Faz sentido que para o lançamento desta rubrica de entrevistas tenha escolhido um astrónomo.

«Lançamento» é uma palavra cara a todos aqueles que se interessam pelos mistérios do Cosmos: das missões Apollo ao Hubble, das sondas Viking aos robôs que exploram a superfície marciana, as suas histórias mediáticas começaram sempre com a notícia de um lançamento bem sucedido em direcção ao Espaço.

Também o astrobiólogo e educador científico Carlos Oliveira, 37 anos, teve o seu crucial momento de lançamento, quando em 2001 (outra data marcante do cinema de ficção científica) voou sobre o Oceano Atlântico para ir trabalhar nos Estados Unidos, no Maryland Science Center, em Baltimore, durante 5 meses. Em 2003, já estava na Universidade do Texas, em Austin.

Diz ter saído de Portugal por querer ir para um país onde fosse dada a «oportunidade de mudar as coisas e fazermos o que queremos, evoluirmos, trazermos originalidade à área que gostamos.»

Não esconde o orgulho em relação aos seus feitos académicos. Na página de perfil dos colaboradores do blogue de Astronomia Astro.PT, o português Carlos Oliveira revela ser o criador e professor de um «inovador» curso de Astrobiologia na Universidade americana. A página pode ser consultada aqui. É o primeiro da lista.

Quis ir para «um sítio onde se avaliassem objectivamente as pessoas, pelo seu mérito – em vez da mediocridade do factor cunha.» Saiu, enfim, por uma questão de mentalidade: «Não me revia na mentalidade fechada, negativa, de constantes queixas, que existe em Portugal».

A experiência está a correr muito bem. Carlos Oliveira não se tornou «um estranho numa terra estranha», como o marciano da novela de ficção científica de Robert H. Heinlein. Os acordes do fado-saudade também não lhe causam especial ressonância no cérebro: é um emigrante português, mas a sua casa é o Cosmos – não pensa sequer voltar para Portugal.

Tenciona sair dos EUA no próximo ano, «ter uma experiência diferente noutro país». Quando chegar o momento de regressar, o destino será novamente os Estados Unidos. Porque a vida pessoal «não tem sido tradicional», continua solteiro. «Talvez daqui a cinco anos as coisas sejam totalmente diferentes».

Nesta entrevista, Carlos Oliveira discute as fronteiras do Universo, a teoria dos Multiversos, Matéria Negra, Energia Negra, os limites da velocidade da luz, os gravitões, o Big Bang, as descobertas da Física Quântica, a busca por vida extraterrestre, a Ficção Científica, os OVNI, a Astrologia e Deus.

Oliveira é um homem directo e assertivo – nas suas respostas não há espaço para floreados diplomáticos. As opiniões incomodam, isto é, desafiam.

«Eu não gosto de diversas teorias científicas»

Georges Lemaître

Georges Lemaître – padre católico, professor de Física e Astronomia, criador da Teoria do Big Bang – com Albert Einstein.

O Telescópio Espacial Hubble descobriu o objecto mais distante jamais visto, uma galáxia formada quando o Universo era um jovem com apenas 480 milhões de anos. Em 2014, o Telescópio Espacial James Webb, sucessor do Hubble, conseguirá captar a imagem das primeiras galáxias que se formaram. Até quando poderemos recuar no tempo? Qual o limite absoluto a partir do qual já não poderemos observar mais nada?

Carlos Oliveira – Supostamente seria o Tempo de Planck: 10^-43 segundos após o Big Bang.

No entanto, o Universo foi «opaco» durante muito tempo, cheio de plasma ionizado. Só depois disso ficou «transparente», ou seja, passível de ser visto. Podemos pensar num limite talvez de cerca de 380 mil anos após o Big Bang. No entanto, o Universo nesta altura seria «negro»… Ainda lhe falta a luz que é dada pelas estrelas.

As galáxias talvez se tenham formado 200 milhões de anos após o Big Bang. O Telescópio Espacial James Webb, se conseguir chegar a estas, já será excelente.

A teoria do Multiverso segundo a qual o Espaço-Tempo abarca não apenas o nosso Universo, mas uma série deles, era vista como um conceito de Ficção Científica. As descobertas quânticas e a Teoria da Relatividade parecem demonstrar que, afinal, é mesmo possível que existam múltiplos universos. Qual é a sua opinião sobre o assunto?

C. O. – Eu não gosto de diversas teorias científicas. Sigo o Princípio da Mediocridade, segundo o qual somos insignificantes no Universo. Não somos o centro, nem sequer somos especiais.

