Astronomia, Biologia, Estranhos Fenómenos e tudo o que tem a ver com a Ciência.

→ 25/09/2011 @15:21

O novo berço das estrelas

Formação de estrelas a partir da matéria-prima gasosa de uma galáxia (ESA–AOES Medialab)

Ainda mal nos refizemos da notícia «bombástica» do fim de semana

(físicos detetaram neutrinos movendo-se a velocidades superiores à da luz – mas calma)

e já os dados coligidos pelo observatório espacial de infravermelhos Herschel, da ESA (Agência Espacial Europeia), informam-nos de uma nova história no que respeita à evolução das galáxias e a determinados processos cósmicos muito importantes.

Eu sei – nada disto contribui para a tua felicidade pessoal – mas vou contar à mesma!

Tem a ver com a taxa de natalidade das estrelas. Há 10 mil milhões de anos, mais ou menos 3,7 mil milhões de anos após o nascimento do Universo, a frequência com que as estrelas nasciam atingiu o seu ponto máximo – desde aí tem sido sempre a descer.

Ao observarmos as regiões do Espaço mais próximas de nós verificámos que as estrelas já nasciam em muito menor número. Observámos também outro pormenor: esses nascimentos pareciam ser causados por galáxias em colisão.

Presumimos então que sempre fora assim: estrelas formam-se sobretudo como resultado destas monstruosas colisões. E atribuímos a estas colisões uma frequência e importância que nunca tiveram, mesmo nos primórdios do Universo.

Os dados recolhidos pelo observatório Herschel contam-nos por isso uma história diferente: o gás sempre foi a principal matéria-prima a partir do qual as estrelas nascem.

Só em galáxias com pouco gás o processo de colisão é importante – assim acontece com as galáxias atuais, que esgotaram grande parte da matéria gasosa original.

Quando não são formadas por colisões, a regra estabelecida é muito simples: quanto mais gás, mais estrelas são formadas. Uma desarmante simplicidade. Fonte

→ 22/09/2011 @23:56

Neutrino, o novo Speedy Gonzalez do Universo?

A confirmar-se, é uma descoberta extraordinária.

A notícia: neutrinos – partículas sub-atómicas com uma interação tão fraca com a matéria que parecem quase fantasmagóricos – percorreram os 730 quilómetros que separam as instalações do Centro Europeu de Investigação Nuclear (CERN), em Genebra, do laboratório subterrâneo de Gran Sasso, no centro de Itália, a uma velocidade que ultrapassa a da velocidade da luz.

Albert Einstein postulou que nada pode viajar mais rapidamente do que a luz – e tem sido um dado adquirido na Física que essa velocidade («um bocadinho menos» de 300 mil quilómetros por segundo) é um limite intransponível. E no entanto – caso estes dados se confirmem – físicos mediram neutrinos a viajar a «um bocadinho menos» do que 300,006 quilómetros por segundo, ou seja, uma velocidade superior em «um bocadinho menos» de seis quilómetros por segundo.

Um bocadinho menos» porque a velocidade da luz, no vácuo, é de 299,792,458 metros por segundo – os 300 mil quilómetros é para arredondar, facilitando as contas e impedindo que físicos e matemáticos percam o cabelo mais cedo do que seria natural)

O Centro Nacional de Investigação Científica francês afirma que este «resultado surpreendente» e «totalmente inesperado» poderá abrir «perspetivas teóricas completamente novas». Afinal, uma lei fundamental da física acaba de ser «quebrada» pelos próprios físicos.

Miguel Won, Físico Fenomenologista que trabalha em Física de Partículas no LIP-Coimbra, põe água na fervura e, tal como Pedro Abrunhosa, diz-me que «é preciso ter calma»

«Pelo que percebi foi apenas uma medida experimental, cujo valor central resultou acima da velocidade da luz. Mas isso não significa imediatamente que está provado experimentalmente. A qualquer medida está associado um erro. Isto significa que estatisticamente podes medir um valor que não corresponde à “realidade”. Deu-se simplesmente uma flutuação que resultou num desvio do valor real. Só quando for estatisticamente muito improvável uma medida ser falsa, é que se assume ser verdadeira. E para isso é preciso uma quantidade muito grande de dados. Portanto, é preciso esperar.»

Devemos ser sensatos e previdentes como o Miguel e esperar por resultados consistentes, mas vejo agora o neutrino como o extraterrestre dos físicos. Digo-o não por piada, mas neste sentido: tal como uma eventual descoberta de vida fora da Terra, a confirmação de que a velocidade da luz não é uma barreira intransponível provocará uma revolução na forma como estabelecemos os limites do que podemos ou não fazer no futuro. Do que realmente pode ou não acontecer no Universo.

