1/Setembro/2010

E agora, um post sobre Extraterrestres

Talvez esteja relacionado: Um planeta rochoso a 500 anos-luz (13)
Marcadores:

Tina Turner

Um dia haveremos de encontrar evidências de vida extraterrestre, mas não nessas histórias de OVNIs que só servem para nos entreter os serões.

Já li muitas centenas de casos e nunca encontrei um que não pudesse ser explicado de forma racional: fenómenos atmosféricos pouco conhecidos, aviões, balões, planetas (sobretudo Vénus), simples brincadeiras ou mentiras. No entanto, o que não faltam neste mundo são profetas interplanetários e grupos proto-religiosos que não querem saber da Ciência para nada e só pretendem conquistar fiéis sem capacidade crítica.

Por exemplo, em Agosto de 1989, o Ministério da Defesa britânico recebeu várias chamadas de pessoas que afirmavam ter visto duas a três luzes no céu, luzes verdes, vermelhas e cor-de-laranja, oscilando e movendo-se da esquerda para a direita e em redor de si próprias de uma forma que nenhum engenho voador humano seria capaz de conseguir.

Eram OVNIs pilotados por homenzinhos verdes vindos do espaço exterior? Não. Eram as luzes laser de um concerto de Tina Turner. Inúmeros casos por resolver têm explicações tão triviais como esta, mas duvido que a verdade seja defendida por esses novos profetas. (Fonte)

Existem inúmeros vídeos no YouTube que os crentes no fenómeno OVNI poderão lançar-me à cara para me fazer engolir tais heresias, mas aposto que nem um se lembrará deste vídeo mostrando-nos um OVNI voando sobre Nova Iorque. Vejam-no.

Que tal? Impressionante! Ao contrário de outras filmagens do género, não existem imagens tremidas, borradas, maus enquadramentos, luzes difusas, enfim, todos esses truques que sugerem mais do que mostram. O OVNI é claramente visível.

Sugiro agora que vejam a continuação do mesmo vídeo, sobretudo na parte em que o operador de câmara faz zoom sobre o objecto voador. Vejam-no.

Que tal? Continua a ser impressionante, sobretudo pelo que a filmagem diz sobre nós e a nossa capacidade de ver apenas o que desejamos.

No dia em que descobrirmos que existe vida fora do nosso planeta estaremos perante uma descoberta tão importante como o fogo. Só precisamos de esquecer os ETs criados pelos seres humanos e seguirmos o melhor caminho possível, o da Astronomia.

Começámos a explorar o nosso planeta e a cruzar os oceanos porque os nossos conhecimentos astronómicos nos permitiram saber em que posição estávamos e para onde nos deveríamos dirigir.

Prefiro procurar respostas na Astronomia e no trabalho de centenas de astrónomos no mundo inteiro. Tal como os exploradores do passado, os astrónomos também se guiam pelas estrelas. Já descobrimos 402 estrelas com planetas e um total de 472 planetas exosolares no Cosmos. Não conseguimos ainda detectar planetas rochosos do tipo Terra porque são demasiado pequenos e ténues – mas vamos chegar lá, mais tarde ou mais cedo.

Há menos de uma semana, astrónomos usando o espectrógrafo HARPS descobriram um sistema planetário com cinco planetas em órbitas estáveis à volta da estrela HD 10180, uma estrela do mesmo tipo que o nosso Sol e que se encontra a 127 anos-luz de distância. Os cientistas acreditam que poderão existir mais dois planetas, sendo um deles o mais pequeno alguma vez descoberto. (Fonte)

A sonda Spirit fotografou uma porção da superfície de Marte – baptizaram-na de afloramento comanche – cuja composição química sugere que a água que outrora terá corrido no planeta vermelho não era tão ácida como pensávamos – logo, aumentam as hipóteses de há vários milhões de anos a vida ter surgido em algumas regiões de Marte. Só precisamos de descobrir fósseis marcianos. (Fonte)

No caminho que nos conduzirá à maior descoberta da História da Humanidade, prefiro acompanhar as maravilhas que nos revela a Astronomia do que as histórias da carochinha contadas pelos profetas dos OVNIs.