Devido a isso, há várias ideias e teorias de que não gosto.

Exemplos:

SETI – apesar de reconhecer o papel que o SETI teve no desenvolvimento de computadores e rádio-telescópios, não gosto da sua filosofia. Tanto o SETI como outras áreas da astrobiologia sofrem da falta de imaginação de estarem à procura de humanos no espaço! Não procuram extraterrestres, mas sim humanos, com o mesmo tipo de raciocínio, a mesma matemática, o mesmo desenvolvimento, a mesma tecnologia, etc.

Quântica – tenho a ideia de Einstein, de que existe algo «mais abaixo» (mais profundo) que explicará as aparentes probabilidades da Quântica. Por outro lado, não gosto da forma como as observações dependem do observador (de nós), porque, novamente, é pôr-nos no centro do Universo, sermos muitos especiais.

Big Bang – reconheço as evidências científicas para esta teoria, mas não gosto dela, sobretudo porque foi pensada por um padre que queria encontrar o momento em que Deus criou o Universo. Como não gosto de motivos religiosos (porque nos põem no centro da atenção de «alguém», assumindo que somos especiais e muito importantes no Universo), então toda a teoria, para mim, sofre dessa falha.

Multiverso – a ideia do Multiverso nasceu da falsa noção de que se só existe este Universo, então ele está feito para nós: as suas propriedades físicas estão feitas para a nossa existência. Ou seja, sofre do mesmo problema dos exemplos acima.

Carlos OliveiraO Universo não quer saber do que eu penso e das minhas filosofias. Os resultados científicos nem sempre são aqueles que eu gosto

Se o Universo fosse diferente, poderia haver vida totalmente diferente da nossa, e se calhar essa vida estaria a pensar que o Universo foi feito para ela, e que o seu mundo estava no centro do Universo. No entanto, isto é algo que nem sequer é imaginado por quem pensa que o Universo está feito para nós. Ora, para contrabalançar esta ideia inicial de que o Universo está feito para nós, então imaginou-se que este seria só um de muitos universos, e daí que não havia nada de especial nele. O que eu penso é que a ideia inicial está errada, logo não é preciso contrabalançar nada.

Sempre que penso nestas coisas lembro-me das palavras de Xenophanes. Este filósofo grego, que viveu cerca de 100 anos, dizia há mais de 2500 anos que se as vacas e os cavalos conseguissem desenhar, imaginariam deuses à sua imagem. Hoje, ele diria o mesmo dos extraterrestres da ficção científica, por exemplo. Ou seja, temos sempre a incrível mania de imaginar que os outros são como nós. E porquê? Porque nos achamos o que de mais importante existe, por isso os outros têm que ser como nós. O mesmo se passa nestes exemplos que coloquei em cima, incluindo na ideia inicial para o Multiverso.

Finalizo dizendo algo que me parece que é bastante importante para aqui: isto são somente opiniões minhas. É somente a minha filosofia para a vida e para o universo.

E uma das coisas que já aprendi nestes 37 anos, é que o Universo não quer saber do que eu penso e das minhas filosofias. Os resultados científicos nem sempre são aqueles que eu gosto. E são esses resultados que contam, e não o que eu penso.

Estamos sós?

Alien Thinker, Lele1988

Alien Thinker, Lele1988

Admitindo que a totalidade do Espaço-Tempo é constituída por múltiplos universos, isso deixa o Homem numa posição ainda mais insignificante no Cosmos. Até ver, somos a única espécie inteligente no Universo, a única que desenvolveu consciência; não o perturba verificar quão irrelevantes somos verdadeiramente?

C. O. – Pelo contrário.

Acho verdadeiramente fenomenal sermos insignificantes, irrelevantes, no Universo.

A maior parte das pessoas no mundo pensa que é tão importante no Universo que tem alguém sempre muito atento a ela (seja Deus, ou ET’s que pilotam OVNIs). A crença em OVNI’s não é mais do que uma religião (como provou George Adamski).

Parece-me um problema de ego que leva à estagnação, porque todas as respostas podem ser dadas por quem está «acima de nós» (seja Deus ou ET’s avançados). Alguém disse: «Give a man a fish, and you’ll feed him for a day; give him a religion, and he’ll starve to death while praying for a fish.»

