Do andar de baixo
Publicado por Marco Santos [4/Julho] | Categoria: Pessoal | 6 comentários »
De dia, fora do seu elemento, a minha vizinha do andar de baixo caminha pelas ruas cabisbaixa – faz lembrar um ponto de interrogação. À noite, depois de uns copos, arrebita: se está bem-disposta canta o fado e berra animadamente até às tantas da manhã; se o vinho azeda no percurso entre o estômago, o coração e o cérebro, discute com o namorado até às tantas. Nesses momentos os dedos devem transformar-se em pontos de exclamação.
A sua linguagem é a do Quim Barreiros. Bem, se calhar estou a ser demasiado benevolente porque acredito que o próprio se sentiria embaraçado por ouvir tantas ordinarices fora do contexto festivo do humor brejeiro.
Tornou-se rotina estar na sala a trabalhar ou a blogar e ser interrompido com os inúmeros insultos que lança ao namorado. De filho da puta para cima. Esses até nem são os piores ataques: de vez em quando as frases insultuosas dirigem-se para baixo e fixam-se na zona da braguilha.
A primeira vez que a ouvi questionar a virilidade do companheiro temi que acontecesse uma tragédia. Ferido de morte no seu orgulho, o homem responderia com violência. Cheguei a pensar em chamar a polícia. Engano meu. Ele nunca responde. Não reage. Talvez sinta que o seu silêncio gelado é uma forma de agressão mais violenta do que um grito ou uma bofetada.
Então o que passei a ouvir naquela torrente de insultos e injúrias deixou de ser anedótico: é a voz da mais terrível das solidões. Não é nada divertido, acreditem. As ofensas são declarações de amor que desabam sobre o outro como uma tempestade tropical e se evaporam sem lhe chegar a tocar. Em cada palavrão está subjacente uma única súplica: dá-me atenção. Qualquer tipo de atenção. Talvez ela chegue a pensar que um berro ou uma bofetada a fará sentir-se melhor. Mais mulher. Todas as noites luta pela sua sobrevivência emocional.
Ocasionalmente o triste homem dispõe-se a cumprir as suas obrigações. Oiço-a reagindo com o mesmo espalhafato. Até há pouco tempo não conseguia perceber se estavam a discutir ou a fazer amor. Os seus gritos são semelhantes.
Uma certa noite – eram quatro da manhã – ela já tinha bebido demasiado, mesmo para os seus padrões. Começou a discussão do costume.
Insultou-o vezes em conta e, cheia de raiva, levantou-se com a intenção, imaginei eu, de lhe bater. Em vez disso desequilibrou-se e caiu no chão com um grande estrondo. Então ouvi-a chorar porque magoara uma perna. Chorava como uma criancinha. Só lhe faltou dizer que tinha um dói-dói.
Pela primeira vez desde que nos mudámos para este apartamento ouvi aquele tipo a gritar. Parecia chateado por ser obrigado a lidar directamente com a fragilidade dela. Não sabia o que fazer e só conseguia berrar-lhe: «Acalma-te! Acalma-te!» Resolveu o assunto arrastando-a para a cama e esperando que o vinho tratasse do resto.
E assim, quase todas as noites, oiço a história de um homem e de uma mulher: duas pessoas inseparáveis que nunca souberam o que fazer um com o outro – excepto despedaçar-se.




























