Sabem aquela cena típica dos filmes americanos, quando o tipo é expulso de um bar a pontapé pelos seguranças e cai desamparado num monte de lixo de uma viela escura? É assim que uma pessoa se sente quando é despedida.
Nesta analogia, os seguranças são agentes económicos ao serviço do dono do bar, os pontapés são decisões estratégicas que conduzem a novos modelos de negócio e o lixo pode ser representado por uma enorme pilha de jornais usados e inúteis.
Como o jornal 24horas fechou e dezenas de trabalhadores foram parar ao olho da rua, eu incluído, todas as pessoas sensatas dizem que devo escrever um currículo e distribuí-lo pelas redacções com persistência e sem desanimar, como aqueles tipos que entopem as caixas de correio com folhetos publicitários.
Quando o escrever, será o currículo mais amador possível. Talvez possa escrever curriculum a ver se o Latim me safa, mas não tenho muita esperança.
O problema é nunca ter precisado de escrever um. Quando terminei o curso de Jornalismo do Cenjor fui pedir trabalho ao extinto Tal & Qual porque, no princípio da década de 90, o semanário era considerado «uma ganda escola de Jornalismo». Usava-se sempre essa corruptela, «ganda», independentemente da educação e cultura de cada um dos interlocutores, pelo que fiquei impressionado.
Uma «ganda» escola não é o mesmo que uma «grande» escola. A Escola Salesiana que frequentei até ao sétimo ano de escolaridade, por exemplo, era «grande» em superfície, mas não era lá «ganda» coisa em pedagogia.
Ninguém me pediu currículo. Recebeu-me o José Rocha Vieira, então director do Tal & Qual. Com uns modos bruscos, semelhantes aos daquele editor dos filmes do Homem Aranha, perguntou-me o que raio estava eu ali a fazer e vamos lá, vamos lá, eu que me despachasse a contar a história da minha vida.
«Quero ser jornalista», resumi.
«Ai, queres? E qual é a tua experiência?»
«Bem, trabalhei com o André Neves…»
O André Neves era um editor de jornais e revistas sensacionalistas, famoso por ter publicado uns screens manhosos de uns vídeos porno do arquitecto Tomás Taveira. Enquanto o senhor arquitecto fazia as suas penetrações, o André Neves lançava às pressas uma revista – Semana Ilustrada – para publicar o escândalo e penetrar, com o mesmo vigor, entre as nádegas do mercado.
Do ponto de vista jornalístico, porém, a Semana Ilustrada acabou por sofrer de ejaculação precoce. Três ou quatro semanas depois, desapareceria no mesmo vácuo onde fora criada.
Estes vídeos acabaram por entrar nos anais da história da parvalheira jornalística, pelo que o Rocha Vieira se pôs de imediato a sorrir com metade da boca: “Queres ser jornalista e trabalhaste com o André Neves? E que mais, também acreditas em contos de fadas?” Fiquei sem saber o que responder, situação que haveria de se repetir sempre que me calhou receber os densos monólogos do chefe.
Apesar da brusquidão desconcertante, era um tipo sensível e com espinha dorsal. Poderia, com educação, ter-me mandado à merda – o mercado não o levaria a mal, como demonstram os recentes acontecimentos na Controlinveste; em vez disso, puxou-me com impaciência pelo braço, arrastando-me para fora do gabinete, conduziu-me por um corredor repleto de prateleiras e prateleiras de manchetes desocupadas, fez-me entrar na redacção e disse, em voz muito alta, ao editor: «Olha, este é o…» Virou-se para mim, confuso:
«Como é que te chamas, pá?»
«Marco Santos.»
«Este é o Marcos e vai ficar aqui à experiência».
Não fixava nomes e também não me parece que fosse especialmente dotado em fazer contas de somar, mas pertencia a uma geração para quem o jornalismo devia ser feito por pessoas e, como tal, tinha aquele hábito peculiar de apostar nelas. Um excêntrico, vejam lá a minha sorte.
E foi assim que consegui o meu primeiro emprego – sem currículo. Trabalhei sempre sem currículo.
Estou mesmo a ver que não vou conseguir escrever uma merda decente tão cedo.