Publicado por Marco Santos | Categoria: No mundo da Lua | 3 comentários »
21/Julho/2010

O maior berlinde do mundo

Talvez esteja relacionado: Mais 32 planetas exosolares (1)
Marcadores:

Se Deus existe deve gostar de jogar ao berlinde, a julgar pelas bolinhas rochosas e gasosas que dispôs no Universo. O seu dedo é a força da gravidade e, de vez em quando, ocorrem umas colisões entre berlindes – é inevitável. Como qualquer gajo que já jogou ao berlinde sabe, convém ter sempre um abafador: são os chamados buracos negros. Nunca fui grande fã de bilhar, pelo que prefiro a teoria do berlinde. De qualquer maneira, não gosto de imaginar um ser supremo com um taco cósmico na mão.

Sim, eu sei, não é uma explicação muito científica e não possui qualquer valor teológico, é uma desbunda inconsequente, mas fiquei impressionado com o tamanho deste berlinde.

Gigantesca estrela

Basta olhar para a ilustração para se ter uma ideia da imensidão da estrela descoberta através do VLT (Very Large Telescope): à esquerda, uma estrela anã vermelha; ao lado, uma estrela do tipo Sol; uma anã azul, na verdade um gigante comparado com a nossa; finalmente, tão grande que nem cabe no enquadramento da ilustração, a estrela R136a1, com uma massa actual de cerca de 265 massas solares e uma massa de 320 vezes a massa do Sol na altura do seu nascimento.

A estrela faz parte de um enxame estelar composto por estrelas jovens, quentes e de grande massa, situada no interior da Nebulosa da Tarântula, numa das nossas galáxias vizinhas, a Grande Nuvem de Magalhães, a 165 mil anos-luz de distância. A ESO divulga os seus relatórios para a imprensa em português, pelo que podem consultar o original e pirar-se deste blogue herege o mais depressa possível.

Publicado por Marco Santos | Categoria: No mundo da Lua | 5 comentários »
6/Abril/2010

Companhias cósmicas

Miguel Guerreiro escreve mais um guest-post no Bitaites porque andou à procura de Nemesis, a célebre estrela fantasma, a misteriosa (e hipotética) companheira do Sol. Acho que a encontrou. ;-)

Nemesis

Se Nemesis existir, será uma estrela de baixa luminosidade, possivelmente uma anã-castanha ou vermelha

O sistema triplo de estrelas centauriana – o apelido que dou ao sistema estelar que engloba Alfa de Centauro A, Alfa de Centauro B e a Próxima de Centauro – é tido como o conjunto de estrelas mais próximo do Sol. Está a uma distância próxima dos 4,2 anos-luz do Sol, que representa algo ainda inatingível para os humanos mas, à escala cósmica, algo abaixo de uma ninharia.

Os paleontólogos David Raup e Jack Sepkoski publicaram, em 1984, um papel em que afirmaram que as extinções em massa dos últimos 250 milhões de anos estavam associadas num ciclo de extinções, separados em períodos de 26 milhões de anos. Nos tempos que se seguiram surgiram explicações para este fenómeno. Uma das hipóteses favoritas – e ainda hoje relativamente conhecida – é a da existência de uma estrela, baptizada Nemesis, que seria companheira do Sol.

A existência de tal estrela implicaria que o Sol deixaria de ser uma estrela isolada. Este facto não seria surpreendente, pois uma boa dose das estrelas da nossa Galáxia está inserida em sistemas duplos e triplos. Supostamente Nemesis teria uma órbita extremamente excêntrica a uma distância de 1 ou dois anos-luz do Sol. A órbita seria completada a cada 26 milhões de anos, o que deveria explicar a periodicidade das extinções em massa. Evoca-se este argumento porque se acredita que a principal origem destas extinções é cosmológica, em especial quedas de asteróides e cometas, possivelmente originários da Nuvem de Oort.

A ideia é que quando a hipotética Nemesis, devido à sua órbita, se encontra na região mais próxima do Sol, deve criar uma distorção gravítica suficientemente forte para que alguns objectos da nuvem cometária sejam projectados para as regiões interiores do sistema solar. Contudo, até a data, continua a ser um objecto hipotético e, se existir, é uma estrela de baixa luminosidade, possivelmente uma anã-castanha ou vermelha.

