Astronomia, Biologia, Estranhos Fenómenos e tudo o que tem a ver com a Ciência.

→ 30/10/2007 @16:29

Marte, marcianos e pânico na América

A 30 de Outubro de 1938, Orson Welles deixava a América em pânico por causa de uma emissão de rádio baseada num livro de HG Wells e onde se contava a invasão marciana do planeta Terra. Como hoje faz exactamente 69 anos que esse episódio ocorreu, decidi repescar este post. E podem fazer o download da histórica emissão, também.

A Guerra dos Mundos, escrito em 1898, é um clássico da literatura de ficção científica (FC). O seu autor – HG Wells – já tinha publicado romances notáveis dentro do género: A Máquina do Tempo (1895), A Ilha do Dr. Moreau (1895) e O Homem Invisível (1897), mas foi a história de uma invasão de Marcianos que fez dele um pioneiro da FC (Ficção Científica). A versão original do livro – em inglês – pode ser lida nesta página.
HG Wells não descobriu a pólvora ao imaginar um planeta Marte habitado. Nos finais do século XIX tinha-se como certo que vivia no planeta vermelho uma civilização muito mais antiga e avançada que a nossa, lutando pela sobrevivência face a um clima instável e hostil e à escassez de água.

O que um erro de tradução pode fazer. O mito dos canais marcianos teve origem numa má tradução do italiano para o inglês. Tudo começou nas observações do astrónomo italiano Giovanni Schiaparelli (1835-1910). Observando Marte ao telescópio, ele reparou numa série de linhas finas que uniam áreas escuras na superfície do planeta. Schiaparelli baptizou estas linhas de canali, no sentido de canais naturais como aqueles que unem regiões alagadas. Acontece que a expressão de Schiaparelli foi traduzida para canal que, ao contrário de channel, significa canal artificial. E a maior obra de engenharia da época era precisamente o Canal do Suez.

Não admira que cientistas de renome, como o americano Percival Lowell, se tenham deixado levar pela imaginação, entusiasmando-se com o trabalho dos engenheiros marcianos. Lowell ficou apanhado pelos canais de Marte e nunca abandonou esse fascínio até à sua morte, em 1916.
Construiu um observatório com o seu próprio dinheiro e, durante quinze anos, dedicou-se a observar os canais de Schiaparelli e imaginar obras de engenharia que serviam para trazer água dos pólos e irrigar as regiões equatoriais.

Os canais de uma civilização marciana lutando pela sobrevivência foram uma realidade durante anos. Imagine-se, então, o impacto de uma novela em que se conta a invasão da Terra por parte de alienígenas de Marte agressivos e mais avançados que nós. O mais fascinante (pelo menos para mim) na novela de Wells é a forma como acaba. Tomou-me completamente de surpresa, pois nunca me passou pela cabeça que um escritor de FC, em 1898, imaginasse que os marcianos seriam vencidos por contaminação bacteriológica e não por uma qualquer acção militar heróica.

Em 1938, com melhores meios de observação, já se suspeitava ser improvável existir vida em Marte, quanto mais inteligente.
Mas tais avanços no conhecimento não impediram que um então desconhecido Orson Welles, de 23 anos, juntasse a trupe do Mercury Theatre para uma emissão radiofónica baseada no livro de HG Wells e colocasse a América em pânico.
Eram tempos difíceis. O fracasso diplomático da Inglaterra e da França tivera como consequência a entrega da Checoslováquia a Hitler. Nas vésperas da II Grande Guerra Mundial, o temor do expansionismo nazi era tão real para os americanos como os canais marcianos para Lowell. Notícias sobre a situação na Europa interrompiam constantemente a programação da rádio.
A 30 de Outubro, Welles faz a célebre dramatização radiofónica de A Guerra dos Mundos. As consequências dessa emissão criaram episódios de pânico colectivo tão clássicos como o livro em que se baseou: mais de um milhão de pessoas nos EUA foram afectadas. Muitos fugiram de casa, outros suicidaram-se, acreditando que o seu país estava a ser invadido por marcianos.
Embora não estivesse à espera que um milhão de pessoas entrasse em pânico por causa dos seus marcianos, o pequeno génio de Citizen Kane assumiria, logo em 1955, num especial da BBC que lhe foi dedicado – Orson Welles Sketchbook -, o carácter pouco inocente da dramatização. O mundo parecia ser alimentado por tudo o que saía daquela máquina, afirmou então Welles. Nesse sentido, a transmissão fora um assalto à credibilidade daquela máquina e um alerta para que as pessoas não se deixassem orientar por opiniões pré-formatadas, viessem elas ou não da rádio. [Download: a histórica emissão radiofónica de Orson Welles]

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→ 27/08/2007 @18:03

No cosmos, um gigante também é um berlinde

A imensidão do Universo e a escala monstruosa das estrelas é impressionante. Este conjunto de imagens da NASA permite perceber até que ponto um gigante se pode tornar um mísero ponto no Espaço. É tudo uma questão de perspectiva.

