Os posts em que falamos de nós, das nossas vidas e do que nos mais nos toca intimamente.

→ 13/09/2007 @2:00

Até que enfim me perguntaram esta!

Estava eu sentado na esplanada quando alguém me fez a pergunta que há exactamente 18 dias, três horas e cinquenta e cinco minutos esperava ouvir:
- Tens aí um cigarro?
(Um cigarro? Até que enfim!)
Levantei-me da cadeira de um pulo
(agora estou cheio de energia)
disse ao crava
(Espera aí!)
enquanto levava a mão ao bolso
(mais cheio por causa da guita que já poupei)
tirei umas folhas de papel, subi para cima da mesa
(subi na maior)
aclarei a garganta para chamar a atenção de todos os presentes
enchi de ar os meus
(rejuvenescidos)
pulmões
e só não gritei como um Pavarotti
(Nessun Doooooooooooooooooooorma!)
porque o senhor faleceu há pouco tempo
(e não foi do tabaco)
portanto até parecia mal
mas mesmo assim dei-lhe com força nas goelas e avisei
- Irmãos, irmãs e indecisos! Fumar é MUITO pior do que abusar dos parêntesis nas frases!
(e dos parágrafos também)
Pois tenho aqui umas cópias do livro do meu amado guru Allen Carr para ajudar-vos a perceber os malefícios do tabaco!

Bem, na verdade limitei-me a dizer
- Eu não fumo.
E isto é como mudar de Bilhete de Identidade.

Considerem este post como o meu momento Six Feet Under.
(A melhor série de sempre) [1]
E não me digam que desconhecem o Six Feet Under, sou um não-fumador ainda muito novo para estar a lidar com tanto stress blogosférico.

[1] Parêntesis gentilmente cedido pelo Entre Pausas

→ 11/09/2007 @23:33

11 de Setembro: Quo Vadis, America

E foi então que mais de 2700 inocentes perderam a vida.

E foi então que nos apercebemos: fanáticos religiosos tornaram-se argumentistas de Hollywood e produziram um filme-catástrofe exibido em todas as televisões do mundo.

E foi então que a América se apercebeu: as fundações de aço e poder e segurança que sustentavam as torres gémeas do World Trade Center podiam ser derretidas e vergadas e destruídas pela louca determinação dos fanáticos e dos humilhados.

E nenhum Die Hard Bruce Willis se encontrava naqueles arranha-céus correndo descalço sobre tapetes de vidro, matando terroristas e salvando inocentes entre monólogos espirituosos.

E nenhum Governador Schwarzenegger comandava helicópteros de salvamento para retirar as centenas que se refugiaram, indefesos, nos telhados do World Trade Center.

O Super-Homem esteve ausente em planeta incerto e só regressou cinco anos depois.

Pobre América. Porque continuas tu convencida de que os teus milhares de mortos mudaram o mundo? O mundo mudou com a primeira bomba atómica lançada sobre os civis de Hiroshima. O mundo mudou com o Holocausto. O mundo mudou quando se teceram tapetes de bombas para arrasar cidades inteiras – lembras-te de Dresden, na Alemanha? Ignorante e teimosa América. Porque razão depois destes anos todos ainda não paraste um momento para pensar e perguntar: Meu Deus. Porque fizeram eles isto? Porque razão eles nos odeiam tanto? Que temos andado nós a fazer? Será possível que tenhamos gerado um monstro? Vários monstros?

América de memória curta. Não criaste tu o assassino Osama bin Laden quando te convinha teres carne para canhão contra os comunas no Afeganistão? Não deste tu palmadinhas nos ombros ao defunto sanguinário Saddam Hussein quando ele fazia o favor de destruir o Irão por ti? Não foste tu que fizeste orelhas moucas ao genocídio dos curdos?

Diz-me, América: quantos inocentes foram queimados pela tocha da Estátua da Liberdade? Será que não percebes que entre aqueles que morreram nas torres e no Iraque existe apenas uma estrada? Um caminho poeirento e cinzento e gasto por milhares de pés sujos, descalços e abandonados – o caminho que a tua Cavalaria percorre quando quer salvar o dia? Que Sol ilumina esse dia que vais salvar, América? Que tipo de Sol é o teu? É feito de compreensão e calor humano ou é o mesmo Sol de napalm do filme de Copolla?

Aprendeste alguma coisa com a tragédia – a tua e as que provocaste? Sentiste o mundo a teu lado quando chorou, disposto a perdoar tantos anos de danos colaterais em nome de todos os teus inocentes que morreram? Que fizeste das nossas lágrimas e do nosso consentimento?

Elegeste o mesmo imbecil. O protector dos falcões que voaram sob os escombros do World Trade Center. Cega pela dor e desejo de vingança, não notaste que as cinzas dos charutos dos poderosos e dos ricos eram feitas dos corpos dos teus mortos.

E, já agora, América, bela e grandiosa nação, país da Liberdade e do Jazz, se não levas a mal a pergunta: que é feito das tuas armas de destruição massiva? Não nos mintas!

Foto: AP/Bilal Hussein

E desculpa lá estragar-te o aniversário, América, mas o calendário no Iraque marca 11 de Setembro todos os dias.

→ 07/09/2007 @1:35

Textos de Allen Carr [3]

À medida que o tempo vai passando, a malta começa a levar-me mais a sério e a convencer-se de que deixei mesmo de fumar. Um tipo do trabalho que até costuma ser de poucas falas meteu conversa comigo para me contar que largou o vício há cinco anos e que essa decisão continuava no seu «Top 5 das mais difíceis que tomou na vida. E provavelmente irá continuar em primeiro lugar durante muito tempo».

Depois disse-me que, nos três meses que se seguiram à sua decisão de deixar de fumar, não foi capaz de pensar noutra coisa a não ser no cigarro. Atenção: estamos a falar de uma pessoa que deu as primeiras passas aos dez anos e que só parou aos 40. «Lembro-me que estava numa reunião de trabalho» – recorda ele – «quando alguém entrou de rompante a dizer que o Papa tinha morrido.»

Ele é um católico praticante, mas a única coisa que pensou foi «Pá que se lixe a merda do papa, o que me apetecia era fumar um cigarro». Optei por esconder-lhe o meu ateísmo, não fosse o homem recomeçar a fumar ali à minha frente.

