O mistério à volta da estrela KIC 8462852 continua a ser um enorme pica-miolos para os astrónomos porque ninguém consegue chegar a uma conclusão definitiva sobre o que se anda a passar lá — e esta semana o mistério adensou-se.

Não, ninguém descobriu construtores cósmicos extraterrestres, mas uma análise mais aprofundada aos dados históricos feita por dois investigadores, Josh Simon e Ben Montet, indica que a luminosidade da estrela, de forma inexplicável e surpreendente, diminuiu cerca de 14 por cento nos últimos cem anos. Porquê?

Os dados mais recentes — recolhidos a partir de quatro anos de observações do telescópio espacial Keppler — são igualmente bizarros: a estrela diminuiu a sua luminosidade em cerca de 1 por cento nos primeiros três anos, dois por cento durante o quarto e absolutamente nada nos últimos seis meses.

Simon e Montet compararam também os dados com os de outras 500 estrelas observadas pelo Keppler. Um pequeno número apresenta diminuições graduais de luminosidade, mas nenhuma com perdas tão intensas como a misteriosa KIC 8462852.

Por que razão uma estrela perde luminosidade tão intensamente e em períodos que não parecem ser regulares? Ninguém sabe. Tais variações podiam ser explicadas pela passagem de cometas ou planetas, mas nas perdas de longo prazo exigem outro tipo de explicação. Qual? Ninguém a tem.

Freeman Dyson

Freeman Dyson

A KIC 8462852 — estrela de classe F, de coloração branco-amarela e ligeiramente maior e mais quente que o Sol — anda a ser notícia há mais de um ano. Devido às perturbações e à confusão que estas causaram nos cientistas, os media começaram a pensar se os astrónomos, afinal, não tinham descoberto a famosa esfera de Dyson.

A esfera de Dyson é uma megaestrutura alienígena hipotética imaginada pelo físico e matemático inglês Freeman Dyson. Dyson considerou que uma civilização tecnologicamente muito mais avançada do que a nossa poderia construir enormes estruturas à volta de uma estrela, de modo a captar-lhe a energia. Se quiséssemos descobrir inteligências avançadas, propôs Dyson, deveríamos procurar evidências de que tais estruturas existem.

Tendo em conta que a luz da estrela KIC 8462852 parecia estar a ser periodicamente bloqueada por um objeto grandioso e que o fenómeno não se parecia com nada do que conhecemos do mundo natural, não é difícil imaginar o frenesim noticioso que originou.

Embora a hipótese extraterrestre tivesse sido a última de uma longa lista de hipóteses propostas, os astrónomos do SETI — acrónimo de Search for Extraterrestrial Intelligence — vasculharam a área com o sistema de radiotelescópios Allen Telescope Array a ver se escutavam sinais da megaestrutura. O objetivo era detetar sinais de rádio que indicassem a presença de atividade extraterrestre.

Os radiotelescópios foram sintonizados para frequências entre os 1 e os 10 gigahertz, «muito mais elevadas que as das nossas rádios ou televisores», escreveu então Seth Shostak, astrónomo do SETI, num artigo para o Huffington Post.

O SETI escolhe procurar estas frequências porque são as melhores para comunicações interestelares. Em frequências mais baixas, a nossa galáxia emite prodigiosas quantidades de ondas de rádio, o que provoca um barulho de fundo ensurdecedor.

Com frequências mais altas, a atmosfera terrestre – e presumivelmente a de outros planetas como a Terra – absorve e emite frequências de rádio muito mais amplas. Disto resulta uma oportunidade – a «janela de micro-ondas», através da qual são possíveis comunicações rádio de longo alcance muito mais eficientes.

Este não foi o único tipo de sinal que o SETI procurou. Os astrónomos também tentaram escutar feixes poderosos de bandas mais estreitas. Estes lembram apontadores laser: podem ser muito brilhantes apesar da pouca energia requerida, uma vez que é usada numa única cor específica.

No mesmo sentido, tais transmissões concentram toda a energia numa pequena parte do espectro rádio – o tipo de transmissão, explicou Shostak, capaz de funcionar «melhor como um canal de saudação».

Mas nada. Os astrónomos do SETI passaram duas últimas semanas à pesca desses indícios de vida naquela ínfima parte do oceano cósmico, mas nenhuma civilização foi apanhada na rede.

O mistério da estrela KIC 84628 permanece por resolver, mas os investigadores acreditam agora que os dados recolhidos e analisados contém a chave para a resolução deste quebra-cabeças cósmico — é uma questão de esperarmos.

Marco Santos

­ Marco Santos

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