Os posts em que falamos de nós, das nossas vidas e do que nos mais nos toca intimamente.

→ 20/01/2012 @4:39

A propriedade é um roubo

Na sequência da produção que fiz do único CD editado pelo duo Duplex Longa («Forças Ocultas»), nos finais dos anos 1980, iniciei com um dos seus membros fundadores, o meu irmão Carlos, um outro projecto, chamado Astronauta Desaparecido, que foi igualmente publicado («Sound & Fury») no início da década seguinte.

Desta vez em suporte cassete, assim assumidamente alinhando no circuito underground em que na altura se moviam grupos experimentais e de rock alternativo.

Os Astronauta Desaparecido eram um misto de noise eletrónico, hardcore e industrialismo, com uns arrevesados apontamentos etno, tendo como característica principal o uso dos materiais sonoros providenciados por músicas difundidas e comercializadas em vários formatos.

Os nossos instrumentos principais eram gravadores portáteis de cassetes, gira-discos, leitor de CDs, rádio e televisão. A que se somavam um teclado sampler Casio primário, drum machine, processadores de sinal e ocasionais recursos ao baixo, à guitarra, a percussões (incluindo panelas e outros utensílios de cozinha), flautas e vocais.

Em termos conceptuais, aplicávamos os preceitos avançados pelas correntes plagiaristas e plunderphonics de John Oswald, Tape-beatles, Negativland e algum hip-hop que transformara o DJing em mais do que uma simples «prestação de serviço» (é assim que os vulgares DJs estão registados para efeitos de taxação) para animar as noites das discotecas.

Com uma diferença: se nessa área se distinguia o factor citação, jogando com o reconhecimento do ouvinte, o que os Astronauta Perdido criavam era música a partir de outras músicas já existentes, mas de modo que era impossível, ou muito perto disso, perceber de onde vinham os ingredientes.

Num mesmo tema podiam ser mixados Anthony Braxton, Damned, a música dos pigmeus centro-africanos e as falas ou os ambientes sonoros do filme «Alien», mas de modo que essas proveniências não podiam ser identificadas.

Não o fazíamos para «esconder» a pilhagem, mas porque considerávamos que uma utilização plagiarista e plunderfónica mais profunda devia lidar com o que de mais essencial havia nesses sons, e não com a sua «capa», a sua aparência imediata.

Este processo de reciclagem extrema era para nós uma atitude política contra as práticas universais, mas capitaneadas pelas multinacionais do disco e pelos publishers norte-americanos, do copyright. Na altura tive acesso a alguns escritos de Chris Cutler (Henry Cow, Cassiber, etc.) sobre a questão, e a sua leitura influenciou o rumo dos Astronauta Desaparecido.

Estes ficaram pelo caminho devido aos nossos outros afazeres, o meu irmão porque começara a fazer carreira no design gráfico, eu porque me dedicara à escrita sobre música e ao jornalismo…

 

The Property, Giovanni Rapiti

Mas assim como mais tarde fui publicando os meus livros sem me registar na Sociedade Portuguesa de Autores, também esse trabalho editado pelo duo circulou fora do sistema instituído em volta dos erradamente chamados «direitos de autor» (dado que os autores são os últimos beneficiados do mesmo) de que a dita SPA era e continua cada vez mais a ser simultaneamente o tribunal, a polícia e um dos tais vampiros de que cantava José Afonso.

Agora que nos Estados Unidos se querem impor novas e ainda mais absurdas restrições à comum capacidade humana para (re)criar, porque não somos apenas usufruidores passivos da criatividade de outros, ou seja, de uma elite de artistas, agora que o rastreio deste novo ataque das moribundas majors se espalha pelo mundo, tendo como agentes até partidos políticos supostamente de esquerda, como o Partido Socialista português (vidé recente projeto de lei sobre as cópias privadas), está-me a parecer que, mais do que na altura, eu e o Carlos deveremos retomar a atividade dos Astronauta Desaparecido.

Chamem-lhe resistência ou desobediência civil, mas neste momento, para travar o assalto aos nossos direitos mais básicos, deveremos responder à criminalização de atos que nos deviam ser naturais com ações «criminosas». Dizendo mais explicitamente: em resposta a estes propósitos fascistóides, os Astronauta Desaparecido voltarão a fazer música com conteúdos pilhados a outras músicas.

