Posts que deram origem a uma série enorme de posts.

→ 05/03/2012 @19:18

Senologias 1: o nome e o objeto

Pérolas rolavam em direção ao seio da mulher. O fio da viagem parecia ao corpo regressado. Falava-se, a vida suspensa na mesa branca e lisa. / Olhava-se curiosamente, na perplexidade dos instantes de paragem. Falava-se do que parecia ser-lhes exterior. / Pérolas rolavam insistentemente sobre a mesa em direção ao seio da mulher. Bela, muito direita, o fato branco. / O cigarro e o prazer discretos, os dedos terminando finos junto à unha, talvez finos de mais para tanto corpo. / Uma pérola rolava muito lenta em direção ao seio da mulher. Falava-se de música. O piano, a hora disponível. A voz.

(in «Nervura», Isabel de Sá)

Estamos rodeados de seios: encontramo-los na publicidade, na literatura, na pintura, no cinema, nas praias… É uma zona do corpo sublimada como nenhuma outra o foi até hoje. E de múltiplas maneiras.

Numa tela de Louis Soutter, intitulada «Oú sont nos seins?», são a revelação da perda torturada. Num inquérito da Playboy, pede-se a sua descoberta: «De quem são estes seios?»

O escritor Philip Roth tem um conto justamente chamado «The Breast», no qual dá kafkianamente conta de metamorfose de um homem… num seio. A verdade é que, no mundo de hoje, os seios – e sobretudo os femininos, por motivos óbvios – estão profundamente arreigados nas nossas cabeças e na nossa cultura.

 

No princípio era o Verbo, não o Nome…

«- Como sabes que era ela? – Tinha-a visto com aquele vestido. Além disso, reparei no verniz prateado das unhas. E nas tetas. Nunca reparaste nas tetas de Laurel?»

(in «Os Duros não Dançam», de Norman Mailer)

As coisas têm o seu começo antes de qualquer designação. Mas porque as falamos, e falamos frases estruturadas entre nomes, este e o outro, sujeito e objeto, já as coisas ficam para nós com outra feição.

Quando se diz algo, diz-se conforme as circunstâncias o exigem ou o permitem. E como são essas circunstâncias que nos fazem falar, reparamos que existem palavras diferentes com um significado único ou uma só palavra com vários significados.

Ficamos a saber, de imediato, que as razões que determinam a escolha e que julgam da sua adequação são estranhas ao discurso.

Tome-se como exemplo a nomeação de um objeto que seja um órgão do corpo humano com características e funções definidas que o fazem, logo à partida, não ser um objeto como os outros – a mama.

E tenhamos como um dado adquirido que «mama» é o radical que aparece no género designativo da classe zoológica dos possuidores desse órgão, os mamíferos, machos e fêmeas. Que esse é o uso médico e também o registo do quotidiano em tudo o que se relaciona com o corpo e particularmente com os lugares sensual e sexualmente ativos.

Partamos do princípio que é essa a atribuição primeira do nome ao «objecto» significado. Lembremo-nos, todavia, que as coisas podem tornar-se outras para alguém, como nos ensina a psicanálise.

Para os humanos uma coisa não é ela mesma, mas o que significa para cada um de nós e para a comunidade que lhe deu o nome…

Perguntemo-nos, em suma, se poderá haver objeto que não seja totalmente passivo. Ler mais »

→ 24/02/2012 @21:22

Porque o Jazz é só barulho (6)

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(Bernardo Sassetti Trio: Reflexos – Movimento Circular; Fotos de Paris: Guillaume Braunstein)

→ 21/02/2012 @19:42

É pá, eu gosto é de rock (11)

O rock é um vírus. Movimenta-se pelo ar e vai nidificando em cada vibração sonora que encontra. É invisível, mas tem o poder de transformar radicalmente as superfícies em que se deposita – os rostos de Keith Richards e Iggy Pop, por exemplo. A epidemia alastra e surge mesmo onde menos esperamos. Apurem os ouvidos para saberem quando é a vossa vez de sucumbirem…

 

VVV: «Resurrection River» (Mego)

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Os três V que identificam o trio responsável por este «Resurrection River» são os dos apelidos de Alan Vega, Mika Vainio e Ilpo Vaisanen.

Para quem ainda não sabe – haverá quem? -, o primeiro é metade dos lendários Suicide e os dois últimos constituem o projeto Pan Sonic.

A estreia desta formação que combina o punkabilly eletrónico que Vega e Martin Rev “inventaram” na década de 1970 com a presente techno experimental made in Escandinávia aconteceu em 1998 e chamou-se «Endless».

Esta segunda incursão pelo mundo do disco não se distancia muito do que aí propuseram, a não ser, talvez, em termos de aprimoramento desta parceria que não é tão estranha quanto seria de pensar. Que músicos eletrónicos da atualidade não têm os Suicide como referência, ao lado dos Kraftwerk e dos Coil?

Todo o CD volta a abrir-nos as bocas de espanto, e se a faixa que lhe dá título, logo a inicial, tem um enlevo pop que só as estações de rádio mais obtusas – as portuguesas, por exemplo – colocaram fora das suas playlists, o mais incrível que aqui ouvimos é «It Was Her Eyes», com Jimi Tenor como convidado especial no órgão.

