A 14 de feve­rei­ro de 1990, por suges­tão de Carl Sagan, a Voyager 1 rodou uma das duas câma­ras a bor­do e tirou uma foto do pla­ne­ta Terra já depois de ter pas­sa­do por Saturno. Na ima­gem final de 640 mil pixéis, a Terra ocu­pa­va menos de um: 0.12 pixéis.

A Voyager pro­du­zi­ra uma das ima­gens mais ico­no­grá­fi­cas da nos­sa era. Inspirou gera­ções. Redefiniu o nos­so pla­ne­ta e a posi­ção que ocu­pa no Espaço. Não obs­tan­te as nos­sas fron­tei­ras, con­fli­tos e ilu­sões de gran­de­za, pude­mos todos sen­tir que vivía­mos num páli­do, frá­gil pon­to azul.

Do ponto de interrogação ao ponto azul

Do ponto de interrogação ao ponto azul

Uma orga­ni­za­ção pri­va­da fun­da­da por vári­os cien­tis­tas quer cap­tar a páli­da ima­gem de outro pon­to azul e rede­fi­nir, uma vez mais, a posi­ção que ocu­pa­mos no Cosmos. O obje­ti­vo é ambi­ci­o­so: obser­var dire­ta­men­te um pla­ne­ta seme­lhan­te à Terra orbi­tan­do outro sis­te­ma solar.

O con­sór­cio Project Blue quer colo­car um peque­no teles­có­pio em órbi­ta, apon­tar, des­co­brir e foto­gra­far pla­ne­tas que even­tu­al­men­te se encon­trem em órbi­ta do sis­te­ma este­lar mais pró­xi­mo de nós, for­ma­do pelas estre­las Proxima Centauri, uma anã ver­me­lha, e Alfa Centauri A e B, seme­lhan­tes ao nos­so Sol.

Quando a câma­ra da Voyager 1 foto­gra­fou a Terra encon­tra­va-se a uma dis­tân­cia de 6 mil milhões de qui­ló­me­tros. O sofis­ti­ca­do teles­có­pio quer cap­tar a luz de um pla­ne­ta seme­lhan­te a 4.3 anos-luz de dis­tân­cia, 40 tri­liões de qui­ló­me­tros.

As Centauri bem podem ser as vizi­nhas mais pró­xi­mas do Sol, mas as dis­tân­ci­as con­ti­nu­am a ser enor­mes para os nos­sos padrões: via­jan­do à velo­ci­da­de de 17 qui­ló­me­tros por segun­do, a Voyager 1 demo­ra­ria, ain­da assim, 80 mil anos a che­gar a Alfa de Centauro A.

É uma mis­são de alto ris­co. Componentes impor­tan­tes do teles­có­pio podem ava­ri­ar. Os níveis de poei­ra cós­mi­ca entre nós e a estre­la podem impos­si­bi­li­tar a cap­ta­ção de qual­quer ima­gem. Mil e uma coi­sas podem cor­rer mal. Pior: tal­vez nem sequer exis­tam pla­ne­tas para foto­gra­far. As difi­cul­da­des são astro­nó­mi­cas. As pos­si­bi­li­da­des de suces­so, incer­tas.

Mas vale a pena.

A luz de um pla­ne­ta que orbi­te Alfa Centauri, por exem­plo, é mil milhões de vezes mais ténue do que a luz da estre­la. O teles­có­pio tem de ser capaz de fil­trar dez mil milhões de fotões este­la­res para con­se­guir iso­lar um úni­co fotão pla­ne­tá­rio. É como ten­tar foto­gra­far a luz de uma lan­ter­na colo­ca­da na Lua. As difi­cul­da­des são astro­nó­mi­cas. As pos­si­bi­li­da­des de suces­so, incer­tas.

Mas vale a pena.

A estre­la Alfa Centauri A tem uma com­pa­nhei­ra pró­xi­ma: Alfa Centauri B. Isto sig­ni­fi­ca que o teles­có­pio não terá ape­nas de lidar com o bri­lho ofus­can­te de uma estre­la, mas de duas, dupli­can­do as difi­cul­da­des. Proxima Centauri, a ter­cei­ra estre­la des­te sis­te­ma tri­plo, não entra nes­tas con­tas óti­cas: é uma anã ver­me­lha e encon­tra-se sufi­ci­en­te­men­te afas­ta­da das outras duas.

Proxima Centauri tam­bém terá de estar na mira do teles­có­pio — e por razões óbvi­as. Os astró­no­mos acham que exis­te um pla­ne­ta na área. E não é um gigan­te gaso­so ina­bi­tá­vel, mas um cor­po rocho­so: os dados reco­lhi­dos pelos espec­tró­gra­fos indi­ci­am um pla­ne­ta com 1,3 mas­sas ter­res­tres orbi­tan­do a estre­la a cada 11,2 dias a uma dis­tân­cia média de 7 milhões de qui­ló­me­tros.

