Este é mais um guest-post do «gajo que serve pequenas e saudáveis doses de ódio e ciência com aroma a baunilha», mais conhecido por Miguel Guerreiro, autor do Perspectivas Abertas, blogue onde estas conversas se prolongam.
O Miguel escreve um post muito interessante para todos os amantes de Astronomia. E ajuda-nos a perceber que nem todos aceitaram a teoria do Big Bang como um dado adquirido – mentes notáveis como o astrónomo Fred Hoyle lutaram toda a vida contra essa ideia, preferindo a visão de um Cosmos eterno e imutável, um Universo divino que nunca explodiu nem implodirá.
É verdade, antes que me esqueça: este é daqueles posts que só podem ser lidos na totalidade se passarem por cá pessoalmente.
Para além de Júpiter, o infinito

Universo Infinito, criação de autor desconhecido
E o Universo começou há 13,7 mil milhões de anos no Big Bang – ou se calhar não.
Não se trata de um post pseudo-científico, relaxem, é só sobre um modelo do Universo alternativo, o Estado Estacionário, também conhecido por Universo Infinito ou da criação infinita. Apesar de actualmente já ter sido posto de lado pela grande maioria dos físicos, ainda existe uma mão cheia deles que a defendem, e alguns interessados na matéria, como eu.
Resumidamente, neste modelo nunca existiu uma criação do Universo e, por consequência, aquele nunca chegará a um fim. A teoria está assente no princípio cosmológico perfeito, que defende que o Universo não só é isotópico e homogéneo no espaço mas também no tempo. Ou seja, no modelo do Estado Estacionário o aspecto geral do Universo, quando visto a uma grande escala, é praticamente igual ao longo do tempo. Tal implica que, à medida que as galáxias se afastam umas das outras, nova matéria é formada no espaço livre entre elas, formando novas galáxias, e assim sucessivamente, num ciclo contínuo e infinito.
Em 1948, o Estado Estacionário (Steady State, em inglês) foi servido em dois sabores, se bem que muito parecidos, por isso o mais honesto é dizer servido dois aromas.
O primeiro, proposto por Thomas Gold e Hermann Bondi, propunha um Universo estável com uma densidade constante ao longo do tempo. A segunda proposta, por Fred Hoyle, o brilhante astrónomo que viria a tornar-se no grande cérebro desta teoria, defendia que a criação de matéria era proporcional ao afastamento das galáxias e, assim sendo, a densidade não era forçosamente constante.
O combustível do Universo

O grande astrónomo Fred Hoyle
Um dos primeiros problemas a ser resolvido por este modelo foi encontrar o combustível do Universo. Procuraram na Terra algo que servisse para o efeito, sem grande resultados, até se virarem para as estrelas, em especial o Sol.
Já se sabia – por causa da espectroscopia – que o Sol era maioritariamente constituído por Hidrogénio, sendo o resto praticamente Hélio.
Hoyle conseguiu explicar, com a nucleossíntese estelar, que o Hidrogénio, ao sofrer um processo de fusão nuclear, formava o Hélio. A fusão do Hélio forma Carbono. O processo continua, em estrelas gigantes, passando pelo Oxigénio e Silício e acabando no Ferro. Elementos mais pesados que o Ferro são formados nas supernovas. Daí se dizer que somos feitos de estrelas.
O Hidrogénio como combustível do Universo foi assumido tanto pelo Estado Estacionário como pelo Big Bang. No primeiro, Hidrogénio seria formado em pequenas quantidades no espaço vazio deixado entre as galáxias. No segundo, é formado na criação do Universo.
Note-se que foi Hoyle quem baptizou de Big Bang a teoria de Lemaître e Gamow, com intenções pejorativas – ainda assim, é curioso ver como até agora nunca se arranjou outro nome.