A explicação mais actual para a periodicidade das extinções é a de que, à medida que o sistema solar orbita o centro da galáxia, vai sofrendo oscilações pelo caminho. Supõe-se que as oscilações sejam suficientes para criar distorções gravíticas, mais ou menos na mesma medida que a suposta estrela companheira do Sol.


Uma nova vizinha

Ao longo do tempo que o Sol vai orbitando em torno do centro da Via Láctea, e levando o resto do sistema solar com ele, vai havendo mudanças de vizinhanças. Por exemplo, o Sol pode ter-se formado num ambiente semelhante ao das muitas estrelas que podemos ver na nebulosa de Órion. Contudo, devido à sua viagem, afastou-se das suas irmãs. É possível que venha a acontecer o mesmo às jovens estrelas que vemos actualmente na nebulosa.

Prevê-se que uma estrela designada por Gliese 710 se torne, dentro de 1 milhão e meio de anos, a estrela mais próxima do Sol. Pelos vistos, o Sol tem aproximações com outras estrelas a distâncias menores a um parsec (3,26 anos-luz), a cada 2 milhões de anos. Assumindo que a Nemesis não existe, podemos dizer que a Gliese 710 tomará o seu lugar quando chegar mais perto de nós.

Da mesma maneira que o Sol arrasta consigo o sistema solar, a Gliese 710 pode arrastar consigo um sistema planetário. Se conseguirmos sobreviver mais 1,4 milhões de anos, a vida extraterrestre poderá chegar por intermédio de uma viagem interestelar que não necessita de tecnologia. Pensa-se que se aproximará da Terra até cerca de 1 ano-luz. Poderíamos contactar hipotéticos seres em 10 anos, se viajássemos a 1/10 da velocidade da luz.

Na verdade, em menos tempo que isso, visto que à distância de um ano-luz as comunicações rádio ainda são bastante viáveis; por isso, um possível contacto poderia ser estabelecido em 2 anos. Um ano para que a mensagem chegasse lá, algum tempo para que eles a interpretassem e novamente um ano para que voltasse a resposta. Isto utilizando a tecnologia a que temos acesso actualmente.

Obviamente que para isto acontecer tenho de assumir que os seres humanos serão capazes de sobrevir até a data. Que consigam sobrevir a possíveis chuvas de asteróides e cometas, dado que a aproximação deverá ser suficiente para causar estragos na nuvem de Óort. E claro, que também eles possuam capacidade e tecnologia compatível para interpretarem a nossa mensagem… E tenham intenções pacíficas. Fontes: Gliese 710 = Nemesis? | Gliese 710 será a estrela mais próxima da Terra além do Sol | Nemesis | Gliese 710 |

Publicado por Miguel Guerreiro | Categoria: No mundo da Lua | 2 comentários »
30/Março/2010

Ufa, afinal o mundo não acabou

Talvez esteja relacionado: O que um feixe de protões pode fazer a uma pessoa (5)
Marcadores: , ,

Depois de algumas avarias e de um longo período de testes, ontem foi mesmo a valer. E afinal o mundo não acabou sugado por um buraco negro, como receavam os catastrofistas.

A experiência que poderá mudar a forma como conhecemos e descrevemos o Universo foi um sucesso: o grande acelerador de partículas do CERN – Laboratório Europeu de Física de Partículas –, a máquina mais complexa alguma vez construída pelo Homem, produziu no seu anel subterrâneo de 27 quilómetros de circunferência centenas de milhões de colisões de feixes de protões a 99,9 por cento da velocidade da luz. Destas colisões, um milhão contém informação válida que os físicos poderão tratar nos próximos dois ou três anos.

Nunca uma máquina foi capaz de gerar tanta energia. Por isso se diz que a experiência é como produzir um Big Bang em miniatura: a quantidade de energia produzida naquelas condições de densidade equivale à que foi produzida nos primeiros microsegundos de existência do Universo.

