21/Janeiro/2010

24 horas de downloads ilegais

A ACAPOR, representante dos videoclubes em Portugal, montou uma barraquita no Largo de Camões, em pleno centro de Lisboa, para protestar contra a pirataria online.

Juntou-lhe uma acção melodramática destinada a chamar a atenção dos jornais, deixando um computador a fazer downloads ilegais durante 24 horas seguidas, à vista de todos, para demonstrar que é possível fazê-lo de forma impune.

Enquanto sacam os filmes, os senhores da ACAPOR podiam tentar perceber – e têm 24 horas para pensar – por que razão a pirataria tem tanto sucesso. Já que estão a brincar aos piratas e se sentem eticamente autorizados a fazer as mesmas escolhas de quem saca filmes ou música de forma ilegal, podiam aprender alguma coisa sobre a eficiência dos grandes sites de torrents.

Por exemplo, os senhores viram como é fácil encontrar o que se procura e tê-lo à disposição no computador sem nada que possa delimitar o uso que se lhe queira dar? Notaram que é possível, através da pirataria, ter acesso a obras culturais que as indústrias desprezam, por não serem suficientemente lucrativas?

Vamos supor que usaram o Demonoid para transferir os filmes. Digo «transferir» porque os senhores não «sacam», eu sei. Repararam como aquilo está tão bem organizado e é fácil de consultar? Uma pessoa chega à página, procura um filme em que está interessado e, dois minutos depois, tem à sua disposição um link para fazer o download. Digam-me os senhores onde é possível ter acesso a um serviço desta categoria que seja legal – em lado nenhum.

E mesmo que o assunto seja música e não filmes, as dificuldades continuam: se eu sacar um disco da Net posso usá-lo como quiser, sem DRMs ou restrições de qualquer espécie que me impeçam, por exemplo, de copiar ou emprestar o que é meu – o que acaba por ser uma situação curiosa, pois enquanto pirata sou tratado com mais respeito e consideração do que enquanto consumidor pagante.

Direitos de autor? Claro. Já conheço a conversa. Devemos ser a favor, claro, devemos condenar, com certeza, e estar incondicionalmente do vosso lado porque os senhores querem ter as costas quentes pela lei.

Vamos então falar de outro tipo de roubos e outro género de leis. Um disco ou um filme vendido hoje a mais de 20 ou 40 euros acabará os seus dias num caixote de promoções oito a dez vezes mais barato – acontece com frequência, estão a ver o dilema, e eu fico a pensar porque razão existe uma discrepância tão grande entre os preços, dado que estamos a falar do mesmo produto e portanto os custos de produção são os mesmos. Bem sei que vivemos num mundo em que a novidade está sempre inflacionada, mas parece-me que deveria existir uma linha muito nítida que separasse oportunidade de negócio e abuso de posição, mesmo que este esteja sancionado por lei.

Uma vez que os representantes da indústria do entretenimento são pessoas de bem, sempre do lado da lei, hesito em dizer que se trata de um roubo – mesmo sentindo que os meus direitos de consumidor são espezinhados por sapatos da mesma marca que os senhores usam.

No que respeita à iniciativa de hoje, estamos portanto numa situação ironicamente semelhante: os senhores usufruem da possibilidade de fazer downloads ilegais para denunciar a acção impune de um grupo de ladrões; eu faço exactamente o mesmo.

47 respostas | 24 horas de downloads ilegais
  1. bruno fez-se à net com Google Chrome 4.0.266.0 Google Chrome 4.0.266.0 em Windows 7 Windows 7

    Ahahah, adorei!
    Ainda à pouco estava a discutir pela 13983498324 vez este assunto com um grupo de pessoas, e agora deparei-me com este post.
    Não me vou pronunciar em relação a este assunto, já que vai dar sempre ao mesmo, cada um fica com a sua opinião e fim. Vale mais cada um desfrutar da opinião que tem.

  2. jds fez-se à net com Firefox 3.5.7 Firefox 3.5.7 em Windows 7 Windows 7

    Eu hoje vou bater em todas as crianças que vir na rua, para protestar contra a violência de que algumas crianças são vítimas em casa.