Tendo em con­ta que Proxima é uma anã ver­me­lha, mais peque­na e fria que o nos­so Sol, o pla­ne­ta encon­tra-se numa zona tem­pe­ra­da onde a exis­tên­cia de água líqui­da a cor­rer à super­fí­cie é pos­sí­vel.

Podem estar enga­na­dos em rela­ção à habi­ta­bi­li­da­de do pla­ne­ta, mas há ali de cer­te­za um cor­po esfé­ri­co e a Estrela da Morte não deve ser.

Azul. Oceanos. Atmosfera. Vida?

Exoplaneta

A espe­ran­ça de encon­trar um pla­ne­ta seme­lhan­te à Terra é o motor que man­tém toda a engre­na­gem a fun­ci­o­nar. A mis­são cha­ma-se Project Blue pre­ci­sa­men­te por­que o teles­có­pio esta­rá oti­mi­za­do para estu­dar pla­ne­tas de luz azul, uma cor que pode indi­car a pre­sen­ça de atmos­fe­ra ou oce­a­nos.

Ruslan Belikov, do Centro Ames de Investigação da NASA na Califórnia, tem todas as razões e mais algu­mas para estar aten­to ao Project Blue. Juntamente com o cole­ga Eduardo Bendek, apre­sen­tou uma pro­pos­ta seme­lhan­te desig­na­da por «Alpha Centauri Exoplanet Satellite». A NASA rejei­tou-a por achá-la dema­si­a­do arris­ca­da.

Belikov acre­di­ta que mes­mo a ima­gem de um páli­do pon­to azul teria inte­res­se cien­tí­fi­co: «Se o mun­do ali­e­ní­ge­na for azul e esti­ver na cha­ma­da zona habi­tá­vel, seria difí­cil não con­cluir que tem oce­a­nos de água e uma atmos­fe­ra». Desde que seja azul Terra e não azul Neptuno, cla­ro.

Mesmo que a des­co­ber­ta acon­te­ça e as man­che­tes anun­ci­em que des­co­bri­mos uma nova Terra, como de res­to já acon­te­ceu vári­as vezes, não seria o peque­no teles­có­pio do Project Blue a ter capa­ci­da­de de con­du­zir estu­dos mais apro­fun­da­dos: pro­cu­rar sinais de vida na atmos­fe­ra ou mes­mo na super­fí­cie de um exo­pla­ne­ta em Alfa Centauri requer teles­có­pi­os mai­o­res e mais caros.

Telescópios que ain­da não exis­tem — mas viri­am a exis­tir, com cer­te­za.

Por enquan­to, são pala­vras. E as pala­vras, como diz o povo cos­mo­nau­ta, leva-as o ven­to solar. Porque os ris­cos são altos. A pos­si­bi­li­da­de de falhan­ço tam­bém. Mas a recom­pen­sa — encon­trar um mun­do seme­lhan­te ao nos­so — rede­fi­ni­rá para sem­pre as nos­sas pos­si­bi­li­da­des futu­ras enquan­to espé­cie.

Saberemos que um pla­ne­ta habi­tá­vel não é uma ocor­rên­cia exclu­si­va des­te sis­te­ma solar. Que há outros. Outros mun­dos, outras casas. Outras pos­si­bi­li­da­des de futu­ro. Outras pes­so­as e soci­e­da­des. Como num roman­ce de fic­ção cien­tí­fi­ca de James P. Hogan.

Por isso, sim, vale mes­mo a pena.

Se tudo cor­rer bem, o teles­có­pio esta­rá em órbi­ta ter­res­tre bai­xa — ou seja, uns 2000 qui­ló­me­tros aci­ma da super­fí­cie ter­res­tre — em 2019 ou 2020. Depois, pas­sa­rá mais dois anos a obser­var as duas estre­las, acu­mu­lan­do milha­res de ima­gens sequen­ci­ais de for­ma a dete­tar um «pon­to» pro­me­te­dor que pos­sa vir a reve­lar-se um pla­ne­ta.

Entretanto, um dos par­cei­ros do Project Blue, o SETI — Search for Extraterrestrial Intelligence — terá a tare­fa de pro­ces­sar, arqui­var e dis­tri­buir os dados da mis­são.

E isto é a par­te mais fácil.

Dança da luz: coroneografias

Coronógrafo em ação

Coronógrafo em ação

Como expli­ca ao «The Guardian» Supriya Chakrabarti, pro­fes­sor de Física na Universidade de Massachusetts, «o suces­so da mis­são está depen­den­te de três tec­no­lo­gi­as cru­ci­ais: a pri­mei­ra man­tém o teles­có­pio a apon­tar na dire­ção pre­ci­sa da estre­la. A segun­da sepa­ra a luz da estre­la da luz refle­ti­da por even­tu­ais pla­ne­tas em órbi­ta. A ter­cei­ra subs­ti­tui um úni­co espe­lho do teles­có­pio por milha­res de espe­lhos em mini­a­tu­ra, ajus­tá­veis de for­ma a focar a ima­gem.»