Que procuram os cientistas de tão importante? Uma misteriosa partícula elementar que ainda ninguém sabe muito bem o que é e como funciona, o bosão de Higgs, assim baptizado porque a sua existência foi prevista, em 1964, pelo físico britânico Peter Higgs.

A existência desta partícula foi prevista em teoria pelo físico Peter Higgs, mas ainda não a pudemos “ver” em acção – e é por isso que esta experiência é tão importante para os físicos: pela primeira vez, podemos não só confirmar a sua existência como perceber de que forma esta partícula interage com a matéria.

Para ter uma ideia de como é importante esta experiência no acelerador de partículas, imagine-se uma espécie de seres inteligentes vivendo num planeta como o nosso mas que não possui o sentido da visão. Como poderia explicar o calor agradável que recebe todos os dias? Um físico poderia inventar fórmulas e equações para explicar o calor gerado e prever que só poderia dever-se à existência de uma fonte de calor com determinadas características. Imagine-se então que essa espécie concebe um instrumento capaz de “ver” o Sol, descodificar essa informação de forma a ser entendida por um invisual e este possa demonstrar que o calor vem de um objecto celeste chamado estrela que possui um número de características físicas suficiente para podermos determinar-lhe a natureza.


A partícula de Deus

Agora imagine-se o mundo tal como o conhecemos, do mais pequeno ao maior dos objectos, do átomo às galáxias, da gravidade que nos faz cair ao chão à gravidade que move as estrelas,  da matéria que podemos observar todos os dias à matéria escura, invisível, que sabemos existir no Cosmos: a partícula capaz de dar sentido a todas as equações e fórmulas que temos usado para descrever o Universo é o bosão de Higgs. O bosão de Higgs é o elo que nos permitirá ligar a origem do Universo – o Big Bang – ao Universo actual, o mais pequeno ao maior, as diversas forças, da energia nuclear à gravitacional.

O Prémio Nobel da Física Leon Lederman, um homem conhecido pelo seu sentido de humor e o jeito em cunhar frases que ficam no ouvido, chamou-lhe «a partícula de Deus». Não o fez com o objectivo de dar uma dimensão religiosa à Física, mas para transmitir aos leigos a importância da descoberta.

«É como se fossemos cegos perante o Universo», explica-me Gaspar Barreira, presidente do LIP (Laboratório de Instrumentação e Física Experimental de Partículas). «O sucesso desta experiência do CERN permitir-nos-á abrir os olhos para os 95 por cento do Universo que não podemos observar: a matéria escura, a energia escura. Poderemos ter um conhecimento sem precedentes do Universo», afirma.

Caso se chegue à conclusão de que essa partícula não existe, então os físicos terão de reformular todas as fórmulas e equações usadas para descrever o funcionamento do Universo, incluindo o seu começo à la Big Bang. «Mas essa possibilidade não me preocupa», diz Gaspar Ferreira, «pois é quando se questiona que a Ciência consegue avançar mais».


Epílogo

- Marco, estás a escrever o quê?
- Uma cena sobre o bosão de Higgs.
- E quem é o bonzão do Higgs?

Publicado por Marco Santos | Categoria: No mundo da Lua | 13 comentários »
26/Março/2010

Em busca de Pandora

A sonda Kepler e o pano de fundo de um novo Sistema Solar

A sonda Kepler e o pano de fundo de um novo Sistema Solar [Ilustração: NASA/Wendy Stenzel]


O filme Avatar explora uma hipótese que cientistas há muito tempo consideram plausível: a existência de luas habitáveis algures no vasto Universo, exoluas. Em Avatar, a exolua, luxuriante, chama-se Pandora e orbita um planeta fictício gigante e gasoso – Polyphemus – num sistema estelar que de facto existe e se encontra muito perto do nosso Sol: Alfa Centauri.

Alfa Centauri é um sistema triplo: as duas estrelas principais, Alfa Centauri A e B, encontram-se a apenas 4,37 anos-luz de distância. A terceira estrela está ainda mais perto, a 4,2 anos-luz, uns meros 40 triliões de quilómetros.

