A mor­te de Neil Armstrong cri­ou no­vo pre­tex­to pa­ra os cons­pi­ra­ci­o­nis­tas que in­fes­tam as cai­xas de co­men­tá­ri­os de jor­nais, blo­gues e re­des so­ci­ais vol­ta­rem a «pro­var» que o Homem nun­ca foi à Lua.

A con­fra­ria dos cha­péus de fo­lha de alu­mí­nio – pa­ra usar uma ex­pres­são do Marco Filipe – não pro­va ab­so­lu­ta­men­te na­da, co­mo é ób­vio, ape­nas pa­pa­gueia sus­pei­tas.

As sus­pei­tas não têm por ba­se fac­tos, mas opi­niões; as opi­niões não se ba­sei­am no co­nhe­ci­men­to dos fac­tos, mas na ig­no­rân­cia. E o que o cons­pi­ra­nói­co não per­ce­be é for­ço­sa­men­te frau­du­len­to, pois o mun­do es­tá fei­to à me­di­da da sua ig­no­rân­cia ci­en­tí­fi­ca.

Existem inú­me­ros sí­ti­os na Web que com­ba­tem a de­sin­for­ma­ção e re­fu­tam ca­da uma das afir­ma­ções des­ca­bi­das, mas os fac­tos nun­ca se­rão su­fi­ci­en­tes pa­ra for­çar o ma­lu­qui­nho a aban­do­nar as su­as cren­ças lu­na­res.

O que es­sa gen­te de­se­ja que acre­di­te­mos é de tal for­ma ab­sur­do que me per­gun­to co­mo é pos­sí­vel um úni­co ser ra­ci­o­nal le­var a sé­rio es­sas pre­ten­sões, quan­to mais defendê-las.

Por exem­plo:

Cerca de 400 mil pes­so­as es­ti­ve­ram en­vol­vi­das di­re­ta ou in­di­re­ta­men­te nas mis­sões Apollo – e tam­bém nas Gemini e Mercury, que a an­te­ce­de­ram –, mas até ho­je, mais de 40 anos de­pois, nem uma úni­ca «gar­gan­ta fun­da» veio de­nun­ci­ar a frau­de;

se­gun­do os cons­pi­ra­do­res, os so­vié­ti­cos que dis­pu­ta­ram a cor­ri­da es­pa­ci­al com os ame­ri­ca­nos e pos­suíam equi­pa­men­to su­fi­ci­en­te­men­te so­fis­ti­ca­do pa­ra de­te­tar a pro­ve­ni­ên­cia dos si­nais rá­dio das mis­sões Apollo, fo­ram en­ga­na­dos;

os cen­tros de in­ves­ti­ga­ção em to­do o mun­do que fi­ze­ram aná­li­ses quí­mi­cas e ge­o­ló­gi­cas aos qua­se 400 qui­los de ro­chas lu­na­res que os as­tro­nau­tas da Apollo trou­xe­ram pa­ra a Terra, con­fir­man­do a sua pro­ve­ni­ên­cia, fo­ram en­ga­na­dos;

os três es­pe­lhos re­tro­re­fle­to­res co­lo­ca­dos na su­per­fí­cie lu­nar, uti­li­za­dos pa­ra me­dir a dis­tân­cia en­tre a Terra e a Lua atra­vés de rai­os la­ser… não exis­tem;

as ima­gens cap­ta­das pe­lo Lunar Reconnaissance Orbiter (LRO) dos lo­cais de ater­ra­gem das mis­sões Apollo 12, 14 e 17 são mi­ra­gens (por­que afi­nal aqui­lo é um de­ser­to);

E agora, algo galaticamente estúpido

O Homem nunca foi à Lua: conspiração e lógica da batata

Estes vi­si­o­ná­ri­os tam­bém de­fen­dem a se­guin­te te­o­ria: Stanley Kubrick foi con­tra­ta­do pe­la NASA pa­ra fil­mar as mis­sões num es­tú­dio se­cre­to de­vi­do à ex­pe­ri­ên­cia acu­mu­la­da du­ran­te as fil­ma­gens de «2001: Odisseia no Espaço»;

(se Kubrick al­gu­ma vez ou­viu fa­lar des­te dis­pa­ra­te, en­tão já per­ce­bo por que ra­zão co­lo­cou Jack Nicholson a re­ben­tar uma por­ta à ma­cha­da­da: a por­ta é uma me­tá­fo­ra da in­te­li­gên­cia e o ma­cha­do o ar­gu­men­to do cons­pi­ra­ci­o­nis­ta.)

Milhares de as­tró­no­mos ama­do­res e pro­fis­si­o­nais que mo­ni­to­ri­za­ram as mis­sões Apollo, ou­vi­ram as co­mu­ni­ca­ções e com­pro­va­ram a sua ori­gem, fo­ram en­ga­na­dos; os as­tró­no­mos do Observatório Parkes, na Austrália, que fi­ze­ram a re­trans­mis­são pa­ra os Estados Unidos do pri­mei­ro pas­seio na Lua, tam­bém fo­ram en­ga­na­dos;

mi­lha­res de fo­tó­gra­fos e ci­en­tis­tas em to­do o mun­do que ob­ser­va­ram as mais de 5000 fo­to­gra­fi­as da mis­são, in­cluin­do os fa­mo­sos céus sem es­tre­las, não en­con­tran­do na­da que in­di­cas­se uma frau­de (por sa­be­rem o que são tem­pos de ex­po­si­ção), tam­bém fo­ram en­ga­na­dos;

os as­tro­nau­tas nun­ca po­de­ri­am ter so­bre­vi­vi­do à vi­a­gem, con­si­de­ram os cons­pi­ra­ci­o­nis­tas, pois te­ri­am mor­ri­do de­vi­do aos ní­veis da ra­di­a­ção na cin­tu­ra de Van Allen. A cin­tu­ra re­ce­beu es­se no­me por ter si­do des­co­ber­ta pe­lo fí­si­co James Alfred Van Allen e foi o pró­prio Van Allen quem co­me­çou por des­men­tir a sus­pei­ta de que os as­tro­nau­tas mor­re­ri­am com a do­se de ra­di­a­ção re­ce­bi­da.

Os cons­pi­ra­do­res sa­bem mais so­bre os efei­tos da cin­tu­ra de Van Allen do que o ho­mem que a des­co­briu.

Van Allen tam­bém foi en­ga­na­do.

A última e derradeira conclusão

Todos fo­ram en­ga­na­dos – ex­ce­to o cons­pi­ra­nói­co, es­sa mí­ti­ca cri­a­tu­ra do­ta­da de enor­me co­nhe­ci­men­to ci­en­tí­fi­co e in­vul­gar pers­pi­cá­cia, ca­paz de de­ci­frar mis­té­ri­os co­mo um Sherlock Holmes das es­tre­las, as­tró­no­mo in­com­pre­en­di­do que ob­ser­va es­tre­las nos wall­pa­pers e es­cre­ve re­la­tó­ri­os com­ple­tos em caps lock en­quan­to co­ça os seus in­fa­lí­veis to­ma­tes de pro­fes­sor Pardal.

Esse é que sa­be, ao con­trá­rio dos ci­en­tis­tas e en­ge­nhei­ros da NASA, e de to­dos os ou­tros no mun­do; é es­se o sa­bi­chão, não te­nham a mí­ni­ma dú­vi­da, que um dia nos co­lo­ca­rá a ca­mi­nho de Marte.

Marco Santos

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