Do andar de baixo

Publicado por Marco Santos [4/Julho] | Categoria: Pessoal | 6 comentários »

Relacionado (ou não): Guerra dos Sexos [20/Abril/2005]
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De dia, fora do seu elemento, a minha vizinha do andar de baixo caminha pelas ruas cabisbaixa – faz lembrar um ponto de interrogação. À noite, depois de uns copos, arrebita: se está bem-disposta canta o fado e berra animadamente até às tantas da manhã; se o vinho azeda no percurso entre o estômago, o coração e o cérebro, discute com o namorado até às tantas. Nesses momentos os dedos devem transformar-se em pontos de exclamação.

A sua linguagem é a do Quim Barreiros. Bem, se calhar estou a ser demasiado benevolente porque acredito que o próprio se sentiria embaraçado por ouvir tantas ordinarices fora do contexto festivo do humor brejeiro.

Tornou-se rotina estar na sala a trabalhar ou a blogar e ser interrompido com os inúmeros insultos que lança ao namorado. De filho da puta para cima. Esses até nem são os piores ataques: de vez em quando as frases insultuosas dirigem-se para baixo e fixam-se na zona da braguilha.

A primeira vez que a ouvi questionar a virilidade do companheiro temi que acontecesse uma tragédia. Ferido de morte no seu orgulho, o homem responderia com violência. Cheguei a pensar em chamar a polícia. Engano meu. Ele nunca responde. Não reage. Talvez sinta que o seu silêncio gelado é uma forma de agressão mais violenta do que um grito ou uma bofetada.

Então o que passei a ouvir naquela torrente de insultos e injúrias deixou de ser anedótico: é a voz da mais terrível das solidões. Não é nada divertido, acreditem. As ofensas são declarações de amor que desabam sobre o outro como uma tempestade tropical e se evaporam sem lhe chegar a tocar. Em cada palavrão está subjacente uma única súplica: dá-me atenção. Qualquer tipo de atenção. Talvez ela chegue a pensar que um berro ou uma bofetada a fará sentir-se melhor. Mais mulher. Todas as noites luta pela sua sobrevivência emocional.

Ocasionalmente o triste homem dispõe-se a cumprir as suas obrigações. Oiço-a reagindo com o mesmo espalhafato. Até há pouco tempo não conseguia perceber se estavam a discutir ou a fazer amor. Os seus gritos são semelhantes.

Uma certa noite – eram quatro da manhã – ela já tinha bebido demasiado, mesmo para os seus padrões. Começou a discussão do costume.

Insultou-o vezes em conta e, cheia de raiva, levantou-se com a intenção, imaginei eu, de lhe bater. Em vez disso desequilibrou-se e caiu no chão com um grande estrondo. Então ouvi-a chorar porque magoara uma perna. Chorava como uma criancinha. Só lhe faltou dizer que tinha um dói-dói.

Pela primeira vez desde que nos mudámos para este apartamento ouvi aquele tipo a gritar. Parecia chateado por ser obrigado a lidar directamente com a fragilidade dela. Não sabia o que fazer e só conseguia berrar-lhe: «Acalma-te! Acalma-te!» Resolveu o assunto arrastando-a para a cama e esperando que o vinho tratasse do resto.

E assim, quase todas as noites, oiço a história de um homem e de uma mulher: duas pessoas inseparáveis que nunca souberam o que fazer um com o outro – excepto despedaçar-se.

Polaroid

Publicado por Marco Santos [25/Junho] | Categoria: Pessoal | 1 comentário »

Relacionado (ou não): Pelos vistos, não.
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PolaroidPolaroid

Na nossa rua as casas são tortas
e ouve-se gente a cantar.
As nuvens e as horas, tudo passa
sem razão, mas na feira dos cubanos
hei-de comprar-te um anel com as pedras
do teu signo: turquesa, água-marinha,
opala de imitação – tanto reluzem as bagatelas do amor. Iguais aos estranhos
que atravessam as vielas rumorosas,
confiaremos o dia ao planeta que o influi
e seremos apanhados pela lente
do turista: um enigma irresolúvel
para quem nos descobrir
(mortos que estaremos já) numa gaveta futura.
Sim, devo dizer que acredito na ascendência
das estrelas: elas arderão ainda
sobre o pó que há-de restar
quando não houver mais nada
para arder.