(«Dê um peixe a um homem e você alimentá-lo-á por um dia; dê-lhe uma religião e ele morrerá de fome enquanto reza por um peixe»)

Arthur C. Clarke, no seu livro Profiles of the Future, abordou o mesmo tema dizendo que os humanos deveriam progredir, arriscar, avançar: «A billion million years ago the more conservative fishes said exactly the same to their amphibian relations: ‘Existence on dry land bears not the remotest resemblance to fishy like under water. We shall stay where we are’. And that is what they did. This is why they are still fishes».

(«Há mil milhões de anos, os peixes mais conservadores disseram exactamente o mesmo aos seus parentes anfíbios: ‘A existência nas terras secas não terá a mais remota semelhança com a da vida aquática. Fiquemos onde estamos’ E foi o que fizeram. Por isso ainda hoje são peixes»)

Ou seja, podem ser insignificantes peixes, mas se arriscarem, se avançarem, poderão evoluir imenso e chegar longe. A outra hipótese será continuarem no mesmo sítio, estagnados, à espera que «alguém faça algo acontecer», sem eles próprios fazerem nada por isso.

Eu sigo a ideia do «sonho americano»: alguém insignificante conseguir chegar longe. Como aconteceu com os mentores do Google, Microsoft, Facebook ou Twitter.

O mesmo espero para o futuro da humanidade: alguém totalmente insignificante no Universo conseguir não só descobrir os segredos desse Universo, mas até se espalhar por ele.

Há muito, muito tempo, numa galáxia muito, muito distante

Lado Negro da Energia

Não subestimes o Lado Negro da Energia, Luke

O físico dinamarquês Niels Bohr afirmou o seguinte: só quem não compreende as implicações das descobertas quânticas não fica chocado com elas. O que o choca mais na Física Quântica?

C. O. – Ia para dizer tudo… mas se quer só uma característica, então será o «entanglement». Como é que uma partícula pode «saber» instantaneamente as características de outra partícula no outro lado do Universo, é algo que parece uma ideia «pseudo». Mesmo Einstein chamou-lhe: «spooky action at a distance» [acção fantasmagórica à distância]

É algo que me choca profundamente! E daí que, para mim, seja algo simplesmente fantástico e genial!

Quando conseguirmos perceber completamente essa característica, o Universo nunca mais será o mesmo. Tenho a impressão de que muito do que sabemos hoje será deitado ao caixote do lixo…

Será que você vai ser a pessoa a conseguir fazer-nos entender a nós, leigos, o que raio é a Matéria Negra e por que razão é tão importante?

C. O. – A matéria negra é algo normal. É matéria normal, mas que não conseguimos ver (detectar). Só detectamos os seus efeitos gravitacionais na matéria a que chamamos de normal.

Parece-me que a descoberta das partículas que formam a matéria negra será um anti-clímax, porque na realidade é simplesmente algo que para já não conseguimos detectar mas que é “normal”.

Dou-lhe um exemplo: o Sol, como qualquer estrela, emite radiação. Essa radiação pode, por exemplo, ser em forma de luz visível, e vemos o Sol. Não vemos a radiação infravermelha, mas sabemos que ela existe porque vemos os seus efeitos (calor). Não vemos a radiação ultravioleta, mas sabemos que ela existe porque vemos os seus efeitos (cancro da pele).

Ou seja, não vemos diversos tipos de radiação, mas sabemos que eles existem porque vemos os seus efeitos. Mas a radiação, em diferentes comprimentos de onda, é algo normal e que faz parte do espectro electromagnético.

É importante para conseguirmos compreender o todo.

Existe mais matéria negra que matéria «visível», por isso é importante compreendermos a maior parte da matéria do Universo.
Da mesma forma que se só compreendemos a luz visível, estaríamos limitados a um pequeno espaço do espectro electromagnético sem conseguirmos compreender o resto, e o todo.

Se a pergunta fosse sobre Energia Negra, aí já seria mais complicado…

Considere esta pergunta uma forma de lhe complicar a vida! Pode falar-nos um pouco sobre essa misteriosa Energia Negra?

C. O. – Supostamente, a energia negra é uma energia que funciona de modo contrário à gravidade: é repulsiva, e está a expandir o Universo.

Como está a expandir o Universo no seu todo, então não tem que seguir as regras «dentro do Universo». Exemplo: dentro do Universo temos o limite de velocidade que é a velocidade da luz no vácuo (actualmente pensa-se em C como uma barreira e não como um limite, mas essa é outra história). Ora, para o todo do Universo esse limite não existe, por isso o Universo pode perfeitamente expandir-se a velocidades superiores à da luz, como pelos vistos faz.

O problema da Energia Negra é que não sabemos o que é.

