É pre­ci­so azar. Tudo a cor­rer tão bem. O mó­du­lo que me trans­por­tou en­trou em ór­bi­ta e eu fui à mi­nha vi­da, em di­re­ção à su­per­fí­cie de Marte. O es­cu­do con­tra o ca­lor fun­ci­o­nou. Sucesso. O pa­ra­que­das fun­ci­o­nou. Sucesso. Os pro­pul­so­res, já não sei.

Devo es­tar com pro­ble­mas de me­mó­ria por­que não me con­si­go lem­brar do que acon­te­ceu de­pois. Posso ter da­do uns va­len­tes tram­bo­lhões e ba­ti­do nu­ma ro­cha, mas acho que não par­ti na­da. Tirando o fac­to de des­co­nhe­cer o que acon­te­ceu aos pro­pul­so­res e não con­se­guir en­vi­ar si­nais pa­ra a Terra a di­zer que che­guei, as coi­sas até não cor­re­ram mal.

Realmente é uma pe­na es­ta fa­lha na co­mu­ni­ca­ção. Mal che­guei e já te­nho tan­to pa­ra con­tar. A Agência Espacial Europeia e a Agência Espacial Russa es­ta­vam a con­tar com a mi­nha ex­pe­ri­ên­cia. Queria informá-los co­mo é is­to de ater­rar em Marte e ago­ra não lhes pos­so di­zer nada.

As ho­ras vão pas­san­do e o meu tem­po ope­ra­ci­o­nal é mui­to li­mi­ta­do. Isto che­ga a ser de­ses­pe­ran­te. Estou co­mo o Jack a ma­tra­que­ar a má­qui­na de es­cre­ver no fil­me «The Shining». Uma amar­ta­gem e ne­nhum si­nal fa­zem de Schiaparelli um mó­du­lo tris­te. Se pu­des­se, es­cre­ve­ria es­ta fra­se mi­lha­res de ve­zes no so­lo po­ei­ren­to do pla­ne­ta até aca­bar a bateria.

Tenho ra­zões pa­ra es­tar um bo­ca­di­nho per­tur­ba­do. É a pri­mei­ra vez que a Agência Espacial Europeia ten­ta fa­zer ater­rar qual­quer coi­sa em Marte. Somos eu­ro­peus, ca­ram­ba, te­mos tra­di­ção em cra­var as unhas dos pés nas arei­as de no­vos mundos.

Cheguei pa­ra pre­pa­rar o ter­re­no ao ro­ver eu­ro­peu que aqui che­ga­rá den­tro de qua­tro anos e es­tou a ver que não vou con­se­guir fa­zer na­da de jeito.

Depois de uma vi­a­gem de se­te me­ses que cor­reu tão bem! Desprendi-me da son­da há três di­as sem qual­quer per­cal­ço. Não te­ria si­do per­fei­to que a en­tra­da na at­mos­fe­ra e a des­ci­da à su­per­fí­cie ti­ves­sem de­cor­ri­do sem falhas?

Ajuda ter fi­ca­do no Meridiani Planum, ao me­nos is­so cor­reu co­mo pla­ne­a­do. Dito des­ta ma­nei­ra, pa­re­ce que es­tou a fa­lar de um ho­tel de lu­xo em Istambul, mas é as­sim que se cha­ma o sí­tio on­de estou.

Esta re­gião de Marte é agra­da­vel­men­te pla­na, tan­to pa­ra um mó­du­lo co­mo pa­ra um ho­mem. Um ser hu­ma­no aqui não pre­ci­sa­ria de se pre­o­cu­par em tro­pe­çar nas coi­sas e sentir-se de­sas­tra­do, pe­lo me­nos até que a au­sên­cia de oxi­gé­nio e o frio in­ten­so o ma­tas­se, um mi­nu­to e meio depois.

Pois, nin­guém dis­se que Marte era fá­cil. É um pla­ne­ta que, no seu me­lhor, ao meio-dia, em re­giões equa­to­ri­ais, co­lo­ca al­guns de­sa­fi­os às pes­so­as. No seu pi­or, du­ran­te a noi­te, quan­do o frio aper­ta co­mo uma ji­boia de ge­lo, pa­re­ce que es­tá a fazer-nos um man­gui­to e a convidar-nos a sair.

As tem­pes­ta­des de pó não nos fa­zem vo­ar pe­los ares por­que a at­mos­fe­ra é de tal mo­do ra­re­fei­ta que só pos­sui 1 por cen­to da den­si­da­de da nos­sa, mas po­dem ser mui­to de­sa­gra­dá­veis. Não há rou­pa que du­re mui­to tem­po aqui, suja-se lo­go. E ain­da bem que a mi­nha mis­são não re­quer pai­néis so­la­res. O pó tam­bém dá ca­bo da­qui­lo tu­do, é me­nos uma preocupação.

Ainda es­pe­rei po­der vis­lum­brar um céu azu­la­do, co­mo na Terra ou em Marte, nas ra­ras oca­siões em que a po­ei­ra­da as­sen­ta, mas es­ta­mos em ple­na mon­ção das po­ei­ras. O céu es­tá com aque­la tí­pi­ca cor de man­tei­ga ran­ço­sa que já vi­mos tan­tas ve­zes em fo­tos en­vi­a­das pe­los meus pri­mos americanos.