O tipo encarou o acto de deixar de fumar como uma missão de sacrifício só possível de levar a bom termo pela força de vontade. Admiro-lhe a força, mas não o método. Deixar de fumar assim é demasiado violento. É um milagre que nestes últimos cinco anos não tenha tido uma recaída. Como ainda o oiço a falar dos cigarros com um sentimento de perda, não me surpreendo se um dia destes o encontrar a fumar outra vez. Há muita gente que deixa de fumar durante cinco, seis anos, mas volta a cair no vício porque, ao invés de se concentrar em tudo aquilo que ganhou, ainda pensa no cigarro com «saudade». Depois basta fumar «só um cigarrinho» para voltar a fumar vinte ou trinta por dia.

Bem vindos então à terceira parte desta série de posts cujo conteúdo é composto por transcrições do livro de Allan Carr – o homem que ensina, com surpreendente sucesso, um Método Fácil de deixar de fumar. Esse método resultou comigo, que fumei mais de 20 anos convencido de que seria incapaz de escrever uma linha sem um cigarro na boca. Entretanto, já escrevi muitas – incluindo este post – e não parei uma única vez a lamentar a falta do «fiel companheiro».

Se vocês consideram que estou a abusar deste tema e a aborrecer-vos, paciência. Fumem mais um cigarrinho que isso passa. Aos outros – os que fumam e gostariam de largar o tabaco – espero que continuem a ler estes textos do Allan Carr. Que vos sejam tão úteis como o foram para mim.

 

A ARMADILHA SINISTRA
O vício de fumar é a mais sinistra e enganadora armadilha da natureza. O homem não podia ter concebido nada mais engenhoso. Antes de mais, o que é que nos impele a cair nela? O facto de milhares de adultos também fazerem o mesmo. Quando somos crianças, eles até nos avisam de que é um hábito repugnante e nojento, mas nós não conseguimos acreditar que não o apreciem.

Um dos aspectos mais patéticos do hábito de fumar é verificar como temos de lutar arduamente connosco mesmos para ficarmos presos a ele. É a única ratoeira que não está munida de isco, de um pedaço de queijo. Aquilo que faz saltar a armadilha não é o sabor delicioso dos cigarros mas, antes, o eles terem um sabor tão desagradável. Precisamente porque aquele primeiro cigarro nos soube tão bem, isso deveria fazer soar um alarme, algures dentro de nós e, como seres humanos dotados de inteligência, poderíamos então compreender aquilo que faz com que metade da população adulta esteja a pagar bem caro por se andar sistematicamente a envenenar. Mas, porque esse primeiro cigarro sabe tão mal, as nossas jovens mentes, destituídas ainda de preconceitos, ficam tranquilizadas e levam-nos a crer que nunca será possível ficarmos agarrados a uma coisa que nos desagrada e julgamos que, como não estamos a gostar, poderemos parar sempre que quisermos.

A armadilha está montada de forma a só tentarmos deixar de fumar quando nos encontramos em pleno stress, seja por causa da saúde, da falta de dinheiro ou simplesmente porque nos estão a fazer sentir como se fossemos leprosos.

Assim que paramos, ainda sentimos o stress com mais intensidade (os temíveis efeitos de privação da nicotina) e, agora, somos obrigados a prescindir daquilo em que costumamos apoiar-nos para o aliviar (a nossa velha «muleta», o cigarro).

Depois de alguns dias de tortura, decidimos que escolhemos a altura errada para o fazer. Temos que esperar por um período sem stress e, assim que ele surge, a razão para abandonar o cigarro desaparece. Claro, esse período nunca chegará porque, em primeiro lugar, pensamos que as nossas vidas têm tendência a apresentar-se cada vez mais sobrecarregadas pelas tensões. Quando deixamos a protecção dos nossos pais, a ordem natural das coisas é montarmos nós uma casa, surgirem as hipotecas, os bebés, trabalhos de maior responsabilidade, etc. É também um logro em que caímos, quando nos servimos destes pretextos para não deixar de fumar por causa deles. A verdade é que, para qualquer indivíduo, os períodos de maior tensão são os da primeira infância e da adolescência.

Temos tendência a confundir responsabilidade com stress. As vidas dos fumadores tornam-se automaticamente mais tensas porque o tabaco não relaxa ou alivia o stress, tal cmo a sociedade lhes tenta fazer crer. É precisamente o oposto: na realidade, faz com que se fique mais nervoso e se sinta mais infeliz.

Até mesmo os fumadores que dão um pontapé no vício (a maior parte fá-lo, uma ou mais vezes, ao longo da vida) podem viver completamente felizes e, no entanto, são de novo agarrados por ele.

Toda esta história do vício de fumar é como vaguear num labirinto gigantesco. Assim que estamos dentro dele, as nossas mentes ficam como que enevoadas e obscurecidas e passamos o resto da vida a tentar fugir. Muitos de nós, por fim, conseguem-no, apenas para ir descobrir, uns tempos mais tarde, que ficámos de novo enjaulados!

Passei trinta e três anos tentando fugir daquele labirinto. Tal como todos os fumadores, não conseguia compreender por que é que me metera naquilo. Contudo, devido a um conjunto de circunstâncias incomuns, e sem que qualquer delas reflectisse mérito da minha arte, quis saber por que razão me era tão terrivelmente difícil abandonar o cigarro. E, quando finalmente o consegui, revelou-se uma empresa não só fácil, como até agradável.

Desde que deixei de fumar, o meu hobby e, posteriormente, a minha profissão têm tido como objectivo tentar resolver os muitos enigmas associados ao hábito de fumar. Posso compará-lo a um complexo e fascinante puzzle e, tal como o cubo de Rubik, quase impossível de solucionar. Contudo, e à semelhança de todos os puzzles, por mais complicados que sejam, se o conseguir resolver passa a ser tão fácil! Eu encontrei a solução para se conseguir deixar de fumar com facilidade. Conduzi-lo-ei para for a do labirinto e farei com que você nunca mais se sinta perdido e tenha de vaguear por ele. Tudo o que tem a fazer é seguir as instruções.Se virar pelo caminho errado, todas as outras indicações que lhe possa fornecer revelar-se-ão inúteis.

