30/Agosto/2010

Isto não é um post

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Colírio blogosférico

Sabiam que o interesse sexual é potenciado pela dopamina, uma hormona dos neurónios produzida pelo hipotálamo e que provoca a libertação de testosterona? Eu sei, o Bitaites acabou de potenciar a vossa cultura geral e vocês estão muito gratos.

Aliás, é devido à dopamina que cerca de 99 por cento dos homens ainda não conseguiu ler este post. Isto nem é um post, é colírio blogosférico, uma forma fácil de dilatar-vos as pupilas.

Por outro lado, os visitantes do sexo feminino poderão considerar, como fez o escritor Guy de Maupassant, que o rabo das mulheres é tão monótono como o espírito dos homens.

Que seja então o colírio blogosférico: o Bitaites está de volta.

Há um mês que não mexia no computador durante mais de um minuto – o tempo suficiente para ver se o blogue continuava de pé e pouco mais. Tenho toneladas de emails para rever, mas sinto-me revigorado e pronto a continuar o que, para mim, sempre foi um trabalho feito com gosto: escrever e manter este blogue.

Nada na minha vida se alterou: continuo desempregado, mas depois destes dias de reclusão sinto-me finalmente preparado para não escrever uma linha sobre o assunto.

Publicado por Marco Santos | Categoria: Pessoal | 39 comentários »
8/Julho/2010

Como fazer o download das rádios

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O João perguntou na caixa de comentários como se fazia o download desta «maravilhosa» playlist. A  palavra «maravilhosa» despertou os meus instintos mais generosos, pelo que reuni forças para elaborar um post bastante exaustivo sobre o assunto. Dado que já não é a primeira vez que me fazem esta pergunta, juntei o útil ao maravilhoso.

A todos os interessados pela boa música, eis um guia ilustrado e definitivo sobre o assunto. Foi difícil, fartei-me de suar, fiquei com calos nos dedos, mas aqui está. Aproveitem, geeks, que eu não duro sempre!


Maravilhoso guia

1. Carregar onde diz «Continuar a ler» (é um link para o post completo).


Maravilhoso guia

2. Carregar no botão Play. A rádio começa a tocar e, à direita, surge o link para descarregar a emissão.


Maravilhoso guia

3. É recomendável fazer o download do ficheiro .cue associado («Salvar como…») e usar um player com a categoria de um Foobar2000, conforme fiz notar neste post.

Publicado por Marco Santos | Categoria: Coisas do blogue | 1 comentário »
29/Junho/2010

Esboço de um currículo

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Sabem aquela cena típica dos filmes americanos, quando o tipo é expulso de um bar a pontapé pelos seguranças e cai desamparado num monte de lixo de uma viela escura? É assim que uma pessoa se sente quando é despedida.

Nesta analogia, os seguranças são agentes económicos ao serviço do dono do bar, os pontapés são decisões estratégicas que conduzem a novos modelos de negócio e o lixo pode ser representado por uma enorme pilha de jornais usados e inúteis.

Como o jornal 24horas fechou e dezenas de trabalhadores foram parar ao olho da rua, eu incluído, todas as pessoas sensatas dizem que devo escrever um currículo e distribuí-lo pelas redacções com persistência e sem desanimar, como aqueles tipos que entopem as caixas de correio com folhetos publicitários.

Quando o escrever, será o currículo mais amador possível. Talvez possa escrever curriculum a ver se o Latim me safa, mas não tenho muita esperança.

O problema é nunca ter precisado de escrever um. Quando terminei o curso de Jornalismo do Cenjor fui pedir trabalho ao extinto Tal & Qual porque, no princípio da década de 90, o semanário era considerado «uma ganda escola de Jornalismo». Usava-se sempre essa corruptela, «ganda», independentemente da educação e cultura de cada um dos interlocutores, pelo que fiquei impressionado.

Uma «ganda» escola não é o mesmo que uma «grande» escola. A Escola Salesiana que frequentei até ao sétimo ano de escolaridade, por exemplo, era «grande» em superfície, mas não era lá «ganda» coisa em pedagogia.

Ninguém me pediu currículo. Recebeu-me o José Rocha Vieira, então director do Tal & Qual. Com uns modos bruscos, semelhantes aos daquele editor dos filmes do Homem Aranha, perguntou-me o que raio estava eu ali a fazer e vamos lá, vamos lá, eu que me despachasse a contar a história da minha vida.

«Quero ser jornalista», resumi.

«Ai, queres? E qual é a tua experiência?»