O Universo é um «sítio» onde tudo pode acontecer – e geralmente acontece.

→ 21/09/2011 @23:27

Quem vir uma galinha a fugir que levante o braço

Nebulosa da Galinha Fugitiva (Crédito: ESO)

Mas que bela fotografia! Esta imagem – esclarece um artigo publicado hoje no sítio da ESO (European Southern Observatory) – foi conseguida pelo instrumento Wide Field Imager, montado num telescópio de 2,2 metros.

Picuinhas como eu sou, não cheguei a perceber se o artigo da ESO se refere a uma nebulosa chamada Lambda Centauri ou a uma nebulosa da estrela Lambda Centauri, que fica na constelação de Centauro e se encontra a 410 anos-luz da Terra.

Também não há problema: mesmo que Lambda Centauri não seja realmente o nome desta nebulosa, existem outros nomes pela qual é conhecida: IC 2944 é um deles. IC é a abreviatura de Index Catalogue e resultou do laborioso trabalho de catalogação de um astrónomo dinamarquês do século XIX, Johan Ludvig Emil Dreyer.

Mas a IC 2944 é também conhecida por um nome mais apelativo: nebulosa da Galinha Fugitiva.

Este nome foi-lhe popularmente atribuído porque nós somos muito bons a reconhecer pessoas, objetos ou quaisquer outras coisas familiares quando os estímulos visuais são demasiado vagos ou caóticos.

À típica aptidão do nosso cérebro em preencher o vazio e o incompreensível chamamos Pareidolia – um nome só ligeiramente melhor do que IC 2944.

E agora que já vos consegui impressionar com a minha capacidade em consultar a Wikipédia, vamos falar do pássaro que algumas pessoas identificam na região mais brilhante da nebulosa.

Não tenho qualquer problema em perceber por que razão lhe chamam galinha, mas a parte «fugitiva» já me custa a detetar. Com algum esforço, até consigo vislumbrar uns olhos diabolicamente vermelhos lá no meio, mas macacos me mordam se vejo alguma galinha a fugir como se estivesse com medo de virar canja.

A não ser que «fugitiva» seja uma referência velada ao facto de o Universo se encontrar em expansão desde o Big Bang – do nosso ponto de vista geocêntrico, tudo à nossa volta parece afastar-se de nós.

Estas coisas do espaço-tempo da Maria Cachucha são tão complicadas que é possível vislumbrar uma galinha «fugitiva» mesmo que ela esteja lá no meio da Nebulosa sentada na esplanada Lambda Centauri saboreando uma imperial de gases de hidrogénio e observando a nebulosa Cabeça de Bruxa com compreensível desconfiança.

Admira-me até que o tipo que ajudou a derreter-nos os miolos com os mistérios da mecânica quântica – Erwin Schrödinger – tenha usado um gato para a sua famosa analogia do estado zombie das partículas. Podia ter escolhido uma galinha. Talvez tudo fizesse mais sentido: a galinha tanto podia ficar sem cabeça como cacarejar a noite toda, tudo dependeria do apetite do observador.

Bem, cada um tem o seu olhar e a sua visão, e esta belíssima astrofotografia presta-se ao velho deslumbramento humano perante a imensidão do Cosmos, com ou sem galinhas.

Mas acredito que mesmo que os nossos conhecimentos fossem muito mais avançados, não estaríamos livres de dar formas familiares ao desconhecido. Por exemplo, o hipotético dia em que descobrirmos uma região nebulosa do espaço com 1113 milhões de buracos negros escondidos no seu interior será também o dia em que teremos descoberto a nebulosa Alberto João Jardim.

→ 20/09/2011 @4:00

Um dedo de conversa com Brian Cox

Brian Cox

Esta foto foi tirada numa pausa das gravações de um programa de televisão.

O dedo médio pertence a Brian Cox, físico de partículas e professor na Universidade de Manchester, muitíssimo conhecido por apresentar uma série de programas da BBC sobre física e astronomia, com grande sucesso.

No seu currículo consta também, ainda nos tempos de estudante, uma passagem frutuosa como teclista de uma banda de pop/rock, os D:Ream. Nos dois álbuns em que Brian Cox participou, a banda chegou ao Top5 das tabelas de vendas no Reino Unido.

Cox não é apenas um físico de partículas e um professor, é um Carl Sagan britânico, pelo menos no que respeita ao reconhecimento público, à capacidade de comunicação e ao carisma diante das câmaras. Tal como sucede com as estrelas de rock e cinema, dificilmente sai à rua na Grã-Bretanha sem distribuir autógrafos e beijinhos a raparigas loucamente entusiasmadas pela Física Quântica. Em 2009, a revista People incluiu-o na lista dos homens vivos mais sexys.