«You got nothing to lose that won´t be lost», Oráculos de Cabeceira, de Rui Pires Cabral (que dedicou o livro aos seus trezentos leitores). A Susana, eu, a Diana e o Francisco estivemos a lê-lo em voz alta ontem à noite: estamos registados como os leitores números 301, 302, 303 e 304, respectivamente.

Desactivamente

Publicado por Marco Santos [1/Junho] | Categoria: Pessoal | 28 comentários »

Relacionado (ou não): Raio do Akismet [30/Setembro/2008]
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O mês de Maio deve ter sido o meu pior mês blogosférico. Para os meus próprios padrões de exigência, o blogue tem andado uma merda.

A razão é a de sempre: a enorme carga de trabalho que tive em Maio e terei este mês não me deixou com energia suficiente para blogar. Eu sou preguiçoso por natureza e geralmente preciso de algum tempo para me reequilibrar, mas desta vez está realmente difícil. Ao chegar a casa, atiro-me para a cama ou simplesmente estupidifico-me diante da televisão. Até mudar de canal me parece uma actividade intelectual extenuante.

O servidor em que o Bitaites está alojado tem acompanhado o meu estado de espírito e também tem andado demasiado tempo estendido no sofá. Dizem-me que sou vítima do meu próprio sucesso, os visitantes são muitos, por aí fora, precisava de um servidor dedicado, 250 euros por mês, preço de amigo.

Está fora de questão, como é óbvio; preciso de descobrir outras soluções, prescindir de alguns plugins do Wordpress se for preciso. O mordomo deste policial para tartarugas é o plugin que conta as visitas, pelo menos parece ser esse o responsável pelo adormecimento da base de dados – o mais provável é desactivá-lo a ver se os tempos de acesso melhoram. Quanto a mim, anda tudo desactivado excepto o cansado dedinho que muda os canais da Zon.

Socorro, estou constipado!

Publicado por Marco Santos [17/Maio] | Categoria: Pessoal | 11 comentários »

Relacionado (ou não): Não há nada a fazer [3/Julho/2007]
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Estou quase a morrer. Reuni as forças que me restavam para escrever só mais um post antes de entregar o nariz ao criador. Apanhei uma constipação fortíssima e nos últimos dias tenho andado a perseguir o meu próprio ranho. Já esgotei os guardanapos, recorri ao papel higiénico por ser uma questão de emergência e agora só me resta limpar o nariz às orelhas da minha Pinscher. Anda cá, pequenina, tenho um ossinho para ti…

Tadinha da minha suricata nojenta. Vai-te embora, era a brincar. Uma bolachinha, pronto. A sério, já não estou habituado a isto. Tenho pouca tolerância psicológica para estas bactérias coisas. Aquele tipo de intolerância que as mulheres costumam definir como «os homens são mesmo uns mariquinhas nestas ocasiões». Calúnias, digo eu! Sou um desgraçado. Ando aqui que não me aguento: corpo mole e dorido, sem vontade de fazer nada, arrastando-me na esperança de que o dia de amanhã seja suficiente para melhorar porque segunda-feira é dia de trabalho. Trabalho? Estou feito.

O que eu tenho é apenas uma daquelas constipações que surgem de vez em quando, embora não seja lá muito agradável ficar assim quando meio planeta anda preocupado com uma pandemia de gripe A. Seja como for, o trabalho e o cansaço têm sido tantos que até a palavra quarentena me faz pensar num período agradável de férias.

O elo invisível

Publicado por Marco Santos [13/Maio] | Categoria: Pessoal | 19 comentários »

Relacionado (ou não): Espantosa astrofotografia [21/Dezembro/2008]
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A Terra

Nunca tinha visto uma foto da Terra tirada de um ângulo tão oblíquo. Ainda se consegue ver o rio Nilo, pai e mãe da mais maravilhosa das civilizações antigas, a egípcia.