Deixe-me salientar que ninguém pode achar que deixar de fumar é uma tarefa fácil, mas primeiro temos de apresentar os factos tal como eles são. Não pense que me refiro a factos alarmantes e assustadores. Sei que já está consciente de que existem. Já há informação que chegue sobre os perigos que este vício acarreta. Se eles tivesse, o condão de o fazer deixar o cigarro, você a esta horas já não seria um fumador. Portanto, volto a perguntar: Por que motivo é que achamos que é tão difícil abandonar o vício? A fim de estarmos aptos a responder a esta questão, precisamos de saber qual a verdadeira razão de ainda estarmos apegados a ele.

→ 06/09/2007 @1:10

Textos de Allen Carr [2]

Segue-se novo excerto do livro «Parar de Fumar – O método mais fácil para todos». Os visitantes habituais já sabem a razão de ser desta série de posts. Aos outros, uma breve explicação: a leitura deste livro permitiu-me largar o vício do tabaco na maior das calmas, sem grandes ansiedades ou sensações semi-catastróficas de perda.

Fiquei tão impressionado com o papel positivo que o livrinho teve na minha vida que me dispus a copiar para aqui as partes mais importantes e susceptíveis de vos fazer uma lavagem ao cérebro – se forem fumadores compulsivos como eu fui e, claro, estiverem dispostos a abrir a mente.

Uma curiosidade: a frase Quando finalmente parei, foi como um passe de mágica transcrevi-a do livro com uma gralha: em vez de passe, escrevi passa… Um erro cómico, não trágico – é a diferença entre esta tentativa e as anteriores.

POR QUE RAZÃO É DIFÍCIL DEIXAR DE FUMAR?
Comecei a interessar-me por este assunto por causa do meu próprio vício. Quando finalmente parei, foi como um passe de mágica. Quando anteriormente tinha tentado parar, passei semanas da mais negra depressão. Teria havido excepcionalmente um dia ou outro em que me sentia relativamente bem mas, no dia seguinte, encontrava-me de novo mergulhado na depressão. Era como se, ao agarrarmo-nos desesperadamente ás paredes escorregadias de um fosso, nos convencêssemos de estar perto do cimo, vermos a luz do Sol e em seguida escorregarmos de novo por ele abaixo.

Quando, por fim, acabamos por acender o cigarro, encontramos-lhe um sabor horrível e perguntamos por que motivo somos obrigados a fumá-lo…

Uma das questões que coloco aos fumadores antes das minhas consultas é a seguinte: «Quer deixar de fumar?». É, de certo modo, uma pergunta estúpida. Todos os fumadores gostariam de deixar de fumar. Se perguntar ao fumador mais inveterado: «Se pudesse voltar atrás, aos momentos anteriores a ter sido agarrado pelo vício, e com os conhecimentos do assunto que tem hoje, teria começado a fumar?». «De maneira nenhuma», é a resposta. Ou então pergunte-lhe se encorajaria os filhos a fumar. «De modo algum», é a resposta.

Todos os fumadores têm a percepção de que algo de mau se apossou deles. De princípio, trata-se da questão de: «Vou deixar de fumar, não hoje mas amanhã». Chegamos por fim à fase em que achamos não ser dotados de suficiente força de vontade ou que existe no cigarro algo que se tem de ter de forma a poder desfrutar-se a vida.

Tudo o que se refere ao vício do fumo constitui um verdadeiro enigma. A única razão que nos ocorre para o ganhar é o facto de milhares de pessoas também fumarem. No entanto, cada uma delas desejaria, antes de mais, nunca ter começado, afirmando que é pura perda de tempo e de dinheiro. Não podemos verdadeiramente acreditar que não estão a gostar de o fazer. Associamo-lo ao facto de sermos adultos e de nos esforçarmos para ficarmos, nós próprios, agarrados a ele. Passamos então o resto das nossas vidas dizendo aos nossos filhos para o não fazerem, tentando desenvencilhar-nos nós mesmos do vício.

Passamos também o resto da vida gastando uma exorbitância com o fumo. [Nota minha: O fumador que fuma em média um LM Lights por dia gastará, nos próximos cinco anos, mais de cinco mil euros] Que fazemos com o dinheiro? (Se o deitássemos pelo cano abaixo não seria tão grave) Na realidade, usamos sistematicamente o fumo para congestionar os nossos pulmões com alcatrões cancerígenos, para entupir e envenenar progressivamente os nossos vasos sanguíneos. Cada vez privamos mais de oxigénio cada músculo e orgão do nosso corpo, e assim nos vamos tornando cada vez mais letárgicos. Condenamo-nos a uma existência de poluição, mau hálito, de dentes manchados, de roupas queimadas, de cinzeiros sujos e de cheiro desagradável a tabaco entranhado. É uma vida inteira de escravidão. Passamos metade das nossas vidas em situações que a sociedade nos proíbe fumar (igrejas, hospitais, escolas, metros, teatros) mas, quando estamos a tentar diminuir o tabaco ou a deixar de fumar, sentimo-nos privados por causa disso. O resto da nossa vida de fumadores é passada em situações em que nos permitem fumar mas quem nos dera que não o fizéssemos. Que espécie de hobby é este que, quando o praticamos, gostaríamos de não o estar a fazer e, quando não o praticamos, ansiamos por ele?

O fumador despreza-se cada vez que, inadvertidamente, lê um aviso sobre a saúde, lançado pelo governo, ou quando surge uma campanha de alarme em relação ao cancro, ou outra sobre mau hálito; de cada vez que fica congestionado ou tem uma dor no peito, sempre que é o único fumador ao pé de não-fumadores.

Sendo obrigado a viver com estas horríveis sombras negras como pano de fundo dos seus pensamentos, que proveito tira disso? Absolutamente nenhum! Prazer? Distracção? Diversão? Apoio? Ajuda? Tudo ilusões, a menos que você pretenda usar sapatos apertados para ter o gosto de os tirar – como se isso constituísse uma espécie de prazer!

O verdadeiro problema consiste em explicar não só porque motivo os fumadores acham difícil deixar de fumar, mas por que razão ninguém o faz.

Você estará provavelmente a dizer: «Está tudo muito bem. Eu sei isso, mas uma vez que ficamos agarrados a este tipo de coisas é muito difícil largá-las.» Mas por que é que é assim tão difícil e por que temos que fazê-lo? Os fumadores procuram durante toda a vida resposta para estas perguntas.