«Bem, trabalhei com o André Neves…»

O André Neves era um editor de jornais e revistas sensacionalistas, famoso por ter publicado uns screens manhosos de uns vídeos porno do arquitecto Tomás Taveira. Enquanto o senhor arquitecto fazia as suas penetrações, o André Neves lançava às pressas uma revista – Semana Ilustrada – para publicar o escândalo e penetrar, com o mesmo vigor, entre as nádegas do mercado.

Do ponto de vista jornalístico, porém, a Semana Ilustrada acabou por sofrer de ejaculação precoce. Três ou quatro semanas depois, desapareceria no mesmo vácuo onde fora criada.

Estes vídeos acabaram por entrar nos anais da história da parvalheira jornalística, pelo que o Rocha Vieira se pôs de imediato a sorrir com metade da boca: “Queres ser jornalista e trabalhaste com o André Neves? E que mais, também acreditas em contos de fadas?” Fiquei sem saber o que responder, situação que haveria de se repetir sempre que me calhou receber os densos monólogos do chefe.

Apesar da brusquidão desconcertante, era um tipo sensível e com espinha dorsal. Poderia, com educação, ter-me mandado à merda – o mercado não o levaria a mal, como demonstram os recentes acontecimentos na Controlinveste; em vez disso, puxou-me com impaciência pelo braço, arrastando-me para fora do gabinete, conduziu-me por um corredor repleto de prateleiras e prateleiras de manchetes desocupadas, fez-me entrar na redacção e disse, em voz muito alta, ao editor: «Olha, este é o…» Virou-se para mim, confuso:

«Como é que te chamas, pá?»

«Marco Santos.»

«Este é o Marcos e vai ficar aqui à experiência».

Não fixava nomes e também não me parece que fosse especialmente dotado em fazer contas de somar, mas pertencia a uma geração para quem o jornalismo devia ser feito por pessoas e, como tal, tinha aquele hábito peculiar de apostar nelas. Um excêntrico, vejam lá a minha sorte.

E foi assim que consegui o meu primeiro emprego – sem currículo. Trabalhei sempre sem currículo.

Estou mesmo a ver que não vou conseguir escrever uma merda decente tão cedo.

Publicado por Marco Santos | Categoria: Pessoal | 86 comentários »
3/Junho/2010

Pausa.

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Bem, vou tirar umas férias do blogue. Há mais de cinco anos que o mantenho e raros são os dias em que não estou preocupado em actualizá-lo. Quando o comecei, a minha filha ainda gostava de Rihanna e o meu filho andava a pedir-me uma pátatation2. É muito tempo.

Notem que não me estou a queixar – quem corre por gosto não se cansa, não é? – mas estou mesmo a precisar de voltar a encher o balão, que tem andado meio vazio. Dois, três, quatro dias de pausa – logo se verá.

Só as rádios continuam a ser actualizadas. Vou descansar!

Publicado por Marco Santos | Categoria: Coisas do blogue | 21 comentários »
3/Junho/2010

João (1943-2010)

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A notícia: o escritor e jornalista João Aguiar, de 66 anos, morreu hoje, em Lisboa, vítima de cancro.

João Aguiar, nascido a 28 de Outubro de 1943, em Moçambique, escreveu mais de duas dezenas de romances e criou duas séries de televisão destinadas ao público mais jovem – Sebastião e os Mundos Secretos e o Bando dos Quatro, no qual ele próprio figura na personagem do Tio João. ()


João Aguiar

Os blogues assentam numa base de dados que nos apresenta o conteúdo como uma viagem ao passado daquele que lê, escreve e observa, post após post, tema após tema, dia após dia, ao sabor da inspiração, do momento, da Lua ou da falta dela.

Tentar escrever sobre o desaparecimento de uma das melhores pessoas que já conheci no Jornalismo deixa-me envergonhado, sem saber como inserir este post, porque essa morte apanhou-me a meio de uma dessas viagens inconsequentes.

Parar a máquina. Stop. Respirar. É preciso que um blogger não se transforme em empregado de balcão, servindo posts aos clientes como quem serve imperiais. É preciso criar momentos de silêncio.

É neste silêncio que nos reencontramos, João, quando as memórias se misturam com o respeito. Aos 19 anos, eu era um jornalista recém-chegado ao jornal, com tudo para aprender; tu, olhar sábio, sorriso irónico, jornalista, escritor, cavalheiro, tinhas a função de corrigir erros e gralhas, um revisor, como se diz.

Nada te parecia afectar, pois vivias ao teu próprio ritmo, ignorando a azáfama histriónica do jornalismo e dos jornalistas. Naquela redacção, eras Buda.