Fotos da Terra vista do Espaço fazem-me regressar à infância, quando sobretudo em noites de insónia me transformava num Vaivém, desafiava as leis da gravidade e tirava fotografias que só se desfaziam pela manhã. Costumava ligar um velho rádio de pilhas e escondia-o sob a almofada, a ouvir baixinho – não estava interessado na programação, mas tinha aprendido que o som era composto por ondas hertzianas que podiam viajar para qualquer lado e então as vozes e as músicas chegavam-me aos ouvidos tocadas pela magia do Universo.

Ainda hoje sou assim – o Espaço é o meu recreio, os planetas e as estrelas e os vastos silêncios por preencher são os meus brinquedos. Posso não perceber tanto de Física ou de Matemática como gostaria, mas estarei eternamente grato à ciência, aos livros, à música e ao cinema por tantas horas de deslumbramento. Nunca achei necessário que o Cosmos tivesse nome, personalidade ou desígnio, nunca precisei de aprender que somos feitos da mesma matéria das estrelas.

O elo invisível entre mim e a Via Láctea sempre se manifestou em praias e campos desertos em noites de Verão, nos filmes do Kubrick e do Andrei Tarkovski, nos ensinamentos de Carl Sagan, nos livros do Clifford D. Simak, do Azimov, do Stanislaw Lem, até hoje se mantém esse fascínio infantil que não consigo explicar a ninguém, apaixono-me por tudo o que sinta ser tocado pela magia do Universo, o piano de Debussy, as cacofonias de Ligeti, os violinos de Bartók, o saxofone de John Coltrane, esta foto.

Blade Runner

Publicado por Marco Santos [31/Março] | Categoria: Pessoal | 6 comentários »

Relacionado (ou não): Uma questão de coordenadas [14/Maio/2007]
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Like Tears In The Rain, de Artur Sadlos

Like Tears in the Rain, ilustração de Artur Sadlos

I’ve seen things you people wouldn’t believe. Attack ships on fire off the shoulder of Orion. I watched C-beams glitter in the darkness at Tannhäuser Gate. All those moments will be lost in time like tears in rain. Time to die.

Recordei o monólogo final do replicant moribundo Roy Batty quando pensei no que aconteceu ao Mário Gamito. «Pá, eu sou um dos gajos que mais sabe sobre o Blade Runner, desde a informação trivial às filosofias todas à volta da história», respondeu-me mais ou menos assim, cheio de orgulho e bazófia, quando o desafiei a escrever comigo um post sobre o filme. Por preguiça e falta de tempo, mas sobretudo por preguiça, nunca chegámos a fazê-lo.

Recordo agora o monólogo do filme-fetiche do Gamito porque este é o post que finalmente fez desaparecer da página principal do Bitaites o texto de homenagem e despedida escrito após o seu desaparecimento. É um processo natural e saudável, pois a vida continua a renovar-se, dia após dia – pretendi apenas não repetir neste post o tipo de gesto indiferente de quem molha o dedo indicador para folhear uma página seca dos classificados de um jornal.

All those moments will be lost in time like tears in rain, é verdade, mas os textos que desaparecem hoje serão criogenados nos backups dos blogues e ficarão disponíveis durante muito tempo a quem um dia tiver interesse em descobri-los – não para saber como foi aquela morte, mas para conhecer um pouco mais de como foi a vida.

Por isso, Gonçalo, quando também este post desaparecer e tiveres idade para saber mais sobre o teu pai, ouve a banda sonora do Blade Runner. Era a banda sonora dele. Coloco-a à tua disposição por acreditar que o maior poder da música consiste em revelar-nos ritmos, melodias e harmonias que sempre estiveram connosco; aqueles segundos preciosos em que um tema nos atinge o estômago e o peito são uma das maiores sensações de libertação que podemos experimentar – a libertação de sentimentos e vivências que muitas vezes julgávamos não existir em nós. Descobre-as. Link

Gamito

Publicado por Marco Santos [24/Março] | Categoria: Pessoal | 51 comentários »

Relacionado (ou não): Blade Runner [31/Março/2009]
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Raios te partam, Gamito. Silêncio branco. Não consigo escrever este post. Experimentei várias fontes no processador, aumentei e diminui o tamanho dos caracteres, justifiquei o texto, alinhei-o à direita, à esquerda, fiz zoom na página, tirei o zoom na página, apaguei, recomecei, cheguei ao fim do parágrafo e continuo bastante lixado contigo.