«A propriedade é um roubo», dizia, e muito bem, Proudhon…

 

Bloco macio

Será a nossa maneira de dizer «não aceitamos». Se a lei é injusta e anacrónica, pois que sejamos fora-da-lei. De nada vale ter a posição tristemente adotada pelo Bloco de Esquerda nas recentes discussões sobre a cópia privada e no lançamento dos debates internos a que deu o patético nome «Direitos Contra Direitos». O «sim, mas» e o «não, mas» não conduzem a lado algum…

Eu, que tenho algumas costelas libertárias mas costumo votar útil no Bloco de Esquerda, fiquei bastante desapontado com o comportamento deste partido. Já nem falo do PCP, que se colou ao PS nesta história, talvez porque aquilo que foge à clássica luta de classes escapa-se também à sua compreensão…

Num texto publicado no site Esquerda.net, a deputada Catarina Martins refere que, «num quadro em que tudo está mal somos chamados a pensar sobre uma má solução», parecendo anunciar à partida que qualquer medida que se tome sobre a questão só pode ser negativa.

Não aceito esta declaração prévia de impotência.

Logo para começar, vem Catarina dizer que há coisas que não podem ser mudadas. Designadamente, que as atuais legislações sobre direitos de autor são intocáveis, sabendo nós que foram erigidas, pelos seus ignorantes redatores, sobre o total desconhecimento das realidades tecnológicas e culturais que são as de hoje.

Na mesma prosa se lê também que «em Portugal há muitos autores que não conseguem ser ainda representados por nenhuma entidade de gestão coletiva de direitos de autor e que gostariam de o ser». Custa-me muito a crer que haja quem deseje mais SPAs, isto é, organismos privados cujo funcionamento seria reconhecido pelo Estado como fazendo parte do próprio Estado, sempre prontos a espoliar os autores em benefício próprio e em benefício de mega-empresas malfeitoras, com o disfarce de que aquilo que fariam seria em prol desses autores.

Argumentam Catarina Martins e o Bloco com a «sensatez» e o «bom senso», mas para mim trata-se de vistas curtas. O sensato mesmo é rever esta problemática de raiz e mudar tudo. Os enxertos bloquistas de nada adiantam. Que haja coragem para fazer o necessário é o mínimo que se podia exigir a uma organização política de verdadeira contestação do status quo.

O Bloco que continue, então, a discutir com paninhos quentes que direitos estarão contra quais direitos. Os Astronauta Desaparecido, estes, aí estarão para, no terreno, demonstrar que todos podemos ser autores e que não precisamos de estruturas que se dizem nossas defensoras, mas têm outras agendas e outros propósitos.

→ 19/01/2012 @12:03

O exemplo XKCD

De todas as mensagens de protesto anti-SOPA que vi, foi esta que me tocou mais. É escrita por Randall Munroe, o físico que se tornou ilustrador e fez do XKCD uma referência entre todos os geeks e fãs de BD na Internet.

Tocou-me pela simplicidade, mas também pelo exemplo deste veterano da web: Munroe consegue viver confortavelmente do trabalho que faz como ilustrador e atribui a responsabilidade deste sucesso ao facto de as pessoas serem livres de partilhar os seus comics em todo o lado.

Ele encoraja essa partilha e não se põe a choramingar por causa dos direitos de copyright, insistindo que não é necessária qualquer autorização para reproduzir o seu trabalho; pede apenas, em troca, o pagamento habitual: um link atribuindo-lhe a autoria dos desenhos. Mesmo publicações comerciais em papel podem usar os comics do XKCD, desde que respeitem a atribuição e enviem um email a informá-lo do que pretendem fazer.

Claro que não estou a comparar a situação de Randall Munroe com os imbecis que copiam filmes na Net e os vendem na Feira da Ladra, mas a reforçar quão estupidamente radicais são as atitudes dos inquisidores do copyright.

Quando as pessoas partilham no YouTube excertos das suas séries preferidas de televisão, cenas preferidas de um filme, um videoclip, a única lei que estão a infringir é a lei da insensatez imposta pelas indústrias do entretenimento.

Porque o que essas pessoas estão a dizer é simples: «isto que está aqui faz parte da minha vida, das minhas referências culturais e ideológicas, isto sou eu, portanto conheçam e conheçam-me também». Só numa sociedade gerida unicamente pela ganância se poderia ignorar o lado humano desta questão.

