Astronomia, Biologia, Estranhos Fenómenos e tudo o que tem a ver com a Ciência.

→ 07/05/2012 @23:32

Flatulentossauros

Uma nave de ETs que observasse o nosso planeta a grande distância poderia determinar a quantidade de gás metano de origem biológica existente na atmosfera e tirar algumas conclusões importantes.

Não seria uma coisa do outro mundo, descobrir vida devido à flatulência.

A flatulência dos herbívoros aumenta a presença de metano na atmosfera – as vacas, por exemplo, dão um contributo razoável para o aquecimento global.

Nós somos pequeninos e os nossos gases mais insignificantes, mas compensamos as insuficiências porque conseguimos fazer com o cérebro o que a Natureza nunca nos permitiu com o cu: expelir para a atmosfera todos os géneros e estilos de flatulências em quantidades industriais.

Mas nem a nossa flatulência ideológica poderia ter rivalizado com a dos calhamaços biológicos que nos ocupam o imaginário desde crianças: os dinossauros.

Saurópode, o grande flatulento

Uma equipa formada por investigadores das Universidades John Moore, em Liverpool, de St. Andrews, na Escócia, e da Universidade de Londres, chegou à espantosa conclusão de que a flatulência de um grupo de dinossauros comedores de plantas – os saurópodes – terá tido um «importante efeito» no aquecimento global na Era Mesozoica.

Os saurópodes eram animais gigantescos e de longos pescoços: algumas variedades podem ter atingido os 58 metros de comprimento, outras os 18 metros de altura. Uma girafa, quatro vezes mais baixa, teria sido uma anã atarracada ao pé de um destes colossos.

Tendo em conta o conhecimento das dimensões médias daqueles animais e os dados sobre a sua densidade populacional, os investigadores calcularam um número: só à conta dos saurópodes eram produzidos, todos os anos, 520 milhões de toneladas de gases.

Estimativa dos níveis de metano produzidos nas eras moderna e pré-industrial, e pelas vacas e saurópodes

Tamanha descarga de metano – prosseguem os cientistas – é comparável à quantidade produzida atualmente por seres humanos e animais, e é o dobro da que existia antes da industrialização.

 

Um pum do Cretácico

A hipótese «flatulentossauro» já fora avançada em fevereiro de 2007 por um senador republicano, Dana Rohrabacher, conhecido por defender a hipótese segundo a qual as ações da Humanidade não são suficientes para provocar um aquecimento à escala global.

Por defender estas posições Rohrabacher é também conhecido, em muitos sítios na Web, pelo cognome «O Idiota».

Rohrabacher brincou com a flatulência dos dinossauros durante uma audiência no Congresso para discutir estas questões do Aquecimento Global e as conclusões de um relatório sobre uma subida drástica nas temperaturas médias do planeta ocorrida há 55 milhões de anos, num período justamente chamado de Máximo térmico do Paleocénico-Eocénico.

«Nós não sabemos o que causou esses ciclos de subida e descida de temperaturas no passado», afirmou então o senador. «Podia ser flatulência dos dinossauros, quem sabe?»

E assim se fez história: o senador não acreditava que a ação humana pudesse ter como consequência o aquecimento global, mas deu o benefício da dúvida aos dinossauros.

Infelizmente para o reconhecimento do senador como um especialista em flatulentossaurologia, nesse período da pré-História já os dinossauros tinham desaparecido da face da Terra: a extinção deu-se no final do período Cretácico, ocorrido uns dez milhões de anos antes do período Máximo térmico do Paleocénico-Eocénico mencionado no relatório.

À escala geológica, o tiro do senador foi de raspão – vá lá. Sempre foi melhor do que adotar a escala Criacionista.

 

Pequenas ações históricas

Quer se aceite como correta a hipótese dos cientistas ou se acredite na especulação do senador, é inegável que o peido é muito mais importante na história do planeta Terra do que imaginávamos.

E este pode ser um pensamento reconfortante quando, por alguma razão que só um exame médico minucioso poderá explicar, te acontecer com demasiada frequência aquilo que muito educadamente costumamos referir por «descuido».

