Se Plutão fos­se uma pes­soa, nin­guém lhe leva­ria a mal um man­gui­to pla­ne­tá­rio à New Horizons e man­dá-la ir son­dar para outra fre­gue­sia.

Durante déca­das Plutão foi o incon­tes­ta­do nono pla­ne­ta do Sistema Solar. Depois de 76 anos de árduo e fiel ser­vi­ço à cau­sa, foi afas­ta­do do lugar que ocu­pa­va na famí­lia solar e des­pa­cha­do para debai­xo da mesa, fican­do a vague­ar como um cão trans-nep­tu­ni­a­no jun­to às per­nas dos pla­ne­tas adul­tos.

Não bas­ta­va ter sido des­pro­mo­vi­do de Plutão a Pluto, vê ago­ra um pla­ne­ta que nin­guém sabe se exis­te ser anun­ci­a­do nos títu­los gor­dos da impren­sa como o nono pla­ne­ta. O nono! A fal­sa des­co­ber­ta tor­nou-se ain­da mais dra­ma­ti­ca­men­te con­vin­cen­te aos olhos do públi­co, pois foi-nos mos­tra­do, como é habi­tu­al, um belo retra­to de per­fil do pla­ne­ta cuja exis­tên­cia foi infe­ri­da mas não foi con­fir­ma­da — aque­la ilus­tra­ção ali em cima.

Ó senhor Brown, isso não se faz

Michael E. Brown

Michael E. Brown

Para dei­tar ain­da mais sal na feri­da plu­to­ni­a­na, um dos dois astró­no­mos que propôs a exis­tên­cia do hipo­té­ti­co obje­to, Michael E. Brown, é conhe­ci­do por refe­rir-se a si pró­prio como «o homem que matou Plutão».

Depois de ter des­co­ber­to mui­tos obje­tos para além da órbi­ta de Neptuno, incluin­do o pla­ne­ta-anão Eris, o úni­co cor­po trans-nep­tu­ni­a­no mais mas­si­vo que o pró­prio Plutão (mas não é mai­or em volu­me), Brown foi o prin­ci­pal res­pon­sá­vel pela reclas­si­fi­ca­ção do núme­ro 9 em «só mais um entre mui­tos». Chegou a escre­ver uma admis­são for­mal de cul­pa num livro diver­ti­do inti­tu­la­do «How I Killed Pluto and Why It Had It Coming».

O senhor Brown não dei­xa o pobre Plutão em paz e vem ago­ra ator­men­tá-lo com a hipo­té­ti­ca exis­tên­cia de um obje­to mais mas­si­vo que a Terra — não tan­to como Júpiter — e sete vezes mais dis­tan­te do Sol do que Neptuno. Segundo os cál­cu­los de Brown e do cole­ga Konstantin Batygin, o hipo­té­ti­co pla­ne­ta está 200 vezes mais dis­tan­te do Sol do que a Terra. Quando se encon­tra mais lon­ge na sua órbi­ta, está mil vezes mais afas­ta­do.

Tão lon­ge do Sol que um ano nes­se pla­ne­ta — o tem­po que ele demo­ra a dar uma vol­ta com­ple­ta à nos­sa estre­la — equi­va­le entre 10 a 20 mil dos nos­sos anos ter­res­tres. É con­ve­ni­en­te que os habi­tan­tes locais do hipo­té­ti­co pla­ne­ta façam anos de minu­to a minu­to, para a vida ali ter mais pia­da.

Brown e Batygin acre­di­tam que o pos­sí­vel pla­ne­ta é do tipo nep­tu­ni­a­no: um cor­po gaso­so e gela­do, tal­vez com uma atmos­fe­ra de hidro­gé­nio e hélio, um nep­tu­no em for­ma­to júni­or mas ain­da assim 10 vezes mais mas­si­vo que a Terra, e três vezes mai­or.

Ao con­trá­rio dos mis­ti­fi­ca­do­res catas­tro­fis­tas que falam no pla­ne­ta ine­xis­ten­te Nibiru como se fôs­se­mos todos gau­le­ses com medo de que o céu nos caia sobre as cabe­ças, a ideia de que exis­te um pla­ne­ta assim nos con­fins do Sistema Solar não é nova nem, por assim dizer, caiu do céu.

Em mar­ço de 2014, o mun­do ficou a saber que os astró­no­mos Scott Sheppard e Chadwick Trujillo tinham apro­vei­ta­do as capa­ci­da­des da nova Câmara de Energia Escura (DECam) do teles­có­pio NOAO, no Chile, para des­co­brir o mais dis­tan­te pla­ne­ta-anão até à data, o 2012 VP113. A aná­li­se orbi­tal des­te pla­ne­ta-anão con­ven­ceu os astró­no­mos de que pode­ria exis­tir nas ime­di­a­ções — leia-se: nuvem de Oort — um gran­de pla­ne­ta, dez vezes mai­or do que a Terra.

A «des­co­ber­ta» de Brown e Batygin que deu ori­gem às man­che­tes dos últi­mos dias é a con­ti­nu­a­ção des­sa inves­ti­ga­ção, apli­ca­da ago­ra a tre­ze obje­tos na Cintura de Kuiper. Modelos mate­má­ti­cos e simu­la­ções por com­pu­ta­dor leva­ram em con­ta as per­tur­ba­ções na órbi­ta de seis deles. Tal como Sheppard e Trujillo dois anos antes, a dedu­ção foi seme­lhan­te: um pla­ne­ta esta­va a influ­en­ci­ar gra­vi­ta­ci­o­nal­men­te os obje­tos.