O dedo médio pode até ser uma evocação dos tempos em que Brian Cox era uma vedeta no top de vendas britânico, mas não admiraria se estivesse a dar-nos a sua opinião sobre o culto das profecias Maia e do fim do mundo em 2012.

Não seria a primeira vez que entrava em polémicas, com respostas curtas e grossas. Num dos episódios da série Wonders of the Solar System, Brian Cox referiu-se à Astrologia como «um monte de lixo». Quando os astrólogos protestaram, Cox respondeu da seguinte forma: «Peço desculpa à comunidade astrológica por não me ter feito entender. Deveria ter dito que toda esta onda New Age está a minar o próprio tecido da nossa civilização».

Cox é conhecido por arrumar certos temas em poucas palavras. A crença criacionista segundo a qual o mundo foi criado há seis mil anos merece-lhe apenas uma: «Disparate».

Sobre a crença de que o mundo acabará em 2012: «Isso é tudo um monte de merda. E quem acredita nisso é estúpido – são estas as minhas considerações sobre o assunto».

Talvez Brian Cox tenha razão em não cair na armadilha de ter de se defender da ignorância científica e despachar o assunto com um dedo médio e duas ou três frases pouco diplomáticas. Que podem os factos fazer contra as superstições irracionais das pessoas?

→ 16/09/2011 @14:22

Planeta Tatooine


O planeta-natal de Luke Skywalker (*) – Tatooine – é uma criação da ficção científica de A Guerra das Estrelas, mas ontem ficámos a saber que um planeta orbitando um sistema de dois sóis já existe na nossa galáxia há muito, muito tempo…

O Kepler 16b está a 200 anos-luz de distância. Ao contrário do planeta fictício Tatooine, não é um mundo deserto mas um gigante gasoso semelhante a Saturno. Os astrónomos consideram também como muito provável a existência de planetas rochosos naquele sistema e mesmo luas do tipo Europa ou Titã deslizando à volta deste Tatooine gasoso. Ler mais – na verdade, muito mais – no AstroPT.

(*) Ups. É o planeta-natal do pai, Anakin, futuro Darth Vader, o vilão mais cool da história da FC…

→ 15/09/2011 @16:33

A visão de Jay GaBany

Galáxia NGC3521, a 35 milhões de anos-luz de distância (Foto: Jay GaBany)

Enquanto Neil Armstrong e Buzz Aldrin saltitavam na superfície lunar pela primeira vez na história da Humanidade, um miúdo montava no quintal de casa um telescópio refrator de 60mm e apontava-o para a Lua.

As missões Apollo despertaram-lhe o interesse pelos assuntos do Espaço sideral, mas foi a «visão de Carl Sagan» e a estreia da série «Cosmos» que despoletaram, já em adulto, um renovado entusiasmo pela Astronomia – pegou «como gasolina em fogo».

Jay GaBany passou os 23 anos seguinte a ganhar a vida como gestor de software em várias agências de viagens, sem hipótese de concretizar os seus sonhos. A «família, miúdos, carreira profissional e despesas» obrigaram-no a ser um «mero espectador» quando, durante a década de 90, os astrónomos amadores foram passando do filme para as imagens CCD.

(CCD significa Dispositivo de Carga Acoplada, charge-coupled device, e é um sensor para captação de imagens. Quanto maior for o número de células fotoelétricas integradas no sensor, maior é a resolução e, por consequência, os pixeis. Uma câmara digital pode incluir um CCD com uma capacidade de até 160 milhões de pixeis.)

A fase em que ainda adquiria as necessárias referências para se tornar no que é hoje – um dos maiores astrofotógrafos do mundo – ainda não terminara para Jay GaBany: quando numa noite a navegar na Internet conheceu os trabalhos fotográficos com o sensor CCD de Russell Croman, Adam Block e, sobretudo, Robert Gendler, redescobriu o seu destino.

Passou meses a fotografar a partir do seu quintal – com «moderado sucesso», dado o nível de poluição visual das áreas urbanas.

A experiência nas agências de viagens e os anos no design de aplicações baseadas na web permitiram-lhe montar o equipamento sob os céus escuros de observatórios no Novo México e também perto de Melbourne, na Austrália, e controlar os telescópios remotamente a partir de casa.

«Os resultados foram muito melhores». No ano passado, o equipamento no Novo México foi transferido para um observatório nas montanhas de Sierra Nevada.

GaBany fotografa confortavelmente o infinito a partir de instrumentos montados a centenas (ou milhares) de quilómetros de casa.

