Stephen Hawking também já tem uma nave espacial. Usou-a para explorar os seus lugares preferidos no Universo num documentário chamado «Stephen Hawking’s Favourite Places». A nave é feita do mesmo material que a de Carl Sagan na série «Cosmos»: imaginação.

O físico e cosmólogo britânico viaja 16 anos-luz para visitar Gliese 832c. A visão de um planeta potencialmente vivo inspira-o a falar de extraterrestres. «À medida que vou envelhecendo, fico cada vez mais convencido de que não estamos sozinhos».

Hawking, contudo, tem um conselho a dar à Humanidade: é melhor não darmos muito nas vistas. Seria até preferível não tentarmos comunicar.

Hawking envelheceu. Está mais desconfiado

SS Hawking

SS Hawking, a nave da imaginação de Stephen Hawking

Stephen Hawking tem uma visão pessimista da Humanidade. Antevê no encontro entre humanos e extraterrestres um choque de civilizações que amolgaria apenas a nossa. Uma repetição da nossa história. Lembra o encontro de Cristóvão Colombo com os povos indígenas. «Sabemos que não correu muito bem».

O problema é se formos vistos como meras bactérias. Hawking receia um alienígena semelhante ao gigante Micrómegas do conto de Voltaire, «milhares de milhões de anos mais avançado do que nós».

Por vontade dele, nem sequer tentaríamos comunicar. É demasiado perigoso. Uma civilização tão avançada ver-nos-ia como inferiores, fracos, prontos a ser conquistados.

Hawking tem medo que os aliens sejam como nós mas, para já, só o são na ficção científica. Talvez lhe fizesse bem dar uma vista de olhos nas pinturas de uma argentina chamada Peca. Vejam só como ela povoa o Universo de seres fofos a quem só apetece abraçar.

PecaPecaPeca

Ao contrário de Hawking, Peca extravasa otimismo e bem-estar místico. É como aquela pessoa que lança a pomba da paz no encontro entre marcianos e humanos no filme do Tim Burton. Vamos ignorar o desfecho dessa cena, até porque estas criaturas fofinhas não merecem.

Depois de Gliese 832c, o infinito

A pintora tem uma visão benevolente da vida no Cosmos. Ela é a «Lucy in the Sky With Diamonds» pintando criaturas metade Buda, metade urso de peluche, metade sabedoria, metade fofura, ao som do rock psicadélico dos anos sessenta. Um mundo de sonho, irreal.

A artista Peca sabe tanto o que é a vida extraterrestre como o cientista Hawking.

Não há sinais deles, por mais que os investigadores formados no YouTube digam o contrário. Nem o prometedor planeta Gliese 832c, visitado por Hawking na sua nave CGI, nos dá garantias.

Gliese 832c é rochoso e tem pelo menos 5,4 vezes mais massa do que o nosso planeta. Orbita uma estrela anã vermelha a 16 anos-luz de distância chamada Gliese 832. O planeta está tão perto da sua pequena estrela que um ano lá tem 36 dias.

Não está demasiado perto nem demasiado longe da estrela para ter água líquida à superfície. Está num lugar aconchegado, sem frio ou calor a mais, como nós quando nos enrolamos nos cobertores à noite. Ou talvez não esteja.

O planeta é uma Super-Terra com potencial para albergar vida. Isto é plausível. Tanto quanto o nosso olhar alcança, porém, encontra-se na mesma caixa onde o Schrödinger prendeu o gato.

Sabemos que está lá – e é tudo, ou quase tudo, o que sabemos. Tanto pode ser «potencialmente habitável» à maneira da Terra como pode ser «potencialmente habitável» à maneira de Marte ou Vénus.

Para, escuta e olha

Yuri Milner com Stephen Hawking

Yuri Milner com Stephen Hawking

Hawking pode andar mais desconfiado, mas tem andado ativo na busca por vida extraterrestre. É ele o principal apoiante do «The Breakthrough Listen». Para promovê-lo, basta querer falar e os jornalistas vêm a correr. É o que faz também neste documentário.