Já não é a pri­mei­ra vez que a Matemática subs­ti­tui o teles­có­pio. A exis­tên­cia de Neptuno, por exem­plo, foi infe­ri­da ten­do por base cál­cu­los mate­má­ti­cos a par­tir das ano­ma­li­as veri­fi­ca­das na órbi­ta de Úrano. Por outro lado, a Matemática do sécu­lo XIX tam­bém pre­vi­ra a exis­tên­cia de um pla­ne­ta entre a órbi­ta de Mercúrio e o Sol — o pla­ne­ta Vulcano —, mas as obser­va­ções mos­tra­ram que o úni­co Vulcano da his­tó­ria é o mun­do fic­tí­cio onde nas­ceu o senhor Spock.

Ela descobriu que ler faz bem. Isto, sim, é uma descoberta.

Ela descobriu que ler faz bem. Isto, sim, é uma descoberta.

É pro­vá­vel e nada sur­pre­en­den­te que exis­tam mun­dos enor­mes entre os milha­res de cor­pos que vaguei­am nos con­fins do Sistema Solar, mas daí a trans­for­mar uma dedu­ção pura­men­te mate­má­ti­ca em des­co­ber­ta cate­gó­ri­ca vai uma dis­tân­cia tão gran­de como a que sepa­ra tais mun­dos do nos­so sol. Fazer des­se pla­ne­ta o nono pla­ne­ta do Sistema Solar, então, já é abu­sar um boca­di­nho.

Essa ideia do pla­ne­ta núme­ro nove não par­tiu dos inves­ti­ga­do­res, que insis­ti­ram em afir­mar tra­tar-se de uma «hipó­te­se» e nem sequer toca­ram no assun­to — é uma daque­las dedu­ções da impren­sa.

Quando fala de assun­tos cien­tí­fi­cos cha­tos que metem dema­si­a­da mate­má­ti­ca, cau­te­la e can­jas de gali­nha, a impren­sa ten­de a pres­tar mais aten­ção às impli­ca­ções do que aos fac­tos. É como se des­cre­ves­se o momen­to triun­fal em que um atle­ta cru­za a meta em pri­mei­ro lugar a dez vol­tas do fim da cor­ri­da. É a sín­dro­me Ed Wood, a de que­rer mos­trar-nos o que cla­ra­men­te não exis­te.

Plan 9 From Outer Space

Ed Wood, rea­li­za­dor de cine­ma, é um fenó­me­no de cul­to por­que os seus fil­mes são tão maus, mas tão maus, que aca­bam, inad­ver­ti­da­men­te, por fun­ci­o­nar como comé­di­as: «Plan 9 From Outer Space», o mais conhe­ci­do, o pior deles (ou o melhor, se qui­se­rem), mis­to de ter­ror zom­bie e fic­ção cien­tí­fi­ca, está reche­a­do de erros pri­má­ri­os de rea­li­za­ção e mon­ta­gem, efei­tos visu­ais gro­tes­cos, ato­res canas­trões, incon­gruên­ci­as no argu­men­to, por aí fora.

O que é fan­tás­ti­co em Ed Wood é não saber­mos mui­to bem se ele tinha cons­ci­ên­cia des­sas falhas mas não se impor­ta­va por­que que­ria era brin­car aos fil­mes ou se era mes­mo um desas­tre pro­fis­si­o­nal­men­te irre­cu­pe­rá­vel.

Todos fomos um Ed Wood na nos­sa infân­cia, se calhar por isso o con­si­de­ra­mos fas­ci­nan­te ain­da hoje. Não era pre­ci­so mui­to para que os fil­mes na nos­sa cabe­ça se suce­des­sem, impa­rá­veis: um pré­dio em cons­tru­ção era sufi­ci­en­te para nos tor­nar­mos astro­nau­tas, sol­da­dos, polí­ci­as, ladrões, índi­os ou cobóis. Não tínha­mos neces­si­da­de de repe­tir cenas, melho­rar desem­pe­nhos, cri­ar cená­ri­os ou dese­nhar efei­tos espe­ci­ais: a nos­sa ima­gi­na­ção pre­en­chia por com­ple­to as lacu­nas téc­ni­cas.

A impren­sa que cobre notí­ci­as cien­tí­fi­cas segue o mes­mo cami­nho, embo­ra seja moti­va­da pelo cli­que e não pela inge­nui­da­de desa­jei­ta­da da ima­gi­na­ção das cri­an­ças: um cál­cu­lo mate­má­ti­co que infe­re, mas não des­co­bre, é sufi­ci­en­te­men­te para fazer mate­ri­a­li­zar um pla­ne­ta; um pla­ne­ta cuja exis­tên­cia não foi sequer con­fir­ma­da é sufi­ci­en­te para se trans­for­mar no nono pla­ne­ta do Sistema Solar. E assim está cri­a­do um fil­me à Ed Wood, «Planet 9 From Outer Space».

Acho com­pre­en­sí­vel todo este fre­ne­sim. Somos cri­a­tu­ras de hábi­tos. Quando final­men­te apren­de­mos uma coi­sa, não gos­ta­mos que nos venham depois dizer que afi­nal não é assim. Desde peque­nos nos dis­se­ram que o Sistema Solar tem nove pla­ne­tas e não des­can­sa­re­mos enquan­to não pre­en­cher­mos o vazio dei­xa­do pelo ostra­ci­za­do Plutão.

Não que­re­mos um gigan­tes­co e obs­cu­ro cor­po gela­do trans-nep­tu­ni­a­no, senho­res astró­no­mos, do que pre­ci­sa­mos real­men­te é que o Sistema Solar vol­te a ter os nove pla­ne­tas da nos­sa infân­cia!

Marco Santos

 Marco Santos

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