São estes Torquemadas de fato e gravata que fazem do dinheiro a sua religião os verdadeiros ladrões: roubam a vivência das pessoas, a sua necessidade de comunicar e partilhar, negam-lhes o direito à conversação, tão essencial na vida «real» como na Net.

Ao defender os sacrossantos direitos do copyright acima das próprias pessoas, estas empresas estão a dizer-nos que somos apenas consumidores. Querem transformar-nos em espectadores passivos de comando na mão, à procura de alternativas previamente escolhidas por quem detém os meios de produção – eles próprios. O SOPA quer montar um gigantesco sofá e sentar-nos a todos na Internet.

Bastaria um mínimo de flexibilidade e inteligência para perceber que um link, uma citação, é já de si uma forma de pagamento. E que o material que se partilha não tem apenas o valor de «propriedade intelectual», mas a potencialidade de fazer parte da vida das pessoas – é o que faz a diferença entre ser um mero produto e um objeto cultural. A livre partilha na Net permite que isto aconteça, muito mais do que campanhas de marketing.

A Google anunciou ter recolhido, só num dia de protestos, mais de 4,5 milhões de assinaturas para uma petição anti-SOPA/PIPA, instigando políticos ignorantes a desistir desta estúpida tentativa de corromper a rede.

Pode não ser suficiente. As pessoas começam agora a considerar em levar estes protestos para as ruas, manifestando-se à porta dos gabinetes dos senadores para que estes saibam que isto não é apenas uma coisa de nerds ou piratas. Tem a ver com todos. Esta lei não passará.

→ 16/01/2012 @22:14

Oscarizações e carreiras blogosféricas

Eu não queria escrever uma palavra sobre o assunto, mas devo pelo menos um breve esclarecimento aos que tiveram a amabilidade de enviar emails a alertar-me.

Os nossos amigos do Aventar organizaram uma daquelas iniciativas para eleger, por votação popular, os melhores blogues e bloggers de 2011. De vez em quando estas coisas acontecem e os leitores mais antigos já conhecem a minha opinião sobre esta oscarização da blogosfera.

A minha opinião – e sei que o Rui Eduardo Paes também pensa assim – pode ser sintetizada da seguinte forma: estou-me borrifando para prémios, votações, eleições, memes e palmadinhas nas costas. Não os peço, não os procuro, não os quero nem os aceito.

Por isso, respondi ao email da malta do Aventar pedindo para deixar o Bitaites de fora da lista de nomeados – esse pedido foi graciosamente aceite e o assunto arrumado. Amigos como dantes.

Tenho vaidade e orgulho como toda a gente, mas desvalorizo estas classificações. Muitos visitarão os blogues vencedores à espera de que sejam «melhores» do que cada uma das múltiplas referências de qualidade que cada visitante já carrega. Isso é impossível de conseguir; logo, ser considerado «o melhor» por votação popular é uma falácia estatística destinada a alimentar o ego a pão de ló. O meu ego também precisa de ser alimentado, mas prefiro refeições mais nutritivas.

Não estou a julgar de forma preconceituosa as motivações do Aventar nem a insinuar que sou «melhor» por pensar assim: estou simplesmente a dizer que a minha blogosfera é partilha, troca, aprendizagem, divulgação, escrita, exposição – não precisa de taças ou cotovelos feridos.

Tony Carreira vende aos milhões e ganharia facilmente qualquer concurso de popularidade, mas certamente que não o colocaria no topo das minhas referências musicais. O gravatar-padrão deste blogue é o Frank Zappa, não é o Tony Carreira. Isto não reflete apenas a minha zappancada musical, é também um símbolo das prioridades deste blogue.

Pronto, era isto. Obrigado pelos emails.

→ 01/01/2012 @16:00

Em 2011 ainda estávamos nos preliminares

Ontem soltaram-se os foguetes e apanharam-se as canas, festejando-se a entrada num novo ano. Celebrámos a subida dos preços e a degradação generalizada das condições de vida para a maioria dos portugueses.

Também festejámos o facto de estarmos vivos junto daqueles que amamos, mas isso pode celebrar-se todos os dias, não é necessário uma passagem de ano, 12 passas supersticiosas ou copos de espumante na mão.

E é por isso que não consigo deixar de pensar na irracionalidade de festejar-se efusivamente a entrada num ano que será muito, muito pior do que este que passou.