É escusado fazer uma careta de repulsa e queixares-te «Que horror, mas que mau cheiro vem a ser este»

(como se não fosse nada contigo).

Mais vale encheres-te de brio e perguntar: «Qual é o problema? Os dinossauros já o faziam há milhões de anos, se estivesse aqui o Darwin ele explicava-vos tudo». E ignora o engraçadinho que te disser «Bolas, e pensava eu que se tinham extinguido por causa de um asteróide. Depois da experiência de hoje, estou já a considerar outra hipótese».

Uns invejosos do metano – e já explico porquê.

Se a vida íntima dos dinossauros não é a tua cena, bem, considera que poderás ter contribuído para que um extraterrestre um dia venha a concluir que existe vida na Terra e eles afinal não são os únicos a ruminar entre as estrelas.

Neste caso, meu amigo, descuida-te com pompa e circunstância. Se for preciso, sobe à cadeira com a confiança de um Sheldon Cooper e anuncia: «Acabei de largar gás metano na atmosfera. Esta é a minha contribuição para determinar a posição da Terra no Cosmos. O meu projeto SETI. A minha oferta à Humanidade. Sugiro que todos vocês sigam o meu exemplo, e contribuam.»

→ 02/05/2012 @0:49

Obviamente, demasiado Sol

Uma cidadã não-identificada da localidade de Wolfhalden, no leste da Suíça, viu um documentário sobre um guru indiano que «vivia há 70 anos sem comer nem beber», alimentando-se apenas de ar e raios do Sol.

Impressionada, a senhora decidiu iniciar a sua própria dieta solarenga. Semanas depois, morreu à fome.

 

Teorias de cortar a respiração

Terá a senhora ascendido à «Terra Primordial» ou «Nova Terra»? Tudo é possível no Reino da Suprema Estupidez. Segundo Wiley Brooks, líder do Instituto Respiratoriano da América, a Nova Terra fica lá para os lados da «quinta dimensão – um mundo sem as vibrações do medo ou da dor.»

Este é um mundo onde «se sente amor, paz e alegrias incríveis», amor e alegria com os quais «apenas podemos sonhar neste mundo tridimensional onde vivemos».

Andaram os desgraçados dos físicos a partir a cabeça com a teoria de Kaluza-Klein sem sequer suspeitar que a «dimensão escondida» no espaço-tempo de Einstein estava ao alcance de um comprimido de Xanax.

Wiley Brooks, 74 anos, «professor especialista em ascenções» (nada a ver com elevadores) explica na página de perfil que a sua missão é povoar a «Terra Primordial» de tantos humanos quanto lhe for possível antes de 20 de março de 2013.

Wiley Brooks é um respiratoriano há 30 anos – isto significa que, «sob determinadas circunstâncias», consegue viver sem ingerir «comida física».

As pessoas que costumam afirmar «desde que vi um porco a andar de bicicleta já nada me surpreende» talvez ainda não conheçam o Respiratorianismo.

Sim, é um nome difícil, mas garanto-vos que é ainda mais complicado de aceitar do que soletrar. Seja como for, ambos os fenómenos – o ser humano a alimentar-se de ar e luz do Sol, e o porco a andar de bicicleta –  podem ser explicados da mesma forma.

Segundo esta página, o Respiratorianismo «é um estado do ser humano, caracterizado (entre outras coisas) pela abstinência de comida, resultado de uma expansão da esfera consciencial na qual a pessoa vive».

 

Respiratorianismo versus Ciclosuinismo

Um porco a andar de bicicleta

A caracterização de um respiratoriano é maravilhosamente flexível e pode ser usada para explicar o fenómeno do porco ciclista.

Vamos experimentar? O Ciclosuinismo é «um estado do porco, caracterizado (entre outras coisas) pela capacidade em andar de bicicleta, resultado de uma expansão da esfera consciencial na qual vive».

Como sempre acontece, as expressões-chave usadas por mentes iluminadas como a de Wiley Brooks são precisamente aquelas que nada significam – não significando nada em concreto, podem ser interpretadas segundo as conveniências de cada um.