Na verdade, não sabemos nada!

Ideias e teorias não faltam. Possíveis soluções abundam.

Respostas é que nem vê-las.

Não se sabe o que é, nem sequer se sabe se é uma força (curiosamente, eu também digo que a gravidade não é uma força, mas essa é outra história), nem sequer se é negra, nem sequer se é energia! Este é um assunto em que a nossa ignorância é muito superior ao nosso conhecimento.

Para a Energia Negra assume-se que o Universo se está a expandir… mas há quem ache que não está! Por exemplo, há cientistas que pensam que é o Tempo que está a abrandar. O próprio Hubble, que descobriu que os grupos de galáxias «fugiam» de nós, não enveredou por dizer que isso era fruto de que o Universo se estava a expandir.

Claramente estamos num terreno em que não sabemos o que pensar…

Até porque estamos a falar do Universo Observável… e não realmente no Universo no seu todo, e ninguém sabe o que haverá para lá do Universo Observável…

E a própria divulgação desta ideia, incluindo com os diagramas da NASA, não ajuda nada, porque reflectem concepções erradas. É caso desta famosa imagem feita pela NASA, como expliquei aqui.

Olhando para uma perspectiva histórica sobre «coisas que não sabíamos», vemos isto (alguns exemplos):

percebeu-se discrepâncias na órbita de Úrano. Em 1 ano, descobriu-se Neptuno, ou seja, algo (planeta) que já conhecíamos em sítios que sabemos existir. Ou seja, em 1 ano descobriu-se mais daquilo que já sabíamos (planetas) – «more stuff»;

percebeu-se discrepâncias na estrela Sirius. Em 20 anos descobriu-se a sua companheira anã. Não se sabia o que eram anãs brancas, mas é algo que vem de algo que já conhecemos (estrelas). Ou seja, demorou-se 20 anos para se descobrir novas coisas, algo diferente, mas baseado em algo que já conhecíamos – «different stuff»;

percebeu-se discrepâncias na órbita de Mercúrio. Pensou-se, como em cima, que seria um planeta mais perto do Sol a provocar isso, e chamou-se Vulcan a esse planeta. No entanto, essa explicação estava errada porque nunca se encontrou esse planeta. Mas em 70 anos, Einstein explicou o porquê dessas discrepâncias na órbita de Mercúrio, com uma nova teoria da gravidade. Ou seja, demorou 70 anos para se explicar essas discrepâncias e teve que se criar uma nova física (Relatividade) para isso – «new physics».

Ora, a ideia de que o Universo está a expandir e que existe uma força repulsiva responsável por essa expansão já tem muitas décadas. Olhando para essa lição histórica, então penso que a resposta para o que é a Energia Negra está numa Nova Física, algo completamente diferente daquilo que pensamos actualmente.

Carlos OliveiraPode-se esperar que por todo o Universo, e nas condições mais adversas, possa existir vida simples. Mas vida complexa será rara, e vida inteligente ainda mais

No entanto, tendo em conta que se calhar teremos que saber o que se passa na parte do Universo que nem sabemos o que é, porque não é Universo Observável, então a resposta para este mistério torna-se praticamente «impossível». A verdade é que há imenso Universo para lá daquilo que conseguimos observar/detectar.

Concluindo, eu sou da opinião do cosmólogo Karl Gebhardt: não sabemos.

«Actualmente pensa-se na velocidade da Luz como uma barreira e não como um limite, mas essa é outra história». «A gravidade não é uma força, mas essa é outra história». Pelas minhas contas, já são duas histórias por contar.

C. O. – Taquiões. Pensa-se que poderão existir partículas que viajam mais rápido que a luz. Ou seja, é possível viajar abaixo de C, mas não ultrapassar essa barreira. E poderá ser possível viajar acima de C, mas não abrandar ao ponto de passar «para baixo» dessa barreira. C não será um limite, mas sim uma barreira.

Einstein disse que a Gravidade é uma propriedade do espaço-tempo… ou seja, será simplesmente uma propriedade no tecido do espaço-tempo. Não me parece que será uma força no sentido convencional do termo. Logo, para mim, não existirão os famosos gravitões que tanta gente anda à procura…

Kevin Spacey

Kevin Spacey no filme de culto K-Pax

Se pudesse embarcar na «nave da imaginação» de Carl Sagan, qual o local do Universo que gostaria de visitar em primeiro lugar, e porquê?

