a sofrer na rua, qual o mérito que se pode atribuir a alguém que o mantém a sofrer numa exposição de arte? Mérito poderia ter se o encaminhasse a um abrigo seguro, confortável, com outros cães, com pessoas que lhe dessem a devida atenção. Milhares de organizações não-governamentais existem que auxiliam não só cães, como todo tipo de animais… poderia até dizer que auxiliam humanos, ao mostrar-lhes como é um relacionamento de respeito entre os seres. Conscientização política se pode fazer de várias maneiras, mas é demasiado reprovável demonstrar o que não se quer que se faça, fazendo.
Eliza, compreendo o que quer dizer e em parte concordo – e digo «em parte» porque, apesar de tudo, Habacuc alimentou o cão enquanto ele lá esteve.
Discutir o «mérito» do artista neste caso é uma discussão lateral ao meu post, mas uma discussão interessante.
Habacuc é conhecido na Costa Rica sobretudo por usar a Arte como uma forma de intervir politicamente ou, melhor ainda, como uma forma de confrontar as pessoas. Isto em si não é nada de novo porque uma arte que não te confronte não é arte, é entretenimento.
Se queremos falar em «mérito», não podemos esquecer-nos da mensagem que ele procura passar. Isto leva-nos a outra discussão ainda mais complicada, que é a de procurar definir quais são os limites da Arte. Naturalmente que não me passaria pela cabeça defender esse artista se, de facto, ele tivesse deixado o cão morrer à fome só para marcar uma posição. Mas defendo-o contra a horda de fanáticos que, baseados em boatos e mensagens de email, o trataram como um assassino. O que me revolta é isto: como é tão fácil, em nome da justiça ou da moral, criar dentro de uma pessoa um espírito da inquisição.
A entrada que puseste para a Zona Punk revela um artigo deveras excelente. Boa nota. Vai por aí que vais descansado!