Ultimamente os jornais têm falado de uma segunda Terra descoberta pelos telescópios do Observatório Europeu do Sul (ESO) mas, como sempre, o tratamento a estas notícias é mais previsível que uma erupção solar.

Para mim, existe uma segunda Terra desde 1982: o planeta Chiron. Na mitologia grega Chiron era um centauro inteligente, culto e de bom coração, ao contrário dos outros centauros, uns brutos sem maneiras que passavam a vida nos copos e eram propensos à violência quando a bebedeira os azedava.

O nome do sábio e gentil Chiron parecia apropriado a um planeta semelhante à Terra, mas tão longe das disputas terrestres dos outros «centauros» que a espécie humana até podia ter uma segunda oportunidade de sobreviver em paz e harmonia. Além disso, o planeta habitável fora descoberto no sistema Alfa Centauri, tornando a designação duplamente apropriada.

Os humanos que colonizaram Chiron foram enviados numa nave espacial ainda como embriões congelados. Coube às sofisticadas máquinas a tarefa de colocar esses embriões em úteros artificiais até «nascerem» e construir toda a infraestrutura necessária para que os recém-nascidos pudessem sobreviver.

A educação das crianças em Chiron foi assegurada por androides, ligados a um gigantesco banco de dados contendo todo o conhecimento humano. E a colónia estabeleceu-se, e floresceu.

Muitos anos depois, uma Terra devastada pela guerra mas ainda viva, dividida entre três potências e vivendo agora em clima de «guerra fria», recebeu notícias de que tudo correra bem e a colonização humana do planeta Chiron se encontrava em andamento.

Naves espaciais foram enviadas para ir ao encontro dos nativos e estabelecer a autoridade terrestre em Chiron. Estas naves não transportavam apenas colonos, mas também os regimes autoritários em que cresceram, as religiões, os preconceitos, os condicionalismos apreendidos no planeta-mãe e um grupo de militares para meter os nativos em ordem, se necessário.

Quando os terrestres chegaram ao novo planeta, descobriram uma sociedade completamente diferente da deles. Todo o trabalho era assegurado pelas máquinas. Os bens, serviços e informações eram tão universalmente acessíveis que conceitos como «possessão material» não tinham ali qualquer significado.

A posição social não era determinada pelo dinheiro, que nem sequer existia, mas pelo talento de cada um. A sociedade em Chiron focava-se nas artes, na cultura e na tecnologia, era libertária e progressista, não possuía hierarquias, autoridades centrais ou conflitos armados.

O que resultará deste encontro entre sociedades é o inevitável conflito entre a mentalidade autoritária e burocrática dos «centauros» terrestres e estes novos e pacíficos anarquistas chironianos.

O planeta Chiron e a sociedade que se desenvolveu foram criados pela imaginação do escritor de ficção científica James P. Hogan em «Voyager from Yesteryear», livro publicado em Portugal dois anos depois na extinta coleção Argonauta sob o título «A Conquista das Estrelas».

Lembrei-me deste livro porque estou um bocado farto de justificar certas coisas que leio apenas com a mera ignorância, sensacionalismo ou «clickbait». Queria compreender por que razão, nos últimos dias de agosto, os media noticiaram que uma «segunda Terra» fora descoberta a orbitar Proxima Centauri sem que exista um único facto passível de suportar títulos destes.

O que sabemos sobre a segunda Terra? Quase nada.

 Representação artística do novo planeta em Proxima Centauri

Representação artística do novo planeta em Proxima Centauri

Sobre essa segunda Terra, a Proxima b, conhecemos apenas os dados recolhidos pelos espectrógrafos: provavelmente, é um planeta com 1,3 massas terrestres orbitando a estrela a cada 11,2 dias a uma distância média de 7 milhões de quilómetros.

Para terem uma ideia de como é uma distância curta, Mercúrio, o planeta mais próximo do Sol, orbita-o a uma distância de cerca de 59 milhões de quilómetros. O que acontece neste caso é que a estrela em questão, Proxima Centauri, é uma anã vermelha, muito mais pequena e menos luminosa do que o Sol.

Estar a uns meros sete milhões de quilómetros de distância do nosso sol implicaria sermos vaporizados instantaneamente; no caso deste planeta e da sua estrela anã, calha numa zona temperada onde teoricamente é possível encontrar condições de temperatura para a formação de água líquida à superfície.

E é tudo o que sabemos sobre esta «segunda Terra»: a massa, a distância a que se encontra da sua estrela e o tempo que demora a dar-lhe uma volta completa.

Não fazemos ideia qual a temperatura à superfície: tanto pode ser de 40 graus negativos como de centenas de graus positivos, tudo depende da sua atmosfera.

Só que nem sequer sabemos se tem uma atmosfera, quanto mais que tipo de atmosfera poderá ter. Proxima b poderá estar gravitacionalmente amarrada a Proxima Centauri devido à proximidade a que está desta estrela, o que implicaria apresentar-lhe sempre a mesma face e ter metade do planeta a morrer de frio e a outra a morrer de calor.

Mais uma vez, precisaríamos de conhecer a natureza da sua atmosfera para podermos tirar algumas conclusões de jeito. Se for pouco densa, podemos ter um ar arisco, venenoso e hostil como Marte. Se for demasiado densa, pode calhar-nos uma atmosfera esmagadora como a de Vénus.

Tal como a generalidade das anãs vermelhas, esta estrela é propensa a emitir grandes quantidades de Raios-X e radiação ultravioleta, e viver num planeta onde o sol nos tira radiografias desde que nascemos não é propriamente uma maneira de assegurar a sobrevivência de criaturas biológicas. Terá esta segunda Terra um escudo magnético como aquele que nos protege aqui? Não fazemos ideia.

Na timeline do Facebook só tenho visto gente a falar com grande entusiasmo desta «segunda Terra» que foi descoberta, levada pelos títulos manipuladores da imprensa e dos blogues que os repetem.

Claro que este é um planeta promissor – talvez o mais promissor de todos – mas tirar conclusões precipitadas é uma prática tão comum nos jornalistas que noticiam a Ciência que um dia ainda se fará uma especialização na arte de colocar a carroça à frente dos bois.

A razão para tanto entusiasmo parece-me óbvia: todos temos ocasiões na vida em que sentimos necessidade de «começar de novo». Um planeta semelhante à Terra, ainda por cima tão perto de nós em termos cósmicos, é a promessa de um recomeçar coletivo, é manter a esperança de que por maior que seja a merda que façamos neste, haverá outros mundos onde nos poderemos abrigar e tentar outra vez.

E talvez seja também por isto que me lembrei do livro de James P. Hogan: que levaremos nós para essa segunda Terra, a mentalidade retrógrada dos centauros, submersa no pântano da superstição e do preconceito, ou tentaremos ser como o sábio e pacífico Chiron, dispostos a construir uma sociedade onde o talento e o trabalho não são apenas valorizados pela quantidade de dinheiro que gerem?

Marco Santos

­ Marco Santos

Editor @Sapo. Blogger @Bitaites. Pai em todo o lado. Queres dizer-me alguma coisa?