C. O. – Todo o planeta Terra.

Acho estranho quando as pessoas vão ver museus ou outros locais importantes noutras cidades, mas nunca os viram na sua própria cidade. Daí que acho que antes de ver outras coisas noutros lados, gostaria de ver o nosso próprio planeta.

Depois disso, gostaria de viajar com o prot, de K-Pax, com os construtores dos buracos de verme, de Contacto, ou com os Q, de Star Trek. Eles, melhor que eu, saberiam quais os melhores sítios a visitar seguidamente. Eu confiaria nesses «guias turísticos».

Interessa-se também pela nossa busca por sinais de vida extraterrestre, inteligente ou não. No entanto, é visível em muitos dos artigos que escreve uma enorme irritação em relação ao fenómeno OVNI. A Ovnilogia é uma área legítima de investigação ou considera que é composta apenas por charlatães?

C. O. – Há muitos investigadores do fenómeno OVNI que não são charlatães.

Dou-lhe, por exemplo, o caso da PUFOI, uma sociedade portuguesa que investiga esses fenómenos. O lema deles é que passa tudo pelo cérebro humano. Esses são sérios.

O que me «irrita» é o geocentrismo psicológico evidenciado pelos outros.

Como expliquei, sigo o Princípio da Mediocridade.

Carlos OliveiraVida «humanamente inteligente» parece-me extremamente improvável, senão mesmo impossível

Irrita-me que as pessoas sejam tão pouco imaginativas, que preferem seguir a visão religiosa segundo a qual as naves ETs são como as nossas no século XX, os ETs estão a «vigiar», nós somos tão especiais que somos o centro da atenção de ETs, os ETs são como nós, os ETs pensam da mesma forma que nós, os ETs têm tecnologia semelhante à nossa, etc.

É tudo sobre nós.

É uma forma de nos sentirmos especiais, de nos sentirmos interessantes.

É o ego humano a funcionar, aliado a uma tremenda falta de imaginação para pensar em vida totalmente diferente da nossa.

Vida Extraterrestre

Esquecendo a parte dos OVNI, quais são as suas expectativas em relação à possibilidade de vida extraterrestre inteligente?

C. O. – O que é vida inteligente? Como se define inteligência?

Serão os humanos inteligentes?

Quando me falam em inteligência, penso sempre no Hitchhiker’s Guide to the Galaxy, do Douglas Adams, e no Solaris do Stanislaw Lem. Parece-me, novamente, um conceito humano e antropocêntrico.

No entanto… vamos assumir, «for the sake of the argument», que até somos inteligentes, e somos a única espécie terrestre inteligente.

Então, é isto que penso: a vida que para já conhecemos existe na Terra.

A evolução da vida na Terra diz-nos que praticamente sempre existiu vida (desde que existe Terra), que durante 4 mil milhões de anos essa vida foi simples, que a vida complexa é recente, e que a vida inteligente é ainda mais recente. O calendário cósmico de Sagan demonstrou isto na perfeição.

É preciso perceber também que a vida simples continua a existir em todo o lado. Mesmo havendo vida inteligente (nós), essa vida inteligente é feita de milhões de bactérias. Nós não conseguiríamos sobreviver sem bactérias. Já as bactérias sobrevivem bem sem nós.

Assim, pode-se esperar que a vida esteja espalhada por todo o Universo (já que foi fácil ela aparecer na Terra), e que a grande maioria dessa vida seja simples. Vida complexa pode haver, mas é rara. Vida inteligente pode ser simplesmente uma «sorte».

Vida «humanamente inteligente» parece-me extremamente improvável, senão impossível. Da mesma forma que não há outro Carlos Oliveira com as mesmas características das minhas no mundo. Será que se formos ao tempo de Cristo, consideraremos os humanos inteligentes? Duvido. Será que se formos ao tempo dos Neandertais, os consideraremos inteligentes? Duvido. No entanto, estamos a pensar em períodos de tempo muito curtos: 2000 anos e 100.000 anos, respectivamente. Da mesma forma que humanos no ano 100.000 nos considerarão extremamente atrasados. E 100.000 anos não é nada, em 13 mil milhões de anos. Daí que esperar que extraterrestres estejam no nosso nível de desenvolvimento intelectual e tecnológico, é não ter qualquer noção de tempo.

Em termos de distribuição de vida na Terra, vemos que a vida simples se encontra em todo o lado, mesmo em sítios «impossíveis». Extremófilos encontram-se em praticamente todos os cantos da Terra, desde os sítios mais quentes até aos mais gelados, desde o cimo das nuvens até três quilómetros dentro de pedras. Vida complexa precisa de condições muito mais moderadas para sobreviver. Vida inteligente precisa de condições ainda mais moderadas, além de condições que se mantenham as mesmas durante milhões de anos.