Vega transfigura-se, tal como nos tempos áureos, e quase não seria necessário o beat encadeado pelos finlandeses que lhe proporcionaram este regresso em grande para sentirmos a taquicardia rítmica das suas vocalizações.

Esta é uma voz-máquina, fria e implacável, vinda das entranhas do diabo, de um lugar em que as chamas são feitas de gelo – Resurrection, convém assinalar, é o nome de um rio do Alasca cujas águas provêm dos glaciares.

Dir-se-ia que os demónios do autor das letras de «Ghost Rider» são lunares, ao contrário dos nossos, que irrompem das profundezas da Terra e nos abrasam.

A analogia justifica-se com o facto de este trabalho ter temática religiosa – a cover art presenteia-nos, aliás, com a típica iconografia do catolicismo espanhol.

O mais maldito dos vocalistas do rock, a par, está claro, de Iggy Pop, canta os pregos de Cristo no mesmo verso em que alude aos carros de corrida de James Dean e a um crucifixo negro que não parece ser muito cristão.

Mais uma vez, Alan Vega surgiu neste título como o alter-ego de Elvis Presley e a má consciência do rock and roll.

 

Woven Hand & Ultima Vez: «Puur» (Glitterhouse Records)

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Quem gosta de imprevistos tem em «Puur» com que se entreter.

De facto, ninguém poderia imaginar que um cantautor americano do country-folk-rock cristão como David Eugene Edwards, antigo líder dos 16 Horsepower e depois mentor destes Woven Hand, se pudesse associar a uma companhia de dança europeia, a Ultima Vez, dirigida por um coreógrafo com as características avant de Wim Vandekeybus, que de uma das componentes desse formato musical, o rock, o mais que se tinha aproximado foi com os zappianos X-Legged Sally.

E o curioso é que Edwards nunca foi tão pouco folk ou rock como neste contexto. A música que faz é o menos ortodoxa que lhe conhecemos.

As canções surgem apenas enquanto tal em algumas secções da banda sonora, intercaladas por interessantes e surpreendentes – vindas de quem vem – paisagens sonoras.

Além disso, soube enredar os seus préstimos propriamente musicais com os textos falados e os sons de cena do espetáculo.

Seja como for, é da redenção ainda que estava à procura e pelo testemunhado Deus correspondeu às suas preces.

Oiçam isto e fiquem na ideia com a imagem de uma bailarina que se debruça sobre o seu parceiro para lhe dar de beber a água que traz guardada na boca. Puro Vandekeybus… Ler mais »

→ 13/02/2012 @8:54

Janelas Para o Mundo: Grécia [36]

Na «guerra civil global» que se trava na Grécia, os polícias usam gás lacrimogéneo e os manifestantes pedras, pistolas de sinalização e cocktails molotov (Foto: Aris Messinis/AFP/Getty Images)


Pedra contra as forças anti-motim (Foto: Aris Messinis/AFP/Getty Images)


Pedras contra os manifestantes (Foto: Orestis Panagiotou/EPA)


Um manifestante confronta a polícia de choque diante do Parlamento, em Atenas (Foto: Thanassis Stavrakis/AP)


Disparos de uma pistola de sinalização (Foto: Angelos Tzortzinis/ AFP/Getty Images)


Um deputado do Partido Comunista, Giorgos Mavrikos, lança uma cópia do acordo de austeridade negociado com a 'troika' na direção do Ministro das Finanças (Foto: Pantelis Saitas/EPA)


Um polícia anti-motim pontapeia um manifestante (Foto: Michalis Karagiannis/Phasma/Reuters)


Um manifestante pontapeia uma vasilha de gás lacrimogéneo (Foto: Simela Pantzartzi/EPA)


Um velho cinema no centro de Atenas: enquanto se lutava nas ruas, o Parlamento aprovava as medidas de austeridade impostas pela 'troika' como condição para o «salvamento» económico da Grécia (Foto: Simela Pantzartzi/EPA)

Um velho cinema no centro de Atenas: enquanto se lutava nas ruas, o Parlamento aprovava as medidas de austeridade impostas pela 'troika' como condição para o «salvamento» económico da Grécia (Foto: Simela Pantzartzi/EPA)


À entrada do Parlamento grego (Foto: Orestis Panagiotou)


Uma bomba incendiária de fabrico caseiro lançada contra os polícias (Foto: Max Gyselinck/AFP/Getty Images)


Atenas a arder na noite de 12 de Fevereiro (Foto não assinada)

→ 11/02/2012 @4:52

Porque o Jazz é só barulho (5)

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(Dave Brubeck Quartet, Take Five – Bélgica, 1964)

→ 07/02/2012 @16:34

Porque o Jazz é só barulho (4)

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(Senary System, If only)

→ 29/01/2012 @16:01

Não percas a memória (4)

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Repitam comigo: Miles, Miles, Miles, Miles, Miles, Miles… (Miles Davis no Isle of Wight Festival, 1970)