→ 23/12/2011 @15:16

Está na hora dos Jethro Tull

Tenho um ritual em cada passagem de ano – ponho-me a ouvir os meus discos preferidos dos Jethro Tull.

Tanto tempo passado da década de 1970 ainda é algo que me agrada fazer, mas o fascínio que tenho por álbuns como «A Passion Play», «Thick as a Brick» e «Aqualung» é, mais do que tudo, emocional.

Para mim estes discos funcionam como faróis de referenciação da minha própria vida. Avalio-a por comparação com os melhores anos que até hoje vivi, os primeiros da adolescência, aqueles precisamente em que descobri os Jethro Tull por meio dos meus amigos Rui e Bebita, dois irmãos de cabelos até ao fundo das costas, calças à boca de sino e sandálias de pneu de automóvel.

Verifico o quanto as circunstâncias me vão distanciando daquilo que eu era nessa altura, e a verdade é que, regra geral, me sinto muito, muito longe daquele rapaz meio gordinho que começava a consumir rock febrilmente, depois do muito jazz que o pai lhe apresentara até então.

Além deste hábito anual, ouço Jethro Tull quando estou feliz (passei longas horas com eles quando nasceram os meus três filhos) e quando estou na fossa. A maior parte das vezes é, infelizmente, este último o estado de espírito que me leva a recapitular temas de que conheço o mais ínfimo pormenor, mas que me continuam a intrigar.

Cá em casa já sabem que pode ser mau sinal quando coloco «Locomotiv Breath» ou «My God» no leitor de CDs. Quando tal acontece piram-se todos, pois o meu humor fica, digamos, pouco sociável. Fecho-me em copas e mergulho no negrume.

A coisa acaba por ter um efeito regenerador: daí a umas horas saio com outra disposição das exorcizações que faço com a flauta do Ian e a guitarra do Martin Barre. Fico com outra força para enfrentar as adversidades, até cair novamente e necessitar de mais uma dose de Jethro Tull.

Os próximos dias vão ser de banhos tullianos, pois são demasiados os demónios que me invadiram a alma durante o ano de 2011. Aconselho-vos a terapia – podem começá-la pelos dois clips que aqui deixo…

You need to install or upgrade Flash Player to view this content, install or upgrade by clicking here.

You need to install or upgrade Flash Player to view this content, install or upgrade by clicking here.

Esta é a minha maneira de vos desejar boas festas.

→ 17/12/2011 @20:01

Cá vai biqueirada

Depois de me ter debruçado sobre a música que o meu filho Lourenço consome (consultar Hardcore Primeiro Escalão, aqui), estive a dar uma escutadela às preferências musicais do primogénito da família Oliveira Paes, o Bruno, também conhecido como Biqueira porque em tempos que já lá vão calçava botas de biqueira larga…

Já sabia que os gostos dele não divergem muito dos meus (cruzámo-nos algumas vezes em concertos de jazz práfrentex e de música experimental sem sabermos que o outro lá ia também), mas certas coisas que me deu a ouvir surpreenderam-me.

Primeiro porque são indiscutivelmente bizarras, ainda que dentro de um enquadramento pop, depois porque lhes é comum uma elevada dose de melancolia, e finalmente porque não condizem muito com o percurso freak que foi o seu.

Explico: o Bruno era um adolescente de cabelos lisos compridos e risco ao meio que construía didgeridoos (sim; só os da Austrália são feitos de troncos escavados pelas térmitas) e estava a aprender a tocar esse instrumento aborígene. Se outros como ele optaram pelo djembé, o meu filhote resolvera ser ainda mais étnico…

Aos 18 anos partiu para Londres a fim de tirar dois cursos sobre redes informáticas e depois mudou-se para Cardiff com o objectivo de cursar outro de design, permanecendo no Reino Unido durante cinco anos. Para não depender dos pais e custear os seus estudos e a sua estadia, trabalhou em bares – aprendeu, por exemplo, a fazer umas dezenas de cocktails e uns pratos mexicanos de fazer vibrar as papilas gustativas.