Como disse Darwin, tudo depende da adaptação ao ambiente da altura. A vida simples é excelente nisso. A vida complexa morre rapidamente com mudanças bruscas no seu ambiente. Podemos ver isso não só em termos de ambiente numa certa altura, mas até ao longo dos anos. Por exemplo, as cianobactérias mudaram a atmosfera completamente: de 0% de oxigénio para 21% de oxigénio, sendo que já houve períodos com 31% de oxigénio. Os Humanos não sobreviveriam sem o oxigénio essencial na atmosfera. A vida simples sobrevive, mesmo sem isso.

Assim, pode-se esperar que por todo o Universo, e nas condições mais adversas, possa existir vida simples. No entanto, vida complexa será rara, e vida inteligente ainda mais difícil.

Repare-se num pormenor: duas formas independentes de ver a vida na Terra dão exactamente o mesmo resultado do que se pode esperar no exterior.

A haver vida complexa noutros planetas, eu apostaria em algo semelhante a insectos (já que na Terra são uma forma de vida extremamente bem sucedida) que voe à-vontade (a melhor forma de locomoção), ou então algo semelhante a polvos (animal bastante inteligente) em ambientes aquáticos noutros planetas. Ou então, a junção dos dois: «polvos voadores», parecidos com os Eosapien do fantástico documentário Alien Planet.

No entanto, se tivesse que apostar em algo mesmo, apostaria em algo que não consigo sequer imaginar!

Os dados de Schrödinger

Deus não joga aos dados

Fotomontagem evocando a célebre frase de Einstein: «Deus não joga aos dados»

É célebre o comentário de Einstein às conclusões da Física Quântica: «Deus não joga aos dados». Mesmo para um físico como Einstein, Deus era visto como o Criador. E você, acredita em Deus? Perguntando de outra forma: sente a imensidade do Cosmos apenas numa dimensão científica ou sente-a também como uma espécie de experiência religiosa?

C. O. – Qual é a definição de Deus?

Um homem de barbas sentado num trono acima das nuvens, que não tem mais nada o que fazer senão contabilizar as vezes que digo asneiras, para se vingar de mim, como juíz, quando eu morrer?

Nesse Deus não acredito. Acho, novamente, uma forma de pensar demasiado antropocêntrica. É um Deus criado pelos humanos que sofrem de geocentrismo psicológico.

O que é uma «experiência religiosa»? Existem cientistas que dizem que têm algo semelhante a experiências religiosas quando têm os momentos «eureka» nas experiências que fazem em laboratórios.

Eu prefiro acreditar nesses humanos. Prefiro saber que foi um médico que salvou a vida de uma criança, por exemplo, após um terramoto (prefiro dizer que foi Graças ao Médico), do que me pôr a gritar Graças a Deus que foi salva essa criança (o que leva à consequência que esse mesmo Deus deixou que todas as outras crianças morressem).

Quem grita «Graças a Deus» não me parece que está a ter uma experiência religiosa. Está, sim, a acusar Deus de ter morto todas as outras crianças, o que nitidamente é um pecado capital. Mas sobretudo está a ser muito mal-agradecido ao médico que salvou a criança, ou seja, é típico de alguém que não sabe dar mérito a quem realmente o tem.

Eu prefiro dar valor aos humanos, e não a amigos imaginários que tive em criança.

Infelizmente, vivemos numa democracia em que a maior parte das pessoas sofre de iliteracia funcional. Se vivessemos num sistema de meritocracia, estas questões de «agradecer ao Pai Natal» nem se punham.

Por outro lado, mesmo alguns astrónomos dizem que têm o que parece ser uma «experiência religiosa» ao verem nebulosas planetárias, ao estudarem o início do Universo, etc. Neil deGrasse Tyson farta-se de dizer isso.

Einstein dizia que o seu «Deus» eram as leis da natureza. Tal como Spinoza dizia. Einstein chegou mesmo a dizer: «The further the spiritual evolution of mankind advances, the more certain it seems to me that the path to genuine religiosity does not lie through the fear of life, the fear of death and blind faith but through striving after rational knowledge».