Com jeitinho, poderíamos usar a expressão «expansão da esfera consciencial» para explicar fenómenos que não conseguimos compreender como, por exemplo, a fotossíntese – não por serem transcendentes mas por serem científicos e não percebermos um boi do que é a Ciência e de como esta transforma hipóteses em teorias verificáveis sem o auxílio de esferas conscienciais.

«Em geral», prossegue o texto, «um respiratoriano ideal (totalmente realizado) não necessita comer e nem beber água para manter o corpo funcionando perfeitamente. Um respiratoriano não consome comida e nem líquidos (incluindo água), ele precisa somente de ar para nutrir o seu corpo.»

O ser humano necessita apenas de ar para comer e o porco só precisa de uma bicicleta para que consiga pedalar. Tudo é possível de acontecer quando a esfera consciencial se expande.

 

Não és um Homem, és uma planta

Wiley Brooks e todos os outros profetas da sub-nutrição querem fazer-nos acreditar que o ser humano, tal como as algas, as plantas e algumas bactérias, é capaz de produzir o seu próprio alimento a partir do dióxido de carbono. Possuímos a capacidade de nos tornarmos seres autotróficos e usarmos a fotossíntese se conseguirmos expandir a esfera consciencial.

O único momento da vida onde pareço estar a expandir a minha esfera consciencial é nas caretas que faço quando estou na casa de banho com prisão de ventre –  mas quem sou eu, pobre terrestre de terceira dimensão, para entender coisas tão espiritualmente elevadas? Eu faço parte do grupo de gente bizarra que precisa de comida para fornecer energia ao organismo.

Não obstante o meu ceticismo, as seguintes questões mantém-se válidas: o que é e como se consegue expandir a esfera consciencial?

A resposta é simples: recorrendo aos ensinamentos pagos de pessoas como Wiley Brooks, o ascensorista das almas. E de que forma passamos a saber da existência de pessoas como Wiley Brooks? Através de documentários onde alegações insanas nos são apresentadas sem o espírito crítico que recuperaria a verdade dos factos e a sanidade mental do espectador, mas prejudicaria o espetáculo circense – documentários como o que a senhora na Suíça terá visto.

Claro que a livre circulação de informação também pode prejudicar os vigaristas, ao invés de os beneficiar. Que o diga o nosso respiratoriano Brooks, que em 1983 foi apanhado a sair de uma loja 7-Eleven (uma marca de lojas de conveniência) com um refrigerante gelado, um cachorro-quente e um bolinho twinkie

(hum, que delícia cremosa, muito melhor do que apanhar um escaldão. Terá sido uma semana muito chuvosa?)

Em 2003, com o negócio da sub-nutrição a falhar, Brooks foi obrigado a dar umas quantas explicações: a culpa era da poluição do ar – o que faz sentido, pois ninguém gosta de ingerir comida estragada. Antecipando futuras transgressões à dieta de Sol e ar, ressalvou que consumir o ocasional cheeseburguer e uma coca-cola lhe permitia «adicionar equilíbrio» num mundo repleto de restaurantes fast-food e junk-food –  uma explicação tão satisfatória como a esfera consciencial em expansão. E afirmou também que Diet Coke é «luz líquida».

Conclusão: se te faltar a luz em casa não uses lanternas, bebe Diet Coke! Nem os criativos do Marketing da Coca-Cola seriam capazes de nos impingir esta.

 

Ciência, só depois de amanhã

Quem diz que se alimenta de ar só pode influenciar cabeças cheias de ar. Não se trata de ter uma «mente aberta», como tantas vezes se ouve dizer como resposta às vozes céticas, mas de a ter quase completamente oca, a ponto de desprezar as evidências e muitos séculos de aprendizagem médica. Mente aberta, neste caso, é sinónimo de mentir abertamente.

O guru indiano tem uma teoria fundamentada e verificada por fontes independentes? Não. Os trinta médicos que o observaram partilharam os seus resultados com a comunidade científica? Não, preferiram contar a história aos jornalistas. As condições em que o guru da anorexia solar foi observado… Rigorosas? Népia, pois nem sequer se procedeu a uma vigilância 24 horas por dia – ao contrário do que diz a notícia aqui em cima.