Alguns dizem que é por causa dos fortes sintomas de privação. Na realidade, os verdadeiros sintomas de privação da nicotina são tão leves que a maioria dos fumadores vive e morre sem mesmo se aperceber de que é dependente de drogas.

Algumas pessoas afirmam que os cigarros são muito agradáveis. Não são. São objectos nojentos e poluentes. Pergunte a um fumador que está convencido que fuma apenas porque aprecia um cigarro se, quando não arranja a marca que costuma fumar e só consegue arranjar uma que acha desagradável, ele deixa de fumar? Os fumadores prefeririam fumar uma corda velha do que não fumar. O gosto nada tem a ver com isso. Eu gosto de lagosta mas nunca cheguei ao ponto de ter que andar com vinte lagostas penduradas à volta do pescoço.

Algumas pessoas procuram profundas razões psicológicas, o síndrome de Freud», »a criança no seio da mãe». Na verdade, é precisamente o contrário. O motivo mais comum de começarmos a fumar é o de mostrar que somos adultos e maduros. Se tivéssemos que chuchar na chupeta quando estamos ao pé de outras pessoas, morreríamos de vergonha.

Outros pensam que é o oposto, o efeito machista de inalar fumo ou fogo pelas narinas abaixo. Este argumento cai também pela base. Um cigarro aceso dentro do ouvido seria considerado ridículo. E é, de longe, mais ridículo inalar alcatrões despoletadores de cancro para dentro dos pulmões.

Há ainda outros que dizem: «É para ter alguma coisa com que ocupar as mãos!» Então, porquê acendê-lo?

«É a sensação do fumo a entrar para os pulmões». Uma sensação horrível – chama-se sufocação.

Muitos estão convencidos de que o facto de fumar afasta o aborrecimento. Também este é um falso pretexto. O aborrecimento é um estado de espírito.

Durante os trinta e três anos que fumei o meu argumento era o de que o cigarro me relaxava, me dava segurança e coragem. Eu também sabia que ele me estava a matar e me custava uma fortuna. Por que não fui eu ao médico pedir-lhe que me desse algo alternativo para me descontrair e me dar coragem e confiança em mim mesmo? Não o fiz porque sabia perfeitamente que ele iria sugerir uma alternativa. Este não era o meu motivo; era a minha desculpa.
Há outros que afirmam que só fumam porque os amigos fumam. Você será assim tão estúpido? Se assim é, reze para que os seus amigos não comecem a cortar as cabeças para acabar com a enxaqueca!

A grande maioria dos fumadores que se debruça sobre este assunto chega por fim à conclusão de que é apenas um hábito. Esta não é verdadeiramente uma explicação mas, uma vez esgotadas todas as habituais interpretações racionais, parece ser a única desculpa que resta. Infelizmente, este argumento também é ilógico. Nós mudamos de hábitos todos os dias da nossa vida e alguns deles são até muito agradáveis. Os meus hábitos alimentares relacionam-se com os tempos em que fumava. Não tomo o pequeno-almoço nem almoço; só faço uma refeição por dia, à noite. No entanto, quando estou de férias, a minha refeição favorita é o pequeno-almoço. No dia em que regresso volto ao habitual sem o menor esforço.

Qual é a razão por que adoptamos um hábito que sabe pessimamente, que nos mata, que nos custa um dinheirão, que é imundo e nojento e com o qual desejaríamos ardentemente romper, quanto tudo o que temos de fazer é abandoná-lo? Por que é isso assim tão difícil? Não é nada difícil, é a resposta, mas, pelo contrário, ridiculamente fácil. Mal entenda os verdadeiros motivos que o levam a fumar, deixará de o fazer – assim mesmo, como lhe estou a dizer! – e, no máximo de três semanas, o único mistério que ainda não terá conseguido desvendar é o ter fumado durante tanto tempo!

→ 05/09/2007 @15:14

Textos de Allen Carr [1]

Ainda ontem colegas de profissão mais chegados – todos fumadores – começaram na brincadeira comigo. Deixei de fumar depois de ter lido um simples livro e, como é natural, sempre que alguém demonstra curiosidade em saber qual é a milagrosa mensagem que esse livro contém, tenho muito gosto em explicar.

Alguns sabem que eu fumava há mais de vinte anos e que, nos últimos tempos, já chegava aos dois maços por dia. Por isso não percebem muito bem quando verificam que continuo nas calmas mesmo em momentos de stress e, mais do que isso, sem vontade nenhuma de meter um cigarro na boca.

Mais uma vez, tenho muito gosto em explicar tudo! Em primeiro lugar, o livro nada tem de milagroso – a mensagem é dirigida à inteligência do leitor, não à sua crendice. Depois procuro dizer-lhes, em poucas palavras, porque razão levei uma lavagem ao cérebro tão grande a ponto de os cigarros deixarem de ter qualquer influência psicológica sobre mim. Como já me apanharam algumas vezes a dar umas explicações mais entusiasmadas, começaram a chamar-me «Pastor»

Dizem-me que o meu futuro será andar a bater de porta em porta com o tal livro debaixo do braço, como fazem as Testemunhas de Jeová. E eu respondo-lhes: «Cambada de idiotas, eu tenho um blogue. Não preciso disso. Posso melgar milhares de pessoas sem sequer sair do meu lugar.»

É este o espírito desta série de posts contendo alguns textos de Allen Carr, autor do tal livro «milagroso» que me deu a volta: «Parar de Fumar – O método mais fácil para todos», publicado originalmente em 1985 e um enorme sucesso ainda nos dias de hoje, como de resto os visitantes diários deste blogue já estão carecas de saber.

Não poderei, como é óbvio, copiar o livro todo para aqui. Mas acho que o senhor Allen Carr, que até morreu multimilionário à conta do seu fabuloso método e dos best-sellers que o explicam, não se importaria de ajudar mais um fumador a livrar-se da praga. Além disso, o livro está esgotado em todo o lado e não conheço nenhum plano de reedição por parte da Paz Editora. Sem mais considerações, eis o primeiro excerto. Seguir-se-ão outros. Mantenham-se atentos.