Para um hipotético habitante de Mercúrio, a Terra pareceria quase um gigante. Os terráquios seriam invejados pela quantidade de superfície ao seu dispor. Mas um jupiteriano, por seu turno, rir-se-ia do nosso minúsculo planeta.

O Sol é a fonte de vida – e, ao nosso olhar, é imenso. Até o gigantesco Júpiter – o maior planeta do Sistema Solar – é, perto dele, um ponto insignificante. Mas à medida que o nosso olhar alcança maiores profundidades no Espaço, descobrimos que a nossa preciosa estrela é apenas um objecto de média grandeza.

Sirius, a estrela mais brilhante do céu, é 2,4 vezes maior que o Sol e encontra-se a apenas 8,57 anos-luz: à escala astronómica, é como se morasse no quarteirão ao lado. Mas a vida na Terra seria impossível se este gigante estivesse no nosso quarteirão.

Sirius é enorme, mas também se torna insignificante quando comparado à gigante vermelha Aldebaran, uma estrela «inchada» que já gastou todo o seu hidrogénio e que obtém energia através da fusão do hélio. É quase 50 vezes maior do que o Sol; a sua luminosidade é 150 vezes maior. Está a 65,1 anos/luz da Terra.

As monstruosas escalas do Universo não cessam de nos atormentar: a gigante Aldebaran é pouco mais do que um berlinde cósmico quando colocada ao lado de Antares, uma supergigante vermelha 300 vezes maior do que o Sol e 10 mil vezes mais brilhante. Encontra-se a 600 anos/luz de distância.

E até a supergigante vermelha Antares parece pequena quando comparada com um dos maiores colossos estelares que conhecemos: a estrela VV Cephei, entre 1600 a 1900 vezes maior que o Sol. Os astrónomos estimam que esta estrela poderá ser até 575 mil vezes mais luminosa. Imaginem que a colocávamos no lugar do Sol: a sua superfície estender-se-ia para além da órbita de Júpiter.

Tão impressionante como esta vastidão é o facto de nela viverem pequenos seres capazes de compreender a insignificante posição que a sua espécie ocupa no Cosmos. Talvez a resposta para os grandes mistérios da existência não esteja em saber porque estamos vivos mas em perceber porque razão somos tão inteligentes.

O máximo que podemos rebentar é o nosso próprio planeta – nada de especial. Somos já capazes de lhe destruir o equilíbrio ecológico, mas ainda não podemos destruir o Sol. Não obstante a sua pouca importância no Cosmos, temos muito a agradecer-lhe: em cinco biliões de anos de vida nunca nos faltou um único dia. Tivesse o Sol um milionésimo da nossa natureza agressiva e instável, e talvez nunca tivesse existido vida na Terra.

Talvez exista algum propósito oculto na nossa insignificância. Somos seres extraordinários, ambiciosos e sonhadores, inteligentes e determinados, mas andamos sempre a fazer asneiras. As distâncias e escalas do Cosmos colocam-nos no nosso devido lugar e impedem-nos de mexer onde não devemos.

→ 25/04/2007 @14:50

Uma Terra a 20,5 anos/luz

Representação artística do novo planeta: é muito maior do que a Terra mas, tal como esta, é rochoso, pode conter água em estado líquido, tem uma temperatura que varia entre os 0 e os 40 graus Celsius e está a 20,5 anos/luz de distância