O que temos são «histórias» – e «histórias» não são provas nem teorias. E esta tem como protagonista um vígaro sobre o qual o AstroPT já escreveu o suficiente.

A ideia de suprimir a voz destes loucos e vigaristas é atraente, mas contra-producente: não só cultivamos um fruto proibido como perdemos uma excelente oportunidade de aproveitar o interesse das pessoas nestes pseudo-fenómenos circenses para contrapor uma boa dose de análise crítica.

E foi essa oportunidade que o sítio Ciência Hoje perdeu, quando divulgou a história do guru indiano acima mencionado sem se preocupar com as suas responsabilidades pedagógicas. O artigo acabou por desaparecer nas sombras de um eclipse solar e só a cache lunar do Google prova que alguma vez existiu. O sítio soube reconhecer o erro e, como tantas vezes tem feito, abraçou a Luz – a luz do Conhecimento, claro.

Post-it para colar nos ecrãs do Ciência Hoje: a ausência de espírito crítico num sítio de Ciência que escolhe divulgar estes fenómenos só contribui para que vígaros como Wiley Brooks continuem a povoar a «quinta dimensão». Antes de apagar, expliquem aos leitores porquê. Um post não é propriamente um Triângulo das Bermudas.

→ 28/04/2012 @0:18

Senhoras e senhores, um planeta habitável

Um hipotético pôr do Sol visto a partir da super-Terra Gliese 667 cC. A estrela mais brilhante do céu é a anã vermelha Gliese 667 C, que faz parte dum sistema estelar triplo (Crédito: ESO/L. Calçada)

 

Tu que gostas de extraterrestres, fixa este nome: Gliese 667 Cc.

Há muito que é um dos «suspeitos» de pertencer ao ainda restrito clube dos planetas teoricamente capazes de sustentar vida, mas desta vez o anúncio dos astrónomos é mais peremptório: esta super-Terra – sugerem novos dados recolhidos por cientistas das universidades de Gottingen e da Califórnia – não só está dentro da chamada zona habitável (isso já se sabia) como se encontra «não nos limites, mas mesmo no meio». A frase é de Steven Vogt, um astrónomo da Universidade da Califórnia e conhecido caçador de planetas.

Um chef de cozinha diria que o planeta Gliese 667 Cc está mesmo au point: nem demasiado perto (a água evaporaria) nem demasiado longe (congelaria). Só nos falta «provar» a mistela e confirmar se tem o «sabor» que promete. Mas cheira bem!

Esta Terra em potência orbita a Gliese 667 C. Este é o nome de uma estrela anã vermelha, classe M, muito vulgar no Universo, com 31% da massa do Sol e 0,3% da luminosidade. A Gliese 667 C pertence a um sistema estelar triplo e encontra-se a 22 anos-luz da Terra na direção da constelação do Escorpião.

À escala cósmica, é como se vivesse num apartamento situado no mesmo andar que nós.

O planeta recebe a mesma quantidade de energia que a nossa Terra do Sol, pelo que é perfeitamente lógico supor que as temperaturas devem ser igualmente amenas. Gliese 667 C está a pouco mais de 12 por cento da distância a que a Terra se encontra da nossa estrela – o que é excelente, uma vez que se trata de uma estrela anã vermelha, muito mais pequena e ténue. Sendo assim, garante Vogt, as condições à superfície permitem a existência de água em estado líquido.

Não podemos ter a certeza quanto à existência de vida, mas se um dia tivermos tecnologia para enviar uma nave espacial numa viagem de 22 anos-luz, então será este o planeta de destino.

Mesmo que não consigamos descobrir vida nos próximos anos, o simples facto de existir um planeta rochoso num sistema triplo (uma anã vermelha, duas laranjas) pobre em metais poderá obrigar-nos a rever o que sabemos atualmente sobre os processos de formação planetária.

E se tivermos em conta que a maioria das estrelas no Universo são deste tipo (anãs vermelhas, classe M) quantos mundos rochosos se poderão ter formado onde nunca esperaríamos encontrá-los?

