Dois astrónomos submeteram a 10 de outubro um estudo — aceite para publicação na revista «Astronomical Society of the Pacific» — no qual defendem ter detetado mensagens de civilização extraterrestres provenientes não de uma única estrela, mas de 234. Sim, duzentas e trinta e quatro.

A esmagadora maioria dessas 234 estrelas pertence à mesma classe espectral do nosso Sol, o que fez aqueles dois cientistas acreditar ainda mais que a «assinatura» revelada nos sinais tem as marcas de vida inteligente extraterrestre.

Quando começou esta história? Em 2012. Ermanno Borra, um dos autores do documento, sugeriu nesse ano que o SETI deveria considerar a possibilidade de uma civilização extraterrestre usar lasers para comunicações interestelares e, desta forma, tentar detetá-los.

Se um alien apontasse um laser em direção à Terra, seria possível detetarmos variações periódicas na luz escondidas no espectro da respetiva estrela. Tais variações seriam tremendamente rápidas e ténues, mas uma análise matemática poderia revelá-las.

O estudante de graduação de Borra, Eric Trotter, resolveu rastrear dois milhões e meio de estrelas registadas pelo Sloan Digital Sky Survey à procura dos sinais que o seu professor sugerira há quatro anos — e diz que os encontrou. Em 234 estrelas.

Fizemos contacto ou alguém precisa de lentes de contacto?

234 civilizações? Nem George Lucas se atreveu a tanto e tinha uma Guerra das Estrelas para gerir.

Para quem se interessa pelo assunto, é uma notícia bombástica. A descoberta do século. O mundo nunca será o mesmo. É como vivermos dentro das páginas do romance «Contacto», de Carl Sagan. Somos todos a Jodie Foster, galgando as escadas da Ciência para verificar, já sem fôlego, que o Santo Graal da Astronomia foi mesmo encontrado.

Borra e Trotter podem já começar a preparar os discursos para o prémio Nobel.

Jodie Foster

Champanhe à saúde dos homenzinhos verdes? Ainda não. Existe um problema nesta fábula científica: os sinais podem ser pulsações rápidas nas atmosferas das próprias estrelas. Transições moleculares. Outros fenómenos naturais. Erros de calibração nos instrumentos. Erros na análise dos dados.

Borra e Trotter não verificaram nada. Colocaram de parte outras explicações «por convicção» e foram diretos à explicação que os próprios desejam ser verdadeira, a origem extraterrestre.

O SETI está descontente e aconselhou «extrema cautela» às pessoas que lerem a notícia. Vários astrónomos vieram colocar água na fervura extraterrestre. Outros criticam o amadorismo das conclusões, dizendo que são um péssimo serviço ao SETI, à Astronomia e à credibilidade da investigação científica.

«Não existe uma alegação mais ousada em Astrofísica do que dizer que se descobriu vida inteligente além da Terra» — afirmou o diretor do Centro de Investigação do SETI na Universidade da Califórnia, Andrew Simon. — «Mas não se podem produzir declarações definitivas sem primeiro esgotar todas as outras possibilidades.»

«Nem sequer consideraram qualquer possibilidade de se tratar de um fenómeno natural» — critica o astrónomo Peter Plavchan, da Universidade do Missouri. — «Passaram de imediato à explicação sobrenatural, por assim dizer, o que é muito prematuro».

Não sou cientista, mas em toda a minha vida nunca li ou ouvi algum cientista defender que Ciência precipitada é boa Ciência.

Há um lobo nos dados, socorro, lobo nos dados!

Os astrónomos que descobriram sinais extraterrestres nunca devem ter ouvido falar da fábula do Pedro e do Lobo — se Ermanno Borra e Eric Trottier a conheceram, por esta altura já a devem ter esquecido. Mas não deviam.

Toda a gente conhece a história, mas para efeitos de registo histórico e benefício da vossa cultura geral vou apresentar um resumo: o Pedro era um pastor que se aborrecia por tomar conta das ovelhas. Um dia resolveu pregar uma partida aos fazendeiros e começou a gritar: «Lobo, lobo, socorro, está aqui um lobo!»

Os fazendeiros correram a ajudá-lo, mas não havia lobo nenhum. O Pedro fartou-se de rir da brincadeira, os fazendeiros não acharam piada nenhuma.

No dia seguinte, voltou a pedir socorro. Os fazendeiros vieram a correr, mas não havia lobo nenhum, só um pastor às gargalhadas, muito satisfeito com a partida.

Um dia depois, os fazendeiros voltaram a ouvir o pedido de socorro, mas não foram ajudá-lo. Não queriam voltar a ser enganados. Desta vez, contudo, era mesmo verdade: um lobo atacara as ovelhas. E assim aprendeu o Pedro como é feio levar outros ao engano.

Os dois astrónomos que concluíram que sinais detetados em 234 estrelas eram de proveniência extraterrestre não são os pastores desta fábula.

Aos olhos do grande público interessado na eventual aparição do «lobo» mas que não está para fazer diferenciações tão específicas, os pastores são todos os cientistas do SETI e aqueles que procuram responder cientificamente à pergunta: «Estamos sós no Universo?» E assim se descredibiliza uma área de estudo.

Marco Santos

­ Marco Santos

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