Passava longas temporadas sem o ver, o que me custou imenso. Afinal, não só assisti ao parto do Biqueira como o ajudei a nascer – isto, somado ao facto de ter sido o meu primeiro filho, firmou os fortes laços que tenho com ele. Certa vez, quando o esperava no aeroporto, aproximou-se de mim um jovem de longas barbas e dreadlocks até ao meio das costas. Vinha de calções e numa das pernas tinha tatuado um enorme cogumelo. Só olhando-lhe uma segunda vez para a cara percebi que era ele…

Até que voltou para casa. Eu e a mãe bem tentámos convencê-lo a ficar por lá, dado que Portugal é nação onde só fica quem não tem pernas ou é masoquista. Usámos todos os argumentos, incluindo o da rapariga que deixou no País de Gales. Nada feito: optou por ficar em Portugal e isso custou-lhe caro. Três anos no desemprego, apesar dos canudos, e finalmente a colocação na secretaria de uma universidade – com uma bolsa, atenção, porque entrar para os quadros está quieto – a fazer algo de completamente diferente daquilo que estudou e que desempenha muitíssimo bem.

Nesta coisa das músicas, é de assinalar que alguns colegas de escola e amigos do Biqueira que vinham cá a casa se distinguiram mais tarde como figuras da nova geração da música improvisada em Portugal, como Pedro Sousa, Gabriel Ferrandini e Pedro Lopes.

Tem até acontecido eu ir para os concertos e para os copos com eles, sem o Bruno. Ou eles virem até cá ouvir música e conversar sobre a dita, igualmente sem participação brunística. Os amigos dele de vinte e tal anos tornaram-se nos amigos deste cota. O meu filho goza com a situação, claro, mas não sem se surpreender com as liberdades tomadas pelos nossos diálogos, como um «epá, Rep, que mamadice», com uma resposta minha do tipo «vê mas é se controlas as dinâmicas, ó gabiru»…

Agora que o Bruno ficou calvo como o pai, as freakalhices do passado parecem ter-se-lhe atenuado, se bem que continue a gostar de Frank Zappa e Jethro Tull, o que não é um bom sinal (a esta altura está o meu bro Marco a espumar pela boca). Em vez disso, apanho-o a ouvir hip-hop alternativo, breakbeat, weird folk, rock shoegazer, e sobretudo as cenas mais tristes.

Não é que o Biqueira tenha muitos motivos para não estar triste, assim como o resto da rapaziada da idade dele, mas estas são as audições de um Indignado. Sim, o Bruno parece-se muito comigo quando eu tinha a idade dele: de punho levantado, presente em todas as manifestações contra os burgessos do poder político, do poder da banca e do poder corporativo. É um lutador, um resistente, um activista.

Por exemplo, esteve acampado na Avenida da Liberdade e esteve presente no célebre protesto em dia de greve geral no qual polícias à paisana derrubaram as grades à frente da Assembleia da República fingindo que eram manifestantes, de maneira a arranjarem um subterfúgio para a violência…

A música do Bruno pode ser um tanto ou quanto down, mas ele fez das tripas coração e tem o rumo bem delineado. Abram alas, que temos aí biqueirada…

 

Slint

You need to install or upgrade Flash Player to view this content, install or upgrade by clicking here.

Banda de rock do Kentucky que parou a sua actividade no início da década de 1990, mas reagrupou-se para concertos em 2005 e 2007, ambicionando os seus fãs que tal volte a acontecer e o projecto não tenha ficado pelo caminho. «Gosto de coisas antigas», diz o Bruno provocatoriamente aos fanáticos da novidade.

Podemos dizer que os Slint são precursores do chamado pós-rock, embora tenham uma rítmica sincopada que denuncie as origens punk dos seus elementos – por exemplo, o guitarrista e vocalista Brian McMahan e o baterista Britt Walford foram antes membros do grupo hardcore Squirrel Bait.

De referir que o outro guitarrista do projecto é David Pajo, nome de referência da estética «pós», tendo passado por Tortoise e Papa M, tocado ao vivo com os Yeah Yeah Yeahs e integrado os efémeros Zwan de Billy Corgan. Ler mais »

→ 12/12/2011 @9:54

Hardcore primeiro escalão

Tenho estado a ouvir a música do meu filho Lourenço…

Não propriamente porque me move o fito de atravessar alguma generation gap que possa existir entre nós (não me parece que seja o caso), mas pelo facto de ter percebido que o rock de que ele gosta não me era estranho. Vem do punk e do metal, e eu assisti à emergência e ao desenvolvimento de ambos os estilos.