(«Quanto mais avança a evolução espiritual da Humanidade, mais correcto me parece que o caminho para uma genuína religiosidade não reside no medo da vida, da morte ou na fé cega, mas no esforço de alcançarmos o conhecimento racional»)

No livro Contacto, de Carl Sagan, a personagem Eda, físico, diz que teve muitas experiências religiosas, como por exemplo quando compreendeu as leis da Gravidade de Newton, quando compreendeu a Relatividade de Einstein, etc. Tinha tido imensas experiências religiosas, sempre dentro da ciência, e nunca fora da ciência. Como me parece claro, sigo a espiritualidade de Carl Sagan.

Carlos OliveiraA realidade não se compadece com histórias infantis com o objectivo de amedrontar as pessoas, fazendo-as crer que no futuro irão ser julgadas por ‘alguém’

Entre a espectacularidade que existe no mundo natural ou o conforto de uma falácia inventada para controlar crianças (assume-se as pessoas como crianças sem responsabilidade individual), como o Pai Natal, ou Deus, prefiro obviamente a beleza da verdade que existe no mundo natural.

Daí que prefiro saber (que é o contrário de acreditar) que os átomos no meu corpo são basicamente iguais aos átomos que existem na mesa onde está o computador em que estou a escrever. Prefiro saber que todos esses átomos, incluindo todos os do meu corpo, já foram parte de estrelas, já fizeram parte da constituição do planeta, já fizeram parte de asteróides, já existiram em nebulosas…

E quando eu morrer, estes meus átomos, constituintes do meu corpo, irão voltar às estrelas, irão espalhar-se pela Lua, por nebulosas planetárias, por galáxias distantes.

Dizendo por outras palavras, prefiro saber (ter conhecimento, que é contrário de «acreditar») que já fui parte de várias estrelas, que os átomos que me constituem já fizeram parte de estrelas e planetas, e que, quando morrer, esse meu ser irá novamente fazer parte de estrelas, planetas, nebulosas, e do Universo no seu todo.

Gattaca

O Vincent do filme «Gattaca»

Ou seja, tudo o que existe em mim já esteve espalhado pelo Universo, e para o Universo irá voltar assim que eu morrer (como refere o Vincent no final do filme Gattaca: «For someone who was never meant for this world, I must confess I’m suddenly having a hard time leaving it. Of course, they say every atom in our bodies was once part of a star. Maybe I’m not leaving… maybe I’m going home»)

(«Para alguém que nunca foi feito para este mundo, devo confessar que estou a ter sérias dificuldades em deixá-lo. Claro, eles dizem que cada átomo dos nossos corpos fez, outrora, parte de uma estrela. Talvez não esteja a partir… talvez esteja a voltar para casa»)

Eu faço parte do Universo, e o Universo faz parte de mim. Sempre foi assim, continua a ser assim, e assim continuará para toda a eternidade.

Isto não são crenças; isto é a realidade do Universo.

E a realidade é muito mais fantástica do que uma história para crianças.

A realidade não mete medo: é demasiado maravilhosa para meter medo. A realidade não se compadece com histórias infantis com o objectivo de amedrontar as pessoas, fazendo-as crer que no futuro irão ser julgadas por alguém que está obcecado por essas mesmas pessoas.

Pode-se classificar isto como uma espiritualidade num contexto universal/cósmico.

A realidade dos conhecimentos astronómicos (fazemos parte do Universo, e o Universo faz parte de nós) traz uma espiritualidade muito mais abrangente, pacífica, sem medos, e imaginativa, que qualquer religião humana (nenhuma religião, nem nenhuma crença pseudo, alguma vez lhe chegou aos calcanhares).

É neste conhecimento que me baseio. Não é uma questão de acreditar, mas sim de saber. E é neste «Deus» que acredito: no ser humano que através da sua inteligência, racionalidade, e pensamento crítico, irá evoluir para compreender cada vez melhor o Universo que o rodeia.

Há quem chame a isto humanismo secular. Mas eu não gosto do facto de o Humanismo colocar os humanos como o que de mais importante existe no Universo. Como disse anteriormente, sigo o Principio da Mediocridade. Essa é a única gaveta com que me identifico. De resto, a complexidade e a diversidade são a ordem do dia… e ainda bem!

Daí que lhe prefiro chamar: «a filosofia do Carlos», uma filosofia baseada nos conhecimentos de Carl Sagan, que vê a imensidão do Universo por aquilo que é, e que percebe que os humanos são actores insignificantes e temporários no grande esquema das coisas apesar também de compreender que, ao evoluirem, os humanos irão compreender cada vez mais esse palco cósmico.