Uma equipa de cientistas europeus (de França, Suíça e Portugal) descobriu um planeta do tipo terrestre em órbita de uma estrela anã vermelha, a Gliese 581. O que há de verdadeiramente especial nesta descoberta é o facto de apresentar características tão semelhantes à nossa Terra que o tornam no primeiro planeta habitável que descobrimos fora do Sistema Solar.
Se por um milagre da tecnologia conseguíssemos colocar um astronauta na sua superfície e pudéssemos assistir a um nascer-do-Sol, deparar-nos-ia um espectáculo grandioso: um sol vermelho vinte vezes maior do que aquele que surge nos nossos céus erguer-se-ia no horizonte, dominando a atmosfera do planeta.
Mas o facto de Gliese 581 surgir gigantesco nos céus do novo planeta não significa que ele é maior do que o nosso Sol: na verdade, é uma estrela anã vermelha que os astrónomos já conhecem desde 2005, situada na constelação da Balança, a 20,5 anos-luz da Terra. O novo planeta está é muito mais perto da sua estrela do que a Terra do Sol.
Embora ainda muito esteja por descobrir, já sabemos algumas coisas importantes: o novo planeta é uma Super-Terra, isto é, tem um raio 50 por cento maior e cinco vezes a massa do nosso, mas não é gasoso (como Júpiter ou Saturno) e a sua temperatura varia entre os zero e os 40 graus Celsius. É possível que a água possa existir em estado líquido. E onde existe água, pode existir vida.
Poderemos ir lá verificar com os nossos próprios olhos, enviando uma sonda? Seria possível – o problema é que a nossa sonda demoraria quase 4 milhões de anos a chegar lá. Viajar a uma distância de 20,5 anos/luz é, em termos astronómicos, como atravessar a rua e bater à porta do vizinho; para nós, formigas inteligentes do Universo, é ainda impossível. A sonda Voyager, a mais rápida de todas, demoraria 700 mil anos a percorrer 4,2 anos/luz de distância.
Resta-nos observar à distância e melhorar os instrumentos de observação (consultar post A vida receia a solidão cósmica [2])

Notícia original da Agência Espacial Europeia | NASA: Planetas como a Terra devem ser descobertos

→ 15/01/2007 @17:45

De elevador para o Espaço

Imaginem poder subir ao Espaço num elevador. Em vez de utilizar dispendiosos foguetões carregados de combustível poluente, seríamos impulsionados por energia electromagnética.

Parece um sonho de ficção científica, mas existe muita gente a levá-lo a sério – a começar pela NASA, que já admitiu publicamente que a construção de um elevador espacial faz parte dos planos para o futuro. Existem ainda alguns problemas práticos a resolver, pois a tecnologia raramente consegue acompanhar a nossa imaginação.

O primeiro problema é saber como vamos conseguir construir um cabo de 36 mil quilómetros de comprimento para o elevador.

O segundo é encontrar uma forma de fazer um cabo suficientemente forte e flexível para que aguente o peso do elevador, da carga que transportar e a instabilidade da atmosfera.

O terceiro é encontrar um material 100 vezes mais resistente que o aço – e este é um problema crucial: se não o encontrarmos nem vale a pena pensar em elevadores espaciais.

O quarto – no caso de descobrirmos esse material – é arranjar maneira de fabricá-lo em grandes quantidades e sem custos proibitivos.

O quinto problema é saber como construir uma base para apoiar o cabo – e não estamos a falar de uma estrutura qualquer: por uma questão de segurança e estabilidade do sistema, vai ser necessário construir uma base com 15 quilómetros de altura. Esta base terá de ficar localizada perto da linha do Equador – o país anfitrião poderá ser o Brasil.

O sexto obstáculo – pequeno, comparado com o anterior – é encontrar sítio para o elevador “ancorar”: já se falou em desviar um asteróide, mas a proposta mais realista passa por construir uma estação orbital a exactamente 35.786 km da superfície terrestre. Porquê esta distância tão precisa? Porque é aí que se encontra a órbita geostacionária (GEO) onde os objectos têm a mesma velocidade de movimento que a velocidade da Terra, logo, não haverá deslocamento nem o risco de destruir a estrutura do cabo. As forças da gravidade na extremidade mais baixa e a aceleração centrípeta na extremidade mais externa irão depois manter o cabo sob tensão.

O problema crucial de encontrar esse novo material parece ter sido resolvido: os nanotubos de carbono (CNT), uma nova classe de materiais descobertos em 1991 por Sumio Iijima (Investigador Superior na NEC e Professor na Universidade de Meijo) e que apresentam extraordinárias propriedades mecânicas, eléctricas e térmicas. Os CNT têm uma resistência 100 vezes superior ao mais resistente dos aços e apenas um sexto da densidade. São os candidatos perfeitos. Ou talvez não.

