A pirataria é má, os mafiosos da moralidade também

Publicado por Marco Santos [25/Novembro/2008]. Categoria: Cromos

Se a condenação à pirataria na Internet fosse absolutamente consensual, como afirma o recém-criado Movimento Cívico Anti-Pirataria na Internet (post original), os verdadeiros detentores dos direitos sobre as suas criações – os artistas, não os executivos – condená-la-iam de forma unânime.

No entanto, músicos como a britânica Joss Stone – cuja voz é frequentemente comparada à de Janis Joplin – não encaram a pirataria da mesma forma maligna. Entrevistada em Junho deste ano pelo jornalista argentino Federico Wiemayer, Joss Stone afirmou que os músicos que condenam a partilha ilegal dos ficheiros «levaram uma lavagem ao cérebro das editoras».

O assunto veio à baila quando o jornalista lhe perguntou o que achava ela da pirataria e do facto de as pessoas fazerem download das suas músicas na Net. «Acho óptimo», respondeu. «Óptimo?» – insistiu Federico Wiemayer. «Sim, adoro», confirmou a cantora, de passagem por Buenos Aires para um concerto. «Acho que é óptimo e digo-lhe porquê: a música deve ser partilhada. A única parte da música de que não gosto é a do negócio que lhe está associada. Se a música é livre, não deveria haver negócio, apenas música. Por isso gosto, acho que devemos partilhar. E mesmo que alguém compre o CD e faça cópias para mostrar aos amigos, acho óptimo, por mim tudo bem, desde que oiçam a minha música e venham aos meus concertos».

Já há uns anos, no auge da polémica Napster desencadeada pelas queixas dos Metallica (o assunto mais uma vez dividiu a opinião dos músicos), o cantor Moby juntou-se a nomes como Prince na defesa do Napster e afirmou o seguinte: «Sinceramente, quando vejo que as pessoas estão a sacar as minhas músicas não me sinto ofendido, sinto-me lisonjeado.» Mais recentemente, Prince afrontou a indústria (outra vez) ao disponibilizar de forma gratuita o seu último CD, Planet Earth, na edição do tablóide inglês Mail on Sunday, um jornal cuja circulação média diária é de 2,3 milhões de exemplares.

O caso da banda Nine Inch Nails é talvez o mais exemplar na forma como alguns músicos encaram a partilha de ficheiros e o próprio negócio de que fala Joss Stone. A banda criou um perfil em vários sites de torrents – entre os quais o The Pirate Bay, um dos mais conhecidos – e disponibilizou gratuitamente o primeiro volume de uma série de quatro discos intitulada Ghosts. O álbum foi partilhado sob uma licença não-comercial Creative Commons. «Agora que já não estamos constrangidos por uma editora, decidimos fazer nós mesmos o upload do disco», anunciou a banda. «A BitTorrent é um método revolucionário de distribuição digital e acreditamos que é preferível procurar formas de utilizar as novas tecnologias do que combatê-las.»

Quem também considera que deve ser o artista a decidir o enquadramento moral (e legal) das suas próprias criações é a banda Radiohead. Em Outubro do ano passado, o grupo decidiu colocar o seu último álbum – In Rainbows – disponível para download. O preço era decidido pelo comprador – e era possível descarregar o álbum de forma gratuita em formato MP3. It’s up to you, disseram os Radiohead. Outra característica fundamental tinha a ver com o facto de nestes ficheiros estarem ausentes as nefastas protecções DRM (Digital Rights Management).

O resultado financeiro deste sistema Paga o que quiseres, se quiseres deverá ser suficiente para preocupar a indústria e respectivo rottweiler digital (vocês sabem quem: Recording Industry Association of America, RIAA, associação de cariz mafioso que reúne as grandes editoras discográficas dos EUA). Embora não tenha revelado números, a banda confirmou que só o dinheiro que as pessoas decidiram voluntariamente pagar por In Rainbows (não contando portanto com a posterior venda física do CD) superou o que se conseguira com as vendas de todos os discos anteriores, segundo noticiou a Wired, citando o próprio Thom Yorke.

Claro que as editoras choram o lucro derramado, mas muitos não se deixam comover: «Durante quanto tempo os executivos das editoras pensam que continuarão a usufruir dos seus escritórios e agradáveis lugares de estacionamento? (…) Um novo modelo emergirá e não será um modelo que processa os seus próprios clientes, mas um que perceberá que a música não é um produto no sentido de ser uma coisa – a música está mais perto da moda, na medida em que ajuda a dizer aos fãs aquilo que são, no que acreditam de forma apaixonada e, até certo ponto, o que torna a vida divertida e interessante. É sobre um sentido de comunidade – uma canção é capaz de unir uma comunidade formada por indivíduos diferentes entre si. Não é apenas vender um CD dentro de uma caixa de plástico.» Quem escreveu estas palavras não foi um pirata ou um leecher do Demonoid,  mas um músico – David Byrne, dos Talking Heads.

Não obstante todos estes exemplos, associações como o Movimento Cívico Anti-Pirataria na Internet, apêndice da ACAPOR (Associação do Comércio Audiovisual de Portugal), insistem em dizer que representam e defendem os interesses dos músicos. É inegável que os interesses dos músicos devem ser defendidos, sobretudo tendo em conta que o grosso dos lucros cai nos bolsos das editoras.