Buda chamava-me com uma voz calorosa e suave, anda cá, Marco. Mostrava-me as correcções que estava a fazer aos meus textos e por que razão as fazia. Desmistificou a excessiva substantivação do discurso jornalístico. Ensinou-me a não temer os adjectivos. Mostrou-me que não se escreve apenas com as mãos, também se escreve com o peito.

A pessoa mais gentil que conheci até hoje.

E enquanto o mundo, cada mais frenético e computadorizado, nos dizia que devíamos correr, correr, correr, como no profético Dark Side of the Moon dos Pink Floyd, Buda ensinou-me a parar, observar a paisagem e respirar fundo. Obrigado, Buda, por formares pessoas com um sorriso.

Publicado por Marco Santos | Categoria: Pessoal | 5 comentários »
1/Junho/2010

Questões de privacidade

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Uma fotografia tirada pelo jornalista da SIC Nuno Luz já corre no Twitter, em breve chegará ao Facebook – enfim, a todo o lado. Três pré-adolescentes no estágio da selecção nacional mostram um cartaz que diz Cristiano, sê o meu Lobo Mau… Vê-me, ouve-me e come-me. Um dia destes o pai ou a mãe de uma destas raparigas reconhecerá o rosto da própria filha e, se tiver azar, os comentários que vai gerar.

O jornalista deu-lhe um título humorístico: «Anda um pai a criar uma filha para isto». É um lado da questão, mas não é o único: é preciso também criá-los para que não publiquem este tipo de fotos sem pensar um bocadinho primeiro nas consequências.

Elas são jovens, demasiado jovens. Essa do lobo mau não é uma mensagem que deva ser levada demasiado a sério – com aquela idade, ser ousada é uma forma de afirmação e independência, a expressão de uma feminilidade emergente mas ainda imatura.

O problema é vivermos num mundo ligado em rede, onde o melhor e o pior deste mundo se encontra à distância de meia-dúzia de cliques. Uma brincadeira inócua e um bocado pateta com um jogador de futebol é fotografada, publicada na Net e vista por milhares de pessoas com milhares de interpretações diferentes e, às vezes, muito pouco bondosas.

Este exemplo destas raparigas é comparativamente benigno e nem sequer tem assim tanta importância perante outros casos muito mais graves, mas toca-me por uma questão de princípio e porque sou pai.

Em relação à presença dos miúdos na Net, a nossa principal preocupação tem sido ensinar que a fronteira entre o que se passa no nosso quarto e o que pode ser visto numa página da Web está cada vez mais esbatida. Por vezes, nem sequer existe. Que a privacidade, tal como a confiança, é um bem precioso; que a verdadeira independência está em encontrar o equilíbrio perfeito entre o nosso direito à livre expressão e a necessidade de nos preservarmos; que a discussão sobre privacidade não pode focar-se apenas no Facebook, porque defendê-la ou atacá-la é uma decisão formada em primeiro lugar na nossa cabeça.

Publicado por Marco Santos | Categoria: Pessoal | 30 comentários »
25/Abril/2010

O soldado que ajudou a mudar um país

Salgueiro Maia fotografado por António Cunha

Salgueiro Maia fotografado por António Cunha


Estou a trabalhar num edifício junto ao Marquês de Pombal, num quinto andar. Chega até aqui o som de «Grândola Vila Morena», do grande Zeca Afonso, usada como senha para o início da Revolução dos Cravos. A televisão ao meu lado, ligada como sempre, repete pela vigésima vez excertos do discurso de Cavaco Silva na Assembleia, a propósito desta data. Cavaco e 25 de Abril? É como misturar queijo e marmelada: os sabores não se anulam, mas juntos têm um sabor esquisito.

Arrepio-me até à raiz dos cabelos ao rever imagens e filmes do 25 de Abril. É emocionalmente demolidor a forma como os militares e o Povo conseguiram derrubar uma ditadura sem uma guerra civil. Foi uma revolução bela, um período da nossa História que me fará sentir orgulhoso da nacionalidade que tenho, não obstante o país.

Ao ouvir estes discursos de Cavaco na Assembleia, mantenho a esperança de que a política e os políticos que se seguiram à Revolução não tenham conseguido aniquilar, nos espíritos das novas gerações – pessoas que já nasceram num país desamordaçado -, a absoluta e inimitável preciosidade deste acontecimento.