Estamos cada vez mais próximos de conseguir a descoberta do século – é ainda uma grande fezada, mas custa-me acreditar num Universo onde a vida seja apenas um milagre irrepetível.

É costume dizer-se que encontrar um planeta nestas condições é o Santo Graal dos astrobiólogos. Acho que a maioria preferia deixar cair todas as letras e ficar apenas com o G, e referir-se à descoberta de um exoplaneta habitável como o ponto G da astrobiologia. É menos medieval, mais sexy e inspirador, e igualmente difícil de encontrar.

→ 27/04/2012 @10:39

A Terra a partir do Espaço, 24/7

André Kuipers/ESA/NASA

De certa forma, todos poderemos ser astronautas se o projeto for concretizado.

O objetivo é «colocar-nos» a bordo da Estação Espacial Internacional (International Space Station, ISS), observando o nosso planeta como se de facto estivéssemos lá. A ideia é de uma empresa, a UrtheCast, que pretende montar o primeiro streaming HD com várias câmaras de alta definição na ISS. Nos dez anos subsequentes, 24 horas por dia e 7 dias por semana, bastará uma ligação à Internet para que qualquer um de nós possa observar o nosso planeta visto do Espaço.

Depois basta fumar um charro para simular um ambiente sem gravidade et voilá, concretizamos um sonho de infância.

As câmaras serão montadas na ISS no final deste ano. Uma animação pode ser vista no YouTube, exemplificando melhor a ideia. O sítio da empresa também contém mais informações.

→ 03/04/2012 @23:53

4 grandes descobertas da Missão Kepler

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Através do Manel Rosa Martins, conheci um vídeo – este aqui em cima – que compila clips referentes aos quatro sucessos mais relevantes da missão Kepler registados desde o ano passado: a descoberta dos planetas Kepler 10-b, 16-b, 20-e e 20-f, e 22-b.

 

Os planetas do vídeo

O Kepler 10-b – cuja existência foi anunciada ao mundo a 10 de Janeiro de 2011 – foi o primeiro planeta rochoso a ser descoberto. Encontra-se a cerca de 560 anos-luz. Tem 1,4 vezes o tamanho da Terra, mas está 20 vezes mais perto da sua estrela (Kepler-10, semelhante à nossa), do que Mercúrio do Sol. É um corpo muito quente: mais de 1300 graus Celsius à superfície.

Elementos da missão Kepler batizaram-no de «Vulcano», o nome do planeta-natal de Spock, da série de FC Star Trek. Nem Spock sobreviveria naquele forno…

 

A descoberta de Kepler 16-b, a 15 de Setembro do ano passado, foi uma das mais faladas na imprensa por ter sido a primeira vez que a missão Kepler identificou um planeta orbitando um sistema solar de dois sóis, como Tatoine, planeta-natal de Anakin Skywalker, o futuro Darth Vader de Star Wars.

Kepler 16b está a 200 anos-luz de distância. Ao contrário do planeta fictício Tatooine, não é um mundo deserto mas um gigante gasoso com o mesmo tamanho de Saturno.

Os astrónomos consideram como muito provável a existência de planetas rochosos naquele sistema e mesmo luas do tipo Europa ou Titã deslizando à volta deste Tatooine gasoso, mas ainda não foi possível detetá-los ali.

 

Um «alinhamento» planetário: da esquerda para a direita, Kepler 20-e, Vénus, Terra e Kepler 20-f

O Kepler 20-e ganhou fama porque, até então, nunca havia sido descoberto um planeta rochoso menor do que a Terra orbitando uma estrela semelhante ao Sol. Este é demasiado quente para sustentar água em estado líquido, condição que consideramos essencial para a existência de vida.

O planeta 20-f é outra descoberta extraordinária: um planeta também muito quente – mais de 400 graus Celsius à superfície – mas pouco maior do que a Terra.

 

O Kepler 22-b, a 600 anos-luz, é a cereja no topo deste bolo: pela primeira vez na história da Humanidade, descobrimos um exoplaneta orbitando uma estrela na chamada «zona habitável».