 

O MÉTODO FÁCIL
Quando começa a deixar de fumar, o fumador já sente a impressão de estar a trepar o Monte Evereste. Passa então as semanas seguintes a ansiar por um cigarro e invejando os outros fumadores.

O objectivo deste livro é conseguir que você adquira a abertura de espírito necessária para que, ao deixar de fumar, o faça com uma sensação de júbilo, como se tivesse ficado curado de uma doença terrível. Daí para diante, e à medida que o tempo for passando, cada vez que pensar nos cigarros sentir-se-á espantado por ter sido capaz de os fumar.

Desde o momento em que pretende ser um não-fumador ou um ex-fumador, é essencial que continue a fumar até que tenha lido o livro até ao fim. Isto poderá parecer uma contradição. Explicarei mais adiante que os cigarros não proporcionam qualquer tipo de ajuda. Na realidade, um dos muitos enigmas que o problema do tabagismo coloca é o de, ao fumar um cigarro, olharmos para ele e perguntarmo-nos a nós próprios por que razão o estamos a fazer.

Só quando nos vemos provados dele é que nos parece precioso.

Encaremos o facto de, quer queira quer não, você pensar que está agarrado ao vício. Enquanto estiver convencido de que isto é verdade, nunca poderá sentir-se totalmente descontraído ou com capacidade de concentração, a menos que esteja a fumar. Portanto, não tente deixar de fumar antes de ter acabado o livro. Como poderá adiante ler, o seu desejo de fumar irá diminuindo gradualmente. Não se lance para a frente sem estar completamente consciente e atento em relação a este assunto; seria um erro que poderia revelar-se fatal. Lembre-se que não tem mais do que seguir as instruções.

Basicamente, o meu método é a antítese do método normal de deixar de fumar. O método normal consiste em elaborar-se uma lista com todas as inumeráveis desvantagens do vício de fumar e depois dizer a si próprio: «Se eu conseguir estar bastante tempo sem um cigarro, o desejo de fumar por fim desaparecerá. Poderei então gozar de novo a vida, livre da escravidão dessa praga.»

É esta, realmente, a abordagem lógica do tema do tabagismo e, todos os dias, milhares de fumadores estão a deixar de fumar utilizando variantes deste método. No entanto, é muito difícil obter resultados positivos através dele, pelas razões que passo a enumerar:

1. Deixar de fumar não é o verdadeiro problema. Cada vez que põe de lado um cigarro, pára de fumar. Pode ter motivos poderosos que o levem a dizer consigo mesmo: «Não quero fumar mais» – todos os fumadores os têm, e se repetem em cada dia das suas vidas, e são mais fortes do que se possa imaginar. O verdadeiro problema faz-se sentir de dois em dois dias, de dez em dez, ou em cada dez mil, quando, num momento de fraqueza, num momento inebriante ou num momento marcante da sua vida, você fuma um cigarro e, porque, de certa maneira, está dependente de uma droga, você quer outro e, quando menos espera, está de novo viciado.2. As notícias alarmantes sobre a saúde deveriam fazer-nos parar. As nossas mentes racionais avisam-nos: «Pára já com isso. Não sejas doido.» Mas, na realidade, esse pavor torna tudo mais complicado. Fumamos, por exemplo, quando estamos mais nervosos. Vá dizer aos fumadores que isso os está a matar e a primeira coisa que desejarão fazer é acender um cigarro. [Nota minha: o poder do cigarro sobre nós existe porque nós temos «medo» de o perder. Na verdade, o cigarro «alimenta-se» desse medo] Há mais «beatas» de cigarros à entrada do Royal Marsden Hospital, o principal estabelecimento hospitalar do tratamento do cancro, do que em qualquer outro hospital do país.

3. Os motivos para se deixar de fumar fazem com que, na realidade, seja mais difícil conseguí-lo. Porquê? Em primeiro lugar, eles suscitam um sentimento de sacrifício. Somos forçados a desistir da nossa «companhia», «muleta», vício ou prazer, conforme a maneira como o fumador encara o cigarro. Segundo, formam como que uma «venda» que obscurece a visão. A verdadeira questão é esta: «Por que razão pretendemos ou necessitamos de deixar de fumar?»

O Método Fácil consiste basicamente nisto: começar por esquecer as razões por que gostaríamos de deixar de fumar, enfrentar o problema do cigarro e colocarmos a nós mesmos as seguintes questões:

1. O que é que o cigarro faz por mim?

2. Aprecio realmente o cigarro?

3. Tenho mesmo necessidade de seguir pela vida fora, pagando um preço taão elevado por enfiar essas coisas na boca e intoxicar-me com elas?Não pretendo afirmar que as desvantagens de se ser fumador excedem de longe as vantagens: todos estão perfeitamente cientes disto. O que quero dizer é que não há qualquer vantagem em fumar. A maior parte dos fumadores considera ser necessário racionalizar os motivos que os levam a fumar, mas eles não passam de meros logros e ilusões.

A primeira coisa que vamos fazer é remover essas falácias. Na verdade, você irá aperceber-se de que não vai ter de renunciar a nada. Não há nada para desistir, mas apenas benefícios maravilhosos a ganhar quando passar a ser um não-fumador, sendo a saúde e o dinheiro apenas dois deles. Uma vez perdida a ilusão que a vida nunca poderá ser agradável sem o cigarro, uma vez que se capacite que também aprecia a vida sem o cigarro, como esta até passará a ser infinitamente mais agradável, logo que a sensação de privação seja eliminada, então poderemos regressar aos aspectos da saúde e do dinheiro – e a dezenas de outras razões que existem para deixar de fumar. Essas percepções constituirão ajudas adicionais para realizar aquilo que verdadeiramente deseja – poder apreciar a vida, livre da escravidão dessa praga.