O Lourenço, ou melhor, o Lauri, pois assim o conhecem amigos e clientes, é um bodypiercer com atividade em Carcavelos (na loja HateBall Tattoo, passe a publicidade). E como não podia deixar de ser, tem piercings por todo o lado e o corpo cobriu-o de tatuagens.

Eu e a mãe dele fomos-lhe falando do custo que isso comportava em termos de aceitação social e de mercado de emprego, mas não fez caso.

O meu filho escolheu em simultâneo um mister e um modo de estar e estes consistem em enfeitar a pele de pessoas que, como ele, querem ser como que telas expressivas. Especializou-se em mamilos femininos e masculinos, lábios vaginais e pénis. Agora, vai iniciar um curso de escaraficação, o que o tornará num dos raríssimos praticantes, em Portugal, desse tipo de intervenção mais comum nas ilhas do Pacífico e em certas regiões de África.

A música do universo que ele habita é o chamado hardcore, herdeiro do punk de finais dos anos 1970, com uma variante no metalcore ou deathcore, uma mistura de punk e death metal, e outra no rapcore, fruto do encontro do punk com o rap. No caso do Lauri, há ainda outra tendência muito do seu gosto pessoal: o nintendocore. Isto é, o hardcore, o metalcore ou o rapcore que incorpora os sons dos gameboys da Nintendo.

Não há sons eletrónicos iguais aos das consolas desta marca japonesa de videojogos, de que o Lauri é um fanático desde criança – tanto assim que durante anos foi o administrador de um site de fãs da Nintendo.

Uma das tatuagens que ele fez, imagine-se, é do Super Mario, outra de duas das personagens da série «Zelda», por sinal desenhadas pela irmã Madalena, de 12 anos, e outra ainda com a figura do principal designer de jogos daquela mega-empresa, Shigero Miyamoto.

Quando associadas a outras tatuagens de características bem menos infantis, como aquela de Charles Manson (o líder de uma seita assassina americana que colocou um ponto final parágrafo na década flower power) que ostenta numa das pernas, o efeito é desconcertante. O corpo do Lauri é o de um gótico bem-humorado, algo que seria difícil imaginar…

O que tem, afinal, tudo que ver com a sua personalidade. Poderá haver quem fique assustado quando se cruza com o Lourenço na rua, mas na verdade trata-se da pessoa mais doce deste mundo.

Há uns meses, o Lauri saiu de casa para fazer pela sua própria vida, e eu, que sou um pai-galinha, procuro sempre saber se ele está bem, se ganha o suficiente para comer, se está confortavelmente resguardado. Deixo-o seguir o seu rumo, mas vigio-o à distância, torcendo pelo seu destino.

Fez uma escolha difícil, mas pelo menos fez – na idade dele, a maior parte dos rapazes e das raparigas deixa-se apenas ir com a corrente. Resultado: temos aí uns bancários e uns advogados perigosamente neuróticos, ainda que de fato e gravata.

Ao ouvir as bandas de que o Lauri é seguidor, quando cá vêm ou que ele procura em idas ao estrangeiro, percebo os quês e os porquês das suas opções. Esses «ês» não são, obviamente, os meus, mas compreendo-os. A raiva contida nesta música e presente nesta geração é, afinal, algo que vai extravasando. Esta é a música de quem está zangado e assim vamos ficando cada vez mais.

Acho mesmo que não há nenhuma outra tão representativa deste tempo em que malfadadamente nos encontramos, governados por burgessos e vigaristas.

Sem mais delongas, são estas as bandas favoritas do Lauri. Vejam lá se gostam…

 

Bleed From Within

You need to install or upgrade Flash Player to view this content, install or upgrade by clicking here.

São de Glasgow, na Escócia, e misturam punk e death metal, sendo habitualmente associados às bandas I Killed the Promo Queen e The Black Dahlia Murder (os banhos de sangue indicados pelos nomes são teatro, claro, pois é disso que se trata). Formaram-se no ano de 2005 em torno do vocalista Scott Kennedy e do guitarrista Craig Gowans. Têm publicados dois EPs e dois álbuns.

Os Bleed From Within já passaram por Lisboa, como se nota em algumas imagens do vertiginoso vídeo acima, e o Lauri aparece em dado momento à conversa com eles, em cima do palco. Acho que foi nesse dia que fez uns moshes e acabou de roupa rasgada. Voltou para casa de boxers à mostra, bem feita… Ler mais »