Depois de tantas discussões no Gildot e nos blogues e nas mailing lists, conseguiste finalmente criar uma mensagem impossível de contradizer. Deixar-nos sem palavras.

Sabes tu muito bem como o suicídio é terrível; quem já escreveu sobre o maldito assunto da tua morte foge da palavra por respeito à tua memória, hesita, dá a notícia de forma velada, RIP, morreu, decidiu deixar-nos, até sempre, essas coisas. O que mais me lixa, meu grande palerma, é saber o quanto terias adorado espreitar todos estes posts que andam agora a escrever sobre ti.

Por mim peço-te desculpa pelas duas ou três vezes em que não respondi aos teus emails. Peço desculpa pelas vezes em que fingi interesse no que escrevias no Messenger quando na verdade estavas a aborrecer-me. E agradeço-te as ocasiões em que me ajudaste com o mesmo espírito generoso que te levou a criar o Startux para os novatos do Linux. Sempre tiveste imenso valor, eras um geek à moda antiga, sempre gostei de ti, por causa da força, da sabedoria e sobretudo da fragilidade, mas nem sempre tive pachorra. Desculpa, pá.

Agora já não posso esconder que te via como uma criança. Bem podias cruzar os braços como um porteiro de discoteca, mas sempre te senti como uma presença frágil e inconstante, dividida entre o orgulho desmesurado e a absoluta necessidade de atenção, a espingarda cheia de munições e o humilde cachimbo da paz, o ressentimento e o perdão, sem conseguir encontrar um ponto de equilíbrio entre tantos sinais contraditórios que te nasciam no peito.

É pena que tenhas compreendido demasiado tarde que a Internet só é boa para o orgulho; não faz grande coisa pela solidão. Lamento muito que não tenhas sabido encontrar uma resposta. Lamento que o fio que te unia à vida real tenha esticado a ponto de te fazer acreditar que iria quebrar-se. Ainda estou com um nó na garganta desde que recebi a notícia porque incomoda-me pensar que entraste em pânico ao imaginares-te completamente sozinho. Preferia que tivesse sido um acidente.

Acho que há pessoas que são colocadas neste mundo para nos fazer reconsiderar a forma como nos tratamos todos os dias – nem que seja pelos preciosos minutos em que a morte obriga a rever os nossos actos e a prestar justiça até aos que julgávamos inimigos. Quanto aos outros – os amigos e os que te queriam bem – nunca se sabe quando alguém poderá precisar de nós. Nunca se sabe quando um gesto insignificante de atenção pode fazer a diferença na manhã fria e solitária de um apeadeiro. Tu és uma dessas pessoas. Ficarás.

P.S. – A obrigatoriedade do registo para comentar fica por agora sem efeito. Todos os que desejarem poderão prestar livremente a sua homenagem ao Gamito. Aos que não gostavam dele a ponto de construir páginas para gozá-lo e maltratar-lhe o nome, peço que ajudem a dignificar este momento mantendo-se em silêncio. Por outras palavras: ponham-se na alheta, cretinos.

Sexta-feira 13 e Netcabo

Publicado por Marco Santos [13/Fevereiro] | Categoria: Pessoal | 13 comentários »

Relacionado (ou não): O novo anúncio da Netcabo: momento ZON [7/Abril/2008]
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Técnicos da Netcabo vêm cá hoje a casa fazer duas coisas: verificar o ruído na linha porque eu tenho 2mbits de upload e parece que estou de volta aos velhos tempos do dial-up; instalar-me a nova box para a alta definição.
Apercebo-me agora que dois eventos estão a ocorrer ao mesmo tempo: uma intervenção da Netcabo e o facto de estarmos em plena sexta-feira, 13.
Eu não sou supersticioso e por enquanto posso dizer que tudo decorre dentro da normalidade: eles estão atrasados mais de meia-hora e eu já estou a ficar furioso.


Actualização (16/Fev) – Acabou por correr tudo normalmente. A nova box para as emissões de alta definição foi activada. Como eu decidi ficar com a antiga Powerbox para meter no quarto, a Netcabo achou que eu preferia ficar com os canais HD na box que não a suporta em vez de passar esses canais para a nova que tinha mandado instalar. Resultado: o início de mais uma conhecida odisseia Netcabo durante a qual a lógica tenta vencer a lógica da batata.

