Conto Blasfemo
Autoria: Marco Santos [2/Junho/2008] [28]O Jardim do Éden foi a primeira estância turística do mundo. Porreiro para quem queria passar uns dias de férias, mas chato para se viver: clima excelente, comida saudável, paisagens ricas e deslumbrantes – mas não havia ninguém com quem partilhar essas maravilhas.
Foi então que Deus pegou numa costela de Adão, quando este estava a dormir, e a usou para criar Eva, a companheira e mulher.
Adão acordou mal disposto depois da operação, mas depressa lhe passou a neura e tratou de mostrar o jardim à companheira, embora caminhasse muitas vezes agarrado às costas e sentisse umas valentes dores de cabeça.
O homem não tinha muita coisa para dizer: conhecia o nome das coisas, as cores e os sabores, mas não sabia mais nada. Passaram o resto do tempo a caminhar lado a lado, observando Éden sem dizer nada.
Ao contrário de Adão, que era um yes man, Eva era muito viva, esperta e curiosa. E era muito gira, embora o companheiro não pudesse reparar nessas coisas. Ela andava sempre a vasculhar o jardim e fazia perguntas sobre tudo o que observava entre a terra e o céu. Mas Adão limitava-se a encolher os ombros.
- Ora, foi o boss que colocou estas coisas todas aqui…
- Mas porquê?
- Sei lá eu.
Eva começou a sentir os primeiros sintomas de depressão. Via-se como um animal de pasto, condenada a uma existência monótona e desinteressante. Vagueava de um lado para o outro do jardim tentando manter-se afastada de Adão, pois agora já o considerava um bocado parvinho, um gadelhudo que nunca dizia nada de jeito. Foi então que um encontro fortuito mudou a sua vida para sempre.
Eva conheceu a serpente.
A serpente era simpática, bem falante, tinha sempre a barba feita e conhecia muitas coisas. Falou-lhe de terras e mundos distantes, falou-lhe do Sol e da Lua, do dia e da noite, e Eva, encantada pelas palavras, sentiu pela primeira vez a doce subjectividade do tempo.
Ao anoitecer, estava completamente apaixonada.
Na manhã seguinte a serpente falou-lhe do fruto da árvore do conhecimento do Bem e do Mal, incitou-a a comê-lo e libertar-se: “Nada de mau te acontecerá; esse fruto contém a chave para a nossa fuga deste lugar. Come-o e poderemos fugir daqui. Eu não posso fazê-lo sem ti, meu amor”.
Eva comeu o fruto e fugiu do jardim com a serpente.
Dias depois, Adão deu por falta dela. Estava deitado de barriga para o ar, as mãos atrás da nuca, pensando se deveria procurá-la ou fazer uma sesta primeiro, quando uma voz trovejou nos céus.
- Adão, meu grande imbecil! – Era Deus.
- Boss? – Adão levantou-se, muito atrapalhado. – Mas passa-se alguma coisa?
- Eva fugiu com a serpente. Comeu um fruto da árvore do conhecimento do Bem e do Mal, e pirou-se. Não tens vergonha?
Adão ficou furioso.
- Grande cabra! E levou-me a costela!
- Idiota! – Gritou Deus. – Devias ter fugido também!
- Mas, Senhor - Adão sentiu-se muito confuso. – Não é proibido? Disseste-me: come todos os frutos, excepto aquele ali naquela árvore, porque te dará o conhecimento do Bem e do Mal, é uma verdadeira tentação, não podes!
- Adão, Adão – respondeu Deus, decepcionado. – Se tivesses mordido o fruto do conhecimento terias provado o sabor de um pedaço do Paraíso; a verdadeira tentação é este Jardim, este Éden, este sítio da pasmaceira onde te coloquei. Chegaste a fazer amor com a Eva?
- Fazer amor…? Como? Não compreendo.
Deus suspirou, e Adão sentiu o vento no rosto.
- Bendito o dia em que escolhi fazer Eva a partir da tua costela, e não de uma parte inútil do teu corpo. Por esta hora teria dois idiotas ignorantes a vegetar aqui.
- Que queres que eu faça agora?
- Vai dar uma dentada na maçã e faz-te à vida, homem, como eu sempre pretendi que fizesses, faz-te à vida, pá, não penses mais na tua costela e vai plantar árvores, escrever livros e fazer bebés.


