Julgou-se que o planeta – 2,4 vezes maior do que o nosso – pudesse conter um oceano e, nesse oceano, a «vida extraterrestre» que tanto desejamos descobrir.

Tudo o que se possa afirmar é especulativo: ainda não fomos capazes de determinar a sua massa; não sabemos ainda se é planeta rochoso, líquido ou gasoso; tanto pode existir nele o tal oceano como vir a ser um super-Vénus, tão infernal como o original.

 

À beira-mar

Eu acredito na existência de vida extraterrestre – claro que o Universo poderá um dia desmentir a minha crença, mas até lá escolho acreditar.

O grande Carl Sagan iniciou a sua mítica série «Cosmos» com uma analogia entre o oceano e o Universo – mar tão imenso, misterioso e inexplorado para os primeiros navegadores como o é este «oceano cósmico» para os seus equivalentes da era moderna, os astrónomos.

Lembro-me sempre dessa analogia quando vejo os miúdos na praia, à beira-mar, explorando o mar e enchendo os seus baldes de água salgada.

É isso que somos, ainda: putos a encher baldes de «água salgada» à beira do «oceano cósmico» de que falou Sagan. Dificilmente encontraremos «peixes» nesses baldes tão pequenos e de curto alcance, mas é muito possível que eles possam existir, lá longe, para além da linha do horizonte ou até no próprio balde, para além das nossas capacidades de observação.

→ 28/03/2012 @23:23

Cosmos, rugidos e silêncios

O vídeo: de acordo com as instruções fornecidas pelo utilizador que o colocou no YouTube, devemos colocar o som das colunas quase no máximo e certificarmo-nos de que aquelas têm woofers suficientemente bons para aguentar a potência sonora dos motores que lançam o vaivém para fora da atmosfera terrestre.

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Quanto melhor for o sistema de som, mais poderosa a experiência. A ideia de colocar este vídeo, prossegue o utilizador, foi a de «compensar» os que nunca puderam deslocar-se a Cape Canaveral, na Florida, e assistir ao vivo a um destes lançamentos.

Subam o som, se puderem, e oiçam. Impressionante, não acham?

 

Mas vejam agora esta foto, tão maravilhosa para cientistas como para poetas.

Esta é uma imagem já bem conhecida de todos os amantes de Astronomia, captada em infravermelhos pelo telescópio espacial Spitzer, as lentes apontadas mesmo ao coração da nossa galáxia, a Via Láctea.

O que observam encontra-se a 26 mil anos-luz e é por isso – só por isso – que subitamente o monumental rugido dos motores principais do vaivém parece agora tão insignificante perante a imensidão de todo este silêncio.

O Universo é silencioso porque o som não se propaga no vácuo e é silencioso por nos esconder ainda tantos mistérios… Mas comunica de muitas formas, muitas das quais invisíveis ao limitado olhar terrestre.

E é por termos instrumentos cada vez mais sofisticados para descodificar o significado das mensagens que o Universo nos envia que um grupo de cientistas da Universidade Grenoble, em França, pôde partilhar uma conclusão que até há poucas décadas seria impensável de obter: milhares de planetas potencialmente habitáveis devem existir na nossa galáxia.

 

100 estrelas anãs, 40 Super-Terras

Observem a foto outra vez. Haverá algum ser inteligente extraterrestre (para conveniência do post e da fraca imaginação do autor, não vamos caracterizá-lo radicalmente diferente de nós) observando uma foto semelhante à nossa, uma esplendorosa imagem do braço da galáxia por onde andamos?

Caso exista e for ingénuo como nós, que problemas poderá esperar que os misteriosos extraterrestres do terceiro planeta a contar do Sol tenham resolvido? Será o Universo um gigantesco «espelho» onde pudemos observar o que fomos ou o que poderemos vir a ser como espécie?

Do que temos quase a certeza, a julgar pelos resultados obtidos pelos investigadores, é que ao número considerável de estrelas anãs na nossa galáxia – 160 milhares de milhões, conta o estudo agora divulgado – deverão corresponder milhões de planetas «potencialmente habitáveis». Uma centena desses planetas – chamamos-lhe «Super-Terras», por serem rochosos e massivos – estará a menos de 30 anos-luz do nosso planeta. À escala cósmica, é malta vizinha.