    O problema destes senhores é que pensam que 1dowload=1venda. Se não pudesse fazer download de filmes e musicas que vejo e ousso, tambem não pagaria tão cedo para o fazer.
    Ou seja, não ganhariam dinheiro nenhum a mais comigo.
    Prefiro dar o dinheiro mais directamente aos artistas, ao assistir a concertos. A discográficas provavelmente não gostam, mas não tenho culpa que tenham um modelo de negócio que já não se adequa ao presente.

  3. Maria fez-se à net com Firefox 3.5.7 Firefox 3.5.7 em Windows XP Windows XP

    Acho muita piada à dualidade de valores que a noção de propriedade privada proporciona: se a propriedade é minha deve ser respeitada, se é dos outros deve ser roubada (ou pirateada, ou sacada, ou transferida,…)
    Ainda bem que eu não sou capitalista nem acredito na propriedade privada.

  4. Paulo Ribeiro fez-se à net com Google Chrome 3.0.195.38 Google Chrome 3.0.195.38 em Windows 7 Windows 7

    qualquer dia estão a fazer protestos na rua a tentar dizer ás pessoas como limpar a peida.
    onde isto está a chegar.
    os downloads ilegais tem de começar a ser vistos como a prostituiçao, sim é ilegal, abram um jornal e a secçao que mais dinheiro dá é a das “massagens” e “menina a iniciar…”
    Sempre houve prostituição e sempre vai haver crime seja ele de que método for porque a essência humana actua dessa forma, somos assim e se pudermos poupar, poupamos, e muitas vezes o simples facto de poder ter algo de graça e ser ilícito alicia as pessoas a fazê-lo.
    tal como nos países onde as drogas leves são legais, o consumo interno não aumentou, o que aumentou foi o turismo :-)

  5. RD fez-se à net com Firefox 3.5.7 Firefox 3.5.7 em Windows XP Windows XP

    Marco, eu não diria melhor!
    Aquele calculo das 800 empresas que encerraram e os 2400 trabalhadores por causa da pirataria é pura demagogia.
    Quantas empresas não fecham na falência com os donos cheios de jipes e casas com piscina,etc…?
    Eu que compro Filmes e jogos importados, sinto-me furtado (para ser roubo exige violência e como tal a presença do agressor) comprando cá.
    Quanto a musica, já não compro há muito, (a ultima foi a edição comemorativa dos 30 anos de Triller, que comprei quando o rei da pop morreu) normalmente ouço rádio, mesmo na net, ouço grupos desconhecidos no Myspace.
    Quanto a clássicos já tenho tudo o que me interessa, Pink Floyd, Bowie, Peter Gabriel, Miles Davies. Tenho 2 estantes com cd´s para me recordarem durante quanto tempo me andaram a furtar o bolso.
    O meu contributo para esses senhores já vai na conta da luz e tb na factura da cabovisão, e ainda bem que não tenho nenhum estabelecimento comercial, pq tinha de pagar a dobrar, por ter um rádio ou uma televisão a dar musica ambiente.

  6. Ivo fez-se à net com Google Chrome 3.0.195.38 Google Chrome 3.0.195.38 em Windows Vista Windows Vista

    Quantos de vocês já fizeram copias e fazem copias para ir para a escola
    Porque que também não metem uma lei as papelarias para não fazerem copias de livros?

    Agora para provar os crimes cometem-.se crimes, então vamos para a rua matar pessoas.

  7. Estouvado fez-se à net com Firefox 3.5.7 Firefox 3.5.7 em Windows 7 Windows 7

    Muito bem escrito!!

    E as autoridades que têm a dizer sobre essa iniciativa? Visto a ACAPOR estar a realizar uma campanha com uma actividade ilegal…

  8. Diogo fez-se à net com GNU IceCat 3.5.7 GNU IceCat 3.5.7 em GNU/Linux GNU/Linux

    “Pirataria é crime.. não roube barcos!!!”

  9. Ognito Inc. fez-se à net com Firefox 3.5.7 Firefox 3.5.7 em Windows XP Windows XP

    Grande post!

  10. Verónica fez-se à net com Google Chrome 3.0.195.38 Google Chrome 3.0.195.38 em Windows Vista Windows Vista

    Eu nao diria melhor.