«The Breakthrough Listen» é um projeto ambicioso financiado pelo multimilionário russo Yuri Milner. Arrancou com um investimento de 100 milhões de dólares, quase 90 milhões de euros.

O objetivo é «escutar» milhões de estrelas — as que estão mais próximas de nós — à procura de sinais de rádio. Sinais de uma civilização tecnológica a carburar ondas eletromagnéticas para o Espaço. Como tem feito a nossa, de resto. Os avisos de Hawking vieram demasiado tarde: há muitos anos que andamos a dizer aos ET onde estamos.

Enquanto sobrevoa Gliese 832c na sua nave da imaginação, Hawking vê aquele sistema e outros semelhantes como os primeiros lugares onde devemos começar a demanda.

Primeiro objetivo: a estrela pica-miolos

O projeto «The Breakthrough Listen» está com ideias diferentes. Quer apontar os telescópios à estrela pica-miolos. O nome oficial é KIC 8462852, mas o meu é mais apropriado.

A pica-miolos é uma estrela que perde luminosidade de forma intensa e em períodos que não parecem ser regulares. E ninguém sabe porquê. As variações podiam ser explicadas pela passagem de cometas ou planetas, mas perdas de longo prazo exigem outro tipo de explicação. Qual? Ninguém a tem.

Portanto, como diria o parvo do Giorgio A. Tsoukalos, aliens. A famosa esfera de Dyson.

A esfera de Dyson é uma megaestrutura alienígena imaginada pelo físico e matemático inglês Freeman Dyson. Dyson considerou que uma civilização muito mais avançada poderia construir tais estruturas à volta de uma estrela, de modo a captar-lhe a energia.

Se quiséssemos descobrir inteligências avançadas, propôs, deveríamos procurar evidências de que as megaestruturas existem. E lá se vão os primeiros milhões do senhor Yuri Milner.

Hawking também desconfia dos robôs

Kristan Loken

Já não é a primeira vez que Hawking avisa a Humanidade de potenciais perigos. Numa palestra dada em meados de outubro na Universidade de Cambridge, alertou-nos para a Inteligência Artificial (IA).

Hawking foi convidado a falar na abertura do Centro Leverhulme Para o Futuro da Inteligência. Este centro congregará as melhores mentes científicas para responder, e antecipar, o que será o futuro da IA.

Tal como no exemplo de Colombo, voltou a referenciar eventos do passado. «Passamos muito tempo a estudar História. E grande parte das vezes o que estudamos, aceitemo-lo, é a história da estupidez. Por isso, é uma mudança agradável que se estude antes o futuro da inteligência».

A IA, disse, tanto pode vir a ser «o melhor ou o pior que alguma vez aconteceu à Humanidade.»

Hawking baseia o seu raciocínio num facto comprovado da Natureza: a Evolução necessita de muitos milhões de anos de tentativa e erro para aperfeiçoar as suas criaturas biológicas.

A IA, contudo, não terá esses constrangimentos. Se ganhar a capacidade de se auto-replicar e conceber, ultrapassar-nos-á rapidamente. A evolução biológica é demasiado lenta para competir com máquinas auto-suficientes.

 Stephen Hawking

A voz computorizada de Hawking anuncia a potencial ascensão das máquinas. A vida é irónica.

O assunto é levado a sério por um número crescente de pessoas. Alguns exemplos: Elon Musk, empreendedor ligado a projetos como Paypal, SpaceX e Testa Motors; Steve Wozniak, co-fundador da Apple; Jaan Talinn, co-fundador do Skype; o filósofo e ativista Noam Chomsky; centenas de especialistas em robótica e Inteligência artificial.

Todos eles assinaram uma carta aberta aos governos. Hawking também assinou.

Na mensagem, pedia-se que fossem banidas as armas autónomas. O receio dos signatários é que um dia essas armas se virem contra nós. Sim, todos estes especialistas consideram seriamente um cenário catastrófico do tipo Skylab, como nos filmes Exterminador Implacável.

Marco Santos

­ Marco Santos

Editor @Sapo. Blogger @Bitaites. Pai em todo o lado. Queres dizer-me alguma coisa?