Qualquer coisa a mexer-se

Não es­tou a queixar-me, note-se, por­que a mi­nha mis­são é per­ce­ber co­mo se for­mam es­tas tem­pes­ta­des. Tenho aqui um pa­co­te de ins­tru­men­tos pa­ra me­dir ve­lo­ci­da­de e di­re­ção dos ven­tos, hu­mi­da­de e pres­são at­mos­fé­ri­cas, até even­tu­ais cam­pos elé­tri­cos, tu­do pa­ra be­ne­fí­cio do ro­ver que aqui che­gar em 2020. A pro­pó­si­to, não me lem­bro se já fiz is­so. E ago­ra que fa­lo no as­sun­to, já não sei on­de es­tão os instrumentos.

Estas bran­cas aborrecem-me bas­tan­te. Vá lá que a mis­são ci­en­tí­fi­ca de pro­cu­rar vi­da nes­te pla­ne­ta fi­cou a car­go do mó­du­lo que es­tá em ór­bi­ta. Ele vai es­tu­dar a com­po­si­ção da at­mos­fe­ra e vai pres­tar mui­ta aten­ção à pre­sen­ça de me­ta­no, va­por de água ou dió­xi­do de carbono.

Sabemos que exis­te me­ta­no em Marte, mas não fa­ze­mos ideia se é de ori­gem ge­o­ló­gi­ca ou bi­o­ló­gi­ca. Se eu pu­des­se co­mu­ni­car com o mó­du­lo em ór­bi­ta, perguntar-lhe-ia se já con­se­guiu chei­rar al­gum tra­que mar­ci­a­no. Uma pi­a­do­la só pa­ra que­brar o ge­lo, sa­bem co­mo é. Está lá so­zi­nho no Espaço, lon­ge do Sol, coitado.

Eu não po­dia de­te­tar os tais ga­ses mar­ci­a­nos, mes­mo que qui­ses­se. Os meus ins­tru­men­tos são li­mi­ta­dos. Não sei se é da fra­ca vi­si­bi­li­da­de ou das li­mi­ta­ções da mi­nha câ­ma­ra mo­no­cro­má­ti­ca, mas vi al­gu­ma coi­sa a mexer-se aqui per­to e não sei se é ge­o­ló­gi­co ou at­mos­fé­ri­co. Parece-me até que se es­tá apro­xi­mar, mas ain­da não con­se­gui determinar-lhe a for­ma. Será um da­que­les tor­na­dos de po­ei­ra em miniatura?

Tenho ideia de que a mi­nha des­ci­da não de­cor­reu co­mo pre­vis­to, mas mes­mo que ti­ves­se res­va­la­do pe­lo Valles Marineris abai­xo não fi­ca­ria co­mo os hu­ma­nos, cri­a­tu­ras li­mi­ta­das sem­pre a ver coi­sas on­de elas não exis­tem.  Esta fa­lha em de­ter­mi­nar o que es­tá a aproximar-se de mim é de­ses­pe­ran­te. Poderia usar os meus ins­tru­men­tos de bor­do, se ao me­nos me lem­bras­se on­de estão.

Qualquer coisa a tocar-me

É me­lhor as­sim. Imaginem que ti­nha aca­ba­do de des­co­brir uma cri­a­tu­ra mar­ci­a­na que se man­te­ve in­de­te­tá­vel até ago­ra. Imaginem a frus­tra­ção de não po­der co­mu­ni­car a mai­or des­co­ber­ta ci­en­tí­fi­ca da his­tó­ria da Humanidade.

Bem, na­da a fa­zer, vou ter de li­dar com is­to: uma cri­a­tu­ra ex­tra­ter­res­tre que po­de­rei ago­ra clas­si­fi­car co­mo con­vin­cen­te­men­te bi­o­ló­gi­ca, co­me­çou a tocar-me.

Fá-lo a me­do e até com al­gu­ma de­fe­rên­cia, co­mo os ma­ca­cos do «2001: Odisseia no Espaço» quan­do des­co­bri­ram o mo­nó­li­to. Quase en­tro em curto-circuito só de pen­sar que ain­da não pos­so co­mu­ni­car o que se es­tá a pas­sar, mas ser tra­ta­do co­mo uma re­lí­quia sa­gra­da não é as­sim tão mau.

Olhem, apa­re­ce­ram mais pa­ra me ver. Ena, tan­tos mar­ci­a­nos! Quem di­ria. Sinto-me um Cristo a dei­xar vir a si as cri­an­ci­nhas. Acho que vou pas­sar o meu res­tan­te tem­po ope­ra­ci­o­nal na com­pa­nhia des­tas sim­pá­ti­cas cri­a­tu­ras que tan­to pa­re­cem adorar-me.

Bem, acon­te­ça o que acon­te­cer, es­ta ex­pe­ri­ên­cia nin­guém ma ti­ra. Com cer­te­za que se­res tão de­li­ca­dos e res­pei­ta­do­res não es­tão a tocar-me ape­nas com a in­ten­ção de re­mo­ver a ba­te­ria e retirar-me qual­quer hi­pó­te­se de avi­sar a Terra que

Marco Santos

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