Investigadores do Instituto de Tecnologia da Georgia, Estados Unidos, trabalhando em conjunto com colegas do Centro de Pesquisas Watson, da IBM, e da Escola Politécnica Federal de Lausanne, Suíça, descobriram que, quanto maior é o nanotubo, mais flexível se torna.

As experiências dos investigadores mostraram que, para nanotubos de dimensões maiores, a elasticidade é quase constante. Um cabo de nanotubos de carbono de 36 mil quilómetros irá amolecer. Esse amolecimento é contrabalançado pelo aumento de camadas mas, aí, quando isso ocorre, as propriedades dos nanotubos atingem as do grafite, outra forma de carbono mas que não serve para o projecto do elevador espacial. (Esta descoberta é referida no site Inovação Tecnológica, tendo por base a publicação Radial Elasticity of Multiwalled Carbon Nanotubes, de 5 de Maio de 2005, sendo ainda possível consultar a notícia original).

As dúvidas em relação às propriedades dos nanotubos de carbono não irão parar as investigações. Os nanotubos são dos materiais mais promissores em estudo actualmente. Calcula-se que as suas aplicações venham a ser muito vastas, dos circuitos electrónicos dos computadores a super-estruturas do tipo avião ou nave espacial. E existe também outro factor importante: o dinheiro.

A NASA não falaria sequer de elevadores espaciais se não fosse o caso de a sua hipotética utilização permitir poupar muitos milhões de dólares. Só para se ter uma ideia, transportar um passageiro para o Espaço através dos vaivéns espaciais acarreta um custo de dois milhões de dólares. Com o elevador espacial, gasta-se 150 dólares por pessoa. Perante tamanha poupança, ninguém está muito preocupado com o custo estimado do empreendimento: 5 biliões de dólares ou mais? Acabará por compensar.

Em conjunto com a Spaceward Foundation, a NASA tem vindo a organizar os chamados Space Elevator Games – e irá fazê-lo pelo menos até 2010. Estes jogos são competições abertas a todos os académicos (profissionais ou amadores) que consigam vencer em dois campos: Tether Challenge (onde se pretende encontrar o material mais leve e robusto possível) e Beam Power Challenge (comunicações sem fios para fins espaciais destinadas a ser usadas na Lua ou por astronautas explorando outros planetas).

Aos vencedores (partindo do princípio de que os haverá) será dada uma recompensa de 4 milhões de dólares e a oportunidade de trabalhar com a tecnologia-base que permitirá construir um elevador espacial.

Mero sonho de ficção científica? Talvez. Como diz o escritor Arthur C. Clarke, co-autor do argumento de 2001: Odisseia no Espaço e inventor, em 1945, do conceito de satélite geoestacionário, «o elevador espacial ficará pronto 50 anos depois de as pessoas pararem de rir dessa ideia».

→ 08/01/2007 @20:07

A vida receia a solidão cósmica [4]

Um LP para um gira-discos extraterrestre

 

Passar-se-ão muitos milhares de anos até sabermos os resultados da derradeira missão das Voyager – o mais certo é que nunca venhamos a saber.

Esta última missão poderá ser desempenhada muito depois de os geradores de plutónio deixarem de alimentar os componentes da nave, em 2020. As Voyager transportam uma carga valiosa: um testemunho para a posteridade do que somos enquanto espécie, onde vivemos e alguns dos belos empreendimentos que fomos capazes de erguer.

Toda essa informação está contida num LP, na esperança de que seres de uma civilização extraterrestre o ponham a tocar num gira-discos de outra galáxia. À cautela, incluímos no pacote também uma agulha para esse gira-discos.

Trata-se de um disco de cobre revestido a ouro contendo 115 imagens (estão incluídas fotos de pescadores portugueses ou da Grande Muralha da China, por exemplo), 35 sons naturais (vento, pássaros, água) e saudações em 55 línguas, incluindo Português. Excertos de música étnica, obras de Beethoven e Mozart e sucessos da história da música pop/rock (Exemplo: Johnny B. Goode, de Chuck Berry).

A ideia não é nova. Foi Carl Sagan o primeiro a lembrar-se de produzir uma mensagem da Humanidade para as estrelas durante a preparação das missões Pioneer em 1972 e 1974.

Inspirados pela ideia original de Sagan, com suficiente tempo e meios para produzir uma mensagem mais completa e ousada, os cientistas da missão Voyager decidiram enviar informações sobre o nosso mundo e a nossa civilização.