A Alfa Centauri A é uma estrela amarela, do tipo G, o mesmo do nosso Sol, mas é 23 por cento maior; a estrela B é uma laranja do tipo espectral K, mais fria, com um raio 14 por cento menor de que o do Sol; a terceira, baptizada Proxima Centauri por se encontrar a menor distância, é uma anã vermelha à mercê da gravidade das outras duas, é 1,5 vezes maior do que Júpiter e demora um milhão de anos a dar uma volta completa às estrelas principais.


Demasiado perto, demasiado longe

À escala cósmica, todas estas estrelas são vizinhas, estão no quintal ao lado do nosso – à insignificante escala humana, estão a distâncias impossíveis. O engenho mais rápido alguma vez fabricado pelo Homem é a sonda Voyager 1, lançada em 1977, que cruza o espaço à velocidade de 17,2 Km por segundo, ou seja, quase 62 mil quilómetros por hora: a Voyager 1 demoraria 75 mil anos a chegar ao sistema Alfa Centauri.

Não podemos lá ir fisicamente, portanto até um telescópio se pode transformar em ferramenta de poetas: «Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver o universo… Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer. Porque eu sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha altura», escreveu um dos maiores de sempre, Alberto Caeiro.

Uma das ferramentas através das quais a Humanidade pode ver além das suas limitações físicas é a sonda Kepler – um observatório espacial projectado pela NASA com o objectivo de descobrir planetas exosolares.


Kepler à procura de novos mundos

A missão Kepler, lançada em Março do ano passado, será capaz de encontrar exoluas, essas hipotéticas Pandoras.

A astrofísica Lisa Kaltenegger, do Centro de Astrofísica Harvard-Smithsonian, da Universidade de Cambridge, nos Estados Unidos, parte da observação do nosso próprio Sistema Solar para justificar o seu jovial optimismo: «Todos os gigantes gasosos no nosso sistema possuem luas rochosas e luas congeladas», afirmou à Space.com. «É plausível pensar que Júpiteres exosolares possam também ter as suas próprias luas. Algumas destas podem até ser do tamanho da Terra e capazes de sustentar uma atmosfera densa.»

Não será fácil descobri-las, sobretudo tendo em conta que, infelizmente, não parece existir qualquer planeta gigante gasoso no sistema triplo Alfa Centauri.

A mesma Lisa Kaltenegger escreveu um artigo para a Astrophysical Journal Letters no qual elegeu Alfa Centauri como exemplo de «um alvo excepcional que os cientistas poderiam investigar» com o telescópio espacial de nova geração, o James Webb Space Telescope. Dado que Alfa Centauri não é muito promissora, apesar da sua tentadora proximidade, sempre podemos explorar outras estrelas: «Existem diversas estrelas próximas de nós com planetas gigantes», diz Kaltenegger, «e alguns orbitam nas zonas habitáveis das suas estrelas, tornando-os sistemas potenciais do tipo Pandora».

Não admira por isso que o sucesso do filme Avatar seja usado pela astrofísica para chamar a atenção para as verdadeiras maravilhas que nos esperam se, como será preferível, confiarmos mais na Ciência e menos na superstição: «Se Pandora existisse, potencialmente poderemos vir a detectá-la e estudar a sua atmosfera nos próximos anos».


Uma agulha num palheiro cósmico

Os exoplanetas são detectados da seguinte forma: ao passarem pela estrela, eclipsam a luz estelar em quantidades ínfimas, mas detectáveis, de luz. Este trânsito exoplanetário pode durar algumas horas e é necessário um alinhamento perfeito entre a estrela, o exoplaneta e a nossa linha de visão.

Kaltenegger acredita que a missão Kepler será agora capaz de detectar e separar a luz de um exoplaneta e das suas eventuais exoluas: a gravidade da lua empurra o planeta, acelerando ou travando o seu trânsito pela estrela-mãe. As variações resultantes em cada intervalo de tempo indicam a presença do satélite, escreve o blogue Eternos Aprendizes num post sobre o mesmo tema.

(Os dois parágrafos que se seguem são uma adaptação do lá se escreveu, o que não dispensa uma leitura do post completo. Tal como este, tem como principal fonte o artigo de Charles Q. Choi escrito para a Space.com, mas é escrito por quem tem mais conhecimentos do que eu.)