E gostava, já agora, que em vez de discursos solenemente chatos, se prestasse um tributo à vida de um homem que simboliza este orgulho. Salgueiro Maia era um capitão, um soldado português. A 25 de Abril de 1974, à frente de 240 homens e com dez carros de combate da Escola Prática de Cavalaria, avançou sobre Lisboa. Ocupou então o Terreiro do Paço, forçando ministros e secretários de Estado de uma ditadura caquéctica e repressiva a fugir pelas traseiras. O Quartel do Carmo foi cercado, Marcello Caetano rendeu-se, demitiu-se e passou o resto dos seus dias exilado no Brasil.

Salgueiro Maia chegou a tenente-coronel, mas recusou sempre cargos de poder. Morreu a 4 de Abril de 1992, vítima de um cancro. Era um idealista: não mudou o mundo, mas ajudou a mudar um país. E manteve-se igual a si próprio até ao fim da vida.

O filme de Maria de Medeiros, Capitães de Abril, realizado em 2000, mostra-nos, nesta cena crucial, como a coragem e a determinação de um punhado de homens, chefiados por Salgueiro Maia, evitou uma luta sangrenta e mortífera. Ali nasceram os cravos que os políticos usam hoje nos fatinhos, mesmo ao lado das gravatas.

Adenda: o homem que não disparou sobre Salgueiro Maia

Publicado por Marco Santos | Categoria: Pessoal | 19 comentários »
8/Abril/2010

Eu e a minha carteira somos inseparáveis

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Não sei se já contei aqui esta história – é provável que esteja a ficar senil e comece a repetir-me. Bem, cá vai: eu sou o gajo mais cabeça no ar que existe mas, ao mesmo tempo, sou o mais sortudo. Já perdi a minha carteira três vezes.

Na primeira vez que a perdi, foi encontrada por um polícia que morava perto e se encontrava de folga. Telefonou-me, combinámos um encontro num café e devolveu-me a carteira, intacta.

Na segunda vez que a perdi, foi encontrada por um guarda-nocturno que costuma fazer a ronda pela minha zona. O homem foi tão simpático que nem telefonou, bateu-me à porta e entregou-me a carteira, intacta.

À terceira estava em Lisboa. Recebi um telefonema. Do outro lado da linha, um senhor de idade com uma voz muito firme e digna quis saber se eu era realmente o dono da carteira que descobrira no meio da rua. O quê?, pensei eu, alarmado. A minha carteira? Remexi os bolsos e estavam vazios. Sim, aquele senhor encontrara a minha carteira antes de eu ter dado por falta dela.

Aguardo com ansiedade o que acontecerá se a perder pela quarta vez, mas estou confiante no inquebrável elo entre mim e a carteira, pois é preguiçosa e não gosta de carregar muito peso – eu sou o tipo ideal para ela. Só lhe dou trabalho ao princípio do mês, depois torna-se tão leve como aquelas ginastas que a gente vê a fazer piruetas durante os Jogos Olímpicos.

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1/Abril/2010

Quanto às rádios (e mais umas coisas)

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Farei talvez mais umas duas ou três destas emissões de rádio e depois… Pausa! Quando chegar à décima, terão à disposição mais de 12 horas de música para ouvir, se quiserem. Com mais duas chegarei às 14 horas nas calmas. É muita música.

Nem devia chamar-lhe rádio – mixtape, cassete ou jukebox seriam nomes mais apropriados, pois não existe rádio sem locução e estas emissões são apenas música e passagens. Seja como for, eis o melhor da Internet: dá-nos a possibilidade de fazer pequenas coisas de que gostamos, e pessoas interessadas em acompanhá-las – por isso, dos bloggers anónimos aos músicos que mostram a sua arte sem precisar de mendigar a atenção das editoras, eis um mundo baseado na independência e partilha que ninguém conseguirá alguma vez destruir.

Cada vez mais se fala do fenómeno das redes sociais nos media – a adesão é grande, mas as maravilhas deste meio não podem ser reduzidas a encontros virtuais de amigos, aos Farmville, aos grupos de ocasião, às causas instantâneas, às tertúlias e desgarradas do Twitter, por mais úteis e engraçadas e viciantes que possam ser.

Os melhores exemplos de riqueza na Internet encontro-os nos blogues – o meio ideal para nos expressarmos livremente sem intermediários, o nosso jornal de parede, o bloco de notas, o diário, o álbum de fotografias, o que quisermos. Sempre que se fala na morte dos blogues por causa do Facebook ou do Twitter fico com vontade de rir, pois no dia em que a blogosfera morrer haverá muita gente a escrever um post sobre o assunto.

Publicado por Marco Santos | Categoria: Coisas do blogue | 10 comentários »