O primeiro problema que enfrentaram foi determinar que sistema de armazenamento de dados a escolher. Era fundamental encontrar um meio extremamente estável e de grande durabilidade. A escolha era ainda mais difícil porque deveria ser também muito leve e capaz de conter uma grande quantidade de informação. A solução óbvia foi fazer uso de uma tecnologia muito conhecida na época: a dos discos LP.

Os discos das Voyager são capazes de armazenar informação em gravuras que uma agulha traduz em sinais electromagnéticos. Este procedimento não só serve para gravar sons, como também permite gravar outro tipo de dados – incluindo imagens.

Duas matrizes metálicas de cobre foram coladas para dar os dois lados do LP – e depois cobertas a ouro para prevenir a oxidação. Uma vez que no espaço exterior não se verifica degradação, estes LPs são os artefactos tecnológicos com maior tempo possível de garantia: nada de riscos ou pó – e vão pelo menos durar um milhão de anos!

Para aumentar ainda mais a segurança dos discos, foi-lhes colocada uma capa de alumínio e ouro para os proteger dos micro-meteoritos. No interior desta «capa», encontram-se instruções de como tocar o disco e uma placa identificativa semelhante à que foi enviada pelas Pioneer. Incluiu-se também uma pequena quantidade de plutónio radioactivo para que os extraterrestres possam calcular a data em que foi fabricado.

As imagens nos discos incluem, em primeiro lugar, definições de códigos científicos que ajudarão a entender melhor o que se segue. E o que se segue são informações acerca do nosso Sistema Solar.

Contamos-lhes também muito do que sabemos sobre bioquímica terrestre, células, anatomia humana e reprodução do ser humano, mostrando-lhes diferentes estágios de crescimento das pessoas. Finalmente partilhamos informações acerca da geologia da Terra e dos outros seres vivos que nela habitam: animais e plantas.

Os discos incluem muitos dados acerca do que fomos e do que somos actualmente: costumes humanos primitivos, arte, cultura, mas também desporto, educação, alimentação, construções humanas, indústria, medicina, transportes e os avanços conseguidos em Astronomia.

Os cientistas optaram por não enviar cenas de guerra, fome e outras características mais vergonhosas da vida humana – não ficariam bem mostrarmos os nossos defeitos numa primeira apresentação formal.

Esta vontade em mostrar a nossa melhor face conduz-nos de regresso à Terra e à mais importante questão de todas: já sabemos como fomos e o que somos, sabemos identificar os erros cometidos – teremos aprendido alguma coisa quando a mensagem for interceptada?

 

A extraordinária aventura das Voyager

Quase trinta anos e 15 mil milhões de quilómetros depois, a Voyager 1 continua a transmitir informação para a Terra. São estas as últimas notícias avançadas pelo Jet Propulsion Laboratory (JPL) da NASA.

Para o ex-director da NASA e cientista do projecto Voyager Ed Stone nada disto é uma surpresa: «Já esperávamos que os aparelhos a bordo da nave continuassem a funcionar sem problemas mesmo após 30 anos.»

O Projecto Voyager remonta ao ano de 1977, quando foram lançadas para o Espaço duas sondas – Voyager 1 e 2. 15 mil milhões de quilómetros equivalem a uma distância de 100 Unidades Astronómicas (UA). Esta é uma unidade de distância aproximadamente igual à distância média entre a Terra e o Sol: 150 milhões de quilómetros. É bastante utilizada para descrever a órbita dos planetas e outros corpos celestes.

Que tipo de informações poderá ainda transmitir a Voyager 1? É preciso ver que esta é a primeira sonda fabricada pelo Homem a cruzar o Espaço entre as estrelas – o espaço interestelar. Só isso é suficiente para lhe garantir um lugar de primeira fila em futuras compilações da História da Exploração Espacial.

Mas o que já foi feito foi significativo. Não saberíamos um décimo do que sabemos hoje sobre os planetas gasosos do nosso Sistema Solar se não fossem as peregrinações da Voyager. Além das informações que as sondas recolheram nas passagens efectuadas por Júpiter, Úrano, Saturno e Neptuno, novos dados sobre os ventos solares (correntes de partículas de energia que brotam do Sol) puderam também ser analisados.

As naves atravessarão uma «zona» do Espaço repleta de material libertado por estrelas mais próximas. Para onde se dirigem e durante quanto tempo ainda poderão funcionar, recolhendo e enviando informação para a Terra? À escala humana, muito tempo. À escala cósmica, uma insignificância.

