
Estão a ver esta ilustração representando um planeta do tipo Terra orbitando uma estrela espectral K – a Gliese 370?
(Uma estrela espectral K é menos luminosa e massiva, mais fria e velha do que o Sol, e tem uma coloração alaranjada. Por outras palavras: se imaginarmos o Sol como um grande limão, a Gliese 370 é uma pequena tangerina).
Não sabemos se o planeta é tão prometedoramente terrestre, mas um artigo publicado a 17 de Agosto por Lisa Kaltenegger (investigadora do Centro de Astrofísica Harvard–Smithsonian), Stephane Udry e Francesco Pepe (astrónomos do Observatório de Genebra) considera muito seriamente a hipótese de estarmos perante um planeta «à beira da habitabilidade».
Esta foi a expressão utilizada por Lisa Kaltenegger na mensagem que enviou quando submeteu o artigo: à beira da habitabilidade. E é a mensagem que está a passar em todo o lado.
Um planeta habitável… Será que já é habitado?

Esta descoberta resulta de uma complicada e inacessível (a nós, meros mortais ortográficos) série de cálculos matemáticos que tiveram por base os dados fornecidos pelo espectrógrafo HARPS (High Accuracy Radial velocity Planetary Search) e um programa mais extenso de observação, denominado «Upgrade GTO – Guaranteed Time Observations».
Que se sabe deste planeta? Em primeiro lugar, temos um nome: HD 85512b. Imaginativo e apelativo, como sempre!
Em segundo, orbita uma estrela – Gliese 370, na constelação Vela – situada a cerca de 36 anos-luz de distância.
(Um ano-luz é a distância que os fotões percorrem no espaço de um ano; a velocidade da luz é de 300 mil quilómetros por segundo; mesmo a esta velocidade, a luz necessita de 36 anos para percorrer a distância entre nós e aquela estrela – parece-vos muito? Tendo em conta que a galáxia mais próxima de nós – Andrómeda – está a dois milhões de anos-luz e que existem milhares de milhões de galáxias no Universo, a Gliese 370 está praticamente no nosso quintal cósmico.)
Sabemos a distância a que o planeta está da sua estrela (uns 38 milhões de quilómetros, quatro vez mais perto do que a Terra do Sol – mas não há problema, porque a estrela Gliese 370 é mais pequena e fria. Comparando em termos relativos, o HD 85512b está para a sua estrela como Vénus está para o Sol.)
Sabemos também que aquele planeta é uma Super-Terra com 3.6 vezes a massa do nosso e um período orbital de 58 dias (um ano dura dois meses dos nossos, por lá).
Temos a certeza de que a sua órbita é quase circular, o que permite a estabilização da temperatura: uma órbita demasiado elíptica provocaria períodos de muito frio ou muito calor, consoante estivesse mais afastado ou perto da estrela.
A equipa de investigadores calcula que a temperatura à superfície poderá rondar os 25 graus. ´
Como já escrevi aqui, se fossemos uma civilização extraterrestre com os mesmos avanços tecnológicos e apontássemos os telescópios ao Sistema Solar, também poderíamos observar Vénus e especular quanto à sua provável habitabilidade – infelizmente, à exceção de uma criatura chamada Oucher-poucher (rever link anterior), não se conhece vida nem condições para que aquela possa existir em Vénus.
O que levou Lisa Kaltenegger a utilizar a expressão «à beira da habitabilidade» foi também uma longa série de «ses» que carecem ainda de confirmação mas deixam um apaixonado por estes assuntos a fervilhar de curiosidade: «se» o planeta tiver uma atmosfera; «se» essa atmosfera contiver vapor de água, dióxido de carbono e azoto, «se» existirem nuvens, então é provável que a água em estado líquido corra à superfície do planeta como se julga que outrora correu em Marte.
Mas ainda é cedo para sabermos se os ET’s também gostam de dar uns mergulhos na piscina: os nossos telescópios não são ainda suficientemente potentes para observar diretamente um objeto tão pequeno e longínquo.
Fontes: AstroPT (Planeta HD 85512b é habitável, HARPS Descobre mais Super-Terras e Neptunos) e SpaceRef (Is There A Habitable Planet Circling HD 85512?)