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  1. Bruno Miguel
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    O Ian Rogers tem uma keynote muito interessante sobre os problema da indústria musical: http://topspinmedia.com/2008/11/grammy-northwest-musictech-summit-keynote/

    As editoras estão-se marimbando para o bem-estar financeiro dos músicos, mas a actuação mafiosa de organizações como a RIAA demonstram estarmos a assistir à queda de um verdadeiro monopólio – a sua última e desesperada medida é tentar obter o monopólio da nossa consciência cívica.

    Citando o Luís Filipe “Pneus” Vieira: é o espernear do morto.

  2. crealinho
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    Bonito bonito era um movimento a favor da pirataria (dependendo da pirataria, claro).
    A cultura é universal, o acesso a ela é a base de qualquer sociedade civilizada. E, sinceramente, não me estou a ver comprar cultura a um velho sentado na sua cadeira de escritório e a fumar charutos cubanos.
    E não me venham com a história de que comprar um um bocado de plástico chamado CD por 15-20 euros, média, é justo! Sendo assim, e tendo em conta que não nado em dinheiro, a minha cultura musical seria um deserto com rolos de palha a rodopiar ao sabor do vento.

  3. Alexandre
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    http://en.wikipedia.org/wiki/Fear,_uncertainty_and_doubt

    :wink:

  4. pedro_c
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    “Pirataria pode ser definida como o acto de sacar discos e filmes da NET, gravá-los e vender as respectivas cópias na Feira da Ladra.”

    Pois, aqui está a questão… Posso ser muito ingénuo e hipócrita nesta minha análise, mas sacar música através de torrents por exemplo, é “pedir o CD emprestado a um amigo”. Esse “amigo” disponibiliza-me o torrent dele, logo aceita que eu leve emprestado a música dele, que até pode ser um CD que ele comprou e passou para o disco do PC dele (com os torrents n é bem assim, mas fica a ideia).
    O que me leva à citação do que o Marco disse: “gravá-los e vender as respectivas cópias na Feira da Ladra” ISTO sim é crime e deve ser punido, obviamente. Fazer lucro com algo que não é teu…

  5. Bruno Miguel
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    @pedro_c
    Exacto: quem partilha os conteúdos, sem intuito comercial, só deve ser culpado de ser bom amigo e de estar a ajudar a promover um artista. A lei toma estas pessoas por criminosas, quando não o são e muito menos estão a causar prejuízo seja a quem for.

    Combatam o comércio ilegal do que quiserem, mas parem de querer violar a privacidade das pessoas. Isso era o que faziam regimes como o que tivemos com Salazar ou a Itália teve com o Mussolini.
    Quase tão gritante como querer violar a privacidade dos cidadãos é estes tipos virem afirmar que defendem os artistas e depois repartem os lucros da forma que sabemos: eles ficam com a maioria do lucro das vendas e os artistas contentam-se com pouco.

  6. elden.carones
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    Boas,

    Marco este sujeitos do MAPiNET estão a conseguir o que querem, que é serem divulgados e o bitaites é optimo para isso, pois tem uma grande dimensão de leitores. Além disso são tipo que não têm mais nada que fazer e que têm a mania de serem uns meninos ricos! Pois bem que a música é livre! LIVRE, pelo menos deveria sê-lo e não uma forma de fazer engordar uns quantos engravatados!!!

  7. Emenda 138! Abra os Olhos… | sixhat pirate parts
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    [...] A pirataria é má, os mafiosos da moralidade também [...]

  8. clima
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    Voçes falam, falam mas só dizem besteira, querem cultura façam alguma coisa como por exemplo: querem musica, filmes, jogos, façam voçes, produzam todos os que são a favor da pirataria e desponiblizem gratis para todos, não roubem os produtos dos outro cambada de parasitas.
    Recado para o comentário do pedro_c: eu tambem não sou ladrão, fico á porta há espera do resultado do roubo.

  9. joaquim
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    “nefastas protecções DRM (Digital Rights Management)” pf pode informar o que é isso e porque é nefasto?
    obrigado

  10. Recapitulando (I): MAPINET, astroturfing à portuguesa e a remoção da emenda 138 | Remixtures
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    [...] mesmo o discurso de que a pirataria física é imoral, que a contrafacção como a venda de DVDs e CDs em feiras ou bancas ambulantes deve ser [...]

  11. fox88
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    (a página de login para comentar já funciona ;) )

    marco, relativamente a esta temática, já viste o artigo Piratas «online» poderão ter acesso à Net cortado?
    via Peopleware

    continuação de boas festas ;)

  12. Marco Santos
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    Já tinha lido essa notícia no Público, sim.

    Boas festas :)

  13. glilco
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    Marcos,

    Não sei como é por aí, mas aqui no Brasil essa história de “pirataria não-comercial é boa e pirataria comercial não é” soa um pouco elitista.

    Isso porque, por aqui, apenas 20% da população tem acesso à internet. Ou seja, a pirataria que o pessoal com poder aquisitivo maior realiza é aceitável, mas não é aceitável que vendam baratinho o cd mal gravado para que a população mais pobre tenha acesso à cultura.

    Sobre esse assunto, indico o vídeo no youtube com o professor de direito Túlio Vianna

    http://www.youtube.com/watch?v=5oI9_u-ddXY&feature=PlayList&p=428AB0BC34753D2D&index=0&playnext=1

    e o texto “A ideologia da propriedade intelectual”, também do professor Túlio Vianna

    http://tuliovianna.org/index.php?option=com_docman&task=cat_view&gid=15&Itemid=

  14. Murilo Ferraz Franco
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    desculpe, Marco e não Marcos.


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