As Voyager são dos engenhos mais rápidos fabricados pelo Homem: a sonda número 1 viaja a 17,2 Km/s, ou seja, quase 62 mil quilómetros por hora; a número 2 a 15 Km/s, isto é, a 54 mil quilómetros por hora. Em termos astronómicos, contudo, deslocam-se a uma velocidade patética. Se a Voyager 1 seguisse uma trajectória que a levasse ao encontro da estrela mais próxima de nós – a Alpha Centauri, a 4,39 anos/luz – demoraria cerca de 75 mil anos a lá chegar.

Mas nem é para aí que a Voyager 1 se dirige. Daqui a cerca de 300 mil anos, a sonda passará a 1,6 anos/luz de distância da estrela AC+79 3888, situada na constelação de Camelopardus.

Passar-se-ão mais de 100 mil anos até a Voyager 2 passar a 4,3 anos/luz de distância de Sirius – a estrela mais brilhante do céu e uma das abrangidas pelo projecto de busca de exo-planetas do tipo Terra da missão Terrestrial Planet Finder.

Quando isso acontecer já as naves estarão desligadas há muito. Calcula-se que em 2020 os geradores de Plutónio já não serão capazes de produzir a energia eléctrica que alimenta os instrumentos das naves – então, estas silenciar-se-ão para sempre e não poderão transmitir para os seres humanos as maravilhas que eventualmente encontrarão num futuro longínquo. Documento PDF: Localização prevista das Voyager ao longo dos anos

→ 29/12/2006 @15:28

A vida receia a solidão cósmica [2]

A missão CoRot vai varrer os céus à procura de planetas do tipo terrestre

Está aberta em definitivo a caça aos planetas fora do Sistema Solar – os chamados planetas exosolares. Essa caça já existe há muito tempo – o primeiro foi descoberto em Fevereiro de 1995 – mas até agora os 208 planetas que conseguimos detectar foram gigantescos corpos gasosos semelhantes a Júpiter – o que queremos agora descobrir são planetas rochosos como a nossa Terra.

Um enorme passo foi dado a 27 de Dezembro com o lançamento da missão CoRot (Convection, Rotation and Planetery Transits). A missão – liderada pelos franceses – permitirá aumentar significativamente o número conhecido de planetas exosolares. E será a primeira a conseguir detectar planetas rochosos.

Durante a sua missão de 2,5 anos, a missão CoRot monetizará com o seu conjunto de pequenos telescópios acoplados no satélite um total de 60 mil estrelas. O objectivo é descobrir planetas em trânsito – isto é, planetas que passam diante de uma estrela e temporariamente lhe ofuscam o brilho. É assim que temos detectado os outros.

Por enquanto ainda não será possível, dadas as limitações desta técnica, localizar planetas rochosos mais distantes do Sol do que, por exemplo, Vénus. Isto significa que, mesmo que estes sejam encontrados, estarão demasiado perto da estrela e terão temperaturas de superfície demasiado elevadas e incompatíveis com o surgimento de vida – mas já é um começo.

Esta não é a única limitação do programa. Não estamos ainda em condições de detectar planetas com a dimensão da Terra. O que se espera encontrar são as chamadas Super-Terras – planetas rochosos mas com pelo menos o dobro do tamanho da nossa. Também será possível detectar, pela primeira vez, luas ou anéis existentes em planetas exosolares do tipo jupiteriano.

Seja como for, esta missão irá preparar o terreno para futuras missões ainda mais ambiciosas, incluindo a SIM PlanetQuest e o Terrestrial Planet Finder (TPF) da NASA. Outra missão semelhante ao CoRot, a Kepler, também da NASA, vai arrancar em 2008.

A missão CoRoT é uma parceria entre a Agência Espacial Europeia (que inclui Portugal), Austria, Espanha, Alemanha e Brasil. O satélite foi lançado ao Espaço por um foguetão Soyuz russo.

Se não podemos encontrar vida, ao menos podemos tentar descobrir locais onde sabemos que a vida pode ocorrer.

É este o principal objectivo da Missão SIM PlanetQuest da NASA (SIM é um acrónimo de Space Interferometry Mission).

A missão – prevista para a próxima década – tentará detectar planetas parecidos com a Terra – sem as limitações da actual missão CoRot. Isto significa que, a partir de 2014, estaremos em condições de descobrir planetas com massas e localizações semelhantes ao nosso e que orbitem em «zonas habitacionais», ou seja, que não estejam nem demasiado perto nem demasiado longe do Sol.