Chakrabarti refe­re-se ao con­tro­lo de ati­tu­de (ati­tu­de, não alti­tu­de), a um apa­re­lho cha­ma­do coro­nó­gra­fo e ao méto­do desig­na­do por óti­ca adap­ta­ti­va.

O con­tro­lo de ati­tu­de é uma téc­ni­ca que per­mi­te man­ter o teles­có­pio a fun­ci­o­nar em valo­res pré-defi­ni­dos, sen­do mui­to impor­tan­te para a pre­ci­são e esta­bi­li­da­de abso­lu­tas em que deve fun­ci­o­nar, ou seja (e des­cul­pem-me o fran­cês), tudo au pin­te­lhô.

O coro­nó­gra­fo é um apa­re­lho ori­gi­nal­men­te con­ce­bi­do para des­vi­ar a luz inten­sa do Sol, per­mi­tin­do obser­var a luz da coroa solar. Se o teles­có­pio fos­se uma boi­na, o coro­nó­gra­fo seria a aba para tapar o sol.

A óti­ca adap­ta­ti­va uti­li­za sofis­ti­ca­dos espe­lhos defor­má­veis con­tro­la­dos por com­pu­ta­dor, capa­zes de cor­ri­gir, em tem­po real, qual­quer tipo de dis­tor­ção.

Atingir uma siner­gia per­fei­ta entre estas três téc­ni­cas é uma tare­fa for­mi­dá­vel que só foi con­se­gui­da em labo­ra­tó­ri­os ter­res­tres e nun­ca foi ten­ta­da num teles­có­pio espa­ci­al.

E é por essas e por outras que o Project Blue pre­ci­sa de 50 milhões de dóla­res — cer­ca de 45,5 milhões de euros — para con­cre­ti­zar a mis­são. Afinal, tra­ta-se de uma ini­ci­a­ti­va pri­va­da, não-lucra­ti­va, lide­ra­da por cien­tis­tas e os cien­tis­tas não são pro­pri­a­men­te conhe­ci­dos por terem os bol­sos chei­os de dinhei­ro. De pedras, tal­vez, se foram geó­lo­gos.

É pos­sí­vel que a NASA ali­nhe em cobrir par­te do inves­ti­men­to — essa espe­ran­ça não se per­deu, até por­que con­cre­ti­zar a mis­são impli­ca­ria desen­vol­vi­men­tos téc­ni­cos de que a pró­pria NASA pode­ria bene­fi­ci­ar num futu­ro pró­xi­mo.

Há sem­pre mili­o­ná­ri­os dis­pos­tos a finan­ci­ar — Paul Allen, co-fun­da­dor da Microsoft, é um dos gran­des finan­ci­a­do­res do SETI, por exem­plo. Há tam­bém uma cam­pa­nha de crowd­fun­ding em anda­men­to. E vári­as for­mas para o cida­dão comum con­tri­buir com doa­ções.

Metade dos 50 milhões é para supor­tar o desen­vol­vi­men­to e tes­te de sis­te­mas coro­no­grá­fi­cos. O res­to é para hard­ware de voo, alu­gar espa­ço num fogue­tão e con­du­zir a mis­são. Os tra­ba­lhos para fina­li­zar o design do teles­có­pio come­çam já no pró­xi­mo ano.

«Let’s see what’s out there»

Captain Kirk

O Project Blue é um con­sór­cio for­ma­do por uma orga­ni­za­ção dedi­ca­da à inves­ti­ga­ção e explo­ra­ção espa­ci­al, o Instituto BoldlyGo, e por outra orga­ni­za­ção não-lucra­ti­va, Mission Centaur, cujo prin­ci­pal obje­ti­vo é pre­ci­sa­men­te encon­trar e foto­gra­far um pla­ne­ta do tipo ter­res­tre no sis­te­ma Alfa Centauri.

O nome BoldlyGo é uma home­na­gem aos epi­só­di­os da série de fic­ção cien­tí­fi­ca Star Trek emi­ti­dos em mea­dos da déca­da de 60. Sim, estes tipos são nerds e sim­pa­ti­zo já com eles só por isso. «To bol­dly go whe­re no man has gone befo­re» fazia par­te do tex­to de intro­du­ção da série:

«Espaço: a últi­ma fron­tei­ra. Estas são as via­gens da nave Enterprise. A sua mis­são de cin­co anos. Explorar estra­nhos novos mun­dos. Procurar novas vidas e civi­li­za­ções. Ir auda­ci­o­sa­men­te aon­de nenhum homem jamais foi

Resistence is futi­le. Pois bem, tra­ga-nos então a luz de uma nova Terra, capi­tão Kirk.

Marco Santos

­ Marco Santos

Editor @Sapo. Blogger @Bitaites. Legendas @LegDivx. Pai em todo o lado. Queres contactar-me?