Uma vez encontrada a exolua, prossegue o autor do post, Ricardo de Castro, o próximo objectivo será tentar descobrir-lhe uma atmosfera consistente. Em caso positivo, os gases que a constituem absorvem uma fracção da luz estelar durante o trânsito, transmitindo aos observadores aqui na Terra a possibilidade, fugaz mas consistente, de ler a assinatura da sua composição química.

Nesta busca por uma Pandora no Universo, será necessário descobrir se a lua possui uma magnetosfera suficientemente forte para protegê-la dos ventos estelares, da radiação cósmica e da radiação do gigante a seu lado. Também será fundamental certificarmo-nos de que a lua consegue sustentar uma atmosfera. A nossa Lua, demasiado pequena, não consegue; Titã, uma das luas de Saturno, mais massiva, possui atmosfera.


A vida, tal como não a conhecemos

Os alienígenas de Avatar são muito diferentes de nós, mas apenas superficialmente: são formas de vida baseadas no carbono, a sua estrutura anatómica é semelhante, até a sua psicologia é humana – limitações próprias de uma história de ficção científica escrita para ser desfrutada pelo maior número de pessoas (humanos). Mas é possível pensar na possibilidade de tipos de vida que não conhecemos e, por isso, serem mais difíceis de descobrir (ou aceitar).

Um artigo da Daily Galaxy menciona o problema e cita o famoso Stephen Hawking: «Normalmente pensamos na vida como resultado de uma cadeia de átomos de carbono, com alguns outros como o nitrogénio e o fósforo, mas também podemos imaginar vida com outras bases químicas, como o silicone». «Ainda assim», prossegue Hawking, «o carbono parece ser o mais favorável, pois possui a química mais rica».

Outros cientistas não concordam com esta redução de possibilidades ao carbono e acreditam em formas de vida extraterrestres baseadas numa miríade de combinações químicas possíveis, da vida baseada em amoníaco à vida baseada em hidrocarbonetos ou silicone.

O artigo da Daily Galaxy é uma leitura fascinante para quem se interessa por especulações exobiológicas. Até o grande astrofísico Sir Fred Hoyle não desdenhou o poder da imaginação aliada à Ciência, quando escreveu, em 1957, a novela de ficção científica The Black Cloud, sobre uma misteriosa Nuvem Negra, uma nuvem de gás que se aproxima do Sistema Solar e ameaça a vida na Terra ao bloquear a luz do Sol. Face ao comportamento imprevisível da nuvem, os cientistas terrestres concluem, incrédulos, que a nuvem está viva e é dotada de inteligência.

A Terra, o sistema solar e a nossa galáxia deixaram de ser o centro do Universo observável; talvez um dia possamos concluir que o carbono também não é o centro de um Universo dotado de consciência.

Publicado por Marco Santos | Categoria: No mundo da Lua | 2 comentários »
19/Fevereiro/2010

15 planetas exosolares interessantes

Talvez esteja relacionado: À procura de planetas em Alfa Centauro (1)
Marcadores: , ,

Uma bela dica do Victor Afonso conduziu-me ao sítio ListVerse, que produz listas sobre tudo e mais alguma coisa. Esta reúne «15 planetas fascinantes fora do nosso Sistema Solar».

O número de planetas descobertos fora do nosso Sistema Solar já ultrapassou os 400. Embora ainda não tenhamos encontrado uma segunda Terra, o número de sistemas conhecidos em tão pouco espaço de tempo sugere que a formação de sistemas solares em múltiplos tipos de estrelas é comum no Universo; dada a imensidão do Espaço, cada novo planeta faz aumentar a esperança de encontrar um onde a vida possa vir a surgir ou, até, já ter surgido – não propriamente vida inteligente, mas qualquer forma de vida, por mais inconcebível aos nossos olhos.

O ListVerse compilou uma lista de 15 planetas interessantes – uns por revelarem que a formação planetária é quase tão antiga como o próprio Universo, outros por se situarem em zonas habitáveis, alguns por orbitarem sistemas estelares demasiado excêntricos para, sequer, os imaginarmos.