Agora é considerado um dos maiores do mundo. Colabora regularmente com astrónomos, escreve artigos para revistas como a Wired e a Discovery, as suas imagens estão muitas vezes na capa da Astronomy e é frequentemente convidado para dar palestras sobre a arte de fotografar as estrelas.

«Esta é a atividade mais recompensadora e viciante em que alguma vez me vi envolvido», escreve GaBany. Vejam fotografias maravilhosas do Cosmos na sua página pessoal.

→ 08/09/2011 @16:43

Uma Super-Terra potencialmente habitável

Estão a ver esta ilustração representando um planeta do tipo Terra orbitando uma estrela espectral K – a Gliese 370?

(Uma estrela espectral K é menos luminosa e massiva, mais fria e velha do que o Sol, e tem uma coloração alaranjada. Por outras palavras: se imaginarmos o Sol como um grande limão, a Gliese 370 é uma pequena tangerina).

Não sabemos se o planeta é tão prometedoramente terrestre, mas um artigo publicado a 17 de Agosto por Lisa Kaltenegger (investigadora do Centro de Astrofísica Harvard–Smithsonian), Stephane Udry e Francesco Pepe (astrónomos do Observatório de Genebra) considera muito seriamente a hipótese de estarmos perante um planeta «à beira da habitabilidade».

Esta foi a expressão utilizada por Lisa Kaltenegger na mensagem que enviou quando submeteu o artigo: à beira da habitabilidade. E é a mensagem que está a passar em todo o lado.

Um planeta habitável… Será que já é habitado?

 

Esta descoberta resulta de uma complicada e inacessível (a nós, meros mortais ortográficos) série de cálculos matemáticos que tiveram por base os dados fornecidos pelo espectrógrafo HARPS (High Accuracy Radial velocity Planetary Search) e um programa mais extenso de observação, denominado «Upgrade GTO – Guaranteed Time Observations».

Que se sabe deste planeta? Em primeiro lugar, temos um nome: HD 85512b. Imaginativo e apelativo, como sempre!

Em segundo, orbita uma estrela – Gliese 370, na constelação Vela – situada a cerca de 36 anos-luz de distância.

(Um ano-luz é a distância que os fotões percorrem no espaço de um ano; a velocidade da luz é de 300 mil quilómetros por segundo; mesmo a esta velocidade, a luz necessita de 36 anos para percorrer a distância entre nós e aquela estrela – parece-vos muito? Tendo em conta que a galáxia mais próxima de nós – Andrómeda – está a dois milhões de anos-luz e que existem milhares de milhões de galáxias no Universo, a Gliese 370 está praticamente no nosso quintal cósmico.)

Sabemos a distância a que o planeta está da sua estrela (uns 38 milhões de quilómetros, quatro vez mais perto do que a Terra do Sol – mas não há problema, porque a estrela Gliese 370 é mais pequena e fria. Comparando em termos relativos, o HD 85512b está para a sua estrela como Vénus está para o Sol.)

Sabemos também que aquele planeta é uma Super-Terra com 3.6 vezes a massa do nosso e um período orbital de 58 dias (um ano dura dois meses dos nossos, por lá).

Temos a certeza de que a sua órbita é quase circular, o que permite a estabilização da temperatura: uma órbita demasiado elíptica provocaria períodos de muito frio ou muito calor, consoante estivesse mais afastado ou perto da estrela.

A equipa de investigadores calcula que a temperatura à superfície poderá rondar os 25 graus. ´

Como já escrevi aqui, se fossemos uma civilização extraterrestre com os mesmos avanços tecnológicos e apontássemos os telescópios ao Sistema Solar, também poderíamos observar Vénus e especular quanto à sua provável habitabilidade – infelizmente, à exceção de uma criatura chamada Oucher-poucher (rever link anterior), não se conhece vida nem condições para que aquela possa existir em Vénus.

O que levou Lisa Kaltenegger a utilizar a expressão «à beira da habitabilidade» foi também uma longa série de «ses» que carecem ainda de confirmação mas deixam um apaixonado por estes assuntos a fervilhar de curiosidade: «se» o planeta tiver uma atmosfera; «se» essa atmosfera contiver vapor de água, dióxido de carbono e azoto, «se» existirem nuvens, então é provável que a água em estado líquido corra à superfície do planeta como se julga que outrora correu em Marte.

Mas ainda é cedo para sabermos se os ET’s também gostam de dar uns mergulhos na piscina: os nossos telescópios não são ainda suficientemente potentes para observar diretamente um objeto tão pequeno e longínquo.

 

Fontes: AstroPT (Planeta HD 85512b é habitável, HARPS Descobre mais Super-Terras e Neptunos) e SpaceRef (Is There A Habitable Planet Circling HD 85512?)