→ 24/08/2007 @17:59

Fuma-se enquanto se pensa em parar de fumar

Hoje acendi um cigarro e comecei a ler o famoso livro de Allen Carr: «Parar de Fumar – O método mais fácil para todos».
Allen Carr foi um fumador durante 33 anos – no auge do vício, sugava mais de 100 cigarros por dia – e acredita ter descoberto o método ideal para deixar de fumar. Esse método permitiu-lhe «libertar milhões de pessoas». Nenhuma destas pessoas era do Benfica, disso tenho a certeza.
Que diria Allan Carr se me visse a folhear o seu livro enquanto estou a fumar? Provavelmente – e talvez seja isso que o torna especial – incentivar-me-ia a continuar a dar as minhas passas pois, segundo ele, é inútil tentar deixar de fumar enquanto primeiro não compreendermos os mecanismos psicológicos – ele chama-lhe «lavagem ao cérebro» – que operam na mente do fumador.
Carr propõe-se desmistificar neste livro todas as «desculpas» a que os fumadores se agarram para justificar o vício: o cigarro acalma em situações de stress, o cigarro ajuda à concentração, o cigarro «sabe bem» depois do café e de uma refeição, entre outras. Tamanha é a confiança que coloca no sucesso desta cura que garante ser possível deixar de fumar sem as típicas sensações de angústia e nervoso miudinho que o fumador experimenta quando tenta largar o cigarro. Para que este milagre seja possível, o leitor deve seguir as instruções contidas no livro e não deve deixar de fumar enquanto o está a ler porque, em primeiro lugar, tem de compreender inteiramente o potencial escravizador do cigarro.
Ainda não cheguei à parte das instruções, mas Allan Carr tem o mérito de me fazer sentir compreendido e falar comigo de igual para igual. Tudo parte da nossa capacidade de compreender a condição humana do fumador, afirma ele. Não nos martiriza demasiado com longas dissertações sobre os riscos para a saúde porque isso, escreve ele, já estamos todos fartos de saber. Não propõe, sequer, a compra dessas horríveis pastilhas de nicotina que alguns médicos prescrevem. Na verdade, não aconselha qualquer tipo de substitutos. Tão-pouco tem um discurso em tom evangelista. É um homem racional e lúcido. E a chave para deixar de fumar, diz, está mais na nossa inteligência e capacidade de compreensão do que na capacidade de sofrimento ou de força de vontade.
Estou a adorar o livro – não sei se conseguirei deixar de fumar, mas pelo menos este é um daqueles livros em que a abordagem faz todo o sentido para mim. Carr não tem formação académica (foi fiscal de contas antes de se converter em guru do anti-tabagismo) e não trata os leitores como doentes, mas como companheiros de infortúnio. Primeiro procura convencer-nos da nossa condição de escravos do cigarro, espicaçando-nos o nosso orgulho; quando finalmente nos convence de que somos realmente escravos, promete-nos que a libertação será muito mais fácil do que pensamos.
Ainda vou no início do livro, mas terei muito gosto em continuar a escrever mais alguns posts sobre o assunto ou mesmo publicar excertos mais significativos.

P.S. – O blogue manter-se-á de férias até ao fim de Agosto. Só a partir de 1 de Setembro o ritmo de actualizações regressará ao normal.

→ 27/07/2007 @2:24

Recordações da Tropa

Quando vejo um tipo fardado na televisão lembro-me dos meus vinte anos, desperdiçados num sombrio quartel na Ajuda, em Belém, Lisboa, vivendo os dias entre camaratas cinzentas, suor, espingardas e merda de cavalo.
Sim, ainda sou do tempo em que o serviço militar era obrigatório. Por isso, vocês, os putos da geração SMS, nem sabem a sorte que têm.

Estive nos operacionais da Polícia do Exército (PE) – cuja principal missão era fiscalizar soldados (os feijões verdes) que se atrevessem a andar na rua sem licença de saída, desfraldados, com a barba por fazer ou, de uma forma geral, pouco polidos.

Patrulhávamos estações de comboio (Santa Apolónia, principalmente) com as mãos atrás das costas, caminhando devagar, devagarinho, cheios de cagança, armados de bastão e pistola, calcando o asfalto com as botas, que eram pretas, reluzentes e de atacadores brancos, os rostos escondidos sob enormes e desconfortáveis capacetes cor de giz, sempre à cata de vítimas – normalmente pobres desgraçados que suportavam oito, dez, doze horas de viagem em comboios velhos e sobre-lotados para dar um beijo à família e voltar logo a seguir para novo castigo de comboio e tropa.

Eu detestava aquela merda.

Se o chefe de patrulha fosse um nazi estávamos bem fodidos: tínhamos de patrulhar as ruas e fazer de bófia da soldadesca. Mas quando o chefe da patrulha era um bacano, não queria lixar ninguém e se estava a cagar para aquela merda, as nossas missões fiscalizadoras começavam e acabavam na minha casa, a beber uns copos, fumar uns charros, ouvir música, ver filmes – porque eu vivo no Estoril, perto do quartel, e dava para fazer isso.

Essa coisa do haxixe tem muito que se lhe diga. Aquele quartel era um paraíso para quem alinhava nas ganzas. O fumo nunca era provocado pela pólvora, era só pelos charros. Espingardas? Foda-se! Só se nos obrigassem. Não vigorava a máxima Make Love, Not War porque aquela merda era só gajos. E isso é que nos lixava. Mulheres, ali, só mesmo algumas cozinheiras – e todas com mais de 100 quilos em cada perna. Mas, acreditem, depois de quinze dias seguidos a viver rodeado de gajos mais peludos do que eu, cada cozinheira era uma Marisa Cruz em potência. Depois de 360 horas em completa reclusão sexual, até as maçanetas das portas nos faziam lembrar as maminhas da namorada. Claro que nunca vi ninguém ajoelhado aos beijinhos e apalpões às maçanetas – mas, se tivesse visto, não teria achado assim tão estranho: se calhar olhava para o lado, embaraçado por perturbar um momento tão íntimo.

Estou a gozar, claro, mas ali a malta charrava ou enlouquecia. Pior: podia até ficar a gostar daquela merda.

Aprendi alguma coisa na tropa? Com certeza! Por exemplo, estão a ver aquele estereótipo do oficial que tem a mania que é o maior mas que, na realidade, não passa de um grande imbecil? Pois ele existe. Era o comandante do meu batalhão, um capitão qualquer coisa – não me lembro do nome, da voz ou sequer da cara. A única coisa que recordo é um bigode – enorme, desproporcional e farfalhudo; como o senhor capitão era alto, magrinho e andava sempre todo direito, lembrava uma esfregona.