Na lista desse sítio, há uma referência notável logo no primeiro item da lista. O planeta PSR B1620-26 b é o mais velho que se conhece. Deram-lhe uma alcunha apropriada: Matusalém, personagem bíblico do Antigo Testamento que se destaca dos outros por ter sido o que viveu mais tempo: entregou a alma ao Criador aos 969 anos.

O planeta Matusalém também se destaca dos outros pelo mesmo motivo: tem 12,7 mil milhões de anos de idade, quase três vezes mais velho do que a Terra, que tem 4,5 mil milhões de anos. Descoberto a 30 de Maio 1993, a confirmação de que se tratava realmente de um planeta só ocorreu dez anos mais tarde, a 10 de Julho de 2003. Orbita um sistema estelar duplo composto por uma estrela anã branca e um pulsar (uma estrela de neutrões muito pequena e densa). Matusalém tem cerca de 2,5 vezes a massa de Júpiter e orbita a cerca de 3.400 milhões de quilómetros do seu sistema estelar, uma distância um pouco superior à que separa Urano do Sol.

Queria também chamar a atenção para a referência a Epsilon Eridani, logo a segunda da lista. Epsilon Eridani deve a sua designação à estrela, um objecto da classe espectral K2, muito perto de nós, a 10,2 anos-luz, com cerca de 85 por cento da massa do nosso Sol. A presença de dois planetas – Epsilon Eridani a e b – está ainda por confirmar, ao contrário do que anuncia o post do ListVerse. Ainda assim, é uma boa leitura.

Publicado por Marco Santos | Categoria: No mundo da Lua | 2 comentários »
20/Janeiro/2010

Magnífico berço de estrelas

Talvez esteja relacionado: Mil milhões de anos depois da Criação (12)
Marcadores: , , , ,

Berço de estrelas

Maravilhosa, esta imagem (link) captada pelo Hubble de um grupo de jovens estrelas – apenas alguns milhões de anos de idade, umas criancinhas – numa região turbulenta da Grande Nuvem de Magalhães onde muitas e muitas estrelas são formadas. Não existe, na nossa galáxia, um berço de estrelas tão grande e activo como o complexo Doradus 30, ou Nebulosa de Tarântula.

Estão a ver as estrelas de brilho azul? São das mais massivas que se conhecem, algumas das quais 100 vezes mais massivas do que o nosso Sol.

Estas acabarão provavelmente os seus dias explodindo como supernovas – e o que agora vemos como uma árvore de Natal celestial transformar-se-á, daqui a uns bons milhões de anos, numa espécie de fogo de artifício cósmico – explosões sem som, claro: ao contrário do que mostra a maioria dos filmes de ficção científica, o som não se propaga no Espaço.

Abençoado Kubrick, que em 2001 substituiu o silêncio por uma valsa de Strauss e uniu Arte e Ciência de uma forma tão bela e harmoniosa! [Foto: NASA, ESA, F. Paresce]


As cores desta imagem

Códigos e esquemas de cor extraídos desta imagem do telescópio Hubble: aqui
Publicado por Marco Santos | Categoria: No mundo da Lua | 6 comentários »
9/Janeiro/2010

Russos querem chegar a Marte em 2032

Talvez esteja relacionado: Prepara-se a missão a Marte (0)
Marcadores: , ,

A Rússia quer enviar uma expedição tripulada a Marte até 2032 mas, primeiro, terá de resolver alguns problemas que a adaptação fisiológica e psicológica dos tripulantes às condições de vida e trabalho poderá causar, assim como a interacção entre a tripulação e o centro de comando, o funcionamento de sistemas vitais e de investigação.

Como saber se um grupo de pessoas a viver durante quase dois anos no espaço pequeno de uma nave espacial aguentará psicologicamente? E como antecipar problemas de forma a encontrar respostas?

A solução tem sido simular essas condições na Terra – a primeira fechou os astronautas durante 105 dias; hoje, peritos do Instituto de Problemas Médico-Biológicos de Moscovo anunciaram ter já seleccionado os integrantes da tripulação internacional que realizará o primeiro simulacro a sério de um voo ao planeta Marte. Os restantes participantes, escolhidos pela Agência Espacial Europeia, são um piloto francês e um engenheiro alemão. Também a China deverá enviar um candidato para se juntar à tripulação.