Como não tinha SportTV nem canais de cinema na box nova, passei o dia a telefonar chamando-lhes a atenção para um pormenor: eu mandei instalar a nova box, está a ver, portanto pensei que seria lógico que a Netcabo passasse os canais HD para a box que os suporta, não os mantivesse na Powerbox (que não os suporta, está a ver o problema, insisti eu). Sim, a nova box está activada, sim senhor, não é esse o problema, não não, não é, o problema é que vocês se esqueceram de transferir os canais, percebe?

Todos percebiam e viam o problema e todos diziam que o assunto ia ser resolvido no espaço de uma hora, mas na Netcabo há demasiada gente de olhos fechados. As horas foram passando – uma, duas, três, quatro, cinco – e nada de transferências de canais.

A box tinha sido activada às 11 da manhã. Eram oito da noite e ainda ninguém tinha conseguido transferir os canais codificados da antiga para a nova. Um dos que me atendeu falava como um robô: «Boatardesenhor…» (e dizia o meu nome completo) emquepossoajudálo».

Explico a mesma coisa pela décima vez nesse dia. «Ummomentoporfavorsenhor…» (e repete o meu nome completo). Dois ou três minutos à espera até que o robô regressa à cabina de descompressão para soletrar a frase número 4, anexo B: «Muitobrigadoporteraguardadosenhor…» (e repete o meu nome completo).

Tive vontade de fazer-me de surdo, pedir-lhe para repetir, só para ver se tropeçava naquele «Muitobrigadoporteraguardadosenhor…» e caía da cadeira, mas mantive-me calmo a fazer o número do cliente Netcabo paciente e compreensivo.

O andróide não resolveu o problema. À medida que ia telefonando a protestar, mais por uma questão de princípio do que pela maldita televisão, comecei a ser despachado de departamento em departamento com a promessa de que seria o departamento x a resolver o problema.

Às nove da noite acabei por ser enviado para o departamento de facturação porque a última pessoa da assistência técnica que me atendeu havia descoberto «um problema qualquer na facturação dessa box e a activação não estava a ser assumida pelo sistema». Assumida pelo sistema? Mas que sistema mais medricas. O sistema pode assumi-la sem problemas, a minha box não descodifica os vossos canais porno e não tem nada a esconder excepto, talvez, certas partes da programação dos canais portugueses. De qualquer modo, insisti, o problema não estava na activação. «É problema de facturação», garantiu-me.

A simpática rapariga do departamento de facturação descobriu imediatamente que não havia qualquer problema de facturação e a box estava activada, portanto não havia problema nenhum. Elevei a voz pela primeira vez. «O problema não é a activação da box, isso sei eu desde manhã, porra, não vos telefonei para me informarem que o céu azul é azul, muito obrigado, isso já eu sei, telefonei-lhes porque há horas que vos estou a dizer que quero os canais codificados na nova box e não os quero na box velha».

Enfim, a rapariga foi tão massacrada que às tantas já não conseguia dizer as frases feitas sem começar a gaguejar. Tive pena dela e nem sequer me senti insultado quando me perguntou se já tinha ligado e desligado a box «porque às vezes é assim que ela assume». Ignorei essa palavra mágica da Netcabo que é o assume, fingi que desligava e ligava a box, e disse-lhe que se por acaso aquela sugestão resultasse os tipos do departamento técnico deviam pagar-lhe um jantar. Claro que a sugestão não resultou – até porque já a experimentara muitas horas antes.

Finalmente, depois de ter aguardado mais uns quantos minutos, ela despediu-se com a promessa de que o assunto ia ser resolvido na próxima meia-hora. Desta vez não gaguejou. Assim, ao fim do dia, já perto das dez horas da noite, meia-dúzia de telefonemas depois, cerca de 12 horas após a instalação, conseguiram resolver o terrível dilema técnico de transferir os canais de uma box para outra. Pessoal técnico e comercial da Netcabo, sugiro-vos que comecem a passar as chamadas problemáticas para a facturação, pois o departamento tem lá uma rapariga que gagueja mas resolve-vos os problemas.



Ainda mexe