Pérolas rolavam em direção ao seio da mulher. O fio da viagem parecia ao corpo regressado. Falava-se, a vida suspensa na mesa branca e lisa. / Olhava-se curiosamente, na perplexidade dos instantes de paragem. Falava-se do que parecia ser-lhes exterior. / Pérolas rolavam insistentemente sobre a mesa em direção ao seio da mulher. Bela, muito direita, o fato branco. / O cigarro e o prazer discretos, os dedos terminando finos junto à unha, talvez finos de mais para tanto corpo. / Uma pérola rolava muito lenta em direção ao seio da mulher. Falava-se de música. O piano, a hora disponível. A voz.
(in «Nervura», Isabel de Sá)
Estamos rodeados de seios: encontramo-los na publicidade, na literatura, na pintura, no cinema, nas praias… É uma zona do corpo sublimada como nenhuma outra o foi até hoje. E de múltiplas maneiras.
Numa tela de Louis Soutter, intitulada «Oú sont nos seins?», são a revelação da perda torturada. Num inquérito da Playboy, pede-se a sua descoberta: «De quem são estes seios?»
O escritor Philip Roth tem um conto justamente chamado «The Breast», no qual dá kafkianamente conta de metamorfose de um homem… num seio. A verdade é que, no mundo de hoje, os seios – e sobretudo os femininos, por motivos óbvios – estão profundamente arreigados nas nossas cabeças e na nossa cultura.
No princípio era o Verbo, não o Nome…
«- Como sabes que era ela? – Tinha-a visto com aquele vestido. Além disso, reparei no verniz prateado das unhas. E nas tetas. Nunca reparaste nas tetas de Laurel?»
(in «Os Duros não Dançam», de Norman Mailer)
As coisas têm o seu começo antes de qualquer designação. Mas porque as falamos, e falamos frases estruturadas entre nomes, este e o outro, sujeito e objeto, já as coisas ficam para nós com outra feição.
Quando se diz algo, diz-se conforme as circunstâncias o exigem ou o permitem. E como são essas circunstâncias que nos fazem falar, reparamos que existem palavras diferentes com um significado único ou uma só palavra com vários significados.
Ficamos a saber, de imediato, que as razões que determinam a escolha e que julgam da sua adequação são estranhas ao discurso.
Tome-se como exemplo a nomeação de um objeto que seja um órgão do corpo humano com características e funções definidas que o fazem, logo à partida, não ser um objeto como os outros – a mama.
E tenhamos como um dado adquirido que «mama» é o radical que aparece no género designativo da classe zoológica dos possuidores desse órgão, os mamíferos, machos e fêmeas. Que esse é o uso médico e também o registo do quotidiano em tudo o que se relaciona com o corpo e particularmente com os lugares sensual e sexualmente ativos.
Partamos do princípio que é essa a atribuição primeira do nome ao «objecto» significado. Lembremo-nos, todavia, que as coisas podem tornar-se outras para alguém, como nos ensina a psicanálise.
Para os humanos uma coisa não é ela mesma, mas o que significa para cada um de nós e para a comunidade que lhe deu o nome…
Perguntemo-nos, em suma, se poderá haver objeto que não seja totalmente passivo. Ler mais











