Em Março, inicia-se a experiência: todos eles passarão 520 dias enfiados numa falsa cápsula, sujeitos às mesmas condições de voo que encontrarão durante a viagem a Marte, incluindo rotinas de trabalho. Esta é a última da série de simulacros da expedição interplanetária que se têm realizado na Terra: o projecto Marte 500.

Pavel Morgunov, porta-voz do Instituto, afirma que «os voos a Marte só serão possíveis depois do homem regressar à Lua. A Agência Espacial Europeia considera mais útil explorar Marte, os Estados Unidos dão prioridade à Lua e a Rússia, hoje, trabalha mais virada para a Lua do que para Marte».

O chefe da Agência Espacial da Rússia, Anatoli Perminov, anunciou também que o seu país irá começar voos pilotados à Lua e Marte depois de 2020, a partir do cosmódromo Vostotchnii, no Extremo Oriente russo.

Publicado por Marco Santos | Categoria: No mundo da Lua | 12 comentários »
28/Dezembro/2009

O planeta mais azul do Sistema Solar

Talvez esteja relacionado: E depois de Júpiter, o Infinito (5)
Marcadores: , , ,

Neptuno é belo e começou por ser uma estrela, antes de ser um planeta. Galileu foi o primeiro a observar Neptuno, 30 vezes mais afastado do Sol do que a Terra, mas não o reconheceu como planeta: pensava ser uma estrela.

A observação e as suas conclusões foram registadas pelo próprio Galileu a 28 de Dezembro de 1612.

Exactamente 397 anos depois da primeira observação do cientista, aqui estamos nós, observando o planeta com um detalhe impensável naqueles tempos.

Neptuno em todo o seu esplendor

Neptuno em todo o seu esplendor, fotografado pela Voyager 2

Devemo-lo sobretudo à espantosa viagem da pequena sonda Voyager 2: em 1989, descobriu que Neptuno – à semelhança de Júpiter –  também tinha a sua própria mancha, escura e não vermelha, formada por uma massa de gases, sobretudo hidrogénio e hélio, girando como um furacão.

Em 1994, o telescópio Hubble descobriu que a Grande Mancha Escura desaparecera.

Neptuno não tem uma superfície sólida como a Terra. Se lá fossemos com uma nave espacial, teríamos de enfrentar uma primeira camada de nuvens formadas por metano gelado, depois uma outra camada, constituída por nuvens de sulfeto de hidrogénio, que cheirariam a ovos podres se passassem pela Terra, nuvens levadas por ventos que sopram a cerca de 1100 quilómetros por hora.

Admitindo que a nossa nave sobreviveria aos ventos apocalípticos e à pressão da atmosfera, flutuaríamos numa massa de gases extremamente condensados. Se conseguíssemos descer ainda mais, muito mais, às profundezas do planeta, chegaríamos a uma região onde esses gases se misturam com água em estado líquido, rodeando um núcleo central de rocha e gelo.

A Grande Mancha Escura de Neptuno

A Grande Mancha Escura de Neptuno: descoberta em 1989, desaparecida em 1994

Nuvens no planeta devem cheirar a ovos podres

Nuvens no planeta são levadas por ventos de 1100 quilómetros por hora

Se descontarmos o episódio de Galileu, Neptuno acabou por ser descoberto graças à Matemática, antes mesmo de a sua existência ter sido confirmada por um telescópio.

Os astrónomos já tinham notado que Úrano nem sempre se encontrava na posição prevista e que a força de gravidade de um corpo celeste desconhecido deveria estar a influenciar a órbita daquele planeta.

Em 1843, um matemático e astrónomo inglês chamado John C. Adams começou a trabalhar para encontrar a localização exacta do novo planeta. Os seus cálculos para o posicionamento de Neptuno, que viriam a confirmar-se correctos, foram apresentados em Setembro de 1845, quase 234 anos depois da primeira observação de Galileu.

Publicado por Marco Santos | Categoria: No mundo da Lua | Comentários Desligados