Acredita-se que um planeta deste tipo seja capaz de ter água em estado líquido na sua superfície e uma atmosfera – condições consideradas necessárias ao surgimento e sustentação da vida.

De entre as melhores 120 estrelas teoricamente candidatas a possuir um sistema solar com um planeta semelhante ao nosso, encontra-se já estabelecido que a missão conseguirá detectar planetas mais pequenos que a Terra em seis estrelas, planetas quase com o dobro do tamanho em 24 e planetas até o triplo das dimensões do nosso em redor de todos os sóis seleccionados.

Entre as seis estrelas onde a missão poderá encontrar planetas como a Terra incluem-se Sirius (a 8,57 anos/luz da Terra), Altair (a 16 anos/luz) e Alpha Centauri (a estrela mais próxima do nosso Sistema Solar, a apenas 4,39 anos/luz).

O INFERNO DE VÉNUS Esta imagem é a representação artística de um possível vulcão em Vénus. Dados revelados por anteriores missões ao planeta indicam que este é um dos geologicamente mais activos do Sistema Solar. A sonda Venus Express – em órbita no planeta – é capaz de detectar emissões de gases nas camadas inferiores da atmosfera e variações na sua temperatura – possíveis sinais de actividade vulcânica. Variações locais na temperatura e pressão atmosféricas também podem indicar actividade sísmica.

Em Vénus chovem gotas de ácido sulfúrico (mas a chuva evapora-se antes de chegar ao solo). A pressão atmosférica é equivalente à que encontraríamos a uma profundidade oceânica de 900 metros. Um dia fresco venusiano é duas vezes mais quente (450 graus) que a temperatura de um forno doméstico. A atmosfera é densa e venenosa: está cheia de dióxido de carbono (98 por cento). Se os nossos frágeis corpos terrestres fossem transportados para a superfície de Vénus seriam pulverizados em segundos: queimados, esmagados e sufocados – tudo ao mesmo tempo. Mas a investigação das condições infernais de Vénus vai muito para além de um interesse meramente astronómico: tem a ver com todos nós. Vénus é o primeiro planeta do Sistema Solar a ser vítima do chamado efeito de estufa. A Terra pode vir a ser o próximo. Outros exemplos poderão existir no Universo.

EM BUSCA DE OUTRAS TERRAS A missão Terrestrial Planet Finder é composta por dois observatórios que se complementam: um (imagem da esquerda) que detecta luz visível (será lançado em 2014) e uma formação de interferometria de infravermelhos (lançamento previsto até 2020). Ver PlanetQuest: The Movie (Formato QuickTime, 9,4 MB).

→ 29/12/2006 @3:27

A vida receia a solidão cósmica [1]

L’étoile souffrante, de Al Magnus

Thomas MannA solidão mostra o original, a beleza ousada e surpreendente, a poesia. Mas a solidão também mostra o avesso, o desproporcionado, o absurdo e o ilícito. Thomas Mann

A Ciência também procura Extraterrestres – os astrónomos fazem-no movidos pelo mesmo tipo de convicções de quem acredita em OVNIs: a de que não estamos sós no Universo.
Outra característica comum entre os homens da Ciência e os adoradores de OVNIs é que tanto uns como outros não sabem rigorosamente nada sobre o assunto. Nunca se descobriu uma única prova inequívoca e consensual da existência de qualquer tipo de vida fora do nosso planeta – muito menos inteligente.
Mas a esperança é um homenzinho verde a dizer-nos olá. E se calhar nem precisamos de tanto. Basta-nos um pedaço de rocha do tamanho de uma laranja que possa ter uma história fantástica para nos contar. Em 1996 tivemos quase a certeza absoluta de que tínhamos encontrado uma dessas rochas.
Tudo começou quando um meteorito marciano foi descoberto na região montanhosa de Alan Hills, na Antártida, no Verão de 1984, por um grupo de caçadores de meteoritos.

Robert A. HaagOs meteoritos também são um negócio. Vendem-se à grama. Os comuns (de ferro) variam entre 0,50 a dois dólares por grama; os pétreos, mais raros, entre dois e 10 dólares. Mais de 40 empresas exploram este comércio, mas a mais lucrativa é dirigida por Robert A. Haag, «o homem-meteorito». Haag é dono da maior e mais diversificada colecção particular do mundo – já arrecadou mais de um milhão de dólares. Tem 3500 clientes em todo o mundo. Um desses clientes – um empresário japonês – pagou 532 mil euros por uma pequena selecção de meteoritos.


