«O Primeiro-ministro José Sócrates, o Ministro de Estado Pedro Silva Pereira, o Ministro de Assuntos Parlamentares, Jorge Lacão, e um executivo de televisão encontraram-se à hora do almoço no restaurante de um hotel em Lisboa.
Fui o epicentro da parte mais colérica de uma conversa claramente ouvida nas mesas em redor. Sem fazerem recato, fui publicamente referenciado como sendo mentalmente débil («um louco») a necessitar de («ir para o manicómio»). Fui descrito como «um profissional impreparado». Que injustiça. Eu, que dei aulas na Independente. A defunta alma mater de tanto saber em Portugal.
Definiram-me como «um problema» que teria que ter «solução». Houve, no restaurante, quem ficasse incomodado com a conversa e me tivesse feito chegar um registo. É fidedigno. Confirmei-o.»
A tragédia
As linhas aqui em cima são parte de uma crónica de Mário Crespo chamada O Fim da Linha.
Mário Crespo confirmou, fonte fidedigna, mas o Jornal de Notícias decidiu não publicar a crónica. Até que alguém me prove o contrário é uma decisão editorial face ao delírio, mas isto foi o suficiente para que estalasse a revolta. Foi censura, estão a silenciar o Crespo, diziam, ao mesmo tempo que a sua censurada crónica fazia o pleno nos blogues, redes sociais e nos sites dos outros jornais. Basta um clique para furar o bloqueio ao nosso paladino.
Quem já leu a crónica do Crespo que ponha um dedo no ar. Agora molhe o dedinho na boca, coloque-o no ar outra vez e sinta os ventos da censura.
É um verdadeiro ciclone de proporções crespológicas.
Como no Twitter já se chegou a sugerir convocar uma manifestação para defender a liberdade de imprensa, concluo que a capacidade crítica destes defensores da liberdade de imprensa consiste em aceitar o que o mártir Crespo afirma, não questionando absolutamente nada. Por isso, para não dizerem que sou do contra ou sou pago pelo Sócrates, aqui me junto à trupe dos justiceiros e digo Ave, Crespo, em tuas isentas e bem educadas mãos deposito o futuro da minha liberdade e da minha capacidade de julgamento. E se alguma vez o Sócrates se passar e te chamar louco porque escreveste uma crónica no Jornal de Notícias chamando-o de palhaço, conta comigo para defender o teu direito ao insulto gratuito.
Continua a fazer-nos acreditar que as conspirações para silenciar jornalistas são feitas em mesas de restaurante e em voz alta, para a fonte ouvir bem e denunciar melhor; que em dia de Orçamento de Estado o mais importante foi discutir-te; e continua a mandar crónicas para um site do PSD, que é assim que os jornalistas verdadeiramente independentes fazem.