Os cientistas chegaram a esta conclusão devido à premissa segundo a qual pelo menos 40 por cento das estrelas anãs possuem um planeta rochoso semelhante à Terra a orbitar na chamada «zona habitável».

Mas é preciso ter atenção a estas notícias e à forma como rapidamente os media associam conclusões baseadas em premissas à existência de vida extraterrestre e, pior ainda, a homenzinhos verdes em naves espaciais: quando um cientista diz «potencialmente habitável» refere-se a duas perspetivas diferentes: primeiro, pode ser habitável de acordo com as únicas condições que conhecemos para a existência de vida, ou seja, as condições terrestres; segundo, pouco sabemos de planetas terrestres na galáxia (muito menos ET’s) mas, tal como vós, leigos, adorávamos saber.

E é então que a poderosa e inspiradora muralha de sons à Stockhausen sugerida pelos motores do vídeo me deixa a pensar o que poderá acontecer quando, num futuro longínquo, a nossa engenharia desvendar os mistérios deste silêncio cósmico e pudermos espreitar para o outro lado do espelho…

→ 23/02/2012 @0:35

A neutrino o que é de neutrino

Os neutrinos são partículas com características únicas e bizarras, mas não viajam a velocidades superiores às da Luz. A notícia que animou as tertúlias dos físicos baseou-se num erro tão mundano como esquecermo-nos da chave do carro em casa: uma ligação deficiente entre uma unidade GPS e um computador.

Lembram-se do alvoroço à volta dos neutrinos Speedy Gonzalez? Breve recapitulação: a 22 de setembro do ano passado, o mundo científico foi confrontado com a notícia de que neutrinos tinham percorrido os 730 quilómetros que separam as instalações do Centro Europeu de Investigação Nuclear (CERN), em Genebra, do laboratório subterrâneo de Gran Sasso, no centro de Itália, a uma velocidade que ultrapassava a da velocidade da luz.

O Centro Nacional de Investigação Científica francês afirmou então que aquele «resultado surpreendente» e «totalmente inesperado» poderia abrir «perspetivas teóricas completamente novas». O que estava em causa era deitar fora o respeitável e unanimemente reconhecido postulado de Albert Einstein segundo o qual «nada pode viajar mais rapidamente do que a luz» e, tal como cantava a brasileira Simone, «começar de novo».

 

Bazinga!

Quando aqui se falou desta notícia pedi a opinião de Miguel Won, Físico Fenomenologista que trabalha em Física de Partículas no LIP-Coimbra. Na altura, ele pôs água na fervura. E agora, para terminar este breve ciclo de neutrinos Speedy Gonzalez, regressa para nos explicar o que se passou.

«O problema estava em 57.8 nanosegundos, 0.0000000578 s», conta o Miguel.

«Aparentemente alguém não ligou bem o cabo (uma fibra ótica) que liga o GPS ao hardware que é usado para medir os tempos… É bem verdade que chega a ser cómico, mas ao mesmo tempo mostra-nos como os milhares de passos intermédios que experiências deste tipo necessitam, têm de estar cem por cento funcionais. Pessoalmente é uma pequena desilusão, pois teria sido muito mais divertido caso se provasse o contrário.»

Dado que o físico que eu melhor conheço se chama Sheldon Cooper e é uma personagem ficcional da sitcom «The Big Bang Theory», tentei saber com o Miguel o que pode ser divertido para um físico, nestas circunstâncias:

«A Teoria da Relatividade Restrita seria questionada, o que implicaria uma necessidade de repensá-la. O que é sempre mais interessante do que simplesmente usar anos e anos uma teoria existente».

«De uma forma mais simples passa-se o seguinte: para qualquer físico, o mais excitante é demonstrar que o outro está errado», remata. «Além disso, isto significaria mais trabalho…»

Estão a ver como é a Ciência? A arte de saber lidar com desmancha-prazeres.

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