Uma vez ia-me lixando: o gajo estava a fazer uma daquelas inspecções solenes à camarata, eu estava com uma moca inacreditável, todo esticado para cima, em sentido, num silêncio enorme; olhava para ele e só me lembrava era da esfregona da minha avó. Comecei a imaginá-lo como se fosse realmente uma esfregona e ia acontecendo um desastre porque quase rebentava a rir.

Ele gostava de inspecções-surpresa. Desconfiava que os velhacos se andavam a drogar nas camaratas, vejam lá. Mas tinha tanta pontaria que, nas noites em que flutuávamos em fumo, nunca se lembrava de aparecer; quando estávamos todos limpinhos e arejados, irrompia pela camarata com um sorriso triunfante e dizia: «Então? Temos chocolati, é

Justiça lhe seja feita, o tipo era patético mas não era nenhum filho da puta. Estes não tinham graça nenhuma, mas ao menos ajudaram-me a crescer. O que me leva ao segundo ensinamento recebido na tropa, sintetizável numa simples frase: se queres conhecer alguém, dá-lhe poder.

Outra coisa interessante que descobri: os gajos do Norte são infinitamente mais porreiros que os gajos de Lisboa – pelo menos em certas e determinadas coisas que considero essenciais. Por exemplo: se estás à rasca para fumar e vais pedir um cigarro, um gajo do Norte estrilha logo: «Foda-se, caralho, mas que merda é esta? Eu não sustento vícios!» O tipo de Lisboa passa-te um cigarrito para a mão sem fazer grandes comentários – ou então, se não quiser dar, manda a tanga do costume, diz que é o último, que não tem mais nenhum.

Se o mesmo gajo do Norte que te recusou o tabaco chega carregado de comida caseira, trazida lá da terrinha, nem é preciso pedir-lhe nada: não fica descansado enquanto não nos vir satisfeitos, de barriga cheia. Se o gajo de Lisboa trouxer a comidinha feita pela mamã, refunde-se logo. Esconde-a. Não partilha. Come quase às escondidas.

Terceiro ensinamento: quando vamos à tropa estamos a servir o país? A minha experiência diz-me que não. Os soldados estão lá para servir oficiais inúteis e ociosos, incapazes de fazer a própria cama, e sargentos barrigudos e cristalizados no tempo. No máximo, servimos um Portugal com o qual não nos identificamos. Não admira, por isso, que uma das frases mais ditas na tropa seja esta: «Uns são filhos da mãe, outros são filhos da puta».

Talvez por concordar com a justiça desta observação, decidi que iria fazer o juramento de bandeira sem cantar o hino nacional. Não cantar o hino nacional no dia em que fui oficialmente incorporado na tropa deve ter sido dos actos mais patrióticos que fiz na vida. Bem, fiz pior que isso: às sete da manhã do grande dia, já fardado a rigor, ainda antes do pequeno-almoço, fumei um Bob Marley (espécie de charro-charuto) e fui para a parada a ver tudo em câmara-lenta. Foi o último charro que fumei na vida. Teve um valor simbólico.

Estava um calor terrível: foram horas debaixo de Sol, quietos, tentando não desmaiar, procurando um rosto amado na multidão dos civis, ouvindo discursos sem sentido. Um sargento – ou seja, um profissional do ofício de servir a Pátria – forçado pelo protocolo militar a suportar o mesmo martírio que os recrutas, só dizia, entredentes: “Mas que merda, mas que seca, anda um gajo a trabalhar que nem um cão para levar com esta merda”. Só o voltei a ouvir quando começou a cantar, cheio de fulgor patriótico, os primeiros versos de A Portuguesa:

«Heróis do mar, nobre povo, nação valente e imortal…»

A minha tropa foi uma comédia recheada de protagonistas que se levavam demasiado a sério.

 

Sem efeitos especiais

A recordação do único momento em que dei um grito de independência durante os meus tempos de tropa está associada a um certo senhor alferes, magnífico exemplar do ramo da Cavalaria lusitana.

Verdade seja dita, não dei um grito – foi antes um sussurro, mais pensado até do que falado, temperado com uma fuga fácil do quartel e um sonoro “quero que isto se foda tudo”, dito quando já me encontrava a alguns quilómetros de distância. Podia ter lixado a vida, mas tive uma sorte do caraças.

Não me lembro do nome do alferes em questão, mas recordo-me bem do estilo: improvável mistura entre uma bolinha bem falante tipo Eduardo Prado Coelho e a mentalidade guerreira das melhores criações artísticas de um Schwarzenegger.

O alferes não era um homem fisicamente violento. Ao pé dos cabos chicos que se pavoneavam na parada, passava facilmente por santo. Quando o rancho era regado a vinho Tinto, então, apresentava-se no quartel com um sorriso inchado que fazia lembrar o da Mona Lisa no quadro do Da Vinci. E até lhe ficava bem porque, digo-o sinceramente, era um tipo com alguma cultura.

Os cabos chicos, por outro lado, associavam a Mona Lisa ao acto de alisar a mona de um gajo quando este se portava mal – não era Mona Lisa que lhe chamavam, mas a belinha – uma chapada na testa, nada de especial, apenas o suficiente para obrigar o espírito libertário a regressar ao quartel.

O chico – ou cabo contratado – faz a tropa como o resto da malta mas com uma diferença: quando acaba o período obrigatório, resolve prolongar o contrato em vez de se despedir daquela merda e nunca mais olhar para trás. Portanto gosta mesmo daquilo – não da tropa em si, porque é preguiçoso e está-se nas tintas para os outros, mas da possibilidade que esta lhe dá de decidir, no imediato, o destino de meia-dúzia de desgraçados indefesos.
O primeiro contacto que tive com um chico deveu-se a uma mera divergência de carácter antropológico, logo no primeiro dia de tropa.

O cabo era corpulento e tinha uma pronúncia cerrada do Norte, talvez fosse de Viseu, não sei, talvez fosse pastor de ovelhas na vida civil; talvez a única experiência de lidar com aglomerados de seres vivos tivesse sido adquirida nos anos em que comandou rebanhos de ovelhas e agora, que estava na tropa, sentia-se em casa por poder fazer o mesmo e a ganhar mais dinheiro. Não interessa.

O que me fez impressão foi a total ausência de expressão nos olhos. Porra, já tinha visto pedregulhos mais expressivos. Pedregulhos? Até as próprias ovelhas, que só as vi ainda no National Geographic, tinham um ar mais animado.

