Despertei para os mistérios do Universo com uns quatro ou cinco anos folheando, desenfreado, os livros de geografia da minha mãe. Além dos mapas do império ultramarino português, tinham uma pequena secção dedicada ao Sol e aos planetas, com ilustrações, em retrospetiva, pouco inspiradoras.

Nos anos seguintes, astronautas, naves espaciais, planetas, estrelas e alienígenas foram de longe os condimentos mais comuns nas minhas brincadeiras.

Brad Goldpaint

A Via Láctea e um meteoroide sobre o Monte Rainier em Washington. | Foto: Brad Goldpaint

Aos 13 anos, essa curiosidade evoluiu com naturalidade para uma paixão vitalícia quando, ao anoitecer de um dia quente de Junho, dei por mim a observar uma estrela tremendamente brilhante.

Tinha de saber «o que era aquilo».

Voltei-me para os livros e comecei a aprender as constelações desenhando as estrelas mais brilhantes que observava à noite num bloco de notas e tentando encontrar padrões semelhantes nos mapas do céu. Ao fim de alguns meses e descobertas, aprendi a ler o céu e a tratar as estrelas por tu.

«Aquilo» era o planeta Vénus.

Michael Jaeger

O cometa Lovejoy. | Foto: Michael Jaeger

As descobertas eram absolutamente triviais, fruto de um processo normal de aprendizagem por tentativa e erro — por ser eu a fazê-las de forma independente, senti-me deslumbrado.

Lembro-me como se fosse hoje daquela noite de Agosto, estava eu na aldeia a gozar as férias grandes, quando acordei por acaso de madrugada e, espreitando pela janela orvalhada, observei a constelação de Orionte e muitas outras pela primeira vez. Nessa noite descobri que, devido à rotação da Terra, as constelações que vemos durante a noite não são sempre as mesmas.

Além desta intimidade conseguida com as estrelas, havia algo mais que me atraía no firmamento. Sentado na escuridão quase completa de um campo de milho, com o meu bloco de notas, um lápis e uma pequena lanterna, podia observar todo o incrível enredo que se desenrolava perante mim.

Patrick Gilliland

Remanescente de uma estrela supernova na constelação Gémeos. | Foto: Patrick Gilliland

Um céu com milhares de estrelas, atravessado pela Via Láctea, qual coluna vertebral segurando a abóbada celeste. Sabia muito pouco sobre as estrelas e a enorme galáxia ali mesmo por cima de mim, mas era o suficiente para me aperceber da minha pequenez no «esquema das coisas». Por algum motivo, esse sentimento sempre me serviu de conforto, em especial nos anos difíceis que, não imaginava na altura, iria ter pela frente.

Com o passar do tempo apercebi-me de que há algo de profundamente espiritual, no sentido não religioso da palavra, na contemplação do céu noturno. No meu caso, resulta de uma amálgama de causas: prazer estético, sentir-me parte (ínfima) de algo muito maior e, curiosamente, a compreensão do que observo.

Tive a felicidade de estudar disciplinas como matemática, química, física e biologia, que me permitiram perceber, tanto quanto é possível a um não especialista, as leis e os processos que regem o Universo em todas as escalas e a forma espantosa como tudo está interligado, desde a galáxia mais longínqua à maquinaria molecular das nossas células.

A compreensão do que observo, de como se encaixa no «esquema das coisas», de como funciona, é para mim parte essencial na experiência do céu noturno.

Miguel Claro

A Via Láctea numa noite de Verão, de Miguel Claro

Isto pode parecer paradoxal para alguns leitores, mas o que me atrai mais e torna tudo isto mais belo, é o facto de, tanto quanto a Ciência nos permite ver, o Universo não ter qualquer sentido ou propósito. Simplesmente está lá e funciona de acordo com leis que podemos compreender e descrever com matemática maravilhosa.

Adoro esta ideia, esta simplicidade, esta temperança nos atores e no argumento. É espantoso observar como «dando tempo ao tempo», a complexidade surge espontaneamente no Universo  —  na verdade há quem pense que é por isso que «existe» o tempo  —  e eu, produto de um destes delírios das forças da natureza, tenho o privilégio improvável e efémero de aqui estar e meditar sobre isto.

Luís Lopes

­ Luís Lopes

Professor na Universidade do Porto e astrónomo amador há mais de 30 anos.