Ficção Científica e Universos sexy

Battlestar Galactica, Cylon número 6

Battlestar Galactica, Cylon número 6

No seu perfil do AstroPT está escrito que você se licenciou em Ficção Científica. Explique aos leitores do Bitaites o que é ser licenciado em Ficção Científica. Parece-me uma licenciatura fascinante.

C. O. – A minha licenciatura é em Astronomia, Ficção Científica, e Comunicação Científica. Ou seja, a Ficção Científica foi parte dela, mas é uma parte menor, sendo que a Astronomia foi o «bolo» principal das disciplinas, com a componente de comunicação.

Sempre adorei Ficção Científica, e penso que é um complemento precioso para não só entender a humanidade, mas também para esticar os limites da imaginação científica.

Star Trek, por exemplo, era uma série sobretudo sobre os problemas humanos da altura: racismo, sexismo, guerra fria, gays ou direitos humanos. No entanto, também foi a série Star Trek que inspirou jovens para anos mais tarde inventarem portas que se abrem automaticamente, computadores pessoais, telemóveis, motores a iões, etc. Gosto bastante do Contacto, de Carl Sagan, Black Cloud, de Fred Hoyle, Hitchhiker’s Guide to the Galaxy, de Douglas Adams, e de vários livros do Stanislaw Lem.

A Astrobiologia é tão sexy como se diz?

C. O.– Sim, claro. A vida é sexy. Por isso, a vida no Universo é sexy por todo o lado!

Uma vez que o Homem nunca foi à Lua e a Lua provavelmente ainda é feita de queijo, acha que os Observatórios devem despedir os Astrónomos e substitui-los por cozinheiros?

C. O. – Não. Porque senão os extraterrestres na Lua, morriam.

Passo a explicar: o Observatório da minha Universidade é um dos poucos no mundo que envia feixes de laser para a Lua de modo a constantemente se saber a que distância está a Lua. Pode-se fazer isso, porque as seis missões à Lua deixaram lá instrumentos, como por exemplo, reflectores. Se o Homem não foi à Lua, então não existem reflectores, e o que fazemos no nosso Observatório será então alimentar os ETs porque toda a gente sabe que os ETs na Lua se alimentam de feixes de luz. Os cozinheiros criam a comida, feixes de luz, e os astrónomos enviam-os para a Lua.

Qual é o seu signo? Identifica-se com as características de personalidade que lhe são atribuídas?

C. O. – Leão. Sim, identifico-me completamente com as características de Leão, sobretudo com as características negativas. Curiosamente, como a Astrologia não quer saber da Precessão, quando eu nasci na verdade a constelação era Caranguejo. Ou seja, na realidade, eu nasci sob o signo Caranguejo. E por incrível que pareça, também tenho características desse signo. E ainda mais estranho, também tenho características de Touro e de outros signos que estavam bastante distantes da posição do Sol na altura do meu nascimento.

Claro que isto não tem nada de estranho. Todos temos características de todos os signos, porque na realidade os signos não nos dizem nada sobre nós.

A astrologia continua parada no tempo, no (des)conhecimento de há 2000 anos atrás. Continua a pensar que é o centro do Universo. Como expliquei anteriormente para outros casos, a astrologia sofre também de geocentrismo psicológico.

Trocar um dia de guerra por um mês em Marte

Água em Marte, oceanos subterrâneos em Europa e Enceladus, lagos de metano em Titã, vida baseada em arsénio – dir-se-ia que estamos quase, quase, a fazer a grande descoberta da Astrobiologia. É optimista quanto a esta possibilidade?

C. O. – Uma das minhas características pessoais é ser bastante optimista… para tudo. Por isso, sou optimista também em relação à astrobiologia. No entanto, sou realista em relação à política e à economia. Nós ainda não descobrimos muito mais sobre esses lugares de que falou por motivos económicos (não há maior investimento nesse sentido) e por motivos políticos (não há vontade política para apostar nesse sector).

E, contudo, os gastos económicos de um só dia de guerra no Iraque, por exemplo, dariam perfeitamente para uma missão a Marte…

Existem muitos motivos para se apostar na exploração espacial, mas certamente que os maiores serão para a sobrevivência da humanidade, e para um maior conforto, um melhor nível de vida. Entre um maior conhecimento do Universo, um melhor nível de vida e a sobrevivência da humanidade, ou andar às guerrinhas por uma pequeníssima parte num minúsculo espaço de pó no Universo, o poder político prefere andar a matar outros humanos…

Marco Santos

­ Marco Santos

Editor @Sapo. Blogger @Bitaites. Pai em todo o lado. Queres dizer-me alguma coisa?