Não tivemos grandes dificuldades em demonstrar que o meteorito veio de Marte porque contém vestígios de gases coincidentes com aquilo que conhecemos da atmosfera marciana – e conhecemo-la muito bem desde 1976, quando a sonda da Missão Viking desceu à superfície de Marte e analisou a composição atmosférica do planeta. Resultados: dióxido de carbono (95 por cento), azoto/nitrogénio (três por cento), árgon (1,6 por cento) e vestígios de oxigénio e vapor de água.
Pensa-se que o meteorito foi arrancado de Marte há 16 ou 17 milhões de anos. Depois vagueou pelo Espaço até cair na Terra há cerca de 13 mil anos.
Não só sabemos que veio de Marte como também de que local específico. Vicky Hamilton, do Instituto de Geofísica e Planetologia da Universidade do Hawaii, identificou a origem da rocha: Eos Chasma, um dos desfiladeiros do gigantesco Valles Marineris. Tal identificação tornou-se possível depois de a cientista ter comparado os dados da espectrometria do meteorito e os resultados de vários instrumentos das sondas Mars Global Surveyor e Mars Odyssey.
A descoberta foi anunciada em Setembro do ano passado, durante um encontro da Meteoritical Society, no Tennessee, Estados Unidos.

Valles Marineris

O GRANDE CANYON MARCIANO Valles Marineris é formado por um gigantesco sistema de vales entrecruzados e profundos. Encontra-se junto à faixa do equador de Marte a leste da zona Tharsis. É o maior sistema de desfiladeiros do Sistema Solar: tem mais de 4000 quilómetros de extensão. Nalgumas zonas a profundidade atinge os 7 quilómetros. A sua área cobre um quinto da área total do globo de Marte.

 

Quando cientistas da NASA e da Universidade de Stanford analisaram o meteorito – nome de baptismo: ALH84001 – , chegaram à extraordinária conclusão de que a rocha continha fósseis de microrganismos.
O que encontraram os cientistas na rocha marciana? Encontraram Hidrocarbonetos aromáticos policíclicos (PAHs), aglomerados suspeitos de glóbulos minerais e estruturas que pareciam fósseis de bactérias. Primeira evidência: os PAHs são uma família de moléculas muitas vezes encontradas em meteoritos no espaço. Isto não significa que a sua origem seja biológica, mas acontece que quando um microrganismo morre também se dá a formação deste tipo de moléculas. Como a mistura deste tipo de hidrocarbonetos encontrado no ALH84001 era muito diferente da que se encontra em meteoritos no espaço, os cientistas sugeriram uma origem biológica.
Segunda evidência: a presença de pequenos glóbulos minerais – alguns deles com núcleos contendo manganésio e ferro. Estes aglomerados minerais são parecidos com os causados pelas bactérias primitivas na Terra.
Terceira evidência: a observação com microscópio electrónico mostrou pequenas estruturas que pareciam ser fósseis de bactérias – mas muito mais pequenas do que as bactérias terrestres.
O anúncio da descoberta foi feito a 6 de Agosto de 1996. David McKay, chefe da equipa de investigação, lançou de imediato um desafio aos cépticos: «Estou convencido de que encontrámos no meteorito sinais de actividade biológica primitiva em Marte. Provem que estamos errados.»

Meteorito ALH84001

As estruturas suspeitas do meteorito ALH84001

 

Muitos cientistas rejeitaram as conclusões de David McKay. Para além da possibilidade de o meteorito ter sido contaminado na Terra, alguns defenderam que processos estritamente inorgânicos seriam suficientes para explicar a presença das moléculas orgânicas detectadas na rocha. A pequena dimensão desses fósseis também tinha um contra: sendo 1000 vezes menores que a menor bactéria conhecida, pertenceriam a organismos demasiado pequenos para constituir seres viáveis.
Prova inequívoca e consensual da existência de vida extraterrestre? Continua a não existir. Um meteorito de 17 milhões de anos não é suficiente. A célebre frase «Afirmações extraordinárias requerem provas extraordinárias», atribuída a Carl Sagan, mantém-se válida. Teremos de procurar noutro lado.
Foi uma pena. Só precisávamos disso: um mísero microrganismo. Um fóssil. Um pequeno detalhe que nos dissesse que a vida pode acontecer em qualquer lado.