
Lembro-me sempre deste homem notável em momentos como este, quando a Humanidade embarca para uma nova aventura científica – refiro-me ao lançamento do telescópio espacial Kepler, cuja câmara digital de 95 megapixéis tentará captar sinais de exoplanetas do tipo terrestre. Estes são os planetas mais preciosos para descobrir, pois se encontrarmos algum na chamada zona de habitabilidade (nem demasiado perto, nem demasiado longe da sua estrela – e mesmo esta tem de ser também amigável) poderemos estar muito mais próximos de descobrir se a vida existe para além do nosso pontinho azul.
Carl Sagan é um dos grandes responsáveis pela minha formação: mostrou-me que na luz das estrelas também brilha o pensamento humanista. Nunca se cansou de usar a nossa posição frágil no Cosmos para nos abrir os olhos; nunca desistiu de nos recordar que a existência de tudo o que conhecemos e amamos depende da luz e do calor de uma estrela vulgar, situada na periferia de uma galáxia insignificante. Pouco antes de morrer, mostrou-nos a Terra como ela é e pediu-nos que nunca nos esquecêssemos: «Observe o ponto uma vez mais. É aqui. É a nossa casa. Somos nós. Nele vivem ou viveram todas as pessoas que ama, todas as pessoas que conhece, todas as pessoas de que ouviu falar, todos os seres humanos que alguma vez existiram.»
«A conjunção da nossa alegria e do nosso sofrimento, milhares de religiões confiantes, ideologias e doutrinas económicas, todos os caçadores e recolectores, todos os heróis e cobardes, todos os criadores e destruidores da civilização, todos os reis e camponeses, todos os jovens casais apaixonados, todas as mães e pais, crianças esperançadas, inventores e exploradores, todos os professores de moral, todos os políticos corruptos, todas as «superestrelas», todos os «líderes supremos», todos os santos e pecadores da história da nossa espécie viveram lá – numa partícula de poeira suspensa num raio solar.»
Nenhum astrónomo possuía a mesma eloquência na escrita, o mesmo à-vontade diante das câmaras de televisão e a capacidade em comunicar as descobertas e aspirações da Ciência. Foi um homem inspirador porque era cientista e romântico, astrónomo e sonhador – e nenhuma destas características aparentemente opostas anulava a outra. Obrigado, meu caro Sagan.