Isso fez-me uma confusão do caraças. E quando ele topou que estava a observá-lo e se dirigiu a mim que nem um lobo, fiquei logo acagaçado. «Tá a olhar pra mim porquê, caralho?»

Era uma pergunta retórica. Desviei o olhar, com medo, a coisa passou, mas já sabia que tinha sido fisgado.

Foi então que o chico, para passar o tempo enquanto não recebia ordens, quis saber de onde vinham os maçaricos. «Sou do Estoril», disse eu quando chegou a minha vez – e afirmei-o com uma pontinha de arrogância. Digamos que a arrogância é a minha forma de contra-atacar a prepotência. Foi o suficiente para levar um murro na peitaça e recuar cinco passos com o impacto: «Do Estoril?” – Repetiu ele. – “Essa merda é só betinhos e surfistas – aqui tás fooooodido!»

Pensei em dizer-lhe que não, ora essa, por favor, morava numa espécie de aldeia gaulesa – rodeada de betinhos e surfistas, sim, mas resistindo sempre e sempre ao invasor. Mas achei melhor ficar calado não fosse ele pensar que «estes romanos são doidos» e dar-me outra vez com um menir nos cornos.

O alferes, como digo, vinha de uma colheita mais fina. Lembro-me, por exemplo, que quando um sargento aproveitava a boleia de um jipe da Polícia do Exército (PE) para visitar uma amiguinha prostituta, usava a expressão: «Vou ali mandar uma queca naquela gaja», gozando depois a expressão de aprovação dos soldados. Este alferes preferia dizer: «Vou ali beijar uns lábios femininos», não notando, sequer, os olhares incrédulos da plebe fardada.

Não eram apenas expressões destas que o tornavam um militar excêntrico. Por exemplo, adorava a palavra «dialéctica». Estava a sempre a usá-la, e nas circunstâncias mais improváveis. Ele só não misturava dialéctica na sopa porque era impossível.

O tipo era tramado. Até quando humilhava os recrutas fazia questão de actuar com estilo. Pensam que levantava a mão contra alguém? Népia. Aproximava-se de um desgraçado qualquer perfilado na parada – um dos muitos putos impecáveis que trabalhavam desde os 14 anos e nunca tinham tido dinheiro para estudar -, avaliava-o cuidadosamente e disparava: «Você é homossexual?»

Devo dizer que há tipos que quando ouvem a palavra «homossexual» reagem como se tivessem pegado por engano numa panela a ferver: dão um pulo para trás e gritam: «Foda-se, não!»

É pior se estás na tropa e desconheces o significado da palavra. Ficas cheio de medo, não sabes o que responder, não queres dizer asneira, depois dizes que sim, resignado, e tornas-te o objecto do sadismo cultural daquele alferes.

Depois de gozar o prato humilhando o suposto homossexual, o alferes escolhia nova vítima e, de voz grave, os olhos brilhando de satisfação pelo que se passaria a seguir, perguntava: «E você, é heterossexual?»

Claro que este rapaz também não conhecia palavras de 25 tostões. Revendo mentalmente a terrível experiência do colega de pelotão, desconfiando de nova armadilha, respondia com a maior convicção possível: «Não, meu alferes!»

Eram assim os dias de pasmaceira sádica do alferes. Mas na noite em que nos interrompeu o primeiro sono para nos atribuir a missão mais improvável do mundo, já eu era um operacional da PE, apresentou-se um bocadinho cansado e desalinhado.

O briefing do alferes consistiu em informar-nos de que uma manifestação de ecologistas tinha sido marcada para a manhã seguinte no campo de tiro de Alcochete. Os ecologistas protestavam contra o aumento do campo, afirmando que iria provocar uma catástrofe ambiental em pequena escala. Nós receberíamos bastões da Polícia de Intervenção – daqueles que, quando batem no ombro do manifestante, se dobram e atingem simultaneamente as costelas para doer ainda mais.

A nossa missão: malhar em quem passasse das marcas e tentasse invadir propriedade do Estado.

Fiquei sem saber o que dizer – uma reacção perfeitamente natural quando se está na tropa.

Das duas uma: podia fazer um discurso – pedia a palavra e explicava ao senhor alferes e a todos os demais filhos da puta militaristas que estivessem a ouvir, que urgentes razões filosóficas e culturais me impediam de levantar o bastão contra pessoas com quem me sentia totalmente identificado, de maneira que o senhor alferes fosse levar no cu porque eu não ia a lado nenhum; ou então guardava esse discurso para mim.

Resolvi ficar caladinho no meu canto.

Duvido que o pessoal tenha dormido alguma coisa nessa noite. Mas eu encontrei uma saída – ou, pelo menos, uma forma de respirar ar puro. Notei, para minha surpresa, que me tinha esquecido em casa da chamada farda nº3 (que iria ser usada na missão) e dirigi-me ao posto de controlo do quartel, que tinha entrado em alerta Delta e se encontrava trancado.

O sargento que lá estava de serviço era porreiro e, melhor do que isso, já sabia muito bem o cabeça no ar que eu sou. Ouviu o meu problema sentado na sua cadeira de psiquiatra benevolente, achou a história verosímil, eu reforcei, disse-lhe que morava perto, Estoril, está a ver meu sargento, é só apanhar o comboio, sacar a farda, voltar, duas horas no máximo, porque senão estou tramado – e ele lá me deu ordem de soltura.

Quando cheguei à rua, à medida que me ia afastando do quartel, pensei: «Isto que se foda. Vou baldar-me. Amanhã volto para o quartel como se não fosse nada comigo; chego depois da hora marcada para a partida em direcção a Alcochete, portanto chego atrasado, mas invento uma desculpa qualquer e ainda me safo só com cinco dias de detenção.»

Quando cheguei, nervoso, a transpirar de medo, descobri que os jipes continuavam todos alinhados na parada e que ninguém tinha partido. Subi para a camarata, ofegante, desesperado, pensando que o meu expediente não resultara e que ia mesmo para Alcochete malhar nos bons da fita. Foi então que os meus camaradas de pelotão, louvados sejam, me deram a boa nova: «A manifestação foi desconvocada, pá, e a missão ficou sem efeito!»

Na tropa há dois tipos de crimes: os que compensam e os que ficam sem efeito.